Artigo
12/09/2025

Quando a Resiliência deixa de ser Discurso e vira Prática

Explora como a resiliência e gestão de riscos corporativos se aplicam na prática, inspirando-se na trajetória do ultramaratonista Márcio Villar.

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No mundo empresarial, fala-se cada vez mais em "resiliência", "antifragilidade" e "gestão de riscos dinâmicos", porém, poucas vezes conseguimos visualizar com tanta nitidez o que esses conceitos significam quando colocados em teste extremo.

Pois outro dia estava assistindo a um TED quando me deparei com a bela história de vida do corredor Marcio Villar, que traz exatamente um belo exemplo de aplicação prática da resiliência humana diante de cenários absolutamente imprevisíveis, intensos e não lineares, condições que, por analogia, representam os ambientes de negócios atuais marcados por crises sanitárias, transformações tecnológicas, guerras, desinformação e riscos ESG crescentes.

A trajetória do Villar, que vai desde um episódio que quase lhe tirou a vida até a conquista de múltiplos recordes mundiais em corridas extremas, representa uma narrativa poderosa sobre como antecipar riscos, se preparar, falhar, aprender com os erros, se adaptar rapidamente e persistir com clareza estratégica.

Esses elementos são os mesmos que definem a efetividade de um sistema de gestão de riscos corporativo e a robustez de um plano de continuidade de negócios.

“Em um mundo onde o inesperado deixou de ser exceção, sobreviver não basta, mas é preciso aprender a correr riscos com coragem e inteligência.”

Vale a pena conhecer sua emocionante história e ver como tem a ver com resiliência. Usando a história que ele contou no vídeo acima, vou abordar o tema da resiliência e gestão de riscos nas empresas.

Identificação dos riscos e a ilusão do controle com limites autoimpostos x limites reais

O ponto de partida da resiliência, tanto pessoal quanto organizacional, é o reconhecimento de que os riscos existem e, mais do que isto, de que muitos deles estão fora do nosso controle. A história do Márcio Villar mostra bem isso quando ele fala de que não era um atleta, tampouco tinha o biotipo ideal, mas começou a correr, usando a corrida como um processo terapêutico.

Ao se deparar com seus próprios limites fisiológicos, percebeu que grande parte das barreiras que impunha a si mesmo estavam fundamentadas em medo, inércia e crenças limitantes, exatamente como ocorre em empresas que evitam tomar riscos por medo da exposição reputacional ou da responsabilização posterior.

Nesse sentido, a gestão de riscos deve começar com uma avaliação realista e desapaixonada sobre quais são os riscos estratégicos que ameaçam a continuidade do negócio, distinguindo entre aqueles que são "inaceitáveis" e os que, quando bem compreendidos, podem se tornar fontes de vantagem competitiva.

O Villar não nega o risco, mas sim o estuda, o fragmenta, o entende e, principalmente, se prepara com antecedência. É o mesmo princípio das análises de cenários extremos, stress testing e simulações de crise, aplicadas a ambientes empresariais de alto risco operacional ou regulatório.

“O maior risco não está no que enfrentamos lá fora, mas no que deixamos de enfrentar dentro da empresa por medo de errar.”

Preparação deliberada e disciplina no gerenciamento da adversidade, pois a resiliência não nasce espontaneamente

Ao treinar para correr 700 km em uma esteira ou atravessar os 217 km no deserto do Vale da Morte na Califórnia sob 50ºC, o Villar demonstra que resiliência não é uma característica nata, mas uma competência construída com planejamento, repetição e adaptação. Ele estuda os detalhes: alimentação, repouso, metabolismo, equipamentos, falhas anteriores.

Da mesma forma, empresas resilientes não são aquelas que têm sorte, mas sim aquelas que investem deliberadamente em capacidades organizacionais que lhes permitem antecipar, absorver, responder e evoluir frente aos choques.

No mundo corporativo, isso se traduz no mapeamento de riscos críticos com base em dados históricos e inteligência prospectiva, na construção de planos de contingência com responsabilidade definida e alçadas claras, em simulações de incidentes com validação de protocolos de resposta e na capacitação contínua das equipes de linha e dos tomadores de decisão.

A gestão de riscos eficaz é, portanto, uma forma institucional de treino sistemático, assim como um ultramaratonista treina não para não sentir dor, mas para saber como lidar com ela e continuar.

“Resiliência não se improvisa na crise: ela se constrói nos bastidores, com treino duro, estratégia clara e cultura forte.”

Adaptação em tempo real ao navegar na incerteza sem abandonar o propósito

Nos momentos em que Villar se perde no deserto ou precisa correr com bolhas nos pés, há uma lição fundamental para o mundo corporativo: não existe plano perfeito. Por mais que a preparação seja detalhada, a realidade trará imprevistos, e é exatamente nesses momentos que a capacidade de improvisar com inteligência e foco no propósito se torna crítica.

Vejam que o Villar não busca perfeição, mas consistência. Quando falha, adapta. Quando sofre, reestrutura. Mas nunca perde o foco. Empresas com maturidade em gestão de riscos e governança ágil desenvolvem essa mesma habilidade de ajuste tático sem perder o alinhamento estratégico, através de mecanismos de monitoramento contínuo dos indicadores de risco, com canais de reporte rápido para decisões corretivas e uma governança clara sobre trade-offs de risco versus retorno, e a capacidade de realocar recursos rapidamente com base em sinais emergentes.

A resiliência aqui não é apenas resistência, mas fluidez com propósito.

“Quando o plano falha, o que salva a empresa não é o manual, mas a mentalidade de quem lidera com propósito.”

Mentalidade de longo prazo, pois a resiliência é visão estratégica, não reação emocional

Ao narrar sua experiência de correr por mais de 7 dias seguidos, ele explica que o segredo não é pensar na distância final, mas no próximo quilômetro, ou como ele mesmo diz: “você só desiste quando seu cérebro manda, não seu corpo”. Essa distinção entre dor física e desistência cognitiva é o que separa resiliência verdadeira de reatividade emocional.

No contexto corporativo, isso é uma crítica direta àquelas empresas que desistem prematuramente de estratégias relevantes porque enfrentaram críticas públicas, choques reputacionais ou pressões de curto prazo do mercado. Resiliência estratégica exige capacidade de sustentar o propósito sob pressão, o que envolve não apenas liderança comprometida, mas também conselhos de administração que compreendam que risco e retorno caminham juntos e que nem todo desvio de rota exige abandono de estratégia.

“Desistir da estratégia no primeiro tropeço é como abandonar a maratona por causa da primeira subida, pois visão sem persistência é só discurso.”

Cultura, inspiração e sentido coletivo com o fator humano da resiliência

Ao longo de sua fala, o Villar revela o que o move, que são as causas sociais, amor pelos filhos, vontade de inspirar. Essa dimensão subjetiva é muitas vezes negligenciada nos relatórios de risco, mas é paradoxalmente a mais determinante. Empresas resilientes são movidas por um senso de propósito claro, compartilhado por suas lideranças e disseminado por toda a empresa. São culturas em que o erro não é punido sumariamente, mas tratado como aprendizado. Onde o colaborador sente que seu esforço contribui para algo maior.

Na prática, isso significa, por exemplo, integrar gestão de riscos à cultura corporativa e aos valores da empresa, e também reconhecer comportamentos de resiliência em todos os níveis hierárquicos, e incentivar o protagonismo individual na resposta aos riscos, para alinhar métricas e incentivos não só ao desempenho financeiro, mas à sustentabilidade e integridade.

“Empresas que inspiram pessoas a correrem juntas pelo mesmo propósito criam a única vantagem competitiva que não pode ser copiada, mas a força da alma é coletiva.”

Um exemplo real e poderoso para conselhos e lideranças

A história do Márcio Villar é, em essência, uma alegoria prática de como enfrentar riscos extremos com disciplina, coragem, preparo, adaptabilidade e visão de longo prazo. Tudo o que um conselho de administração exige de sua diretoria. Tudo o que um Chief Risk Officer (CRO) precisa comunicar em seu apetite a riscos. Tudo o que uma empresa precisa para sobreviver em um mundo onde o próximo impacto pode vir de um vírus, de um vazamento de dados, de uma guerra ou de um colapso climático.

O Villar mostra que o impossível não é um limite, mas um diagnóstico de onde ainda não chegamos, e que a superação começa antes com a mente do que com o músculo. Uma lição que vale para ultramaratonas e para a travessia corporativa em tempos incertos.

“A verdadeira força de uma empresa não está na ausência de crises, mas na capacidade de seguir em frente, um passo de cada vez, mesmo quando tudo parece impossível.”

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que significa o conceito de resiliência no contexto empresarial?
No contexto empresarial, a resiliência refere-se à capacidade de uma organização antecipar riscos, preparar-se para eles, falhar, aprender com os erros, adaptar-se rapidamente a mudanças e persistir com clareza estratégica. Envolve também a habilidade de antecipar, absorver, responder e evoluir diante de choques e adversidades.
O que são "riscos dinâmicos" no ambiente de negócios?
O termo "riscos dinâmicos" não é explicitamente definido. No entanto, é associado a cenários absolutamente imprevisíveis, intensos e não lineares que caracterizam os ambientes de negócios atuais, como os decorrentes de crises sanitárias, transformações tecnológicas aceleradas, conflitos geopolíticos (guerras), disseminação de desinformação e crescentes riscos relacionados a fatores ambientais, sociais e de governança (ESG).
O que é "antifragilidade" no contexto empresarial?
O termo "antifragilidade" é mencionado como um conceito cada vez mais presente no mundo empresarial, porém não há uma definição ou explicação detalhada sobre ele no conteúdo disponível.
Como a gestão de riscos deve abordar a distinção entre diferentes tipos de riscos corporativos?
A gestão de riscos deve começar com uma avaliação realista e objetiva dos riscos estratégicos que podem ameaçar a continuidade do negócio. É fundamental distinguir entre aqueles riscos considerados "inaceitáveis" e aqueles que, se bem compreendidos e gerenciados, podem se transformar em fontes de vantagem competitiva.Essa abordagem implica não em negar a existência do risco, mas em estudá-lo detalhadamente, analisando seus componentes, compreendendo sua natureza e, principalmente, preparando-se para ele de forma antecipada.
Quais ferramentas ou métodos podem ser utilizados para a gestão de riscos em ambientes empresariais?
Para a gestão de riscos em ambientes empresariais, especialmente aqueles com alto risco operacional ou regulatório, podem ser aplicados métodos como análises de cenários extremos, testes de estresse (stress testing) e simulações de crise. Estes métodos seguem o princípio de estudar e preparar-se antecipadamente para os riscos.
Qual é o ponto de partida para o desenvolvimento da resiliência, tanto em nível pessoal quanto organizacional?
O ponto de partida para o desenvolvimento da resiliência, seja em âmbito pessoal ou organizacional, é o reconhecimento da existência dos riscos e da realidade de que muitos deles estão fora do controle direto. Este reconhecimento envolve a superação de barreiras internas, como medo, inércia e crenças limitantes, que frequentemente impedem a tomada de riscos calculados e a adaptação.
De que forma as empresas podem superar o receio de assumir riscos?
As empresas podem superar o receio de assumir riscos, como o medo de danos à reputação ou de responsabilização futura, por meio de uma avaliação realista e objetiva dos riscos estratégicos. Devem diferenciar os riscos que são "inaceitáveis" daqueles que, uma vez compreendidos, podem gerar vantagens competitivas. É crucial não ignorar os riscos, mas sim estudá-los, entendê-los e preparar-se para eles com antecedência.
A resiliência é uma característica inata ou uma competência que pode ser desenvolvida nas organizações?
A resiliência não é uma característica inata, mas sim uma competência que pode ser construída e aprimorada. Ela é desenvolvida através de planejamento cuidadoso, prática e repetição, e da capacidade de adaptação. Empresas resilientes não são aquelas que contam com a sorte, mas sim aquelas que investem de forma deliberada no desenvolvimento de capacidades organizacionais para enfrentar adversidades.
Como as empresas podem se preparar para adversidades e fortalecer sua resiliência?
As empresas podem fortalecer sua resiliência investindo de forma intencional em capacidades organizacionais que lhes permitam antecipar, absorver, responder e evoluir diante de choques. Isso inclui ações como o mapeamento de riscos críticos, utilizando dados históricos e inteligência prospectiva; a criação de planos de contingência com responsabilidades bem definidas e níveis de autoridade claros; a realização de simulações de incidentes para validar protocolos de resposta; e a capacitação contínua das equipes operacionais e dos tomadores de decisão.Nesse sentido, uma gestão de riscos eficaz funciona como uma forma institucionalizada de treinamento sistemático para a adversidade.
Qual é a importância da capacidade de adaptação em tempo real para as empresas em ambientes de incerteza?
A capacidade de adaptação em tempo real é fundamental para as empresas, pois, mesmo com o planejamento mais detalhado, a realidade frequentemente apresenta imprevistos. Nesses momentos, a habilidade de improvisar com inteligência, mantendo o foco no propósito principal, torna-se crítica. O objetivo não é a perfeição, mas a consistência: diante de falhas, a empresa se adapta; diante de dificuldades, ela se reestrutura, sem nunca perder de vista seus objetivos centrais.
Como empresas com maturidade em gestão de riscos e governança ágil demonstram sua capacidade de adaptação?
Empresas com maturidade em gestão de riscos e governança ágil demonstram sua capacidade de adaptação por meio da habilidade de realizar ajustes táticos sem perder o alinhamento estratégico. Isso é alcançado através de mecanismos de monitoramento contínuo dos indicadores de risco, canais de comunicação ágeis para decisões corretivas, uma governança clara sobre os trade-offs entre risco e retorno, e a capacidade de realocar recursos rapidamente com base em sinais emergentes e novas informações.Nesse contexto, a resiliência é entendida não apenas como resistência passiva, mas como uma fluidez direcionada por um propósito claro.
O que caracteriza a resiliência estratégica no contexto corporativo?
A resiliência estratégica, no contexto corporativo, é a capacidade de uma organização sustentar seu propósito fundamental sob pressão, mesmo quando confrontada com críticas públicas, choques reputacionais ou exigências de curto prazo do mercado. Ela envolve a manutenção de uma visão de longo prazo e a recusa em abandonar prematuramente estratégias relevantes devido a obstáculos temporários, diferenciando-se de uma reação puramente emocional aos desafios. Para isso, é necessária uma liderança comprometida e conselhos de administração que compreendam a interligação entre risco e retorno, e que reconheçam que nem todo desvio de percurso exige o abandono da estratégia central.
Como a distinção entre dor e desistência cognitiva se aplica à resiliência empresarial?
A distinção entre uma dificuldade real (comparável à dor física) e a decisão de desistir (desistência cognitiva) é crucial para a resiliência empresarial. Assim como um atleta pode continuar apesar da dor porque sua mente não desistiu, as empresas demonstram resiliência quando não abandonam suas estratégias importantes ao primeiro sinal de dificuldade ou pressão. A verdadeira resiliência se manifesta na capacidade de manter o curso e o propósito, mesmo sob pressão, diferenciando-se de uma reação puramente emocional e apressada aos desafios.
Qual o papel da cultura organizacional na construção da resiliência de uma empresa?
A cultura organizacional desempenha um papel determinante na construção da resiliência de uma empresa. Organizações resilientes são frequentemente movidas por um senso de propósito claro, que é compartilhado pelas lideranças e disseminado por todos os níveis da empresa. Essas culturas tendem a encarar erros não como falhas a serem punidas sumariamente, mas como oportunidades de aprendizado. Além disso, promovem um ambiente onde os colaboradores sentem que seus esforços individuais contribuem para um objetivo maior e significativo.
De que maneira as empresas podem cultivar uma cultura organizacional que promova a resiliência?
As empresas podem cultivar uma cultura de resiliência integrando a gestão de riscos à cultura corporativa e aos valores fundamentais da organização. É igualmente importante reconhecer e valorizar comportamentos resilientes em todos os níveis hierárquicos, além de incentivar o protagonismo individual na identificação e resposta aos riscos. Adicionalmente, as métricas de desempenho e os sistemas de incentivo devem ser alinhados não apenas com os resultados financeiros, mas também com a sustentabilidade e a integridade das operações.Um forte senso de propósito compartilhado é essencial, pois empresas que inspiram seus colaboradores a trabalharem juntos em prol de um objetivo comum desenvolvem uma vantagem competitiva difícil de ser replicada.
Quais elementos são essenciais para que as lideranças empresariais, como conselhos de administração e Chief Risk Officers (CROs), enfrentem riscos extremos?
Para enfrentar riscos extremos de forma eficaz, as lideranças empresariais, incluindo conselhos de administração e Chief Risk Officers (CROs), devem cultivar e demonstrar disciplina, coragem, preparo adequado, alta capacidade de adaptabilidade e uma visão estratégica de longo prazo. Estes elementos são cruciais para a sobrevivência e o sucesso de uma empresa em um ambiente de negócios cada vez mais volátil e sujeito a impactos imprevisíveis, como pandemias, incidentes de segurança de dados, conflitos geopolíticos ou eventos climáticos extremos.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante