Estava estes dias pensando no tema da tolerância ao risco, e como isto pode impactar nas suas decisões, em especial as financeiras, e buscando mais informações me deparei com um interessante livro (em inglês) chamado: "Risk Tolerance in Financial Decision Making" editado pela Caterina Lucarelli, que aborda muito bem o tema, e que queria detalhar abaixo para sua informação e conhecimento alguns dos conceitos que considero mais importantes, afinal a tolerância ao risco influencia diretamente as decisões.
Assim ao identificar a sua tolerância ao risco, é possível ajustar melhor a estratégia de investimento para corresponder ao seu nível de conforto, assegurando que você não assuma mais riscos do que é capaz de lidar. Este alinhamento ajuda a regular sua estratégia para alcançar retornos mais elevados e proteger seus investimentos contra quedas significativas.
Além disso, conhecer sua tolerância ao risco permite construir um portfólio diversificado que corresponda ao seu perfil de risco. Isso, por sua vez, aumenta a probabilidade de alcançar seus objetivos financeiros enquanto minimiza o potencial para estresse indevido ou pânico durante as flutuações do mercado.
Ao reconhecer sua tolerância ao risco capacita você a tomar decisões informadas, conducentes ao seu sucesso financeiro a longo prazo. Vamos cobrir os principais fatores relativos à tolerância ao risco.
Isto me fez lembrar de um caso que vivi no passado longínquo, mas que mudou até a forma com que o mercado passou a tratar seus clientes, que foi a quebra de alguns fundos agressivos do finado Banco Boavista Interatlântico S.A. em 99 com a desvalorização cambial, em que várias cotitas deste fundo alavancado eram aposentados com sua poupança para viver bem o resto da vida comprometido por um investimento mal orientado errado para seu perfil e necessidades.
Ainda que o livro foque nos riscos financeiros e investimentos, acredito que possamos generalizar estes conceitos para os demais riscos, tolerância e apetite em geral.
Mas quais seriam então os diferentes tipos de tolerâncias ao risco?
A tolerância ao risco pode variar amplamente entre as pessoas, mas podemos separar em três grandes categorias genéricas:
Aversão ao Risco (verde)
Pessoas com tolerância ao risco conservadora priorizam a preservação em detrimento de altos retornos.
Eles se sentem tipicamente mais confortáveis com investimentos de menor risco, como no caso de investimentos: títulos de renda fixa, poupança e ações de empresas sólidas e estabelecidas (blue-chip).
Para esses investidores, a preservação do principal é primordial, estando mais propensos a aceitar retornos menores em troca de estabilidade e segurança.
Risco Neutro (amarelo)
Pessoas de apetite neutro em relação ao risco estão dispostos a aceitar um certo nível de risco para perseguir retornos mais altos.
Eles buscam um equilíbrio entre crescimento e preservação do capital, optando tipicamente por um portfólio diversificado de ações, títulos e outras classes de ativos tradicionais.
Embora compreendam a necessidade de algum nível de risco, preferem evitar a volatilidade extrema e visam um crescimento estável e consistente a longo prazo.
Busca pelo Risco (vermelho)
Pessoas especulativas, e com a maior tolerância ao risco, estão dispostos a assumir níveis extremamente altos de risco pela chance de retornos desproporcionais.
Eles podem se engajar em investimentos altamente especulativos, como opções, futuros, ações de baixo valor (penny stocks) ou negociação de criptomoedas.
Enquanto reconhecem o potencial para perdas significativas, esses investidores ignoram os riscos pela atração de lucros substanciais. Eles costumam estar ativamente envolvidos no monitoramento e ajuste de seus investimentos.
As pessoas avessas ao risco apresentam várias características que os distinguem de investidores com maior tolerância ao risco, que queria detalhar abaixo:
- Preferência por Estabilidade: Pessoas avessas ao risco priorizam estabilidade e preservação do capital em detrimento de possíveis altos retornos. Eles se sentem mais confortáveis com investimentos que oferecem uma fonte de renda previsível e estável, como títulos, ações que pagam dividendos ou poupança com taxas de juros fixas.
- Baixa Tolerância à Volatilidade: Sentem desconforto com as flutuações e incertezas inerentes ao mercado de ações. Eles preferem investimentos com menor volatilidade e frequentemente aceitam retornos menores em troca de reduzido risco.
- Foco na Preservação do Capital: Proteger seu investimento inicial é uma preocupação primária. Eles são cautelosos quanto à possibilidade de sofrer perdas significativas e priorizam estratégias que visam minimizar o risco de baixa.
- Alocação de Ativos Conservadora: Normalmente alocam uma maior porção de seu portfólio em ativos conservadores, como títulos, equivalentes de caixa e ações estáveis que pagam dividendos. Eles podem limitar sua exposição a ações e outros investimentos de maior risco para reduzir a volatilidade geral do portfólio.
- Ênfase na Diversificação: A diversificação é um princípio fundamental para investidores avessos ao risco, por isto mesmo eles distribuem seus investimentos por diversas classes de ativos, setores e até países. Essa tática reduz o risco de concentração e o impacto de condições adversas do mercado em seu portfólio.
- Perspectiva de Longo Prazo: Embora busquem evitar perdas significativas de curto prazo, eles ainda mantêm um horizonte de investimento de longo prazo. Reconhecem a importância de permanecer investidos para se beneficiar dos retornos compostos ao longo do tempo, mesmo que isso signifique sacrificar o potencial de acumulação rápida de riqueza.
- Abordagem Conservadora para Dívidas: Tendem a ser cautelosos ao assumir dívidas. Eles preferem minimizar a alavancagem e evitar obrigações de alto juros que possam comprometer sua estabilidade financeira em caso de retrações de mercado ou desafios econômicos.
As pessoas neutras em relação ao risco exibem características distintas que os diferenciam tanto dos investidores avessos ao risco quanto dos investidores que buscam risco, que seriam:
- Indiferença ao Risco: São indiferentes ao nível de risco associado aos seus investimentos. Eles tomam decisões baseadas unicamente nos retornos esperados, sem considerar o grau de incerteza ou volatilidade envolvido. Essa indiferença ao risco vem da crença de que o risco pode ser quantificado e gerenciado por meio de diversificação adequada e construção de portfólio.
- Tomada de Decisão Racional: Abordam as decisões de investimento de maneira racional e analítica. Eles avaliam cuidadosamente os retornos potenciais de diferentes oportunidades de investimento e alocam seu capital com base na rentabilidade esperada, sem serem influenciados por emoções ou avaliações subjetivas de risco.
- Foco na Utilidade Esperada: Focam em maximizar a utilidade esperada, que mede a satisfação ou benefício derivado de um resultado de investimento. Eles avaliam os investimentos com base nos seus retornos esperados em relação ao risco percebido e alocam capital para alcançar a maior utilidade esperada em todo o seu portfólio.
- Hipótese dos Mercados Eficientes: Frequentemente aderem à hipótese dos mercados eficientes, que defende que os preços dos ativos refletem todas as informações disponíveis e que é impossível superar consistentemente o mercado. Assim, eles podem favorecer estratégias de investimento passivas, como fundos de índice, fundos imobiliários e fundos negociados em bolsa (ETFs), que visam replicar o desempenho de benchmarks de mercado amplos.
- Alocação Equilibrada de Portfólio: Mantêm uma alocação de portfólio equilibrada que reflete sua avaliação dos retornos esperados e risco entre diferentes classes de ativos. Eles podem diversificar seus investimentos entre ações, títulos, imóveis e outros tipos de ativos para distribuir o risco e otimizar a eficiência geral do portfólio.
- Ênfase no Retorno Esperado: Priorizam investimentos com retornos esperados mais altos, independentemente do nível de risco associado. Eles estão dispostos a aceitar variabilidade nos retornos desde que o retorno esperado justifique o risco assumido e continuamente reavaliam suas decisões de investimento com base em condições de mercado em mudança e novas informações.
As pessoas que buscam risco exibem várias características distintas que os diferenciam de investidores avessos ao risco e neutros ao risco, que são:
- Conforto com Volatilidade: Estão confortáveis com os altos riscos e a volatilidade dos mercados financeiros. Eles veem as flutuações do mercado como oportunidades, e não como fontes de preocupação, e podem buscar ativamente investimentos com potencial para oscilações significativas de preços.
- Busca por Altos Retornos: Priorizam a busca por altos retornos acima de tudo. Esses investidores normalmente assumem níveis mais elevados de risco em troca de lucros potencialmente elevados. Esse approach pode envolver investir em ativos especulativos, ações voláteis ou empreendimentos de alto risco, como startups ou mercados emergentes.
- Alta Tolerância para Perdas: Tem uma alta tolerância para perdas e estão dispostos a aceitar a possibilidade de experimentar quedas significativas em seus portfólios de investimento. Eles veem as perdas como parte natural do processo de investimento e não se intimidam com reveses de curto prazo, focando, em vez disso, no potencial de ganhos a longo prazo.
- Concentração de Posições no Portfólio: Podem concentrar seus portfólios em um número relativamente pequeno de ativos ou setores de alto risco que acreditam ter potencial para crescimento substancial. Com base em suas convicções e perspectivas de mercado, eles podem adotar estratégias como rotação de setores, investimento temático ou seleção de ações.
- Mentalidade Empreendedora: Muitas vezes possuem uma mentalidade empreendedora. Eles estão dispostos a assumir riscos calculados e buscar oportunidades de investimento inovadoras. Geralmente favorecem empreendimentos empreendedores, investimentos em private equity ou investimento anjo e buscam participar da criação e crescimento de novos negócios.
- Comportamento de Negociação Ativa: Podem se envolver em atividades frequentes de negociação para capitalizar movimentos de mercado de curto prazo e explorar oportunidades de negociação. Eles podem usar alavancagem, derivativos ou estratégias de negociação complexas para ampliar seus retornos potenciais, embora isso também possa aumentar o nível de risco em seus portfólios.
- Alta Ambição e Confiança: Tendem a ser ambiciosos e confiantes em suas habilidades de investimento. Eles acreditam em sua capacidade de identificar oportunidades subvalorizadas e superar o mercado, muitas vezes dispostos a desafiar a sabedoria convencional e adotar posições contrárias.
Por fim queria comentar de que não existe uma tolerância ao risco certa ou errada, ou seja, uma pessoa avessa ao risco não é melhor ou pior ou está mais certa ou errada do que uma que busca algum risco.
Por fim como faço algumas vezes nos domingos fica a dica do livro: