No mundo empresarial, fala-se cada vez mais em "resiliência", "antifragilidade" e "gestão de riscos dinâmicos", porém, poucas vezes conseguimos visualizar com tanta nitidez o que esses conceitos significam quando colocados em teste extremo.
Pois outro dia estava assistindo a um TED quando me deparei com a bela história de vida do corredor Marcio Villar, que traz exatamente um belo exemplo de aplicação prática da resiliência humana diante de cenários absolutamente imprevisíveis, intensos e não lineares, condições que, por analogia, representam os ambientes de negócios atuais marcados por crises sanitárias, transformações tecnológicas, guerras, desinformação e riscos ESG crescentes.
A trajetória do Villar, que vai desde um episódio que quase lhe tirou a vida até a conquista de múltiplos recordes mundiais em corridas extremas, representa uma narrativa poderosa sobre como antecipar riscos, se preparar, falhar, aprender com os erros, se adaptar rapidamente e persistir com clareza estratégica.
Esses elementos são os mesmos que definem a efetividade de um sistema de gestão de riscos corporativo e a robustez de um plano de continuidade de negócios.
“Em um mundo onde o inesperado deixou de ser exceção, sobreviver não basta, mas é preciso aprender a correr riscos com coragem e inteligência.”
Vale a pena conhecer sua emocionante história e ver como tem a ver com resiliência. Usando a história que ele contou no vídeo acima, vou abordar o tema da resiliência e gestão de riscos nas empresas.
Identificação dos riscos e a ilusão do controle com limites autoimpostos x limites reais
O ponto de partida da resiliência, tanto pessoal quanto organizacional, é o reconhecimento de que os riscos existem e, mais do que isto, de que muitos deles estão fora do nosso controle. A história do Márcio Villar mostra bem isso quando ele fala de que não era um atleta, tampouco tinha o biotipo ideal, mas começou a correr, usando a corrida como um processo terapêutico.
Ao se deparar com seus próprios limites fisiológicos, percebeu que grande parte das barreiras que impunha a si mesmo estavam fundamentadas em medo, inércia e crenças limitantes, exatamente como ocorre em empresas que evitam tomar riscos por medo da exposição reputacional ou da responsabilização posterior.
Nesse sentido, a gestão de riscos deve começar com uma avaliação realista e desapaixonada sobre quais são os riscos estratégicos que ameaçam a continuidade do negócio, distinguindo entre aqueles que são "inaceitáveis" e os que, quando bem compreendidos, podem se tornar fontes de vantagem competitiva.
O Villar não nega o risco, mas sim o estuda, o fragmenta, o entende e, principalmente, se prepara com antecedência. É o mesmo princípio das análises de cenários extremos, stress testing e simulações de crise, aplicadas a ambientes empresariais de alto risco operacional ou regulatório.
“O maior risco não está no que enfrentamos lá fora, mas no que deixamos de enfrentar dentro da empresa por medo de errar.”
Preparação deliberada e disciplina no gerenciamento da adversidade, pois a resiliência não nasce espontaneamente
Ao treinar para correr 700 km em uma esteira ou atravessar os 217 km no deserto do Vale da Morte na Califórnia sob 50ºC, o Villar demonstra que resiliência não é uma característica nata, mas uma competência construída com planejamento, repetição e adaptação. Ele estuda os detalhes: alimentação, repouso, metabolismo, equipamentos, falhas anteriores.
Da mesma forma, empresas resilientes não são aquelas que têm sorte, mas sim aquelas que investem deliberadamente em capacidades organizacionais que lhes permitem antecipar, absorver, responder e evoluir frente aos choques.
No mundo corporativo, isso se traduz no mapeamento de riscos críticos com base em dados históricos e inteligência prospectiva, na construção de planos de contingência com responsabilidade definida e alçadas claras, em simulações de incidentes com validação de protocolos de resposta e na capacitação contínua das equipes de linha e dos tomadores de decisão.
A gestão de riscos eficaz é, portanto, uma forma institucional de treino sistemático, assim como um ultramaratonista treina não para não sentir dor, mas para saber como lidar com ela e continuar.
“Resiliência não se improvisa na crise: ela se constrói nos bastidores, com treino duro, estratégia clara e cultura forte.”
Adaptação em tempo real ao navegar na incerteza sem abandonar o propósito
Nos momentos em que Villar se perde no deserto ou precisa correr com bolhas nos pés, há uma lição fundamental para o mundo corporativo: não existe plano perfeito. Por mais que a preparação seja detalhada, a realidade trará imprevistos, e é exatamente nesses momentos que a capacidade de improvisar com inteligência e foco no propósito se torna crítica.
Vejam que o Villar não busca perfeição, mas consistência. Quando falha, adapta. Quando sofre, reestrutura. Mas nunca perde o foco. Empresas com maturidade em gestão de riscos e governança ágil desenvolvem essa mesma habilidade de ajuste tático sem perder o alinhamento estratégico, através de mecanismos de monitoramento contínuo dos indicadores de risco, com canais de reporte rápido para decisões corretivas e uma governança clara sobre trade-offs de risco versus retorno, e a capacidade de realocar recursos rapidamente com base em sinais emergentes.
A resiliência aqui não é apenas resistência, mas fluidez com propósito.
“Quando o plano falha, o que salva a empresa não é o manual, mas a mentalidade de quem lidera com propósito.”
Mentalidade de longo prazo, pois a resiliência é visão estratégica, não reação emocional
Ao narrar sua experiência de correr por mais de 7 dias seguidos, ele explica que o segredo não é pensar na distância final, mas no próximo quilômetro, ou como ele mesmo diz: “você só desiste quando seu cérebro manda, não seu corpo”. Essa distinção entre dor física e desistência cognitiva é o que separa resiliência verdadeira de reatividade emocional.
No contexto corporativo, isso é uma crítica direta àquelas empresas que desistem prematuramente de estratégias relevantes porque enfrentaram críticas públicas, choques reputacionais ou pressões de curto prazo do mercado. Resiliência estratégica exige capacidade de sustentar o propósito sob pressão, o que envolve não apenas liderança comprometida, mas também conselhos de administração que compreendam que risco e retorno caminham juntos e que nem todo desvio de rota exige abandono de estratégia.
“Desistir da estratégia no primeiro tropeço é como abandonar a maratona por causa da primeira subida, pois visão sem persistência é só discurso.”
Cultura, inspiração e sentido coletivo com o fator humano da resiliência
Ao longo de sua fala, o Villar revela o que o move, que são as causas sociais, amor pelos filhos, vontade de inspirar. Essa dimensão subjetiva é muitas vezes negligenciada nos relatórios de risco, mas é paradoxalmente a mais determinante. Empresas resilientes são movidas por um senso de propósito claro, compartilhado por suas lideranças e disseminado por toda a empresa. São culturas em que o erro não é punido sumariamente, mas tratado como aprendizado. Onde o colaborador sente que seu esforço contribui para algo maior.
Na prática, isso significa, por exemplo, integrar gestão de riscos à cultura corporativa e aos valores da empresa, e também reconhecer comportamentos de resiliência em todos os níveis hierárquicos, e incentivar o protagonismo individual na resposta aos riscos, para alinhar métricas e incentivos não só ao desempenho financeiro, mas à sustentabilidade e integridade.
“Empresas que inspiram pessoas a correrem juntas pelo mesmo propósito criam a única vantagem competitiva que não pode ser copiada, mas a força da alma é coletiva.”
Um exemplo real e poderoso para conselhos e lideranças
A história do Márcio Villar é, em essência, uma alegoria prática de como enfrentar riscos extremos com disciplina, coragem, preparo, adaptabilidade e visão de longo prazo. Tudo o que um conselho de administração exige de sua diretoria. Tudo o que um Chief Risk Officer (CRO) precisa comunicar em seu apetite a riscos. Tudo o que uma empresa precisa para sobreviver em um mundo onde o próximo impacto pode vir de um vírus, de um vazamento de dados, de uma guerra ou de um colapso climático.
O Villar mostra que o impossível não é um limite, mas um diagnóstico de onde ainda não chegamos, e que a superação começa antes com a mente do que com o músculo. Uma lição que vale para ultramaratonas e para a travessia corporativa em tempos incertos.
“A verdadeira força de uma empresa não está na ausência de crises, mas na capacidade de seguir em frente, um passo de cada vez, mesmo quando tudo parece impossível.”