Na maioria dos cursos, palestras, treinamentos e workshops que ministro, tenho trazido o tema da materialidade como prioridade, principalmente porque há um enfoque tão grande em saber tecnicamente como expor o conceito que pouco se gera de valor no seu processo de construção.
A materialidade é o coração da estratégia de sustentabilidade e governança ambiental, social e corporativa de um negócio. Se uma organização realmente deseja que esse tema seja um de seus pilares estratégicos, há uma grande necessidade de conduzir esse estudo de forma efetiva.
Um exemplo claro dessa questão é a dificuldade das empresas em conectar a materialidade financeira como direcionadora de sua estratégia. Com o boom de empresas realizando reportes de sustentabilidade, muitas vezes, essa construção ocorre à margem da estratégia do negócio, levantando temas ligados apenas à sustentabilidade subjetiva e às ações que a empresa desenvolve para lidar com esses desafios, esquecendo de como os desafios da característica no negócio podem impactar sua geração de valor.
O problema central é que a análise dos impactos do negócio e do meio externo está diretamente relacionada à priorização do que pode corroer os valores da organização, tanto reputacional quanto financeiramente, a fim de estruturar uma gestão estratégica. No entanto, em grande parte das vezes, a desconexão entre a estratégia do negócio e a estratégia de sustentabilidade faz com que temas críticos, que deveriam chamar a atenção, fiquem de fora dessa análise.
O exemplo da Natura
Se há um caso que pode ser analisado sob uma ótica estratégica, é o da Natura & CO. A empresa, que por anos tem sido a maior referência em estratégia de sustentabilidade com foco no impacto no Brasil, tem mostrado como essa visão pode, em alguns momentos, se distanciar dos resultados financeiros do negócio.
Nos últimos dias, as ações da empresa caíram cerca de 30% com os catastróficos resultados financeiros de 2024. Essa perda significativa, somada a um aumento expressivo das despesas operacionais, assustou investidores. Mas não quero me ater apenas a esse ponto ou a outros fatores críticos que corroeram os resultados da empresa nos últimos anos, como os processos judiciais da Avon Internacional nos EUA por conta da contaminação por amianto, a venda da The Body Shop por um valor equivalente a 1/5 do montante investido na sua compra, ou até mesmo o fato de a Natura como divisão de negócio ter financiado por anos operações ineficientes da Aesop, The Body Shop e Avon dentro do grupo.
O ponto central aqui é que a empresa assumiu um compromisso significativo com as ações de sustentabilidade, o que, sem dúvida, faz parte de sua cultura e estratégia de negócios. No entanto, esse compromisso tem gerado um impacto financeiro considerável. A Natura estabeleceu publicamente diversas metas, que para serem cumpridas, envolvem desde custos adicionais relevantes na operação até a captação de US$ 1 bilhão em SLBs (Sustainability Linked Bonds), vinculando suas metas de sustentabilidade ao custo de captação. Caso haja qualquer redução dos compromissos assumidos, os juros podem aumentar consideravelmente (assim como preconiza o conceito dos Linked-bonds), impactando significativamente a geração de valor do negócio.
Nesse contexto, ao observarmos a materialidade da empresa, fica evidente como o foco exclusivo na materialidade de impacto afastou a percepção do risco financeiro. Além disso, não auxiliou a estratégia do negócio na tomada de decisões sobre sustentabilidade com base em cenários futuros.
O caso da Avon Internacional nos EUA ilustra bem essa questão. Uma análise financeira mais assertiva no passado poderia ter reduzido, ou pelo menos ajudado a mitigar os impactos da decisão de assumir os passivos da holding americana da empresa, mesmo sem adquirir suas operações nos EUA (que haviam sido vendidas a um grupo sul-coreano). Um due diligence mais aprofundado teria identificado os passivos sociais decorrentes dos processos judiciais envolvendo amianto e, assim, reduzido os riscos que levaram a Natura a recorrer ao Chapter 11 (processo de recuperação judicial nos EUA) para fixar valores de indenização coletiva (sendo que até o momento já foram gastos aproximadamente US$220 milhões em diligências desse processo). Atualmente, a marca enfrenta quase 500 processos relacionados a casos de câncer ligados à contaminação pelo talco, uma atividade que nunca foi operada pela Natura, mas cujos passivos ela assumiu na aquisição da Avon internacional.
A necessidade de integrar sustentabilidade e resultado financeiro
Esse exemplo, vindo de uma empresa considerada referência em sustentabilidade, reforça a necessidade de integrar a visão financeira à estratégia de sustentabilidade de um negócio. Tratar sustentabilidade e resultado financeiro como um eterno trade-off é como debater se é melhor ter saúde ou ser saudável, não há razão para separá-los (ou não deveríamos precisar debater). Mas, para chegarmos a essa compreensão, o mercado precisa se livrar de ativismos, extremismos e oportunismos que transformaram a sustentabilidade em um "infoproduto de impacto", muitas vezes sem gerar impacto real no longo prazo.
A sustentabilidade precisa estar inserida na estratégia e na visão do negócio, assim como a estratégia do negócio deve estar alinhada ao contexto da sustentabilidade. Por isso, a dupla materialidade é um tema tão relevante. Encarar a materialidade apenas como uma formalidade, o que 99% das empresas fazem, é mais um exemplo de uma agenda que ninguém leva a sério e que apenas consome recursos sem de fato tornar um capital do negócio.
Quando tivermos a sustentabilidade como visão de negócio, entendendo que sua construção é advinda de uma sólida análise de dupla materialidade, poderemos consolidar o tema como realmente uma agenda corporativa e assim, reduzirmos a eterna busca das empresas por “parecer ser sustentável” sem sequer saber o que isso realmente quer dizer.