Artigo
10/03/2026
Atualizado em 07/06/2026

O problema estrutural do ESG: Um raciocínio lógico para entender o mercado

O ESG é interpretado em quatro camadas distintas: moral, estratégica, reputacional e narrativa, o que gera confusão e desafia a clareza na tomada de decisões empresariais.

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Eu sei que está claro para todos que o ESG se tornou um dos temas mais discutidos dentro das empresas. O ponto principal é que os relatórios, os compromissos públicos, as metas climáticas, os programas sociais e as estruturas de governança passaram a ser reorganizados nas empresas para se alinhar a essa agenda.

Apesar disso, uma coisa curiosa acontece quando tentamos entender o debate do assunto com mais cuidado: pessoas diferentes parecem estar falando de coisas completamente distintas quando usam a mesma palavra. Já percebeu isso?

Para alguns, ESG é uma agenda relacionada à ética, para outros, é uma forma de gestão de riscos. Tem quem veja como ferramenta de reputação e ainda, há quem trate como um movimento político ou cultural. O mais importante é que, quando um conceito passa a significar muitas coisas ao mesmo tempo, ele perde parte da sua capacidade de orientar decisões e, nesse caso, em vez de esclarecer, ele começa a confundir.

Acredito eu que, nesse caso, o primeiro passo para entender o momento atual seja o de reconhecer que o ESG não se trata de um conceito técnico, até porque ele se tornou um campo narrativo onde diferentes grupos projetam expectativas distintas sobre o papel das empresas na sociedade e, quando olhamos com mais calma, o debate parece se organizar em quatro camadas diferentes, que precisam ser entendidas no detalhe para evitar envolver-se no assunto sem de fato estar alinhado ao seu verdadeiro objetivo.

1. A camada moral: Aqui o ESG aparece como uma espécie de discussão sobre responsabilidade e seu objetivo principal é responder a pergunta: qual é o papel das empresas na sociedade?

Esse tipo de discussão vem desde o início da filosofia política e moral. Pensadores como Aristóteles já discutiam a relação entre ética, virtude e vida coletiva muitos séculos antes de existirem corporações modernas. O ponto é que, nessa camada, o ESG é interpretado como uma tentativa de ampliar o horizonte moral das empresas, e assim a organização deixa de olhar apenas para seus resultados financeiros e passa a considerar impactos mais amplos sobre sociedade e meio ambiente.

Essa dimensão é importante, mas ela raramente resolve sozinha os dilemas práticos das organizações e, ainda, abre espaço para interesses conflitantes e aumento da polarização.

2. A camada estratégica: Aqui o ESG aparece como ferramenta de gestão. As empresas precisam identificar riscos ambientais, sociais e de governança que podem afetar seus recursos principais e impactar sua geração de valor. Mudanças regulatórias, pressão de investidores, impactos climáticos, conflitos com comunidades, escândalos de integridade e tudo isso pode gerar consequências financeiras relevantes.

Nesse nível, o ESG funciona como uma forma de estruturar análise de riscos e prioridades estratégicas. O problema é que muitas discussões públicas sobre ESG não permanecem nesse nível técnico e rapidamente se deslocam para outras camadas por serem mais atrativas e pela constante necessidade de “vender” a agenda para que ela sobreviva aos cortes de recursos.

3. A camada reputacional: Em ambientes institucionais complexos, as empresas não conseguem mais responder só a riscos operacionais, mas também precisam responder a expectativas sociais. Investidores, consumidores, reguladores e sociedade civil criam pressões reputacionais que acabam de forma direta ou indireta influenciando as decisões corporativas. Nesse contexto, compromissos públicos e relatórios de impacto começam a se tornar instrumentos importantes de comunicação.

O risco aparece quando a necessidade de responder rapidamente a essas expectativas leva as empresas a assumir compromissos antes de compreender completamente suas implicações estratégicas, focando em esforços sobre temas não relevantes, criando metas que não irão gerar valor ou até mesmo assumindo compromissos que não podem cumprir.

4. A camada narrativa: Aqui o ESG se transforma em algo bem diferente e a agenda deixa de ser uma ferramenta e vira uma história sobre o futuro.

Nessa camada, os conceitos são ampliados, as expectativas são projetadas e diferentes visões de mundo disputam espaço. Esse tipo de dinâmica não é novo, já que ao longo da nossa história, ideias econômicas e institucionais sempre foram acompanhadas por narrativas que tentam orientar o comportamento coletivo baseado em interesses futuros do narrador.

O problema começa a crescer quando a narrativa passa a ocupar o espaço que antes pertencia à análise conceitual e à lógica. Na tradição educacional clássica conhecida como Trivium, o aprendizado seguia uma ordem bastante clara.

Primeiro vinha a Grammar (gramática), responsável por organizar conceitos e compreender o significado das coisas. Depois aparecia a Logic (lógica), etapa em que ideias eram analisadas e testadas e só então surgia a Rhetoric (retórica), responsável por comunicar aquilo que já havia sido compreendido de forma eloquente.

Quando essa ordem é respeitada, a retórica esclarece; agora, quando ela é invertida (como vemos ultimamente), a retórica prioriza persuadir ao invés de informar. Grande parte das tensões atuais em torno do ESG parece nascer exatamente dessa inversão e o que estamos observando hoje, como um arrefecimento desse discurso, talvez seja um movimento de correção.

Depois de alguns anos marcados por expansão narrativa e compromissos públicos ambiciosos, muitas empresas começaram a revisar prioridades, reavaliar promessas e reorganizar suas agendas internas. Para alguns observadores isso parece um enfraquecimento do ESG e eu acredito que seja o contrário.

Pode ser o início de uma fase mais madura, onde conceitos precisarão voltar a ser discutidos com clareza, decisões precisarão ser analisadas com lógica e narrativas institucionais deverão refletir escolhas que realmente podem ser sustentadas ao longo do tempo e que, de fato, gerarão valor para que haja engajamento.

Se isso acontecer, o ESG talvez deixe de ser um campo narrativo e volte a ser aquilo que provavelmente deveria ter sido desde o início: uma ferramenta para ajudar empresas a tomar decisões melhores em um ambiente cada vez mais competitivo e fragilizado em recurso.

Não é um processo simples, principalmente por vivermos uma realidade onde a construção de retórica independe de conhecimento e teste lógico para acontecer (seja com o uso das IAs ou até mesmo com o excesso de informação desqualificada), direcionando pessoas para caminhos que divergem totalmente o conceito, porém, após diversas aplicações práticas, podemos ver que a agenda ESG começa a deixar um pouco o campo da inflação narrativa e assim, poderemos ver verdadeiramente pessoas que vivenciam a agenda na prática trazer conteúdo verdadeiro.

Talvez com esse efeito platô, as pessoas que apenas surfaram a onda e comunicaram de forma fácil, sem jamais precisar defender o tema em uma mesa de board, buscarão outro “hype” para aproveitar e assim, o mercado ficará apenas com quem de fato tem conteúdo para compartilhar com vivência e conhecimento real da prática.

Criar retórica é fácil, difícil mesmo é conseguir colocar em prática e gerar valor e essa é a verdadeira necessidade para que ESG vire uma agenda para proteger os patrimônios dos negócios.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado