Artigo
28/06/2025

Nova Fronteira do Direito Climático: Lições do Panorama Global de Litígios em 2025

Analisa tendências globais dos litígios climáticos e seus efeitos jurídicos e financeiros.

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O campo dos litígios climáticos está passando por uma profunda transformação. O relatório “Global Trends in Climate Change Litigation: 2025 Snapshot”, elaborado pelo Grantham Research Institute (LSE), mostra que os tribunais ao redor do mundo tornaram-se protagonistas na implementação da agenda climática — ou, em alguns casos, na sua contestação.

Com 2.967 processos registrados globalmente até o fim de 2024, o litígio climático deixou de ser uma ferramenta marginal para se consolidar como instrumento estratégico de governança ambiental, justiça climática e transformação regulatória.

📈 Crescimento com Maturidade: o que os números revelam

Apesar de uma leve desaceleração no ritmo de novos processos fora dos EUA, o número de ações estratégicas permanece elevado: mais de 80% das 226 ações ajuizadas em 2024 buscavam, além da vitória judicial, impactar políticas públicas e comportamentos corporativos.

O Brasil aparece com destaque nesse cenário: já são mais de 130 casos, sendo a maioria ajuizada nos últimos cinco anos. O país se insere, portanto, em uma tendência clara de crescimento do contencioso climático no Sul Global, especialmente em países com marcos constitucionais ambientais robustos.

⚖️ Litígios Estratégicos: muito além das ações ambientais tradicionais

O relatório categoriza os litígios climáticos em duas frentes principais:

1. Casos Alinhados à Ação Climática:

  • “Polluter pays”: ações que buscam reparação por danos decorrentes de emissões. O Brasil teve decisões importantes contra desmatadores ilegais.

  • “Climate-washing”: cresce o número de ações contra empresas por alegações enganosas de sustentabilidade.

  • “Government framework”: litígios estruturantes exigindo planos de transição climática mais ambiciosos.

  • “Integrating climate considerations”: contestação de licenças ambientais que ignoram emissões de escopo 3 (como nas decisões judiciais do Reino Unido e Noruega).

2. Casos Não-Alinhados:

  • Ocorrem sobretudo nos EUA, com foco em reverter regulações climáticas, atacar políticas ESG ou impedir iniciativas locais de responsabilização de emissores (como as “climate superfund laws”).

🧩 Implicações jurídicas, financeiras e políticas

O que antes era uma ferramenta para ONGs passou a ser adotado por governos, Ministérios Públicos, investidores e cidadãos. Os impactos ultrapassam as decisões judiciais:

  • Governança e legislação: decisões judiciais influenciam planos nacionais, como no caso KlimaSeniorinnen v. Suíça, que provocou reações legislativas.

  • Mercado financeiro: fundos de pensão, bancos e seguradoras enfrentam pressão crescente para integrar riscos climáticos em suas políticas de investimento.

  • Responsabilidade corporativa: aumentam as ações contra executivos por omissão em planos de mitigação e adaptação.

🔍 Oportunidade para juristas e consultores

Este novo cenário impõe desafios, mas também abre oportunidades para atuação jurídica e consultiva especializada:

  • Advocacia e compliance ambiental com foco em litígios estratégicos.

  • Consultoria regulatória para empresas expostas a riscos climáticos.

  • Desenvolvimento de estratégias defensivas e proativas para investidores institucionais.

  • Suporte jurídico a políticas públicas de transição energética e proteção ambiental.

🌱 Conclusão

O avanço da litigância climática indica que o Judiciário está sendo chamado a preencher lacunas deixadas pela inação política. Trata-se de um campo em plena expansão, que exige advogados preparados, estrategistas de ESG e formuladores de políticas públicas conscientes dos riscos e oportunidades que os litígios climáticos representam.

A pergunta que deixo é: sua organização está preparada para esse novo contencioso climático?

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é litígio climático e qual a sua importância atual?
O litígio climático refere-se a processos judiciais relacionados às mudanças climáticas. Trata-se de um campo que se consolidou como um instrumento estratégico para a governança ambiental, a busca por justiça climática e a promoção de transformações regulatórias.Os tribunais têm se tornado protagonistas na implementação da agenda climática ou, em alguns casos, na sua contestação. Essa área deixou de ser uma ferramenta marginal para se tornar um elemento central no debate sobre políticas públicas e responsabilidades corporativas relacionadas ao clima.
Qual é o panorama global do litígio climático em números?
De acordo com dados do relatório “Global Trends in Climate Change Litigation: 2025 Snapshot”, foram registrados 2.967 processos climáticos em todo o mundo até o final de 2024.Apesar de uma leve desaceleração no ritmo de novos casos fora dos Estados Unidos, o número de ações estratégicas permaneceu elevado. Em 2024, foram ajuizadas 226 novas ações, das quais mais de 80% tinham como objetivo influenciar políticas públicas e comportamentos corporativos.
O que caracteriza um litígio climático estratégico?
Um litígio climático estratégico é uma ação judicial que, além de buscar uma vitória no tribunal, tem o objetivo mais amplo de influenciar políticas públicas e o comportamento de empresas em relação às mudanças climáticas.Essas ações são utilizadas como uma ferramenta para promover mudanças sistêmicas, como a adoção de planos de transição climática mais ambiciosos ou o aumento da responsabilidade corporativa por emissões e danos ambientais.
Como o Brasil se posiciona no cenário de litígios climáticos?
O Brasil possui um papel de destaque no cenário de litígios climáticos, com mais de 130 casos registrados, a maioria deles ajuizada nos últimos cinco anos, conforme dados de meados de 2025.O país se insere em uma tendência de crescimento do contencioso climático no chamado Sul Global. Essa tendência é particularmente forte em nações que contam com marcos constitucionais ambientais robustos, que servem de base para essas ações judiciais.
Quais são as principais categorias de litígios alinhados à ação climática?
Os litígios alinhados à ação climática buscam promover a responsabilidade e a ambição na agenda do clima e podem ser classificados em algumas categorias principais.Uma delas é baseada no princípio do poluidor-pagador (“polluter pays”), com ações que buscam a reparação por danos causados por emissões. Outra frente importante é o combate ao “climate-washing”, por meio de processos contra empresas por alegações enganosas sobre suas práticas de sustentabilidade. Há também os litígios sobre a estrutura de políticas governamentais (“government framework”), que exigem dos governos planos de transição climática mais ambiciosos. Por fim, existem as ações que demandam a integração de considerações climáticas em decisões, como a contestação de licenças ambientais que ignoram emissões de escopo 3.
O que são litígios climáticos não-alinhados à ação climática?
Litígios climáticos não-alinhados são ações judiciais que buscam frear ou reverter medidas de proteção ao clima. Ocorrendo com maior frequência nos Estados Unidos, esses casos têm como foco reverter regulações climáticas, atacar políticas corporativas e de investimento baseadas em critérios ambientais, sociais e de governança (ESG), ou impedir iniciativas locais que visam responsabilizar grandes emissores, como as chamadas “climate superfund laws”.
Quem são os principais atores envolvidos em litígios climáticos?
Inicialmente, os litígios climáticos eram uma ferramenta utilizada principalmente por Organizações Não Governamentais (ONGs). No entanto, o perfil dos autores desses processos se diversificou significativamente.Atualmente, os litígios são movidos por uma ampla gama de atores, incluindo governos, Ministérios Públicos, investidores e cidadãos. Essa expansão demonstra que a via judicial se tornou um mecanismo relevante para diferentes setores da sociedade cobrarem ações relacionadas ao clima.
Quais são as principais implicações dos litígios climáticos?
Os litígios climáticos geram impactos que ultrapassam as decisões judiciais, afetando esferas jurídicas, financeiras e políticas. As principais implicações são:Governança e legislação: As decisões dos tribunais influenciam diretamente a criação e a revisão de políticas públicas e planos nacionais de mitigação climática. Um exemplo é o caso KlimaSeniorinnen v. Suíça, que provocou reações legislativas para adequar as políticas do país.Mercado financeiro: Fundos de pensão, bancos e seguradoras enfrentam uma pressão crescente para integrar os riscos climáticos em suas análises e políticas de investimento, tanto por exigência regulatória quanto pela possibilidade de serem alvo de ações judiciais.Responsabilidade corporativa: Aumenta o número de ações judiciais movidas contra executivos e conselhos de administração por omissão ou falha na elaboração de planos de mitigação e adaptação aos riscos climáticos, elevando o nível de responsabilidade individual dos gestores.
O que é 'climate-washing'?
Climate-washing, também conhecido como “lavagem climática” ou “maquiagem verde”, refere-se à prática de empresas fazerem alegações enganosas sobre suas credenciais de sustentabilidade e seus esforços para combater as mudanças climáticas.Essa prática tem se tornado um foco crescente de litígios climáticos, nos quais consumidores, investidores e ativistas processam companhias por publicidade enganosa ou por apresentarem uma imagem mais “verde” do que suas operações e produtos realmente são.
O que são emissões de escopo 3 e como elas se relacionam com litígios climáticos?
As emissões de escopo 3 são todas as emissões indiretas de gases de efeito estufa que ocorrem na cadeia de valor de uma empresa, mas que não são provenientes de fontes controladas por ela. Isso inclui emissões relacionadas a fornecedores, transporte, uso dos produtos vendidos e descarte final.No contexto de litígios climáticos, a consideração das emissões de escopo 3 está se tornando um ponto central. Existem ações judiciais que contestam licenças ambientais e aprovações de projetos com o argumento de que as autoridades falharam em avaliar o impacto climático completo de uma atividade ao ignorar essas emissões indiretas. Decisões judiciais no Reino Unido e na Noruega, por exemplo, já refletem essa tendência.
Qual é o papel do Poder Judiciário na agenda climática?
O Poder Judiciário tem assumido um papel cada vez mais ativo na agenda climática, atuando para preencher lacunas deixadas pela inação ou pela insuficiência da ação política por parte dos poderes Executivo e Legislativo.Por meio de litígios climáticos, os tribunais são chamados a interpretar e aplicar leis existentes para exigir que governos e empresas cumpram suas obrigações climáticas, estabelecendo precedentes que podem forçar a criação de políticas mais robustas e a responsabilização por danos ambientais.

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Frederico Auad

Advogado | Consultor | ESG | Sustentabilidade Corporativa | Transição Climática