Há alguns anos, desde 2017, que pessoalmente comecei a atuar também como conselheiro independente, e logo percebi o valor que poderia agregar para as empresas, não com um cargo executivo com os problemas do dia a dia, mas de forma mais estratégica, dando uma visão e enfoque de gestão de riscos.
Por isto mesmo, este é um assunto que muito me interessa, e que estou sempre estudando e lendo a respeito, e depois tentando compartilhar com vocês os pontos que acho mais relevantes, como de uma pesquisa feita pela KPMG US sobre conselhos e comitês de assessoramento (como os de riscos e de auditoria) que participo, em empresas privadas nos Estados Unidos (queria ver algo semelhante ser feito aqui no Brasil, ainda que ache que os resultados não serão assim tão diferentes radicalmente).
Esta pesquisa, realizada com quase 600 conselheiros entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023, faz uma interessante análise sobre a composição, eficácia e prioridades dos conselhos dessas empresas, com um foco particular no papel dos conselheiros independentes, destacando que uma grande maioria (89%) dos conselhos possui pelo menos um membro independente, sublinhando a importância desses membros na melhoria da governança corporativa.
Os conselheiros independentes são sempre mais valorizados pela nossa capacidade de oferecer aconselhamento imparcial, principalmente em estratégias de negócios e equilíbrio entre as perspectivas de gestores e sócios, e como a pesquisa também revelou, nós independentes ajudamos a aumentar a eficiência dos processos do conselho e a supervisão de riscos financeiros e de gestão.
No entanto, ainda existe um desafio significativo na utilização eficaz desses conselheiros independentes, com muitos sócios de empresas não sabendo como maximizar o valor trazido por este pessoal. A pesquisa conclui que, apesar dos progressos em várias áreas de governança, ainda há amplas oportunidades de melhoria, especialmente em estratégia, gestão de talentos e riscos, o que reforça a necessidade crucial de diretores independentes nos conselhos de empresas privadas.
Queria então aproveitar a pesquisa que só reforça o tema, para comentar abaixo quais os pontos em que acredito que os conselheiros independentes (como o meu caso) podem agregar valor às empresas:
Perspectiva Estratégica e Balanço de Visões
A principal contribuição dos conselheiros independentes, conforme indicado por 75% dos entrevistados, está no aconselhamento estratégico e no equilíbrio entre as visões dos gestores e dos sócios. Este papel é relevante em casos onde os interesses podem conflitar, proporcionando uma perspectiva neutra que enriquece o debate e a formulação de estratégias. Além disso, 74% dos conselheiros realçam a capacidade desses conselheiros de otimizar a eficácia do conselho, melhorando suas funções e processos, o que é fundamental para a implementação de governança robusta.
Suporte em Transformações Digitais e Compliance
Os conselheiros independentes são frequentemente valorizados por sua expertise em áreas críticas como tecnologia, mercados internacionais e gestão de riscos (olha eu aí), atuando com frequência como "evangelistas tecnológicos", essenciais para orientar a empresa através de transformações digitais e para garantir a adaptação às normas legais e regulamentações vigentes. A experiência desses conselheiros em conformidade legal/regulatória oferece um suporte estratégico que pode ser decisivo para o sucesso empresarial em ambientes complexos e altamente regulados.
Gestão de Talentos e Sucessão
A orientação para a formação de uma cultura de desempenho, contraposta à mera lealdade, é outro aspecto vital trazido pelos conselheiros independentes. Eles promovem uma gestão de talentos que foca em méritos, contribuindo significativamente para o planejamento de sucessão da liderança executiva. Isso inclui a identificação de lacunas na equipe de liderança e o desenvolvimento de modelos de maturidade para resolver esses pontos fracos, aspectos que são frequentemente negligenciados em ambientes empresariais familiares ou altamente personalizados.
Formalização e Profissionalização do Conselho
Em empresas familiares ou em estágios iniciais de desenvolvimento, a introdução de um conselheiro independente pode ser um passo estratégico para profissionalizar o conselho. Esses conselheiros ajudam a formalizar estruturas e processos de governança, preparando a empresa para desafios futuros como ofertas públicas iniciais ou transições geracionais. Além disso, a liderança independente em comitês do conselho, como os de auditoria e compensação, reforça a integridade e a eficácia desses grupos, promovendo uma governança mais estruturada e alinhada com as melhores práticas de mercado.
Perspectiva Estratégica e Balanço de Visões
Os conselheiros independentes são essenciais para oferecer um equilíbrio crítico dentro dos conselhos de administração, atuando como mediadores imparciais entre os interesses de gestores e sócios, pois através desta mediação pode-se equilibrar cenários onde os objetivos de curto prazo dos gestores podem divergir dos planos de longo prazo dos acionistas. Eles proporcionam uma visão externa e objetiva, essencial para desafiar o status quo e incentivar discussões estratégicas mais profundas e abrangentes. A capacidade de um conselheiro independente para aconselhar sobre estratégia foi enfatizada por 75% dos diretores pesquisados, que veem este papel como vital para alavancar novas oportunidades de mercado e identificar riscos potenciais de forma proativa.
Assim sendo, a inclusão de conselheiros independentes nos conselhos de empresas privadas não apenas enriquece a tomada de decisões com novas perspectivas e expertises, mas também fortalece a governança corporativa através de um equilíbrio mais efetivo entre as diversas partes interessadas. Este processo, no entanto, requer planejamento cuidadoso e trabalho colaborativo para que o verdadeiro potencial desses conselheiros seja plenamente realizado, conforme destacado pelo estudo da KPMG. A atuação desses profissionais é essencial para navegar pelas complexidades do mercado atual, desde incertezas geopolíticas até desafios de sucessão, reforçando a necessidade de um conselho bem estruturado e preparado para o futuro.
A pesquisa da KPMG sobre conselhos de empresas privadas, realizada entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023, oferece insights valiosos sobre a eficácia e as prioridades desses conselhos, particularmente em relação ao papel dos diretores independentes. Abaixo, detalhamos os principais achados da pesquisa e como eles ilustram o valor agregado por esses diretores.
Voltando aos números da pesquisa, mostrou que quase 90% dos entrevistados confirmaram a presença de pelo menos um conselheiro independente em seus conselhos, destacando a importância percebida desses membros na melhoria da governança corporativa, que são frequentemente vistos como conselheiros estratégicos para CEOs e outros executivos, equilibrando as visões de gestão e proprietários, e influenciando significativamente a eficácia do conselho através de sua perspectiva externa.
Cerca de 51% dos conselheiros acreditam que os diretores independentes ajudam a melhorar a eficácia, funcionamento e processos do conselho, com melhorias significativas na efetividade do conselho em diversas áreas, especialmente na supervisão de estratégias e na configuração da agenda do conselho. No entanto, as áreas com maiores oportunidades de melhoria incluem estratégia, talento e sucessão, e gerenciamento de riscos, como cibersegurança e privacidade de dados. Esses são aspectos críticos onde a entrada de um conselheiro independente pode ser particularmente benéfica, trazendo novas competências e experiências para o conselho.
Esta estatística é fundamental, pois sugere que a presença de diretores independentes pode levar a uma governança mais estruturada e eficiente, algo essencial para qualquer empresa que busca otimizar suas operações e governança.
Uma conclusão interessante desta pesquisa é o crescente reconhecimento da importância do engajamento com stakeholders além dos acionistas, como empregados e clientes, com os independentes oferecendo sua capacidade de colocar uma visão imparcial, podem desempenhar um papel crucial em orientar as empresas sobre como melhor interagir com esses grupos, o que é essencial para a sustentabilidade e sucesso a longo prazo da empresa.
Para os interessados em saber mais fica o link para o resultado completo da pesquisa (em inglês) em:
https://kpmg.com/kpmg-us/content/dam/kpmg/boardleadership/pdf/2024/private-company-board-trends.pdf