Artigo
31/05/2025

Declaração de Apetite a Riscos (RAS)

Explica como a RAS define limites de risco e orienta a governança em instituições financeiras.

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Uma Declaração de Apetite a Riscos, mais conhecida como RAS, que é a sigla em inglês para: "Risk Appetite Statement", representa um dos pilares mais relevantes da governança de riscos de uma instituição financeira, particularmente de um banco, ao estabelecer formalmente os limites qualitativos e quantitativos dos riscos que a instituição está disposta a aceitar para alcançar seus objetivos estratégicos.

Mais do que um documento técnico a RAS é uma ferramenta integradora que articula o planejamento estratégico, a alocação de capital, o perfil de risco e os controles internos, influenciando diretamente as decisões do Conselho de Administração, dos comitês de risco, das áreas de negócios e da diretoria executiva.

Vou tentar então falar um pouco mais de como ela deve ser estruturada de forma genérica.

A primeira seção da RAS deve apresentar sua finalidade institucional., afinal este documento existe para exatamente definir os parâmetros de risco aceitáveis pela instituição em cada uma de suas atividades, considerando o nível de tolerância a perdas financeiras, a capacidade de capital e liquidez, os requisitos regulatórios, os objetivos estratégicos e a cultura de riscos desejada. Ele é feito para permitir que o banco se beneficie de oportunidades de crescimento, inovação e geração de valor de forma responsável, prudente e compatível com sua resiliência financeira. A RAS deve ser aprovada pelo Conselho de Administração, com anuência e participação ativa do comitê de riscos (CoRis), em parceria com o Chief Risk Officer (CRO), e deve ser revisada ao menos anualmente, sendo considerada documento vinculante para todos os níveis da empresa.

O documento precisa depois deixar bem claro quais são os princípios fundamentais que orientam o apetite a riscos da instituição. Primeiramente reconhecer de que assumir riscos é inerente a atividade bancária e necessário para a geração de valor, mas que a exposição a riscos deve estar sempre limitada aquilo que a instituição compreende, mensura, monitora e controla. Os riscos devem ser compatíveis com o modelo de negócios, o perfil dos produtos, o posicionamento estratégico, o ambiente regulatório e a capacidade financeira do banco. Além disso o apetite deve considerar a proteção da reputação institucional, a estabilidade das métricas financeiras e o alinhamento com os compromissos sociais, ambientais e éticos do banco. A definição do apetite deve servir tanto para orientar decisões estratégicas, como por exemplo a expansão para novas geografias ou o lançamento de produtos inovadores, quanto decisões táticas e operacionais, como a aprovação de limites de crédito ou a aceitação de novos clientes.

O próximo elemento essencial da RAS é a descrição da arquitetura de governança de riscos. A estrutura deve ser baseada no modelo das três linhas de defesa. A primeira linha é composta pelas áreas de negócio, responsáveis diretas por identificar, mitigar e operar dentro dos limites de risco estabelecidos. A segunda linha compreende a função de Riscos e Compliance, com independência operacional e autoridade para revisar, monitorar, desafiar decisões e reportar exposições fora do apetite ao Conselho e Comitês. A terceira linha é formada pela Auditoria Interna, responsável por avaliar de forma independente a eficácia do sistema de controle interno, dos processos de risco e da própria governança. O CRO deve integrar o Comitê Executivo e possuir acesso direto ao Comitê de Riscos do Conselho, além de liderar comitês internos especializados como os comitês de risco de crédito, de risco de mercado, de risco operacional, de produtos, de modelos, de continuidade de negócios e de riscos emergentes.

Um dos componentes centrais da RAS é o estabelecimento dos limiares de tolerância a perdas financeiras. Estes limiares representam os valores máximos de perdas que o banco aceita sofrer, sob cenários adversos definidos, antes de ser compelido a revisar sua estratégia, ajustar sua alocação de capital ou modificar seus negócios. Os principais limites envolvem o consumo de capital sob estresse, os prejuízos contábeis líquidos e a deterioração da liquidez. Por exemplo o banco pode estabelecer que mesmo em um cenário extremo de estresse com probabilidade de ocorrência de 1 em 25 anos, o índice de capital regulatório não deve cair abaixo de 12%, e o prejuízo líquido anual não pode ultrapassar determinado valor pré-definido. Tais limites devem ser testados anualmente através de testes de estresse conduzidos com base no plano estratégico da instituição e revistos sempre que houver mudanças relevantes no ambiente econômico ou regulatório.

A RAS deve então abordar o apetite da instituição a riscos de capital, alavancagem e liquidez. O banco deve definir parâmetros claros que assegurem a manutenção de sua solidez patrimonial e de sua capacidade de atender obrigações mesmo em situações de mercado adversas. O apetite a risco de capital envolve a definição de níveis mínimos de capital regulatório, como um índice de capital de nível 1 superior a 11% e um índice de capital total acima de 13%, além de buffers adicionais estabelecidos no ICAAP (Internal Capital Adequacy Assessment Process). O apetite a risco de alavancagem estabelece limites para o crescimento da carteira de ativos em relação ao capital base, evitando ciclos de expansão excessiva sem respaldo patrimonial. Já o apetite a risco de liquidez define a capacidade da instituição de sobreviver a choques de liquidez sem acessar mercados de funding, mantendo indicadores como LCR (Liquidity Coverage Ratio) e NSFR (Net Stable Funding Ratio) acima de 120%, bem como métricas internas que garantam capacidade de sobrevivência por pelo menos 12 meses em cenário extremo.

No que se refere ao apetite a risco de crédito a RAS deve descrever com profundidade os limites e diretrizes para aceitação de riscos associados à concessão de crédito e exposições a contrapartes. Isso abrange tanto o livro bancário, onde estão os créditos a clientes, quanto no livro de tesouraria, onde estão os ativos de mercado. Para o livro bancário o apetite pode incluir limites por tomador, por grupo econômico, por setor e por país, definindo níveis máximos de concentração e ratings mínimos aceitos. A estrutura de limites deve estar integrada aos modelos internos de classificação de risco e ser ajustada dinamicamente conforme mudanças no ambiente macroeconômico. No livro de tesouraria o apetite a risco deve estar centrado na preservação da liquidez e da qualidade de crédito da carteira, admitindo apenas contrapartes investment grade e aplicando limites estritos de exposição, como o valor em risco de default (DVaR) e a exposição a derivativos com base em colaterais e ratings internos.

Quanto ao apetite a risco de mercado a RAS deve incluir os riscos de variação de taxas de juros, câmbio, preços de ações e commodities, spreads de crédito e volatilidade. Para o banco o risco de mercado pode emergir tanto do livro de negociação quanto de posições estruturais no balanço. A RAS deve estabelecer limites baseados em métricas como Value at Risk (VaR), Expected Shortfall (eVaR) e stress testing. O uso de derivativos para hedge deve ser descrito com clareza, e a exposição a ativos de maior volatilidade, como ações em carteira própria, deve ser compatível com a tolerância a perdas contábeis descrita nos limites.

O risco de modelagem merece um capítulo próprio na RAS, especialmente em instituições que utilizam modelos internos para cálculo de capital, precificação, score de crédito, ALM e risco de mercado, e agora modelos de IA. O banco deve descrever sua estrutura de governança de modelos, a classificação dos modelos por criticidade, as diretrizes para validação independente e os critérios de aceitação de modelos com incertezas elevadas. O apetite a risco de modelo deve ser classificado como baixo, moderado ou alto conforme a proporção de modelos com falhas ou incertezas relevantes. A política deve incluir um inventário completo de modelos, critérios de aprovação, ciclos de revalidação e processos para substituição ou retirada de modelos obsoletos.

Em relação ao risco climático a RAS deve refletir os compromissos ambientais e de sustentabilidade do banco, incluindo metas de financiamento verde, exclusão de setores carboníferos e integração de risco climático à avaliação de crédito. O apetite pode estabelecer por exemplo que o banco não financiará projetos ligados à extração de carvão ou petróleo não convencional e buscará alocar pelo menos 40% da nova carteira de crédito em atividades alinhadas ao Acordo de Paris. Devem ser considerados tanto riscos físicos como eventos climáticos extremos que afetam ativos e garantias, quanto riscos de transição como mudanças regulatórias e precificação de carbono que impactam empresas com alto footprint ambiental.

A RAS também deve tratar do apetite a risco operacional e reputacional. O risco operacional abrange perdas por falhas de processos, pessoas, sistemas ou eventos externos, e deve ser endereçado por uma estrutura abrangente de controles internos, indicadores-chave de risco (KRIs), relatórios de incidentes e planos de continuidade. A exposição a fraudes, falhas sistêmicas, erros de processamento, ataques cibernéticos e falhas de terceiros deve ser limitada por critérios claros e sistemas de prevenção e detecção. A reputação institucional deve ser protegida por meio de um apetite conservador a eventos que possam causar dano a imagem do banco, com políticas de conduta, integridade, relacionamento com stakeholders e gestão de crises reputacionais. O banco pode adotar apetite zero para fraudes internas, lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e não conformidade deliberada com normas regulatórias.

Por fim uma RAS moderna deve incorporar riscos emergentes e não tradicionais, como riscos tecnológicos decorrentes de adoção de inteligência artificial e blockchain, riscos associados a parceiros do ecossistema (APIs, fintechs, BaaS), riscos de decisão algorítmica (com vieses e falta de explicabilidade), riscos geopolíticos e de sanções, riscos de ESG e sustentabilidade, e riscos de privacidade e uso de dados, como os regulados pela LGPD. Cada novo risco deve ser acompanhado de sua avaliação de materialidade, metodologia de medição, processos de mitigação e, quando aplicável, limites e controles compatíveis com a postura da instituição.

Uma Declaração de Apetite a Riscos eficaz deve funcionar como uma constituição prática do gerenciamento de riscos, integrando todos os pilares da estrutura de governança da instituição. Ela precisa ser viva, dinâmica, compreensível e operacionalizável. Sua elaboração deve envolver as áreas de risco, compliance, finanças, auditoria, negócios, tecnologia e jurídica, e sua aplicação deve estar presente em todas as fases do ciclo de vida do risco, desde a concepção de produtos até o encerramento de exposições. Uma RAS bem construída é acima de tudo um instrumento de responsabilidade institucional, compromisso com a resiliência e catalisador de uma cultura de riscos madura e eficaz.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
Uma Declaração de Apetite a Riscos, conhecida pela sigla em inglês RAS ("Risk Appetite Statement"), é um documento formal que estabelece os limites qualitativos e quantitativos dos riscos que uma instituição financeira, como um banco, está disposta a aceitar para alcançar seus objetivos estratégicos.Ela é considerada um dos pilares mais relevantes da governança de riscos da instituição.
Qual a importância da Declaração de Apetite a Riscos (RAS) para a governança de riscos?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) é fundamental para a governança de riscos, pois articula o planejamento estratégico, a alocação de capital, o perfil de risco e os controles internos de uma instituição.Ela funciona como uma ferramenta integradora que influencia diretamente as decisões de diversos níveis hierárquicos, desde o Conselho de Administração até as áreas de negócios e a diretoria executiva.
Qual a finalidade institucional de uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
A finalidade institucional de uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) é definir formalmente os parâmetros de risco aceitáveis por uma instituição em cada uma de suas atividades.Isso considera o nível de tolerância a perdas financeiras, a capacidade de capital e liquidez, os requisitos regulatórios, os objetivos estratégicos e a cultura de riscos desejada.A RAS visa permitir que a instituição se beneficie de oportunidades de crescimento, inovação e geração de valor de forma responsável, prudente e compatível com sua resiliência financeira.
Quem é responsável pela aprovação e revisão da Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve ser aprovada pelo Conselho de Administração da instituição.Essa aprovação ocorre com a anuência e participação ativa do comitê de riscos (CoRis), em parceria com o Chief Risk Officer (CRO).A RAS deve ser revisada ao menos anualmente e é considerada um documento vinculante para todos os níveis da empresa.
Quais princípios fundamentais orientam a definição do apetite a riscos em uma instituição financeira?
A definição do apetite a riscos é orientada por alguns princípios fundamentais. Primeiramente, reconhece-se que assumir riscos é inerente à atividade bancária e necessário para gerar valor.Contudo, a exposição a riscos deve ser limitada àquilo que a instituição compreende, mensura, monitora e controla.Os riscos devem ser compatíveis com o modelo de negócios, perfil dos produtos, posicionamento estratégico, ambiente regulatório e capacidade financeira do banco.Adicionalmente, o apetite deve considerar a proteção da reputação institucional, a estabilidade das métricas financeiras e o alinhamento com os compromissos sociais, ambientais e éticos da instituição.
Como o apetite a riscos se relaciona com a atividade bancária e a geração de valor?
O apetite a riscos reconhece que assumir riscos é uma parte inerente e essencial da atividade bancária, sendo necessário para a geração de valor para a instituição.No entanto, essa exposição a riscos deve ser cuidadosamente gerenciada, limitando-se àquilo que a instituição compreende, consegue mensurar, monitorar e controlar efetivamente.Dessa forma, a instituição busca um equilíbrio entre a tomada de riscos calculados para aproveitar oportunidades de crescimento e a manutenção da prudência e resiliência financeira.
Como a Declaração de Apetite a Riscos (RAS) orienta as decisões em diferentes níveis de uma instituição?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) serve como guia tanto para decisões estratégicas quanto para decisões táticas e operacionais.No nível estratégico, ela pode orientar, por exemplo, a expansão para novas geografias ou o lançamento de produtos inovadores.No nível tático e operacional, influencia decisões como a aprovação de limites de crédito ou a aceitação de novos clientes.
Como a arquitetura de governança de riscos é estruturada, conforme descrito em uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
A arquitetura de governança de riscos, descrita na Declaração de Apetite a Riscos (RAS), geralmente se baseia no modelo das três linhas de defesa.A primeira linha é composta pelas áreas de negócio, que são diretamente responsáveis por identificar, mitigar e operar dentro dos limites de risco estabelecidos.A segunda linha compreende a função de Riscos e Compliance. Esta linha possui independência operacional e autoridade para revisar, monitorar, desafiar decisões e reportar exposições que estejam fora do apetite ao Conselho e Comitês.A terceira linha é formada pela Auditoria Interna, cuja responsabilidade é avaliar de forma independente a eficácia do sistema de controle interno, dos processos de risco e da própria governança.
Qual é o papel do <em>Chief Risk Officer (CRO)</em> na estrutura de governança de riscos?
O Chief Risk Officer (CRO) desempenha um papel central na governança de riscos.Ele deve integrar o Comitê Executivo e possuir acesso direto ao Comitê de Riscos do Conselho de Administração.Além disso, o CRO lidera comitês internos especializados, como os comitês de risco de crédito, de risco de mercado, de risco operacional, de produtos, de modelos, de continuidade de negócios e de riscos emergentes.
O que são limiares de tolerância a perdas financeiras em uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
Os limiares de tolerância a perdas financeiras, estabelecidos na Declaração de Apetite a Riscos (RAS), representam os valores máximos de perdas que uma instituição financeira aceita sofrer em cenários adversos definidos.Se esses limiares forem atingidos, a instituição pode ser compelida a revisar sua estratégia, ajustar sua alocação de capital ou modificar seus negócios.Os principais limites envolvem o consumo de capital sob estresse, os prejuízos contábeis líquidos e a deterioração da liquidez.Por exemplo, um banco pode definir que, mesmo em um cenário extremo de estresse com probabilidade de ocorrência de 1 em 25 anos, o índice de capital regulatório não deve cair abaixo de um certo percentual (como 12%), e o prejuízo líquido anual não pode ultrapassar um valor pré-definido.Estes limites devem ser testados anualmente através de testes de estresse e revistos sempre que houver mudanças relevantes no ambiente econômico ou regulatório.
Como uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) aborda os riscos de capital, alavancagem e liquidez?
Uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve definir parâmetros claros para os riscos de capital, alavancagem e liquidez, com o objetivo de assegurar a solidez patrimonial da instituição e sua capacidade de atender obrigações mesmo em situações de mercado adversas.Para o apetite a risco de capital, a RAS envolve a definição de níveis mínimos de capital regulatório. Isso pode incluir, por exemplo, um índice de capital de nível 1 superior a 11% e um índice de capital total acima de 13%, além de buffers (reservas) adicionais estabelecidos no Internal Capital Adequacy Assessment Process (ICAAP).No que se refere ao apetite a risco de alavancagem, a RAS estabelece limites para o crescimento da carteira de ativos em relação ao capital base. O objetivo é evitar ciclos de expansão excessiva que não tenham respaldo patrimonial adequado.Quanto ao apetite a risco de liquidez, a RAS define a capacidade da instituição de sobreviver a choques de liquidez sem a necessidade de acessar mercados de funding (captação de recursos). Isso inclui manter indicadores como o Liquidity Coverage Ratio (LCR) e o Net Stable Funding Ratio (NSFR) acima de certos níveis (por exemplo, 120%), bem como métricas internas que garantam capacidade de sobrevivência por um período determinado (como pelo menos 12 meses) em um cenário extremo.
Como uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) trata o apetite a risco de crédito?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) descreve com profundidade os limites e diretrizes para a aceitação de riscos associados à concessão de crédito e exposições a contrapartes. Essa abordagem abrange tanto o livro bancário (onde estão os créditos a clientes) quanto o livro de tesouraria (onde estão os ativos de mercado).Para o livro bancário, o apetite a risco de crédito pode incluir limites por tomador individual, por grupo econômico, por setor de atividade e por país. São definidos níveis máximos de concentração de risco e os ratings (classificações de risco) mínimos aceitáveis para os tomadores. Essa estrutura de limites deve estar integrada aos modelos internos de classificação de risco da instituição e ser ajustada dinamicamente conforme ocorram mudanças no ambiente macroeconômico.No livro de tesouraria, o apetite a risco de crédito deve estar centrado na preservação da liquidez e da qualidade de crédito da carteira de ativos. Geralmente, admite-se apenas contrapartes classificadas como investment grade (baixo risco de crédito) e aplicam-se limites estritos de exposição, como o valor em risco de default (DVaR) e a exposição a instrumentos derivativos com base em colaterais (garantias) e ratings internos.
Como uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) aborda o apetite a risco de mercado?
No que se refere ao risco de mercado, a Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve incluir os riscos de variação de taxas de juros, câmbio, preços de ações e commodities, spreads de crédito e volatilidade.O risco de mercado pode surgir tanto do livro de negociação quanto de posições estruturais no balanço da instituição.A RAS deve estabelecer limites baseados em métricas como Value at Risk (VaR), Expected Shortfall (eVaR) e stress testing.O uso de derivativos para hedge (proteção) deve ser descrito com clareza, e a exposição a ativos de maior volatilidade, como ações em carteira própria, deve ser compatível com a tolerância a perdas contábeis definida nos limites da instituição.
Por que o risco de modelagem é importante em uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS)?
O risco de modelagem é um componente crucial da Declaração de Apetite a Riscos (RAS), especialmente para instituições que utilizam modelos internos para diversas finalidades, como cálculo de capital, precificação, score de crédito, gestão de ativos e passivos (ALM), risco de mercado, e cada vez mais, modelos de Inteligência Artificial (IA).A RAS deve descrever a estrutura de governança de modelos, a classificação dos modelos por criticidade, as diretrizes para validação independente e os critérios de aceitação de modelos com incertezas elevadas.O apetite a risco de modelo pode ser classificado como baixo, moderado ou alto, dependendo da proporção de modelos com falhas ou incertezas relevantes.A política deve incluir um inventário completo de modelos, critérios de aprovação, ciclos de revalidação e processos para substituição ou retirada de modelos obsoletos.
Como a Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve refletir o risco climático?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve refletir os compromissos ambientais e de sustentabilidade de uma instituição financeira, incluindo metas de financiamento verde, exclusão de setores intensivos em carbono e a integração do risco climático na avaliação de crédito.Por exemplo, o apetite pode estabelecer que o banco não financiará projetos ligados à extração de carvão ou petróleo não convencional e buscará alocar uma porcentagem da nova carteira de crédito (como pelo menos 40%) em atividades alinhadas a acordos ambientais, como o Acordo de Paris.Devem ser considerados tanto os riscos físicos (eventos climáticos extremos que afetam ativos e garantias) quanto os riscos de transição (mudanças regulatórias e precificação de carbono que impactam empresas com alto footprint ambiental).
De que forma a Declaração de Apetite a Riscos (RAS) trata o risco operacional e o risco reputacional?
A Declaração de Apetite a Riscos (RAS) deve abordar o apetite a risco operacional e o apetite a risco reputacional de maneiras específicas para proteger a instituição.Em relação ao Risco Operacional, que abrange perdas decorrentes de falhas em processos internos, erros humanos, falhas em sistemas ou eventos externos, a RAS deve prever uma estrutura abrangente. Isso inclui controles internos robustos, o uso de indicadores-chave de risco (KRIs), sistemas de relatórios de incidentes e planos de continuidade de negócios. A exposição a eventos como fraudes, falhas sistêmicas, erros de processamento, ataques cibernéticos e falhas de terceiros deve ser limitada por critérios claros e por sistemas eficazes de prevenção e detecção.Quanto ao Risco Reputacional, a RAS deve visar a proteção da imagem institucional por meio de um apetite conservador a eventos que possam causar dano à reputação do banco. Isso é alcançado com políticas claras de conduta e integridade, um bom relacionamento com todas as partes interessadas (stakeholders) e uma gestão eficaz de crises reputacionais. A instituição pode, por exemplo, adotar um apetite zero para ocorrências como fraudes internas, lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e não conformidade deliberada com normas regulatórias.
Quais tipos de riscos emergentes e não tradicionais devem ser incorporados em uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) moderna?
Uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) moderna deve ser abrangente e incorporar uma variedade de riscos emergentes e não tradicionais para garantir que a instituição esteja preparada para novos desafios. Alguns desses riscos incluem:Riscos tecnológicos que surgem com a adoção de novas tecnologias como inteligência artificial (IA) e blockchain.Riscos associados a parceiros do ecossistema digital, como aqueles provenientes de APIs (Application Programming Interfaces), colaborações com fintechs e o uso de plataformas de Banking as a Service (BaaS).Riscos de decisão algorítmica, que envolvem preocupações com vieses em algoritmos e a falta de explicabilidade em suas decisões.Riscos geopolíticos e o risco de imposição de sanções internacionais.Riscos relacionados a fatores ambientais, sociais e de governança (ESG) e à sustentabilidade de forma geral.Riscos de privacidade e uso de dados pessoais, como os que são regulados pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).Para cada um desses novos riscos, é fundamental que se realize uma avaliação de sua materialidade (impacto potencial), se defina uma metodologia para sua medição, se estabeleçam processos para sua mitigação e, quando aplicável, se fixem limites e controles que sejam compatíveis com a postura de risco da instituição.
Quais são as características de uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) eficaz?
Uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) eficaz deve funcionar como uma "constituição prática" do gerenciamento de riscos, integrando todos os pilares da estrutura de governança da instituição.Ela precisa ser viva, dinâmica, compreensível e operacionalizável.Sua elaboração deve envolver diversas áreas, como risco, compliance, finanças, auditoria, negócios, tecnologia e jurídica.Além disso, sua aplicação deve estar presente em todas as fases do ciclo de vida do risco, desde a concepção de produtos até o encerramento de exposições.
Qual o papel da Declaração de Apetite a Riscos (RAS) na cultura de riscos de uma instituição?
Uma Declaração de Apetite a Riscos (RAS) bem construída é, acima de tudo, um instrumento de responsabilidade institucional e um compromisso com a resiliência financeira.Ela atua como um catalisador para o desenvolvimento de uma cultura de riscos madura e eficaz dentro da organização.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante