Um dos principais impactos da pandemia sobre a atividade econômica é o forte aumento do desemprego, que atingiu 13,7 milhões de pessoas no trimestre encerrado em agosto, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Até a economia pegar tração, é preciso garantir um auxílio emergencial adicional a esse contingente de pessoas, “por mais alguns meses ou até o fim de 2002”, disse Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset, no painel “A agenda econômica que queremos”, nesta quarta-feira, 27, no ANBIMA Summit. Para ele, a forma como será financiado o Auxílio Brasil, desrespeitando a regra do teto de gastos, não é uma preocupação social do governo e sim um “absurdo populista” que “joga uma incerteza nos gastos públicos muito forte para o futuro”.
“Precisamos separar uma demanda social legítima de uma demanda eleitoreira de quem está no poder. Se o governo pensasse de verdade no social, daria auxílio emergencial por mais um ano”, disse. A principal crítica do gestor recai na decisão do governo Jair Bolsonaro (sem partido), anunciada na última semana, de desrespeitar as regras do teto de gastos para garantir um benefício social de R$ 400 para cerca de 17 milhões de famílias. “A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que visava inicialmente resolver a situação dos precatórios virou um monstrengo que junta aumento do Bolsa Família com recursos para emendas parlamentares visando a eleição”, completou.
Em um debate com a jornalista Catherine Vieira, do Valor Econômico, Stuhlberger lembrou que o Bolsa Família tem um custo aproximado de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e seu substituto, o Auxílio Brasil, custará o dobro disso aos cofres públicos – e de forma permanente. “Aumentamos em 0,5% do PIB as despesas adicionais em um momento difícil (das contas públicas) que estamos passando. Aumentar os gastos na perpetuidade e romper o teto dessa forma ficou uma coisa muito pior”, disse, completando: “se fosse o mesmo valor apenas em aumento (temporário) de auxílio, o mercado não estaria no pânico que está”, diz.
Stuhlberger lembrou que, no início da pandemia, a expectativa era que o Brasil encerrasse 2022 com uma relação dívida/PIB em torno de 95%, em um cenário de aumento de gastos do governo com medidas de socorro a empresas e cidadãos (a exemplo do auxílio emergencial). Hoje, projeta-se que o indicador encerre o ano em 79% - alinhado às projeções de 80% feitas ainda antes da eclosão da crise sanitária. “Isso mostra que o track record fiscal do governo era muito bom. Se imaginarmos que com tudo o que enfrentamos a dívida está estável, é um milagre o que aconteceu com o Brasil. Haveria espaço fiscal em 2022 para a expansão do auxílio sem criar um problema para a perpetuidade como foi feito”, afirmou.
O olhar do mercado - À medida em que o governo joga os gastos para perpetuidade e rompe o teto, “evidentemente o mercado reage porque questiona se o Brasil será ou não capaz de pagar sua dívida”, opinou o gestor. “Só posso afirmar que concordo com a velha tese do livro “O Valor do Amanhã”, do Eduardo Giannetti: o Brasil não tem valor de amanhã e políticas são feitas para ganhar eleição. Isso (a criação do Auxílio Brasil) foi feito da pior maneira possível”.
O baile da inflação - O mercado olha o futuro e não o passado, diz Stuhlberger, e a quebra do arcabouço fiscal levou a uma piora acentuada das condições financeiras desde a última semana. Esse cenário contamina ainda mais os índices de inflação, já bastante pressionados. Para Stuhlberger, a inflação “deu um baile” no mercado, nos economistas e no BC.
“No começo, a inflação foi interpretada nos EUA e na Europa como transitória. No Brasil, o imaginário do pensamento econômico é que a inflação de alimentos e de bens e industriais sobe e cai. A inflação ruim é a de serviços e é para essa que a política monetária deve existir e ser mais dura. O problema é que os bens industriais tiveram o dobro da demanda em 2021 e a inflação de alimentos e a alta das commodities se disseminam pela inflação do setor de serviços. Isso não era esperado pelo BC”, disse.
O resultado é que o ciclo de aperto monetário terá que ser mais forte do que o anteriormente projetado. O Copom (Comitê de Política Monetária, do Banco Central) anuncia nesta quarta-feira um novo aumento da Selic e o mercado aposta em alta de até 200 pontos. “Vamos precisar de juros altos por um ano. O BC precisa mostrar credibilidade, mas não adianta só subir juro. Precisamos esperar que a irresponsabilidade dos políticos, agora que romperam o teto, não chegue a extremos. Ainda não temos a garantia de que isso não vai ocorrer”, disse.
Espaço para uma terceira via - Com a aposta de que a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é garantida no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Stuhlberger acredita que ainda há espaço para a chegada de um candidato da terceira via nessa etapa do pleito. Ele se apoia em estimativas de que uma parcela entre 30% e 40% dos eleitores componha o grupo dos “nem-nem” (nem Lula, nem Bolsonaro). “Se pensarmos hipoteticamente que haveria um candidato só (da terceira via) que pegasse todos os votos no primeiro turno, haveria alguma chance de ele passar ao segundo turno. Aí seria uma eleição diferente”.