Notícia
29/10/2021

ANBIMA Summit: ASG vai do institucional para o estratégico

Aborda a evolução da agenda ASG de institucional para estratégica entre investidores e empresas no Brasil.

Os aspectos ASG (ambientais, sociais e de governança) saíram do segundo plano e passaram a integrar as agendas de investidores e empresas. O título do painel desta manhã do ANBIMA Summit, “Sustentabilidade: do anexo para as páginas principais”, reflete bem essa evolução.

Maria Eugênia Buosi, sócia da consultoria Resultante, contou que, quando atuava para o fundo Ethical, o primeiro do tipo ASG a surgir no Brasil (há cerca de 20 anos), comemorava quando entrava no site de uma companhia e este trazia informações sobre sustentabilidade. Ela disse que antes as companhias costumavam relatar apenas ações como o plantio de árvores na praça em frente às suas sedes, o trabalho voluntário e a filantropia. “Agora, se discute estratégia de sustentabilidade no conselho de administração e a agenda foi do institucional para o estratégico”, afirmou.  

Maria Eugênia citou estimativa de que atualmente há cerca de R$ 950 bilhões de ativos sob gestão no Brasil que utilizam algum critério ASG no seu processo de investimento. Nos mercados desenvolvidos, avalia-se que US$ 35 trilhões foram alocados com base em ASG, volume que corresponde a 36% do valor sob gestão desses mercados. Nos Estados Unidos, a utilização desses critérios avançou de 17% para 33% do valor sob gestão (de 2014 para hoje).

Apesar da evolução, ainda há muito o que avançar na agenda ASG. Pesquisa recente da ANBIMA com 265 instituições do mercado financeiro mostrou que 85% delas consideram a sustentabilidade um tema importante. Os aspectos ASG vêm ampliando espaço: mais da metade das instituições informou que o tema ganhou relevância nos últimos 12 meses – e essa tendência deve continuar, já que 52% relataram planos para adotar práticas ASG também nos próximos 12 meses.

No entanto, apesar de o tema ter ganhado importância, as instituições que apresentam algum grau de maturidade com relação ao assunto ainda são minoria: cerca de 30% (6,8% são consideradas “engajadas” e 21,5% caracterizadas como “emergentes”). Aquelas com algum grau de entendimento e envolvimento com a temática, e que estão começando a se estruturar, são 32,1% (consideradas “iniciadas”). Mas 35,5% são consideradas “distantes” da pauta ASG, e 4,2% “desconfiadas”.

Sonia Consiglio Favaretto, SDG Pionner da ONU (Organizações das Nações Unidas), considera que é necessário atentar essas empresas à importância do tema. A pandemia ajudou nesse processo de conscientização: “pela dor, a gente percebeu que o mundo é interconectado e que não dá mais para separar as caixinhas. A gente precisa ir para novo modelo de mundo”, disse. Para ela, não se trata apenas do avanço da agenda ASG, mas de juntar as peças de um quebra-cabeças complicado.

Além do setor privado, Sonia ressalta a importância de outros agentes andarem na mesma direção: a autorregulação, o poder de pressão dos investidores, as políticas públicas e o questionamento da mídia. Processos que não são simples e que podem ocorrer em ritmos diferentes. Mas ela considera que, se todos estiverem na mesma direção, já há motivos para comemorar. “A transição é a regra do jogo. Você pode não estar fazendo tudo o que deve fazer agora, mas o que está fazendo para chegar lá?”, perguntou.

Desafios e oportunidades
Renato Eid, diretor da Itaú Asset Management, considera que um dos desafios atuais da análise ASG por parte dos gestores de recursos diz respeito aos dados que servirão para a tomada de decisões, uma vez que não há padronização na apresentação das informações não-financeiras. Ele contou que uma das formas que a Itaú Asset encontrou para trabalhar com os aspectos ASG foi o pragmatismo, o que significa que o foco recai sobre os aspectos materiais (relevantes para as empresas). Tanto é que a casa, que já trabalhou com um modelo que levava em conta 32 dimensões ASG, reduziu-as para as atuais oito.

Além do pragmatismo, ele ressaltou a importância do diálogo entre gestores, empresas e investidores, por meio de retornos (feedbacks) sobre as questões relevantes, já que “não há verdade absoluta nesse campo”. Para ele, o engajamento é necessário para que as informações circulem e a pauta avance, sem esquecer de que nesse campo deve haver humildade para o aprendizado e para que a evolução ocorra.

Na JGP, o olhar para as questões ASG começou após o acidente com a Vale, em Brumadinho. As ações da mineradora representavam, à época, parcela relevante das posições (cerca de 10% do patrimônio de alguns fundos). Com o acidente, o alerta foi aceso e tomou-se a decisão de estudar a fundo a questão, começando pela função social das empresas.

A conclusão foi a de que há atualmente várias forças econômicas e sociais impelindo as companhias a não apenas buscar a maximização dos lucros para os acionistas, contou o sócio Marcio Correia. Para ele, é inexorável que a função social do negócio se torne mais relevante, e que isso vai ter impacto no resultado das empresas. Dentre os fatores que impulsionam para um papel ampliado das empresas, ele citou a globalização, a criação de oligopólios e monopólios, as mídias sociais, o crescimento da importância de aspectos intangíveis para o valor das companhias, e, por fim, a própria questão ambiental.

Todos esses fatores vêm trazendo à tona riscos que antes não eram levados em conta, e que agora entram no radar por meio dos critérios ASG. Mas os debatedores consideram que também há oportunidades. Eid, da Itaú Asset, citou que as oportunidades estão nas tecnologias que podem contribuir para a resolução da questão climática, como as energias renováveis, mas também nas empresas atentas às mudanças de comportamento por parte dos consumidores. Correia, da JGP, lembrou que o mundo deve crescer menos daqui para a frente, e que as empresas terão desempenhos desiguais. Ele considera que as oportunidades devem estar nas empresas bem-posicionadas, que contam com propósito para atrair e reter as pessoas – já que empresas que tratarem mal consumidores e funcionários verão seus negócios definharem.