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Reflexão sobre a rejeição ao compliance baseada em caricaturas, treinamentos mal executados e desconhecimento da prática real da disciplina.
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Esta semana, um amigo me contou uma cena que ficou ecoando depois que a conversa acabou. Em um jantar com conhecidos da namorada, sem ele provocar nem conduzir o assunto, o tema chegou ao compliance. E alguém, com a leveza de quem comenta o trânsito, falou: "Eu não acredito em compliance. Sou ateu em compliance."
A frase é boa porque é honesta, e é boa porque é reveladora.
Antes de não crer, é preciso conhecer
O ateu em sentido rigoroso (o que pensa, lê, debate) costuma conhecer melhor a teologia que rejeita do que muitos que a professam. Bertrand Russell sabia mais de cristianismo do que o cristão médio. Christopher Hitchens citava as Escrituras com a precisão de um seminarista. Para negar com propriedade, é preciso primeiro dominar o objeto. Caso contrário, não é ateísmo.
Mas o "ateu de compliance" do jantar se separa do ateu da filosofia. Ele não estudou o que rejeita. Não leu nenhuma das normas que estruturam a disciplina, não acompanhou uma investigação interna até o fim, não viu de perto o que acontece quando um terceiro mal avaliado vira manchete. Ele rejeita uma caricatura. E quem rejeita uma caricatura, no fundo, está apenas concordando comigo: a caricatura também me incomoda.
A caricatura que ele conhece
Quase sempre, o "ateu de compliance" não é o primeiro contato com o tema. É o segundo. É a pessoa que, ao longo da carreira corporativa, foi obrigada a assistir a três vídeos institucionais por ano, com locução genérica, slides padronizados e perguntas de múltipla escolha cuja resposta correta é sempre a mais óbvia. Foi nisso que ele encontrou compliance. E é compreensível, em alguma medida, que rejeite o que conheceu.
O problema é que ele não conheceu compliance. Conheceu o subproduto mais empobrecido dele — o treinamento mandatório malfeito, a política copiada e colada, o termo de adesão assinado no susto. Confundir a disciplina com sua versão mal executada é o mesmo que rejeitar a medicina depois de uma consulta apressada no plano de saúde. A consulta era ruim. A medicina segue funcionando.
O que ele não viu
O compliance que importa não está no vídeo institucional. Está na opinião forte, antes de uma contratação ser proposta, se aquele terceiro tem histórico que recomenda atenção. Está na sala em que um comitê de ética delibera, no contraditório, sobre uma denúncia que envolve um líder respeitado da casa. Está no momento em que um gestor recebe um convite de aparência inofensiva e precisa entender por que aceitá-lo pode contaminar uma decisão futura. Está no desenho dos controles que protegem a empresa de fraudes que, sem eles, simplesmente não seriam vistas. Está nas conversas difíceis com a alta liderança quando o número trimestral está bom, mas o caminho até ele não está.
Nada disso aparece no vídeo. E é justamente por isso que o "ateu de compliance" segue sendo ateu: ele nunca esteve na sala onde compliance acontece de verdade.
Os três tipos que se sentam à mesa
Se levarmos a metáfora a sério, é útil distinguir três figuras.
O ateu de compliance é o que nega o que não conhece. Sua negação é confortável, social, performática — funciona bem em jantares e mesas de boteco, custa pouco e diverte os outros. É uma posição barata, no sentido literal do termo: não exige estudo, não exige experiência, não exige risco.
O agnóstico é muito mais comum. É o profissional que cumpre o treinamento, assina o que precisa assinar, evita o que precisa evitar, mas nunca parou para pensar se aquilo faz sentido. Para ele, compliance é burocracia tolerável. Não acredita nem deixa de acreditar — apenas convive. Em muitas organizações, é dele a maioria do quadro.
O praticante é quem já esteve no momento da decisão. Quem viu de perto o custo de não ter um programa funcionando. Quem entendeu que integridade, antes de ser virtude, é arquitetura — e que, sem arquitetura, virtude isolada não sobrevive à pressão. Esse não precisa argumentar a favor do compliance. Ele simplesmente sabe, do mesmo modo que um engenheiro estrutural sabe por que existem vigas onde o leigo vê apenas parede.
O convite
A provocação do meu amigo terminava com uma ideia que vale registrar: desmistificar o compliance. Mostrar que é mais do que o vídeo chato que se é obrigado a fazer nas empresas. Tirar a disciplina do lugar burocrático em que ela foi colocada por quem nunca a praticou seriamente, e devolvê-la ao lugar que ocupa de fato — o de uma das engrenagens centrais da forma como decisões corporativas se tomam.
Esse é o trabalho que tenho assumido, em parte na minha rotina como executivo da área, em parte no Compliance Insights, em parte na sala de aula. Não para convencer ateus — eles têm o direito de continuar onde estão — mas para que a próxima geração de profissionais que cruza com o tema encontre algo mais do que o vídeo institucional.
Ao ateu de compliance, então, o convite é simples e antigo: estude o que você nega. Acompanhe um caso até o fim. Sente-se em uma deliberação de comitê. Leia uma das normas que você acha que conhece. Se, depois disso, você seguir ateu, conversamos com prazer — porque aí teremos um diálogo, e não um clichê de jantar.
Mas, na minha experiência, quase ninguém continua ateu depois.
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Autor de conteúdos sobre compliance, integridade, cibersegurança e desafios de conformidade no Brasil.
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