Em um país onde operações como a Lava Jato expuseram falhas éticas em setores estratégicos como construção e energia, a pressão por programas de compliance robustos nunca foi tão alta. No entanto, em meio a prazos apertados e orçamentos enxutos, muitas empresas brasileiras estão optando por um caminho perigoso: adquirir documentos padronizados de integridade, contratar consultorias que “entregam políticas em 30 dias” ou assinar plataformas que oferecem modelos genéricos de códigos de conduta. O resultado? Programas que existem no papel, mas falham na prática — colocando as organizações na mira de multas milionárias e danos reputacionais.
A ilusão começa com a promessa de agilidade. Empresas de tecnologia, por exemplo, adquirem políticas de privacidade pré-formatadas para cumprir a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), sem adaptá-las ao fluxo real de dados internos. Construtoras, ainda sob o trauma da Lava Jato, implementam códigos de ética copiados de multinacionais, ignorando riscos específicos de subcontratação em obras públicas. É como usar um mapa do metrô de Nova York para navegar em São Paulo: pode até ter estações, mas não reflete a realidade local.
A essência de um programa de compliance eficaz está na análise de risco contextualizada — um processo que identifica ameaças específicas do setor, porte da empresa e até peculiaridades regionais. Um hospital no Nordeste, por exemplo, precisa de controles rígidos contra desvios de medicamentos (um risco histórico na região), enquanto uma fintech em São Paulo deve priorizar mecanismos antifraude em transações digitais. Políticas genéricas, no entanto, tratam todos os cenários como iguais. Já vi empresas do setor de óleo e gás usarem modelos importados que não mencionavam sequer a Lei Anticorrupção (12.846/2013). É um convite ao desastre.
De nada adianta ter um manual sofisticado se os colaboradores não o compreendem ou não o levam a sério. Um caso emblemático ocorreu em uma indústria mineira: a empresa adotou um canal de denúncias em inglês, replicado de uma matriz europeia, mas 70% dos funcionários não tinham fluência no idioma. O resultado? Um ano sem registros de irregularidades — e uma investigação do Ministério Público por suspeita de acobertamento.
Aqui, entra outro desafio: a matriz de risco (ferramenta que classifica ameaças por probabilidade e impacto) precisa considerar o grau de conscientização dos times. Em uma mineradora na Amazônia, por exemplo, treinamentos sobre subornos a agentes públicos precisam ser mais frequentes e didáticos, diante do histórico de conflitos na região. Já em startups de TI, onde a rotatividade é alta, políticas de compliance devem ser integradas ao onboarding digital.
Mesmo quando as políticas são bem desenhadas, a execução esbarra em desafios operacionais. Como rastrear a adesão a um código de conduta em uma rede de franquias com 200 lojas? Algumas empresas tentam automatizar o processo com sistemas de assinatura eletrônica, mas esquecem de definir SLAs (acordos de nível de serviço), como prazos máximos para respostas a denúncias. Sem isso, um caso de assédio pode ficar meses “parado” na caixa de entrada de um gestor sobrecarregado.
Outro erro comum é subestimar a necessidade de FTEs (equivalente a profissionais em tempo integral). Uma holding do Rio de Janeiro, por exemplo, adotou um programa de due diligence (avaliação de riscos) para terceiros, mas não contratou analistas suficientes. Com isso, fornecedores críticos ficaram sem auditoria — e a empresa foi multada por contratar uma empresa envolvida em esquemas de sonegação.
A fase mais negligenciada em programas “de prateleira” é o monitoramento contínuo. Políticas estáticas não capturam mudanças como a expansão para um novo Estado ou alterações na legislação. Em 2022, um varejista gaúcho foi autuado porque seu programa não incluía controles contra publicidade enganosa — uma exigência recente do Procon-SP, onde a empresa havia aberto filiais.
A CGU (Controladoria-Geral da União) já deixou claro: programas de compliance superficiais não garantem atenuação de penalidades. Em 2021, uma empresa de transporte foi multada em R$ 28 milhões mesmo após apresentar um “programa de integridade”, julgado pela Justiça como “mero protocolo burocrático”. Para piorar, casos assim ganham destaque na imprensa, manchando marcas e afastando investidores.
Não há atalhos. Empresas que buscam sobreviver em um mercado cada vez mais regulado precisam encarar o compliance como um projeto contínuo, não como uma corrida para “cumprir checklist”. Isso envolve mapear riscos reais, engajar líderes como embaixadores da ética e, acima de tudo, ouvir os profissionais da área — aqueles que conhecem os “atalhos perigosos” e as rotas seguras.