Artigo
15/05/2025

A Sustentabilidade Financeira

Explora como integrar sustentabilidade ao orçamento e à estratégia empresarial para gerar valor financeiro.

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O artigo dessa semana atrasou um pouco, mas não falhou! Seguindo a discussão que deveria estar acontecendo a bastante tempo que é sobre a conexão dos resultados financeiros com a sustentabilidade, o intuito desse conteúdo é falar um pouco sobre a necessidade de tirar a sustentabilidade dos reportes não financeiros e colocá-la no orçamento e em consequência, no planejamento estratégico em conjunto com todos os temas mais relevantes do negócio e não em uma agenda em separado.

Se fizermos uma retrospectiva, durante anos a sustentabilidade foi tratada como algo nobre e necessário, mas que dentro das empresas tem ocorrido à margem da estratégia. Um tipo de “agenda para o bem do mundo” que merecia um relatório só para ela e também um investimento para todos soubessem que essa agenda fazia parte daquele produto ou serviço. O problema é que nesse movimento, a sustentabilidade se desconectou da linguagem mais objetiva da estratégia empresarial, se tornando uma espécie de agenda que poderia trazer algum retorno, mas que dificilmente poderia ser mensurado.

Muitas empresas embarcaram na agenda ambiental e social com boas intenções, mas sem métricas financeiras claras (até porque pouco se fala desse tema, que venho citando desde muitos anos atrás, sempre sob a pergunta: Quem vai pagar a conta da sustentabilidade e do ESG?). Investiram tempo, mão de obra e orçamentos em práticas tidas como sustentáveis, mas sem entender exatamente o quanto aquilo contribuiu (ou deixou de contribuir) para o caixa, para a reputação e para o valuation. Ficou bonito na apresentação, mas ficou difícil de defender quando as coisas ganharam um pouco mais de conhecimento coletivo, principalmente pela ausência de apuração da importância de cada ação desenvolvida (financeiramente falando).

E se olharmos a nível mundial, podemos entender que esse caminho é natural. A união europeia que tem sido pioneira na discussão da sustentabilidade, começou a solicitar que as organizações relatassem suas informações de sustentabilidade conforme uma antiga diretriz chamada NFRD (diretiva de relatórios não financeiros) e após sua escalada para o atendimento do pacto ecológico europeu, substitui a diretiva pelo CSRD, que trás uma visão muito mais ampla e que precisa explicar claramente onde financeiramente cada ação ou decisão de sustentabilidade impacta o negócio.

Olhando para essas novas discussões, entendo então que o que falta agora é maturidade e não melhor intenção. A sustentabilidade não pode mais ser gerida como uma área que concorre por recursos com a operação e principalmente que se baseia em conhecimentos técnicos ambientais e sociais para decidir o que priorizar. Ela precisa ser definida como parte indissociável da estratégia do negócio e isso significa traduzir impacto ambiental, social e de governança em valor: custo evitado, risco mitigado, vantagem competitiva, captação facilitada, reputação blindada e/ou escolha por correr o risco de não priorizar a sustentabilidade, desde que isso seja feito com informações numéricas.

Com isso, as perguntas dos gestores das organizações precisam mudar totalmente de direção. Não faz mais sentido buscar entender “o que podemos fazer pelo planeta e pela sociedade” e chamar isso de sustentabilidade corporativa. A pergunta certa é: “quanto custa não fazer?” E mais: “quanto das ações que chamamos de sustentáveis hoje tem, de fato, potencial de retorno mensurável no médio e longo prazo ou que apenas não passa de investimento sem retorno?” tomar cada uma dessas ações realmente está na estratégia do negócio?

E isso, antes que se pense que é uma forma de reduzir a ambição, se trata de elevar o nível. Sair da sustentabilidade de prateleira, essa baseada em ações soltas e sem estratégia e construir uma sustentabilidade que converse com projeções financeiras e risco corporativo.

Sustentabilidade sem visão financeira não pode jamais ser chamada de estratégica, mas sim de aplicação de recurso sem enxergar se seu impacto no final realmente se alinha com os objetivos macro da organização.

Por isso, o próximo passo da sustentabilidade não é tão simples como esses que foram dados coletivamente até o momento (e se tornou esse oba-oba que estamos vivendo). Não podemos mais tomar decisões de negócio de um lado e discutir sustentabilidade do outro, mas sim, tomar uma única decisão, de negócio com sustentabilidade, na mesma mesa, com as mesmas pessoas, olhando para os mesmos números.

É ali que o discurso vira prática e que o impacto vira ou não valor. Sem essa direção, a sustentabilidade não passa de um programa de promessas, ambições, (algumas mentiras) e resultados que nunca poderão se comprovar e com isso, cada vez menos, haverá adeptos a seguirem seus objetivos.

As empresas podem ter total interesse de fazer bem para o mundo, mas sem cuidar antes da sua própria saúde financeira, o processo deixa de ser benéfico e passa a ser autodestrutivo.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual a importância de conectar os resultados financeiros com as iniciativas de sustentabilidade nas empresas?
É fundamental conectar os resultados financeiros com a sustentabilidade para que esta deixe de ser uma agenda separada e passe a integrar o orçamento e o planejamento estratégico da empresa. Essa integração permite que as iniciativas de sustentabilidade sejam avaliadas e priorizadas em conjunto com outros temas relevantes do negócio, alinhando-as com os objetivos macro da organização e garantindo que seu impacto seja mensurável e compreendido em termos financeiros.
Como a sustentabilidade tem sido tradicionalmente abordada pelas empresas?
Historicamente, a sustentabilidade foi frequentemente tratada como uma iniciativa nobre e necessária, mas que operava à margem da estratégia principal das empresas. Era comum ser vista como uma "agenda para o bem do mundo", resultando em relatórios específicos e investimentos para divulgar esse compromisso. No entanto, essa abordagem muitas vezes desconectava a sustentabilidade da linguagem objetiva da estratégia empresarial, tornando seus retornos dificilmente mensuráveis.
Quais são as consequências para as empresas que implementam práticas de sustentabilidade sem métricas financeiras claras?
Empresas que investem em práticas de sustentabilidade sem métricas financeiras claras, mesmo com boas intenções, podem enfrentar dificuldades em entender como essas ações contribuem (ou deixam de contribuir) para o caixa, a reputação e o valuation do negócio. A ausência de apuração financeira da importância de cada ação pode dificultar a defesa dessas iniciativas, especialmente à medida que o conhecimento coletivo sobre o tema aumenta e a exigência por resultados mensuráveis se torna mais premente.
O que é a CSRD e qual sua relação com a NFRD no contexto da sustentabilidade na União Europeia?
A CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) é uma diretiva da União Europeia que sucedeu e ampliou a antiga NFRD (Non-Financial Reporting Directive). Enquanto a NFRD já solicitava que as organizações relatassem suas informações de sustentabilidade, a CSRD impõe uma visão mais abrangente, exigindo que as empresas expliquem claramente como cada ação ou decisão de sustentabilidade impacta financeiramente o negócio. Esta mudança regulatória reflete um movimento em direção à maior integração da sustentabilidade com a gestão financeira corporativa, em linha com objetivos como o pacto ecológico europeu.
Por que a maturidade na gestão da sustentabilidade é considerada mais relevante do que apenas boas intenções?
A maturidade na gestão da sustentabilidade é considerada mais relevante do que apenas boas intenções porque implica em ir além do discurso e traduzir os impactos ambientais, sociais e de governança (ESG) em valor concreto e mensurável para o negócio. Isso envolve a capacidade de identificar e quantificar benefícios como custos evitados, riscos mitigados, vantagens competitivas, facilitação na captação de recursos e fortalecimento da reputação. A maturidade também pressupõe tomar decisões estratégicas sobre sustentabilidade com base em informações numéricas, incluindo a avaliação consciente dos riscos de não priorizar determinadas ações.
Que tipo de questionamento os gestores devem priorizar ao abordar a sustentabilidade corporativa de forma estratégica?
Para abordar a sustentabilidade de forma estratégica, os gestores devem mudar o foco de suas perguntas. Em vez de questionar apenas “o que podemos fazer pelo planeta e pela sociedade?”, é mais produtivo perguntar: “quanto custa não fazer determinada ação de sustentabilidade?”. Além disso, é crucial analisar “quanto das iniciativas atuais de sustentabilidade têm, de fato, potencial de retorno mensurável no médio e longo prazo, ou são apenas investimentos sem retorno claro?” e verificar se “cada uma dessas ações está verdadeiramente alinhada com a estratégia central do negócio?”.
Qual a diferença entre uma "sustentabilidade estratégica" e uma "sustentabilidade de prateleira"?
A "sustentabilidade estratégica" é aquela profundamente integrada às projeções financeiras e à gestão de risco corporativo, tornando-se uma parte indissociável da estratégia global do negócio. Suas ações são justificadas por análises de impacto e retorno financeiro. Em contraste, a "sustentabilidade de prateleira" caracteriza-se por um conjunto de ações mais isoladas, muitas vezes baseadas em conhecimentos técnicos ambientais e sociais, mas sem uma conexão clara com a estratégia da empresa e sem uma avaliação financeira robusta de seus impactos e benefícios.
Como a sustentabilidade deve ser incorporada às decisões de negócio para que seja efetiva?
Para que a sustentabilidade seja efetiva, ela não deve ser tratada como um tema paralelo ou secundário às decisões de negócio. Pelo contrário, é essencial que haja uma única decisão integrada, que considere simultaneamente os aspectos de negócio e de sustentabilidade. Isso significa que as discussões sobre sustentabilidade devem ocorrer no mesmo fórum, com os mesmos decisores (gestores e outros envolvidos) e utilizando os mesmos dados e análises financeiras que orientam as demais deliberações da organização.
Quais os riscos de uma abordagem de sustentabilidade que carece de uma visão financeira clara?
Uma abordagem de sustentabilidade que não possui uma visão financeira clara corre o risco de se transformar em um programa focado em promessas, ambições e, por vezes, informações pouco precisas, cujos resultados dificilmente poderão ser comprovados de forma objetiva. Essa falta de comprovação e de alinhamento com os objetivos financeiros e estratégicos da organização pode, com o tempo, levar a uma diminuição no engajamento e no comprometimento com as metas de sustentabilidade, minando sua credibilidade e eficácia.
Por que a saúde financeira de uma empresa é crucial para o sucesso de suas iniciativas de sustentabilidade?
A saúde financeira de uma empresa é crucial para o sucesso de suas iniciativas de sustentabilidade porque, sem ela, os esforços para promover o bem socioambiental podem se tornar insustentáveis e até mesmo prejudiciais para a própria organização. Empresas podem ter o genuíno interesse em contribuir positivamente para o mundo, mas precisam primeiro assegurar sua própria viabilidade e estabilidade financeira. Somente assim poderão manter e expandir suas ações de impacto de forma eficaz e duradoura, evitando que o processo se torne autodestrutivo.
Qual é o próximo passo necessário para a evolução da sustentabilidade nas empresas?
O próximo passo para a evolução da sustentabilidade nas empresas envolve integrá-la profundamente às decisões de negócio, abandonando a prática de discuti-las em separado. É preciso que as decisões sejam tomadas de forma unificada, considerando aspectos de negócio e sustentabilidade na mesma mesa, com as mesmas pessoas e baseadas nos mesmos indicadores financeiros. Isso significa que a sustentabilidade precisa ser traduzida em termos de valor financeiro, como custo evitado, risco mitigado ou vantagem competitiva, para que o discurso se transforme em prática e o impacto gere valor real para a organização.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado