Um tema que sempre gosto de falar aqui é sobre a governança corporativa, que, se olharmos para frente, para o futuro, está claro de que deve passar por uma série de transformações e ajustes estratégicos que os conselhos e seus comitês precisarão enfrentar nos próximos anos. Neste sentido, queria comentar sobre alguns resultados interessantes de uma pesquisa feita pelo pessoal do Global Network of Director Institutes (GNDI), aonde é possível identificar tendências relevantes que irão orientar as práticas de governança, e que vou tentar detalhar abaixo algumas destas tendências que achei mais importante e que merecem sua atenção.
Segundo a pesquisa, a necessidade de uma estratégia robusta e de longo prazo em um ambiente dominado por pressões de curto prazo é reconhecida como prioridade crítica por 66% dos conselheiros, mostrando a relevância na estratégia de longo prazo, que visa apoiar o sucesso organizacional e contrastar com a tendência de foco no curto prazo que prevalece no ambiente corporativo atual. Além disso, a diversidade e inclusão surgem e crescem como temas fundamentais, com a percepção de que a diversidade pode aprimorar as práticas do conselho dentro de três a cinco anos. A incorporação de avanços tecnológicos também é vista como essencial, indicando uma necessidade urgente de suprir lacunas em habilidades relacionadas à cibersegurança e inovação digital.
No curto prazo, os conselhos estão voltando a focar em mandatos críticos que haviam sido ofuscados por questões operacionais de curto prazo nos últimos anos, como por exemplo as questões como continuidade dos negócios e resiliência (com 39% de ênfase) e capital humano (28%) são destacadas como prioridades essenciais, refletindo os tempos dinâmicos e voláteis, exigindo que os conselhos sejam ágeis e adaptáveis, melhorando a qualidade dos relatórios gerenciais e promovendo a educação continuada dos diretores em habilidades específicas.
Para o médio prazo, a pesquisa mostra uma lacuna crítica em habilidades de governança digital, com 55% dos conselheiros apontando deficiências em ciber-riscos e 54% em inovação digital. Além disto, a preparação para gerenciar riscos e oportunidades relacionadas a mudanças climáticas, economia globalizada e questões geopolíticas também são destacadas. Além disso, aumenta a demanda por uma governança que reconheça a importância das questões ESG (ambientais, sociais e de governança), com 65% dos conselhos acreditando possuir a expertise necessária, embora ainda vista como insuficiente.
Olhando para mais a frente ainda, a pesquisa mostra uma transformação significativa dos conselhos, que deverão expandir comitês para incluir tecnologia e sustentabilidade, com 83% dos conselheiros prevendo essa mudança. Uma ênfase maior será colocada na responsabilidade dos conselhos em atender aos interesses de múltiplos stakeholders e em ser mais dirigidos por propósitos e impactos, com 80% dos conselheiros antecipando essa necessidade.
Essas tendências indicam uma jornada desafiadora e transformadora para os conselhos, exigindo uma reavaliação contínua das estruturas de governança para alinhar-se com um ambiente global em constante mudança. A governança corporativa do futuro será moldada por uma combinação de pressões estratégicas de longo prazo, diversidade e inclusão, competências digitais e a integração de práticas ESG, refletindo uma evolução significativa nos papéis e expectativas dos conselhos.
Vamos então agora detalhar abaixo mais alguns pontos de destaque:
Diversidade e Inclusão
O relatório destaca que 42% dos conselheiros consideram que a falta de diversidade e inclusão nas práticas atuais dos conselhos será inaceitável nos próximos 3 a 5 anos. Embora apenas 25% vejam isso como uma prioridade no curto prazo, 37% acreditam que será uma mudança chave necessária a médio prazo, e 78% projetam que conselhos mais diversos serão uma mudança crucial no futuro de longo prazo. Isso mostra bem a crescente importância de estruturas de governança que refletem uma ampla gama de perspectivas e experiências, o que pode enriquecer a tomada de decisão e aprimorar a resiliência organizacional.
Foco Estratégico de Longo Prazo
A pesquisa mostrou de que 66% dos conselheiros apontam o foco em estratégias de longo prazo como sua prioridade mais crítica para o sucesso organizacional, especialmente num ambiente dominado por pressões de curto prazo. Aproximadamente 60% dos conselheiros destacam que aprimorar o diálogo estratégico efetivo no conselho e entre o conselho e a gestão é a principal área de melhoria prevista para os próximos 3 a 5 anos. Isso evidencia a necessidade de os conselhos se engajarem em planejamento e revisões estratégicas contínuas para antecipar e responder às mudanças do mercado e às expectativas dos stakeholders.
Avaliações do Conselho
Mais de 50% dos conselheiros afirmam que aprimorar os processos de avaliação do conselho é sua principal prioridade para melhorar o desempenho do conselho, e 30% consideram que atualizar esses processos é uma área significativa de melhoria para os próximos 3 a 5 anos, e 31% acreditam que a falta de avaliações formais e rigorosas será menos aceitável nesse período. Isso destaca a necessidade de mecanismos eficazes para avaliar e aprimorar continuamente a eficácia do conselho.
Tomada de Decisão Rigorosa
Cerca de 50% dos conselheiros indicam que o rigor na tomada de decisões do conselho é sua prioridade de melhoria para o funcionamento eficaz de seus conselhos. Além disso, 47% mencionam que aprimorar a análise e os processos decisórios do conselho, incluindo o uso de análise de dados, é o foco chave para melhorar a governança do conselho nos próximos 3 a 5 anos. Este foco mostra a importância de uma tomada de decisão informada e baseada em evidências no ambiente de negócios atual.
Mudança Climática
Outro número que chamou atenção na pesquisa, foi de que apenas 27% dos conselheiros consideram que a falta de deliberação e foco em questões sociais ou ambientais será menos aceitável nos próximos 3 a 5 anos, apesar das mudanças legislativas, dos crescentes requisitos de relatórios e dos desastres naturais agravantes. Apenas 5% veem a mudança climática como uma prioridade crítica atualmente, evidenciando uma desconexão potencial entre a percepção de risco e a urgência requerida para ações eficazes no contexto de mudanças climáticas.
Governança Digital
A pesquisa mostrou ainda de que 83% dos conselheiros preveem que a expansão dos comitês do conselho para incluir: riscos, tecnologia e sustentabilidade será uma mudança chave para o futuro. Atualmente, a transformação digital ocupa apenas o quinto lugar (21%) entre as prioridades críticas para o sucesso organizacional, apesar de riscos cibernéticos e inovação digital serem identificados por 55% e 54% dos conselheiros como áreas onde seus conselhos possuem competências insuficientes. Isso indica uma necessidade emergente de adaptar a estrutura e as competências dos conselhos para enfrentar desafios e oportunidades na era digital.
Queria detalhar agora alguma das prioridades imediatas (próximos 2 anos) que pesquisa mostrou:
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Prioridades de Negócios:
- Foco de Longo Prazo para o Sucesso de Longo Prazo: Os conselhos estão sendo incentivados a manter um forte foco em estratégias de longo prazo, apesar das pressões de curto prazo, que ajuda a garantir que as empresas não apenas reajam às condições de mercado imediatas, mas também se preparem para sustentabilidade e crescimento futuros, o que envolve a adoção de uma visão ampla que considera mudanças econômicas globais, tendências tecnológicas e variações nas preferências dos consumidores.
- Governança Ágil: A governança ágil se tornou crucial, especialmente à medida que as empresas continuam a enfrentar interrupções e mudanças rápidas no ambiente de negócios, o que implica que os conselhos devem ser capazes de adaptar suas estratégias rapidamente e estar sempre aprendendo e incorporando novas informações e técnicas para melhorar a resiliência e a capacidade de resposta das empresas.
- Desafios do Capital Humano: O capital humano surge como uma prioridade significativa, destacando a importância da gestão de talentos e do desenvolvimento de uma força de trabalho robusta e adaptável. Enfrentar a escassez de mão de obra, adaptar-se às mudanças nas expectativas dos trabalhadores e investir em treinamento e desenvolvimento são vistos como essenciais para manter a competitividade e a inovação.
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Prioridades de Melhoria:
- Papéis e Relatórios de Gestão e do Conselho: A pesquisa mostrou a importância de definir claramente os papéis entre a gestão e o conselho, melhorando a qualidade dos relatórios de gestão. Isso inclui garantir que as informações fornecidas ao conselho sejam precisas, oportunas e completas para facilitar uma tomada de decisão eficaz.
- Cultura e Dinâmica do Conselho: A cultura do conselho é importante para o funcionamento eficaz dos conselhos. Promover um ambiente de respeito mútuo, confiança e debate aberto é essencial para fomentar a inovação e a tomada de decisão efetiva. Além disto, a diversidade de pensamento e a segurança psicológica são componentes importantes dessa cultura.
- Aumento de Desempenho e Habilidades: Melhorar o desempenho do conselho através da educação contínua e do desenvolvimento de habilidades específicas é uma prioridade, o que significa fortalecer competências em áreas emergentes como: riscos, controles internos, compliance, cibersegurança, tecnologia e sustentabilidade.
- Melhoria na Tomada de Decisões do Conselho: Há uma necessidade de aprimorar o rigor no processo decisório do conselho, o que significa utilizar análises de dados e informações baseadas em evidências para embasar as decisões, além de gerenciar as reuniões de forma eficaz para cobrir tópicos críticos adequadamente.
- Planejamento para Diversidade: Planejar para aumentar a diversidade dentro dos conselhos é importante para melhorar a eficácia e a relevância das decisões, o que se reflete em uma maior aceitação de que conselhos diversificados são capazes de compreender melhor as complexidades do ambiente de negócios globalizado.
- Mudança Climática – Não é Prioridade? Apesar da crescente atenção global às questões climáticas, a pesquisa revelou que a mudança climática ainda não é considerada uma prioridade crítica para muitos conselhos. Isso sugere uma área de potencial desenvolvimento, à medida que as pressões regulatórias e as expectativas dos stakeholders continuam a crescer nesse sentido.
Queria agora comentar abaixo sobre alguns dos aspectos críticos que demandarão atenção especial de médio prazo nos próximos 3 a 5 anos.
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Lacunas de Expertise:
- Lacunas em Governança Digital: A governança digital está rapidamente se tornando um foco crítico para os conselhos, com 55% dos conselheiros reconhecendo uma falta significativa de expertise em ciber riscos e 54% em inovação digital. Isso reflete a necessidade urgente de desenvolver competências que possam efetivamente lidar com as ameaças e oportunidades emergentes no espaço digital, desde a segurança cibernética até a implementação de novas tecnologias.
- Ascensão dos Fatores Geopolíticos: Os conselhos devem também estar atentos à instabilidade geopolítica crescente, que afeta diretamente as operações globais. O ambiente geopolítico em rápida mudança requer que os conselhos compreendam e naveguem pelas complexidades dos mercados em que operam, particularmente em setores impactados por sanções internacionais e conflitos.
- Meio Ambiente, Social e Governança (ESG): Apesar de 65% dos conselhos acreditarem possuir a expertise necessária em questões ESG, ainda existe uma grande preocupação com a lacuna de conhecimento real sobre o impacto do ESG como motor de oportunidade e risco. A conformidade com regulamentos emergentes e as expectativas crescentes dos stakeholders em relação à sustentabilidade exigem um entendimento profundo e uma integração dessas questões nas estratégias de negócios.
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Práticas do Conselho:
- Lacunas em Governança Digital: Além da falta de habilidades, a incorporação de governança digital eficaz nos conselhos requer uma revisão das práticas atuais para garantir que a tecnologia esteja integrada na tomada de decisões estratégicas.
- Avaliações do Conselho Aonde o Melhor é Melhor: Mais de 50% dos conselheiros enfatizam a importância de melhorar os processos de avaliação do conselho como um meio de aprimorar o desempenho geral do conselho. A introdução de avaliações formais e rigorosas é vista como essencial para identificar e mitigar deficiências no funcionamento do conselho.
- As Conversas Certas: Aumentar o diálogo estratégico eficaz entre o conselho e a gestão é identificado por 60% dos conselheiros como uma área chave de melhoria. Isso inclui definir métricas prospectivas e indicadores de desempenho que ajudem a orientar as decisões para além da dependência de dados históricos.
- Os Dados Certos: Melhorar a análise de decisão do conselho através do uso de análise de dados é crucial em um ambiente operacional dinâmico. Os conselhos precisam assegurar a eficácia das fontes de dados e que a visão organizacional se mantenha como foco principal nas discussões estratégicas.
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Mudança na Paisagem de Governança:
- Fazer as Nomeações Certas: A diversidade nos conselhos é cada vez mais vista como um imperativo estratégico, e não apenas como uma métrica de conformidade. Isso está mudando a forma como os conselhos são formados e como os novos conselheiros são selecionados, com ênfase na inclusão de uma ampla gama de experiências e perspectivas.
- CEO: A prática de um CEO servir simultaneamente como presidente do conselho está sendo questionada, com muitas empresas optando por separar esses papéis para garantir uma governança mais objetiva e independente. Isso reflete uma tendência de aumentar a responsabilidade e reduzir os conflitos de interesse dentro dos conselhos.
A pesquisa olhou mais para frente para o horizonte de 2030 e além, e a pesquisa antecipou mudanças significativas na forma como os conselhos operam e nas responsabilidades que assumem, e vou tentar resumir alguns dos principais tópicos discutidos:
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Mudanças Futuras:
- Transformação do Conselho: A transformação do conselho é vista como essencial diante das crescentes expectativas dos stakeholders e das rápidas mudanças nos ambientes regulatório, social e empresarial. A pesquisa destaca que 83% dos conselheiros preveem uma expansão dos comitês do conselho para incluir, riscos e tecnologia e sustentabilidade. Além disso, há uma expectativa de que os conselhos sejam mais responsáveis perante múltiplos stakeholders e sejam impulsionados por propósitos e impactos mais definidos, com 80% dos conselheiros vendo isso como uma mudança necessária.
- Foco em Tecnologia e Sustentabilidade: O papel crescente da tecnologia e a necessidade de práticas sustentáveis são reconhecidos como fundamentais para a governança futura. A pesquisa indica que essas áreas, que atualmente podem não receber a devida atenção, se tornarão centrais nas estratégias dos conselhos. Isso reflete uma mudança em direção a operações mais ecológicas e éticas, bem como a incorporação de inovações tecnológicas que podem transformar setores inteiros.
- Transformação Digital e O Futuro é Agora: A transformação digital é identificada como uma das maiores oportunidades e riscos para as empresas, com a digitalização permeando todos os aspectos das operações empresariais. Apesar de apenas 21% dos conselheiros priorizarem isso atualmente, espera-se que essa área ganhe muito mais importância, exigindo que os conselhos desenvolvam uma compreensão mais profunda e habilidades para governar efetivamente neste novo ambiente.
- Impulsionados por Propósitos e Motivadores de Propósitos: Os conselhos do futuro serão cada vez mais avaliados pela clareza e pela execução de seus propósitos corporativos. Isso envolve não apenas definir metas financeiras, mas também como a empresa serve a seus clientes, empregados, e a sociedade de maneira mais ampla. As expectativas em torno da responsabilidade social das empresas estão crescendo, e os conselhos terão que liderar com valores e ética que ressoem com uma gama mais ampla de stakeholders.
Esses pontos refletem uma mudança paradigmática no papel dos conselhos, que exigirá uma nova abordagem para a governança corporativa. Os conselhos do futuro precisarão ser mais ágeis, mais estratégicos e mais adaptáveis do que nunca, equipados para enfrentar desafios globais complexos enquanto permanecem fiéis a um conjunto de valores e propósitos bem definidos. A capacidade de integrar tecnologia, sustentabilidade e uma visão orientada ao propósito não será apenas desejável, mas essencial para o sucesso e a relevância a longo prazo.
Podem baixar o documento completo (em inglês) com mais detalhes no seguinte link abaixo: