Artigo
03/09/2025

Riscos Cibernéticos Emergentes: Controles Técnicos ou Controles Humanos?

Explora a integração de controles técnicos e humanos na gestão de riscos cibernéticos emergentes.

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A maioria das organizações tem em vigor uma ampla gama de controles para ajudar a prevenir, detectar, mitigar – e, em última análise, se recuperar – dos riscos de segurança cibernética. No entanto, se elas possuem um conjunto eficaz de controles, isso é outra questão. Controles técnicos tendem a dominar esse cenário: firewalls, verificação de vírus, detecção de invasões, aplicação de patches etc. No entanto, à medida que tecnologia se torna se cada vez integrada nas nossas vidas, se torna necessário também empregar controles mais “humanos”, orientados para as pessoas, juntamente com as soluções técnicas tradicionais.

Treinamento, em particular, é um desses controles “humanos” mais eficientes. Muitas ameaças emergentes surgem devido à falta de conhecimento dos colaboradores com relação aos riscos e impactos dessas ameaças em caso de materialização (por exemplo, publicação de comentários litigiosos nas mídias sociais ou compartilhamento de documentos confidenciais fora da organização), e o treinamento fornece pelo menos dois importantes fatores atenuantes para a organização: (i) conscientiza os funcionários sobre possíveis danos causados por riscos relacionados com o ser humano e; (ii) demonstra a devida diligência por parte da organização em caso de demissão/ações legais como resultado de comportamento on-line perigoso.

Combinando Controles Técnicos e Humanos: A Estrutura de Alavancas de Controle

Somente treinamento, porém, não é suficiente para mitigarmos esses riscos cibernéticos emergentes de forma satisfatória. Aqui se faz necessário uma estrutura de controles que combine elementos técnicos com elementos humanos/sociais. E uma abordagem muito interessante nesse sentido é a chamada Estrutura de Alavancas de Controle (Levers of Controls – LOC Framework), definida pelo professor Robert Simons, da Harvard Business School, em sua obra Levers of Control - How Managers Use Innovative Control Systems to Drive Strategic Renewal (1995). Essa estrutura pode muito bem ser adaptada para riscos relacionados à segurança cibernética.

De maneira resumida, o tema central da Estrutura de Alavancas de Controle é que existem quatro alavancas principais compõem o sistema de controles de uma organização: (i) Sistemas de Crenças; (ii) Sistemas de Controle de Fronteiras; (iii) Sistemas de Controle de Diagnóstico e; (iv) Sistemas de Controle Interativos. O poder destas quatro alavancas não reside em como cada uma é usada individualmente, mas sim em como funcionam juntas, como elas se complementam e como alcançam equilíbrio. As alavancas geram resultados positivos e forças negativas que, em conjunto, criam uma tensão dinâmica entre inovação e renovação estratégica, por um lado, e previsível cumprimento de metas, por outro, ambos os quais precisam ser gerenciados para garantir o sucesso a longo prazo da organização.

A Figura 1 abaixo exemplifica a Estrutura de Alavancas de Controle definida pelo professor Simons:

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FIGURA 1: As Alavancas de Controle

Embora as alavancas de Simons não tenham sido desenvolvidas tendo em mente a segurança cibernética, elas fornecem um mecanismo útil para pensar sobre a combinação de mecanismos técnicos e de mecanismos mais orientados para as pessoas que devem ser utilizados para controlar os riscos de segurança cibernética. Para torná-lo mais relevante para a segurança cibernética, porém, é interessante estender o trabalho de Simons para incluir uma quinta alavanca, a dos Sistemas de Controle de Continuidade, que são de vital importância quando se lida com a natureza inesperada e altamente perturbadora dos eventos de segurança cibernética.

A Tabela 1 abaixo explica essas alavancas e fornece alguns exemplos de controles de segurança cibernética para ilustrar cada categoria:

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TABELA 1: Sistema de Alavancas de Controle Aplicado à Segurança Cibernética

Um ambiente de controle eficaz para o risco de segurança cibernética deve incorporar cada uma destas alavancas. Os controles específicos utilizados e a ênfase atribuída a uma alavanca específica podem variar ao longo do tempo e quase certamente irão variar de acordo com o tipo de risco em questão. Contudo, seria raro encontrar uma situação que não exigisse uma combinação de controles de cada alavanca.

Segurança Cibernética e Recursos Humanos: Estreitando os Laços

Os profissionais de segurança cibernética podem sentir-se menos confortáveis ao lidar com algumas das alavancas de controle “humanas” descritas acima (mais especificamente os “Sistemas de Crenças” e os “Sistemas de Controle Interativos”). A maioria dos controles de segurança cibernética estabelecidos atualmente enquadra-se nos domínios dos “Sistemas de Controle de Fronteira”, “Sistemas de Controle de Diagnóstico” e “Sistemas de Controle de Continuidade”, que tendem a envolver a utilização de controles técnicos.

Estes controles técnicos são claramente muito importantes na gestão dos riscos de segurança cibernética, mas eles não são uma panaceia. A utilização de controles menos técnicos e mais orientados para as pessoas é igualmente importante e não deve ser ignorada. Para ajudar a fazer melhor uso dos Sistemas de Crenças e de Controle Interativo, os profissionais de segurança cibernética devem construir relações de trabalho mais estreitas com as funções de RH. Os profissionais de RH são muitas vezes especialistas nos elementos mais delicados do controle de riscos (como a gestão de culturas organizacionais) e têm acesso a uma série de ferramentas e técnicas especializadas que podem ser utilizadas para apoiar a gestão de riscos de segurança cibernética.

Por exemplo, os profissionais de RH podem ser capazes de adaptar os procedimentos de recrutamento da organização para ajudar a filtrar funcionários que possam expor a organização a um elevado nível de risco de segurança cibernética (por exemplo, através da devida diligência nas redes sociais, como consultar o perfil público de um candidato na Internet). Além disso, o processo de indução poderia ser utilizado tanto para aumentar a sensibilização para as questões de segurança cibernética como para garantir que as políticas e procedimentos sejam compreendidos, incluindo as implicações do seu descumprimento.

Os profissionais de RH também devem ser capazes de apoiar tentativas de gerir os aspectos da cultura de uma organização que podem influenciar as suas exposições à segurança cibernética. Uma cultura de segurança cibernética “apropriada” deve ajudar a reduzir o risco de eventos acidentais e deliberados de perda relacionados à riscos cibernéticos influenciando o comportamento dos colaboradores.

Existem muitos Sistemas de Crenças e Sistemas de Controle Interativos que podem ser usados para criar uma cultura organizacional que melhor apoie a prevenção, detecção e correção de eventos de segurança cibernética. Esses mecanismos incluem:

  • Promover a sensibilização para a segurança através de iniciativas de formação e educação;

  • Estilos e atitudes de gestão: o chamado “tom do topo” (tone from the top);

  • Avaliações de desempenho/remuneração baseadas em comportamentos e ações relacionados à segurança cibernética;

  • Procedimentos disciplinares e;

  • Procedimentos de recrutamento (entre outros).

Em termos de estabelecimento de Sistemas de Controle Interativos eficazes para a segurança cibernética, a importância da comunicação bidirecional também deve ser enfatizada. Neste caso, as organizações devem garantir claramente que mantêm todo o pessoal relevante informado sobre os potenciais riscos de segurança cibernética que podem encontrar e, significativamente, sobre as implicações desses riscos para a organização.

Adicionalmente, é fundamental a transferência de informações dos colaboradores para a organização, o que deve incluir o encorajamento do pessoal a ser aberto sobre os seus erros (por exemplo, acessar um website infestado de vírus ou partilhar informações confidenciais). Com a comunicação e monitoramento tempestivos dos incidentes, podem ser tomadas medidas corretivas eficazes para limitar quaisquer danos. Além disso, podem ser retiradas lições para o futuro, permitindo a implementação de novas estratégias de controle.

Conclusão

Em resumo, a única certeza verdadeira que temos é que a tecnologia continuará a tornar-se mais sofisticada (mais rápida, com mais armazenamento, mais inteligente, mais distribuída etc.) e que essa tecnologia continuará a ser cada vez mais incorporada nas nossas vidas, em casa, no trabalho e através da sociedade como um todo. Todo este campo de estudo ainda não foi investigado suficientemente e os aspectos relacionados com o comportamento humano online e como este pode manifestar-se no local de trabalho ainda não são totalmente compreendidos.

Porém uma coisa é certa: o elemento essencial para uma gestão bem-sucedida dos riscos de segurança cibernética no século XXI é adotar uma abordagem também orientada para as pessoas e que considere elementos menos técnicos, como a cultura organizacional e o comportamento humano.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que são controles de segurança cibernética?
Controles de segurança cibernética são medidas adotadas por organizações para prevenir, detectar, mitigar e recuperar de possíveis riscos à segurança da informação. Esses controles podem ser de natureza técnica, como firewalls, verificação de vírus, detecção de invasões e aplicação de patches, ou humanos, como treinamentos e conscientização dos colaboradores sobre os riscos e impactos de suas ações.
Qual é a importância do treinamento em segurança cibernética para os colaboradores?
O treinamento é crucial porque conscientiza os funcionários sobre os possíveis danos decorrentes de riscos relacionados ao comportamento humano e demonstra a devida diligência da organização em caso de demissões ou ações legais devido a comportamentos online perigosos. Isso ajuda a evitar a publicação de comentários litigiosos nas redes sociais ou o compartilhamento de documentos confidenciais fora da organização.
O que é a Estrutura de Alavancas de Controle (Levers of Controls – LOC Framework)?
A Estrutura de Alavancas de Controle (Levers of Controls – LOC Framework) é um sistema de controle definido por Robert Simons, da Harvard Business School, que inclui quatro alavancas principais: Sistemas de Crenças, Sistemas de Controle de Fronteiras, Sistemas de Controle de Diagnóstico e Sistemas de Controle Interativos. Essas alavancas devem ser usadas em conjunto para criar um equilíbrio entre inovação e cumprimento de metas, sendo adaptáveis para riscos de segurança cibernética.
Quais são as quatro alavancas principais da Estrutura de Alavancas de Controle?
As quatro alavancas principais da Estrutura de Alavancas de Controle são: (i) Sistemas de Crenças, (ii) Sistemas de Controle de Fronteiras, (iii) Sistemas de Controle de Diagnóstico e (iv) Sistemas de Controle Interativos. Essas alavancas funcionam melhor quando usadas em conjunto, proporcionando um equilíbrio entre inovação e cumprimento de metas estratégicas.
Como a Estrutura de Alavancas de Controle pode ser aplicada à segurança cibernética?
A Estrutura de Alavancas de Controle pode ser adaptada para segurança cibernética combinando controles técnicos e humanos/sociais. Além das quatro alavancas definidas por Simons, pode-se adicionar uma quinta alavanca, os Sistemas de Controle de Continuidade, para tratar da natureza inesperada e perturbadora dos eventos de segurança cibernética. Isso ajuda a criar um ambiente de controle eficaz para mitigar riscos de segurança cibernética.
Quais são os controles clássicos de segurança cibernética?
Os controles clássicos de segurança cibernética incluem firewalls, verificação de vírus, detecção de invasões e aplicação de patches. Esses são principalmente controles técnicos que ajudam a proteger os sistemas de informação de ameaças cibernéticas.
Qual é o papel dos profissionais de RH na gestão de segurança cibernética?
Os profissionais de RH podem apoiar a gestão de segurança cibernética adaptando procedimentos de recrutamento para filtrar funcionários que possam representar riscos elevados, aumentando a conscientização sobre segurança cibernética durante a indução, e influenciando a cultura organizacional. Eles também podem usar ferramentas e técnicas especializadas para promover comportamentos seguros.
Por que é importante combinar controles técnicos e humanos na segurança cibernética?
Combinar controles técnicos e humanos é importante porque os controles técnicos, apesar de essenciais, não são suficientes por si só. Controles humanos, como treinamento e conscientização, são igualmente importantes para abordar riscos que resultam do comportamento humano. Essa combinação ajuda a criar um ambiente mais robusto e resiliente contra ameaças cibernéticas.
Como profissionais de segurança cibernética podem utilizar os Sistemas de Crenças e de Controle Interativos?
Profissionais de segurança cibernética podem utilizar Sistemas de Crenças e de Controle Interativos colaborando com equipes de RH para promover uma cultura de segurança cibernética, realizar treinamentos e avaliações de desempenho baseadas em comportamentos seguros, e estabelecer uma comunicação bidirecional eficaz para assegurar que os funcionários estejam bem informados e possam reportar incidentes sem medo de repercussões negativas.
Quais mecanismos podem ser usados para criar uma cultura organizacional que apoie a segurança cibernética?
Mecanismos para criar uma cultura de segurança cibernética incluem: promover sensibilização através de iniciativas de formação e educação, estabelecendo uma atitude positiva da liderança (tone from the top), avaliações de desempenho baseadas em comportamentos de segurança, procedimentos disciplinares claros e procedimentos de recrutamento que considerem o risco de segurança cibernética.
Qual a importância da comunicação bidirecional em sistemas de controle interativos para segurança cibernética?
A comunicação bidirecional é crucial em sistemas de controle interativos porque garante que os funcionários estejam informados sobre os potenciais riscos de segurança cibernética e suas implicações. Além disso, encoraja a transparência, permitindo que os funcionários relatem erros ou incidentes, o que ajuda na implementação de medidas corretivas e na aprendizagem organizacional para a prevenção de futuros incidentes.
Por que uma abordagem orientada para as pessoas é essencial para a gestão de riscos de segurança cibernética?
Uma abordagem orientada para as pessoas é essencial porque os fatores humanos, como cultura organizacional e comportamento dos colaboradores, têm um impacto significativo na segurança cibernética. Ao considerar esses elementos, as organizações podem melhor prevenir, detectar e corrigir eventos de segurança cibernética, criando um ambiente mais seguro e resiliente.

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Victor Machado

Director, Risk Management @Mastercard | Turning risks into opportunities | Doing well by doing good