Artigo
10/09/2025

Discussões e Dispustas em Relação a Exigência de Capital para Riscos Climáticos na Basiléia

Analisa disputas geopolíticas sobre exigências de capital para riscos climáticos no Comitê de Basileia.

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Queria comentar sobre uma notícia que li sobre a pressão dos Estados Unidos sobre o Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS) para reduzir a ambição das exigências relacionadas ao risco climático, o que mostra não apenas uma disputa técnica sobre marcos regulatórios, mas uma manifestação explícita de tensões geopolíticas, econômicas e ideológicas que têm o potencial de redefinir o papel da supervisão prudencial frente aos "riscos sistêmicos não tradicionais", especialmente os decorrentes da crise climática.

Este embate ocorre em um momento particularmente delicado, no qual a materialização dos riscos físicos e de transição associados às mudanças climáticas já é observada nos balanços das instituições financeiras e na estabilidade dos sistemas econômicos nacionais.

Desde 2020, o Comitê de Basileia vem estruturando, de forma crescente e consistente, um arcabouço de análise, princípios e diretrizes com o objetivo de incorporar os riscos climáticos na estrutura regulatória prudencial internacional. Essa iniciativa se consolidou com a criação de uma força-tarefa climática de alto nível, copresidida por Kevin Stiroh, então diretor sênior do Fed de Nova York, hoje no board do Fed em Washington, e Frank Elderson, que é membro do conselho executivo do Banco Central Europeu.

A missão deste grupo de trabalho sempre foi clara: entender, medir e orientar como os riscos oriundos da mudança climática, tanto físicos quanto de transição, afetam a solidez das instituições financeiras e os pilares da estabilidade sistêmica.

Em seus cinco anos de atuação, a força-tarefa produziu estudos técnicos de referência, incluindo:

  • Recomendações para supervisores bancários incorporarem riscos climáticos nos processos de supervisão baseada em risco (SBR);
  • Propostas de estrutura global para disclosure de riscos climáticos por instituições financeiras;
  • Princípios para gestão e governança desses riscos nas linhas de defesa bancárias; e
  • Orientações sobre sua integração em cenários de estresse.

Essas entregas refletiram uma preocupação crescente da comunidade regulatória global com os impactos econômicos sistêmicos de eventos extremos (secas, enchentes, furacões, etc.) e da transição abrupta ou desordenada para economias de baixo carbono.

Contudo, toda essa agenda encontra atualmente forte resistência por parte do governo americano sob a liderança de Donald Trump, que desde sua reeleição tem imprimido uma linha oposta em relação às pautas climáticas e à sua relevância para o mandato das autoridades financeiras.

A manifestação mais visível dessa inflexão ocorreu em janeiro de 2025, quando o Federal Reserve anunciou oficialmente sua saída da Network for Greening the Financial System (NGFS), que é uma coalizão global de bancos centrais voltada à pesquisa e desenvolvimento de políticas sobre risco climático, sob o argumento de que os temas climáticos não estariam no escopo de atuação central do Fed.

O próprio Jerome Powell, que é o atual presidente do Fed, reforçou essa posição recentemente ao afirmar que o papel do banco central no clima é “muito, muito restrito”, e que ampliar seu escopo de atuação para além do mandato legal ameaçaria sua independência institucional.

Esse movimento de retirada ganhou tração no plano multilateral por meio da proposta americana de rebaixamento da força-tarefa climática do BCBS para um mero grupo de trabalho técnico, com atribuições mais restritas e sem capacidade normativa relevante.

Esta proposta conta com o apoio das quatro entidades reguladoras dos EUA que compõem o Comitê de Basileia: o Fed, o Fed de Nova York, o Escritório do Controlador da Moeda (OCC) e a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC).

Conforme informações de bastidores, esse item foi colocado na pauta da reunião de supervisores e presidentes de bancos centrais realizada nesta semana, sendo alvo de fortes reações contrárias por parte de reguladores europeus, em especial o BCE e o Banco da Inglaterra, que vêm intensificando seus esforços para exigir dos bancos a integração robusta dos riscos climáticos em suas práticas internas de gestão de riscos.

É importante destacar que por trás dessa movimentação institucional há uma clara pressão dos grandes bancos comerciais dos EUA, que consideram as propostas finais de Basileia III sobre requerimentos de capital, e por extensão qualquer exigência futura sobre risco climático, excessivamente rigorosas, podendo comprometer a competitividade das instituições americanas frente às suas congêneres europeias e asiáticas.

Diante disso, as ameaças de judicialização foram dirigidas diretamente ao Fed, forçando a autoridade monetária americana a recuar de certas posições e provocar a substituição de figuras-chave, como o ex-vice-presidente de supervisão Michael Barr, por nomes mais alinhados à flexibilização regulatória, como Michelle Bowman.

Do ponto de vista regulatório, o impacto de uma eventual aprovação dessa proposta americana seria duplo:

  1. Em primeiro lugar, haveria um enfraquecimento claro do BCBS como fórum técnico de coordenação global, com perda de credibilidade diante de sua missão de definir padrões prudenciais à luz dos riscos emergentes.
  2. Em segundo, enviaria ao mercado uma sinalização perigosa de que os riscos climáticos poderiam ser relegados a segundo plano, mesmo com evidências cada vez mais concretas de seus efeitos sobre a qualidade de crédito, o valor dos ativos, os custos de seguro e a estabilidade macrofinanceira.

Como alertou Benoît Lallemand, que é o secretário-geral do Finance Watch, tal decisão seria “a escolha errada no pior momento possível”, colocando em xeque o compromisso institucional do sistema financeiro global com a transição verde e a resiliência climática.

Adicionalmente, é preciso considerar que a exclusão ou diluição da força-tarefa climática de Basileia não significa apenas um revés simbólico, pois, tecnicamente, ela interromperia a produção de orientações coordenadas, enfraqueceria os incentivos regulatórios para que os bancos desenvolvam metodologias de mensuração de risco climático e reduziria a capacidade dos supervisores de atuar de forma proativa diante da crescente materialização desses riscos nos mercados de crédito, seguros, hipotecas e derivativos.

Países como o Brasil, que historicamente utilizam o BCBS como referência para a convergência regulatória e o desenvolvimento da regulação bancária doméstica, também seriam diretamente impactados, com este recuo da pauta climática no nível global pode gerar incertezas normativas internas, afetar o cronograma de adoção de práticas como testes de estresse climático, integrações no Pilar 2 (processo de supervisão) e novos requerimentos de divulgação no Pilar 3.

Isso comprometeria os avanços recentes feitos por reguladores locais como o Banco Central do Brasil na direção de maior alinhamento com os princípios ESG e com a estabilidade financeira ambientalmente sustentável.

Dessa forma, o que está em jogo não é apenas a existência de uma força-tarefa específica, mas a própria legitimidade do esforço de integrar riscos climáticos nas métricas fundamentais de robustez bancária.

Em um contexto em que a materialização de riscos ambientais extremos cresce exponencialmente, qualquer retrocesso técnico pode comprometer décadas de progresso regulatório.

A eventual submissão do BCBS às pressões políticas americanas não apenas enfraqueceria a eficácia do sistema financeiro global diante das mudanças climáticas, como colocaria em risco sua capacidade de proteger a solvência, a resiliência e a confiança no sistema bancário internacional frente aos choques climáticos que, como sabemos, não respeitam fronteiras nem mandatos restritos.

A briga vai ser boa. Estou aqui acompanhando de longe ligado nos próximos passos.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual é a principal controvérsia envolvendo os Estados Unidos e o Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS) em relação aos riscos climáticos?
A principal controvérsia reside na pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS) para que este reduza a ambição das exigências relacionadas ao risco climático na regulamentação bancária. Essa pressão reflete tensões geopolíticas, econômicas e ideológicas sobre o papel da supervisão prudencial frente aos chamados "riscos sistêmicos não tradicionais", como os decorrentes da crise climática.
O que são 'riscos sistêmicos não tradicionais' no contexto da supervisão prudencial?
No contexto da supervisão prudencial, os "riscos sistêmicos não tradicionais" são aqueles que fogem dos riscos financeiros convencionais e têm o potencial de afetar a estabilidade do sistema financeiro como um todo. Os riscos decorrentes da crise climática, como os riscos físicos (enchentes, secas) e de transição (mudanças para uma economia de baixo carbono), são exemplos destacados desses riscos não tradicionais.
Desde quando o Comitê de Basileia (BCBS) vem trabalhando na incorporação de riscos climáticos na regulamentação e qual iniciativa se consolidou nesse sentido?
Desde 2020, o Comitê de Basileia (BCBS) vem estruturando um arcabouço para incorporar os riscos climáticos na estrutura regulatória prudencial internacional. Essa iniciativa se consolidou com a criação de uma força-tarefa climática de alto nível.
Quem copresidiu a força-tarefa climática de alto nível do Comitê de Basileia (BCBS)?
A força-tarefa climática de alto nível do Comitê de Basileia (BCBS) foi copresidida por Kevin Stiroh, que na época era diretor sênior do Fed de Nova York e posteriormente passou para o board do Fed em Washington, e Frank Elderson, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu.
Qual era a missão da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
A missão da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS) era entender, medir e orientar como os riscos oriundos da mudança climática, tanto os físicos quanto os de transição, afetam a solidez das instituições financeiras e os pilares da estabilidade sistêmica.
Quais foram as principais contribuições da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS) durante seus cinco anos de atuação?
Durante seus cinco anos de atuação, a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS) produziu diversos materiais técnicos, incluindo:
  • Recomendações para supervisores bancários incorporarem riscos climáticos nos processos de supervisão baseada em risco (SBR).
  • Propostas de estrutura global para disclosure (divulgação) de riscos climáticos por instituições financeiras.
  • Princípios para gestão e governança desses riscos nas linhas de defesa bancárias.
  • Orientações sobre a integração dos riscos climáticos em cenários de estresse.
Essas entregas refletiram uma preocupação crescente com os impactos econômicos sistêmicos de eventos extremos e da transição para economias de baixo carbono.
Qual é a posição do governo americano sob a liderança de Donald Trump em relação à agenda climática e sua relevância para autoridades financeiras?
O governo americano sob a liderança de Donald Trump tem demonstrado forte resistência à agenda climática e à sua relevância para o mandato das autoridades financeiras. Uma manifestação dessa posição foi o anúncio, em janeiro de 2025, da saída oficial do Federal Reserve (Fed) da Network for Greening the Financial System (NGFS).
O que é a Network for Greening the Financial System (NGFS) e qual foi o argumento do Federal Reserve (Fed) para sua saída em janeiro de 2025?
A Network for Greening the Financial System (NGFS) é uma coalizão global de bancos centrais voltada à pesquisa e desenvolvimento de políticas sobre risco climático. O Federal Reserve (Fed) anunciou sua saída em janeiro de 2025, argumentando que os temas climáticos não estariam no escopo de atuação central do Fed.
Qual é a visão de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), sobre o papel do banco central em relação ao clima?
Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), afirmou que o papel do banco central no clima é “muito, muito restrito”. Ele também expressou a preocupação de que ampliar o escopo de atuação do Fed para além do seu mandato legal poderia ameaçar sua independência institucional.
Qual é a proposta americana em relação à força-tarefa climática do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS)?
A proposta americana consiste em rebaixar a força-tarefa climática do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS) para um mero grupo de trabalho técnico. Este grupo teria atribuições mais restritas e não possuiria capacidade normativa relevante.
Quais entidades reguladoras dos EUA apoiam a proposta de rebaixamento da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
A proposta de rebaixamento da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS) conta com o apoio das quatro entidades reguladoras dos EUA que compõem o Comitê: o Federal Reserve (Fed), o Fed de Nova York, o Escritório do Controlador da Moeda (OCC) e a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC).
Quais reguladores se opõem à proposta americana de rebaixar a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
Reguladores europeus, em especial o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra, têm manifestado forte oposição à proposta americana de rebaixar a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS). Esses reguladores vêm intensificando seus esforços para exigir dos bancos a integração robusta dos riscos climáticos em suas práticas internas de gestão de riscos.
Qual é a motivação dos grandes bancos comerciais dos EUA para pressionar contra as exigências de risco climático?
Os grandes bancos comerciais dos EUA consideram as propostas finais de Basileia III sobre requerimentos de capital, e por extensão qualquer exigência futura sobre risco climático, como excessivamente rigorosas. Eles acreditam que tais exigências poderiam comprometer a competitividade das instituições americanas frente às suas congêneres europeias e asiáticas.
Quais foram as consequências da pressão dos bancos comerciais dos EUA sobre o Federal Reserve (Fed) em relação à regulamentação de riscos climáticos?
A pressão dos bancos comerciais dos EUA, incluindo ameaças de judicialização dirigidas ao Federal Reserve (Fed), forçou a autoridade monetária americana a recuar de certas posições. Isso também provocou a substituição de figuras-chave, como o ex-vice-presidente de supervisão Michael Barr, por nomes mais alinhados à flexibilização regulatória, como Michelle Bowman.
Quais seriam os impactos regulatórios de uma eventual aprovação da proposta americana de rebaixar a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
Uma eventual aprovação da proposta americana teria um duplo impacto regulatório:1. Haveria um enfraquecimento do BCBS como fórum técnico de coordenação global, com perda de credibilidade em sua missão de definir padrões prudenciais à luz dos riscos emergentes.2. Enviaria ao mercado uma sinalização perigosa de que os riscos climáticos poderiam ser relegados a segundo plano, apesar das evidências de seus efeitos sobre a qualidade de crédito, valor de ativos, custos de seguro e estabilidade macrofinanceira.
Qual é a avaliação de Benoît Lallemand, secretário-geral do Finance Watch, sobre a possível decisão de rebaixar a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
Benoît Lallemand, secretário-geral do Finance Watch, alertou que tal decisão seria “a escolha errada no pior momento possível”. Ele considera que isso colocaria em xeque o compromisso institucional do sistema financeiro global com a transição verde e a resiliência climática.
Além do impacto simbólico, quais seriam as consequências técnicas da exclusão ou diluição da força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
Tecnicamente, a exclusão ou diluição da força-tarefa climática de Basileia interromperia a produção de orientações coordenadas sobre riscos climáticos. Além disso, enfraqueceria os incentivos regulatórios para que os bancos desenvolvam metodologias de mensuração desses riscos e reduziria a capacidade dos supervisores de atuar de forma proativa diante da crescente materialização desses riscos nos mercados de crédito, seguros, hipotecas e derivativos.
Como países como o Brasil, que utilizam o Comitê de Basileia (BCBS) como referência regulatória, seriam afetados por um recuo na pauta climática global?
Países como o Brasil, que historicamente utilizam o BCBS como referência para a convergência regulatória e o desenvolvimento da regulação bancária doméstica, seriam diretamente impactados. Um recuo da pauta climática no nível global poderia gerar incertezas normativas internas e afetar o cronograma de adoção de práticas como testes de estresse climático, integrações no Pilar 2 (processo de supervisão) e novos requerimentos de divulgação no Pilar 3. Isso comprometeria avanços recentes feitos por reguladores locais, como o Banco Central do Brasil, na direção de maior alinhamento com os princípios ESG e com a estabilidade financeira ambientalmente sustentável.
O que são o Pilar 2 e o Pilar 3 no contexto da regulação bancária e dos riscos climáticos, conforme as informações disponíveis?
Com base nas informações apresentadas, o Pilar 2 refere-se ao processo de supervisão bancária. O Pilar 3 está associado a novos requerimentos de divulgação por parte das instituições financeiras. A integração dos riscos climáticos nesses pilares é uma das práticas que poderiam ser afetadas por mudanças na abordagem global do Comitê de Basileia (BCBS).
O que está fundamentalmente em jogo na discussão sobre a força-tarefa climática do Comitê de Basileia (BCBS)?
Fundamentalmente, o que está em jogo não é apenas a existência de uma força-tarefa específica, mas a própria legitimidade do esforço de integrar riscos climáticos nas métricas fundamentais de robustez bancária. Isso ocorre em um contexto de crescimento exponencial da materialização de riscos ambientais extremos.
Quais seriam as consequências mais amplas para o sistema financeiro global se o Comitê de Basileia (BCBS) cedesse às pressões políticas americanas em relação aos riscos climáticos?
Se o Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS) cedesse às pressões políticas americanas, isso não apenas enfraqueceria a eficácia do sistema financeiro global diante das mudanças climáticas, mas também colocaria em risco sua capacidade de proteger a solvência, a resiliência e a confiança no sistema bancário internacional frente aos choques climáticos.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante