Artigo
25/02/2026

O que muda para uma empresa ao aderir ao Novo Mercado: impactos diretos no conselho

Analisa como a adesão ao Novo Mercado da B3 transforma a estrutura, composição e atuação do Conselho de Administração.

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A decisão de listar uma empresa no Novo Mercado da B3 vai muito além de uma simples estratégia de posicionamento no mercado de capitais.

Trata-se de um compromisso institucional com um novo patamar de governança corporativa — mais exigente, mais transparente e com maior responsabilidade perante todos os stakeholders: acionistas, investidores, mercado e sociedade.

Esse movimento exige transformações estruturais. E uma das áreas mais impactadas é, sem dúvida, o Conselho de Administração.

Afinal, o Novo Mercado impõe regras específicas sobre a composição, funcionamento e transparência do conselho, alterando de forma significativa o papel desse órgão dentro da estrutura de poder da empresa.

Mas o que muda, na prática, para o Conselho de Administração de uma companhia que decide aderir a esse segmento?

Neste artigo, aprofundo essa questão, explicando os conceitos centrais, os benefícios esperados, os desafios a enfrentar e as principais tendências futuras para conselhos atuantes em empresas listadas no Novo Mercado.

O que é o Novo Mercado?

O Novo Mercado é um segmento especial da B3, a bolsa de valores brasileira, criado para reunir empresas que adotam os mais altos padrões de governança corporativa.

Na prática, ele funciona como uma “vitrine de boas práticas”. Para estar nele, a empresa precisa ir além da lei. Ou seja, precisa seguir regras mais rígidas do que as exigidas pela legislação brasileira (como a Lei das S.A. e normas da CVM).

Essas regras incluem:

  • Maior transparência nas informações financeiras e estratégicas.
  • Direitos ampliados para acionistas minoritários.
  • Obrigação de manter apenas ações ordinárias (com direito a voto).
  • Exigência de conselho de administração mais profissionalizado e atuante.

A adesão ao Novo Mercado é voluntária, mas, uma vez feita, passa a ser um compromisso público da empresa com a boa governança, a ética e a equidade.

Essa decisão impacta diretamente a estrutura e o funcionamento do Conselho de Administração, que se torna peça-chave na supervisão, no controle e na criação de valor sustentável para a organização.

No próximo trecho, vamos ver como o conselho muda nesse novo cenário — e o que isso exige de seus membros.

Imagem ilustrativa sobre governança corporativa

O que muda no Conselho de Administração?

1. Composição mais qualificada e independente

  • O Novo Mercado exige no mínimo 2 conselheiros independentes, ou 20% do total do conselho, o que for maior.
  • Isso força a empresa a buscar conselheiros com visão externa, sem vínculos familiares ou societários relevantes com os controladores.

Conselheiro independente é aquele que pode atuar sem sofrer pressões do controlador. É peça-chave para decisões imparciais.

2. Mandato unificado

  • Todos os conselheiros devem ter mandato unificado de até 2 anos, com possibilidade de reeleição.
  • Essa regra evita que membros sejam trocados por conveniência política ou alinhamento pessoal.

3. Maior transparência nas decisões

  • A empresa deve divulgar atas de reuniões e explicar, de forma clara, as principais decisões estratégicas.
  • Isso exige um conselho mais preparado e com forte capacidade de argumentação técnica.

4. Função de fiscalização mais ativa

  • O conselho precisa atuar de forma mais ativa no acompanhamento da estratégia, da gestão de riscos e da performance da empresa.
  • Ele deixa de ser um “órgão decorativo” e passa a exercer um papel de governança real.
Imagem ilustrativa sobre conselhos de administração

Vantagens dessa transformação

A adesão ao Novo Mercado não é apenas uma exigência formal. Ela promove mudanças estruturais que fortalecem a empresa no longo prazo. Veja a seguir os principais benefícios dessa transformação — especialmente no que diz respeito ao Conselho de Administração e à percepção do mercado:

1. Maior atratividade para investidores institucionais e estrangeiros

Investidores profissionais — como fundos de pensão, gestoras de ativos e investidores estrangeiros — valorizam empresas com boas práticas de governança. Eles buscam segurança, previsibilidade e respeito aos direitos dos acionistas minoritários. Ao entrar no Novo Mercado, a empresa sinaliza que está comprometida com esses valores. Com isso, amplia seu acesso a capitais de longo prazo, com custos menores e maior estabilidade.

2. Reputação fortalecida no mercado de capitais

Governança sólida gera confiança. Ao adotar regras mais rigorosas e se submeter a maior fiscalização, a empresa reforça sua imagem de transparência, ética e compromisso com boas práticas. Isso aumenta sua credibilidade diante de analistas, investidores, reguladores e parceiros de negócio.

3. Decisões mais técnicas e menos políticas

No Novo Mercado, o Conselho de Administração tende a ser mais profissional, independente e diverso. Isso reduz a influência de interesses particulares ou decisões motivadas por relações pessoais ou políticas internas. Com isso, as decisões estratégicas passam a ser mais técnicas, embasadas em dados e alinhadas com os interesses de longo prazo da empresa e dos seus acionistas.

4. Redução de riscos reputacionais e jurídicos

Empresas com boa governança estão menos expostas a escândalos, fraudes, conflitos societários e sanções regulatórias. A estrutura mais robusta de controles internos e supervisão reduz o risco de comportamentos inadequados. Isso protege a imagem da empresa e os seus administradores, além de reduzir custos com disputas judiciais e processos regulatórios.

5. Aumento do valor de mercado no longo prazo

Estudos mostram que empresas com melhor governança tendem a apresentar maior valorização no tempo, menor custo de capital e maior retorno para os acionistas. A previsibilidade, a transparência e a proteção dos investidores se traduzem em prêmios de valorização nas bolsas — e em melhores condições de captação de recursos.

Imagem ilustrativa sobre valor de mercado e governança

Desvantagens e desafios

A migração para o Novo Mercado traz ganhos significativos. Mas também exige mudanças profundas — e nem todas são simples de implementar. A seguir, explico os principais custos, obstáculos e resistências que costumam surgir nesse processo:

1. Maior custo operacional com governança

A adoção de boas práticas demanda estrutura, profissionais qualificados e processos formais. Isso inclui:

  • Contratação de auditorias externas independentes;
  • Remuneração de conselheiros independentes experientes;
  • Criação de comitês de assessoramento, como de auditoria, riscos ou pessoas;
  • Investimentos em sistemas de controle interno, compliance e governança.

Tudo isso representa um aumento de custos fixos e operacionais — especialmente para empresas de médio porte ou em setores de margem apertada.

2. Adoção de processos mais formais e, às vezes, mais lentos

Com a governança mais robusta, surgem procedimentos formais de análise, aprovação e prestação de contas. Isso pode resultar em processos mais burocráticos no curto prazo, com mais etapas de deliberação. A empresa precisa:

  • Preparar e revisar materiais para os conselhos;
  • Registrar atas e decisões com mais rigor;
  • Prestar contas de forma transparente e documentada.

Essa nova rotina, embora positiva em termos de controle, pode reduzir a agilidade inicial de algumas decisões operacionais ou estratégicas — especialmente em ambientes de alta pressão ou competição.

3. Mudança cultural: divisão real de poder

Um dos desafios mais delicados é o deslocamento do poder de decisão exclusivo dos controladores. No Novo Mercado, o Conselho de Administração deve ter membros independentes e critérios objetivos de governança. Na prática, isso exige que:

  • Os fundadores ou acionistas controladores compartilhem decisões com o colegiado;
  • A empresa escute opiniões divergentes e esteja aberta ao contraditório;
  • O processo decisório seja mais coletivo, técnico e transparente.

Essa mudança pode causar resistência cultural — especialmente em empresas familiares ou com tradição de comando centralizado.

4. Risco de conflitos com conselhos desalinhados

A obrigatoriedade de incluir conselheiros independentes pode gerar tensões. Se não houver alinhamento de valores, objetivos e expectativas, o Conselho pode:

  • Tomar decisões que conflitem com a visão dos controladores;
  • Atuar de forma reativa, burocrática ou meramente fiscalizatória;
  • Gerar impasses que travam o andamento de projetos importantes.

É fundamental, portanto, investir não apenas na qualidade técnica, mas também na composição estratégica e na integração do Conselho com a cultura e o plano de longo prazo da empresa.

Imagem ilustrativa sobre desafios de governança

Tendências futuras

  • O mercado tem valorizado conselhos diversos e com competências técnicas específicas (ex.: ESG, inovação, risco cibernético).
  • Espera-se maior pressão de investidores por transparência nas votações e na atuação dos conselheiros.
  • O papel do conselho tende a se aproximar de uma instância estratégica e ética, com mais foco em valor de longo prazo.

Aderir ao Novo Mercado exige muito mais do que cumprir regras. É um passo firme em direção a uma governança mais profissional, transparente e sustentável. Para isso, o Conselho de Administração precisa evoluir. Ser mais técnico, mais plural e mais atuante. Empresas que entendem essa transformação saem na frente. As que resistem, ficam para trás — mesmo com capital aberto.

Fontes e referências utilizadas

  1. B3 – Brasil, Bolsa, Balcão Segmentos de Listagem – Novo Mercado. Manual do Novo Mercado. Regras de listagem e requisitos de governança corporativa para empresas listadas.
  2. Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. Guias e cadernos técnicos sobre conselhos de administração, conselheiros independentes e estrutura de governança.
  3. Comissão de Valores Mobiliários (CVM) Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/76). Instruções e resoluções sobre regras de governança e transparência. Relatórios de governança corporativa exigidos pela CVM.
  4. OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) Principles of Corporate Governance. Diretrizes internacionais utilizadas como referência nos padrões da B3.
  5. Relatórios de empresas listadas no Novo Mercado Documentos de referência, atas de assembleias e relatórios anuais de companhias como: Natura, Weg, Itaúsa, Raia Drogasil, Movida, entre outras.
  6. Estudos acadêmicos e de mercado Artigos sobre os impactos da governança no valor das empresas (ex.: estudos da FGV, Insper, IBGC e ANBIMA). Pesquisas que relacionam governança corporativa, custo de capital e desempenho de longo prazo.
  7. Experiência prática e análises do mercado Boletins da MZ Group, Deloitte, PwC, KPMG e EY sobre governança corporativa e tendências em conselhos. Artigos de especialistas em governança publicados em veículos como Valor Econômico, Capital Aberto, Exame, NeoFeed e Brasil Journal.
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Mónica Sofia Polaco Vieira

Economista | Governança Corporativa | Finanças | Transformação | Estratégia e Desenvolvimento de Negócios | Treinamentos e Palestras in Company