Artigo
12/07/2025

Resiliência e cultura: como subestimamos aquilo que deveríamos usar como ferramenta

Explora como a resiliência pode ocultar problemas culturais e estratégicos nas empresas.

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Por bastante tempo, nos foi vendida a ideia de que resiliência é uma qualidade inquestionável, já que toda empresa precisa de pessoas resilientes para lidar com os desafios. Que todo profissional deve aprender a suportar pressão, lidar com adversidades e engolir situações ruins com um sorriso, porque essa é a fórmula do sucesso.

Mas pouca gente para, visando refletir que em muitos casos, essa tal resiliência virou só uma anestesia social, um rótulo que foi feito para mascarar o fato de que estamos normalizando cenários que não deveriam existir. É como se tivéssemos criado gerações de pessoas altamente preparadas para aguentar contextos ruins e chamando isso de competência.

Quando uma operação falha, quando as pessoas se esgotam ou quando a inovação não acontece, o discurso geralmente aponta para a necessidade de pessoas mais resilientes, mais processos e mais indicadores para controlar na operação seus motivos, mas raramente aponta para a análise honesta sobre quem criou o ambiente que gera esse tipo de problema.

Isso acontece porque é mais confortável propor soluções técnicas para problemas que, na essência, são culturais e estratégicos. É mais fácil lançar programas e fazer novos indicadores do que perguntar: O que estamos permitindo ou incentivando, que torna esse ambiente tão fragilizado?

Esse ponto é importante porque, na maior parte das vezes, os problemas que explodem no chão da operação, não nascem lá. Eles são só reflexo de decisões tomadas no topo, de prioridades distorcidas, de lideranças que confundem controle com cultura.

E por falar em controle, vale uma reflexão. Grande parte dos gurus de gestão vende a ideia de que, com as ferramentas certas, tudo pode ser controlado. Mas a verdade é que muitos indicadores, metas e métricas servem mais para criar uma ilusão de controle do que para transformar algo de verdade (porque são pensados para controlar a base e convencer o topo, e não para medir o que realmente precisa ser revisto). Funcionam como um placebo que nos faz acreditar que se medirmos o suficiente, estaremos resolvendo (sendo que na verdade, os maiores ofensores ou os maiores triunfos, estão naquilo que os indicadores dificilmente conseguem entregar).

O resultado nesses casos, é bem previsível: problemas que se repetem (ou em dias, ou até em anos), ciclos de exaustão e desgaste das pessoas (reduzindo imediatamente a capacidade e interesse de fazer algo a mais) e aquele sentimento de que “já tentamos de tudo”, quando na prática quase nada foi repensado na raiz. Talvez seja por isso que a chegada da Geração Z ao mercado de trabalho esteja causando tanto desconforto, já que diferente das gerações anteriores, essa geração questiona.

A Geração Z cresceu com acesso à informação, com parâmetros de comparação e com repertório emocional diferente (o que não quer dizer que esse acesso é 100% de valor positivo). Mas como questionar virou parte da identidade deles, isso mexe com a fragilidade de quem passou a vida priorizando colocar os problemas debaixo do tapete (e deveria ser uma oportunidade de repensar).

Sim, a Geração Z tem suas complexidades, inseguranças, contradições e impactos de choque ao mercado de trabalho. Mas é justamente essa coragem de perguntar o que ninguém queria responder, que expõe a cultura verdadeira de muitas empresas (e que deveria ser usado como um verdadeiro indicador).

Quando alguém novo pergunta “Por que fazemos isso assim?” e a única resposta é “Porque o melhor jeito é assim”, aí já temos um bom termômetro do quão frágeis são certas práticas. Uma cultura assertiva, analisa, revisita e busca entender além da pergunta, já uma cultura engessada nomeia isso de “fraqueza e falta de vontade dessa nova geração que está chegando” (o que pode sim ter sua parcela de verdade, mas também se soma à ausência do interesse de fazer uma reflexão). Quando questionam o porquê de suportar ambientes ruins e recebem apenas um pedido para “desenvolver resiliência”, fica claro que estamos muito mais preocupados em manter aparências do que em criar negócios saudáveis (sendo que esses são os mais prósperos).

É óbvio que toda organização vai ter momentos difíceis, mas tem uma diferença gritante entre passar por um desafio de verdade e normalizar relações de trabalho desequilibradas como se fossem inevitáveis.

Cultura não se transforma com selos, fotos e frases motivacionais, nem com relatórios que só fotografam a superfície. Cultura se transforma quando existe disposição o bastante para encarar o desconforto. Quando se pergunta: Que comportamentos estamos recompensando, mesmo sem perceber? que condutas estamos tolerando, só porque “é assim que funciona”? e o que estamos dispostos a mudar no topo, antes de cobrar mudança na base (que provavelmente não resolverá o problema)?

Essas perguntas incomodam muito mais do que implementar um novo indicador de desempenho, mas elas são a única forma de entender de onde os problemas realmente vêm.

No fim das contas, talvez o verdadeiro sinal de maturidade organizacional não seja a capacidade de criar mais ferramentas de controle, mas a coragem de admitir que nem tudo se transforma por ser controlado, mas que muita coisa precisa ser repensada na essência.

A cultura da sua empresa não é o que está escrito no site institucional, ou o que está postado na mídia social. Ela é definida todos os dias pelas permissões e pelos silêncios, pelas exceções e pelos exemplos que vêm do topo. Enquanto isso não for analisado com honestidade, a construção será sempre a de perfeição na foto e de desgaste no filme (porque ele sim é real, a foto é só momento e nela você consegue parecer ser quem quiser).

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual é a crítica à valorização excessiva da resiliência no ambiente de trabalho?
A resiliência é frequentemente vista como uma qualidade inquestionável para que profissionais lidem com desafios e adversidades. No entanto, uma visão crítica aponta que a ênfase excessiva nessa característica pode ser prejudicial.Em muitos casos, a exigência de resiliência funciona como uma “anestesia social”, um rótulo usado para mascarar e normalizar ambientes de trabalho e cenários que não deveriam ser considerados aceitáveis. Isso pode levar à criação de gerações de profissionais que são preparados para suportar contextos ruins, tratando essa capacidade de aguentar pressão como uma competência profissional.Quando uma empresa enfrenta falhas operacionais ou esgotamento da equipe, a resposta comum de exigir mais resiliência desvia o foco da análise sobre as causas raiz dos problemas, que muitas vezes estão no próprio ambiente criado e incentivado pela organização.
Qual é a origem mais comum dos problemas operacionais em uma empresa?
Embora os problemas se manifestem no nível operacional, ou no “chão da operação”, sua origem raramente está lá. Na maioria das vezes, essas falhas são um reflexo de decisões tomadas nos níveis mais altos da organização.Questões como prioridades distorcidas e uma liderança que confunde controle com cultura são as verdadeiras fontes de problemas que fragilizam o ambiente de trabalho. É mais comum que as empresas proponham soluções técnicas, como novos processos e indicadores, porque é mais confortável do que realizar uma análise honesta sobre os fatores culturais e estratégicos que geram essas dificuldades.
Por que a utilização de indicadores e métricas pode criar uma falsa sensação de controle?
Muitas ferramentas de gestão, como indicadores, metas e métricas, são promovidas com a ideia de que tudo pode ser controlado. No entanto, na prática, elas podem servir mais para criar uma ilusão de controle do que para promover uma transformação real.Isso acontece porque esses instrumentos são frequentemente desenhados para controlar a base operacional e convencer a alta gestão, e não para medir o que realmente precisa ser revisto na essência do negócio. Eles podem funcionar como um placebo, levando à crença de que, se algo está sendo medido, está sendo resolvido, quando na verdade os maiores problemas ou sucessos podem estar em aspectos que os indicadores dificilmente conseguem capturar.
Qual é o impacto da Geração Z no mercado de trabalho e na cultura corporativa?
A chegada da Geração Z ao mercado de trabalho está gerando desconforto em muitas organizações porque, diferentemente de gerações anteriores, ela tem o hábito de questionar o status quo. Tendo crescido com amplo acesso à informação e com um repertório emocional diferente, o ato de questionar tornou-se parte de sua identidade.Essa disposição para perguntar “Por que fazemos isso assim?” expõe a fragilidade de culturas corporativas engessadas, que muitas vezes recorrem a respostas como “porque este é o melhor jeito”. A reação a esses questionamentos serve como um termômetro da cultura: uma cultura assertiva analisa e busca entender, enquanto uma cultura engessada pode rotular a atitude como “fraqueza” ou “falta de vontade”.Quando membros da Geração Z questionam a necessidade de suportar ambientes ruins e recebem como resposta um pedido para “desenvolver resiliência”, fica evidente que a empresa pode estar mais preocupada em manter aparências do que em criar um negócio saudável e próspero.
O que realmente define a cultura de uma empresa?
A cultura de uma empresa não é definida pelo que está escrito em seu site institucional, por suas postagens em mídias sociais ou por selos e frases motivacionais. Esses elementos podem ser apenas uma representação superficial e idealizada.A verdadeira cultura é moldada e definida todos os dias pelas ações práticas, e também pelas omissões. Ela é o resultado do que é efetivamente permitido, dos comportamentos que são tolerados e dos silêncios que são mantidos diante de certas condutas. Acima de tudo, a cultura é fortemente influenciada pelos exemplos que vêm do topo, ou seja, da liderança.Em resumo, a cultura real é o “filme” do dia a dia, e não a “foto” de um momento específico, que pode ser facilmente manipulada para parecer perfeita.
Como uma cultura organizacional pode ser verdadeiramente transformada?
A transformação de uma cultura organizacional não ocorre por meio de iniciativas superficiais, como relatórios que apenas fotografam a superfície, selos de reconhecimento ou campanhas com fotos e frases de efeito.Uma mudança genuína exige a disposição da empresa para encarar o desconforto e fazer perguntas difíceis e honestas. Questões essenciais para essa transformação incluem:
  • Que comportamentos estamos recompensando, mesmo sem perceber?
  • Que condutas estamos tolerando, só porque “é assim que funciona”?
  • O que estamos dispostos a mudar no topo, antes de cobrar mudanças na base?
Enfrentar essas questões é mais incômodo do que implementar um novo indicador de desempenho, mas é a única maneira de compreender a origem real dos problemas. A verdadeira maturidade organizacional está na coragem de admitir que nem tudo se resolve com mais controle, mas sim com a disposição para repensar a essência do negócio e da sua cultura.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado