A ideia de "tomada de decisões baseada em riscos" está se tornando cada vez mais popular, com tomadores de decisão em todos os níveis interessados em garantir que suas decisões considerem adequadamente os riscos. Sempre que enfrentamos uma situação onde precisamos tomar uma decisão, duas características vitais estão sempre presentes: toda decisão envolve incerteza e o resultado de toda decisão é importante.
Começo esta reflexão de hoje com uma definição simples para riscos, que poderia ser: "incerteza que importa", e neste sentido esta definição é composta por três conceitos relevantes:
- Incerteza: Todos os riscos envolvem alguma forma de incerteza.
- Importância: Os riscos são relevantes apenas se puderem afetar nossos objetivos, positiva ou negativamente.
- Impacto: Se uma incerteza não importa, não é considerada um risco que precisa ser gerenciado.
Por outro lado podemos dizer que existem duas características principais das decisões:
- Escolhas e Alternativas: Todas as decisões envolvem a escolha entre opções ou alternativas, então se não houver alternativas, não há necessidade de decisão.
- Importância do Resultado: Decisões só são necessárias quando o resultado importa, então decisões triviais ou sem impacto significativo não exigem um processo decisório elaborado.
Colocados estes dois conceitos, vamos refletir sobre a relação entre as decisões e os riscos, pois todas as decisões importantes são inerentemente incertas e o resultado dessas decisões importa. Portanto, todas as decisões envolvem riscos, então podemos dizer que: todas as decisões são, por natureza, baseadas em risco.
O risco não é um componente adicional ao processo decisório, mas sim uma parte inseparável e intrínseca dele. Toda decisão significativa por definição deve considerar as incertezas associadas e o impacto potencial dos diferentes opções, cenários e resultados.
Podemos dizer então que o termo: "decisões baseadas em risco" é redundante, pois não existe um tipo de decisão que não envolva risco, assim ao qualificar uma decisão como "baseada em risco", estamos apenas reforçando um aspecto que já é implícito em qualquer processo decisório.
Precisamos então de um processo estruturado de tomada de decisão considerando os riscos, que poderia ter as seguintes etapas:
- Definir Objetivos da Decisão: Identificar por que a decisão é necessária e como o sucesso será medido.
- Avaliar Riscos das Alternativas: Considerar o nível de incerteza e os possíveis resultados de cada alternativa.
- Escolher a Melhor Opção: Selecionar a alternativa que minimiza a exposição ao risco e maximiza a chance de atingir os objetivos.
- Implementar a Decisão: Comunicar a decisão e monitorar os resultados para garantir que os objetivos sejam alcançados, e se necessário tomar ações corretivas.
Mas existem situações onde não há necessidade de decisão e que não envolvem necessariamente um risco, devido à ausência de incerteza, como por exemplo:
- Conformidade Regulamentar: Se uma empresa é obrigada a cumprir certos requisitos regulatórios, não há decisão a ser tomada, a conformidade é obrigatória, e precisa ser feita e atendida.
- Requisitos de Cliente: Quando um cliente exige algo específico, não há escolha a ser feita além de cumprir com essa exigência.
Nestes casos a falta de alternativas ou de incerteza elimina a necessidade de um processo decisório.
Então de modo geral as decisões são necessárias apenas quando o resultado importa, como por exemplo:
- Decisões de Investimento: Se a sobrevivência da empresa depende de um investimento específico ou da escolha de um parceiro de joint venture, é importante fazer a escolha certa.
- Soluções Técnicas Alternativas: Se duas soluções técnicas oferecem o mesmo nível de risco e funcionalidade, a escolha entre elas pode ser indiferente.
Vamos usar um exemplo trivial para ilustrar este ponto: a escolha de meias pretas ou cinzas pela manhã não importa, mas a escolha de uma rota de evacuação em caso de incêndio pode ser vital...
Então um processo decisório eficaz deve incorporar a gestão de riscos:
- Definição Clara dos Objetivos: Compreender por que a decisão é necessária e os critérios para medir o sucesso. Por que precisamos tomar esta decisão? Como vamos medir o sucesso?
- Avaliação das Alternativas: Examinar as incertezas e os resultados potenciais de cada opção. Considerar o quão arriscada é cada alternativa de decisão, avaliando o nível de incerteza e a natureza dos possíveis resultados.
- Escolha da Melhor Opção: Selecionar a alternativa que balanceie a minimização de riscos com a maximização das chances de atingir os objetivos.
- Implementar nossa decisão: transformando-a em ações firmes com responsáveis acordados e comunicar com aqueles que são afetados.
- Monitorar o resultado da nossa decisão em relação aos nossos objetivos: para garantir que as coisas estão funcionando como esperado, e se não estiver, sempre podemos precisar tomar uma ação corretiva e tomar outra decisão, implicando novas decisões.

Se todas as decisões verdadeiras são arriscadas, então toda tomada de decisão deve ser baseada em riscos. Portanto, talvez devêssemos parar de usar o termo "tomada de decisões baseada em riscos" e simplesmente reconhecer que a consideração dos riscos é uma parte intrínseca de todas as decisões significativas.
Dito isto podemos reforçar ainda mais a importância da gestão de riscos, que é tradicionalmente vista como um tema separado que apenas auxilia na identificação, avaliação e mitigação de riscos, mas olhando os pontos acima ao reconhecer que todas as decisões envolvem risco, podemos integrar a gestão de riscos de forma mais holística e inerente ao processo decisório.
Isso significa que a avaliação de riscos não deve ser um passo adicional, mas uma parte contínua e integrada da tomada de decisões, e uso de ferramentas e técnicas de gestão de riscos, como análise SWOT, matriz de risco, e métodos quantitativos de avaliação, tornam-se então componentes fundamentais do processo decisório, ao invés de serem considerados como etapas separadas.
Negócios frequentemente requerem ações ousadas em decisões importantes, como lançar uma ideia inovadora, criar uma nova campanha publicitária ou mudar a direção de uma empresa. Essas decisões oferecem uma rara oportunidade de adquirir uma "moeda psicológica" valiosa, na forma de um retorno mental: a coragem.
Queria então abordar agora mais sobre a coragem, que pode até ser vista como um dos atrativos psicológicos de se fazer negócios, ou como uma recompensa que as pessoas recebem por tomar ações ousadas, seja comprando ações, tornando-se um empreendedor ou mudando a direção da empresa. A força motivadora da coragem pode até contribuir para o recente aumento no número de novos negócios iniciados na taxa mais rápida em uma década, na esperança de capitalizar uma economia em evolução.
A sabedoria convencional afirma que as pessoas geralmente são avessas ao risco, especialmente quando se trata de perdas monetárias em jogos de azar, pois, por exemplo, na sua maioria as pessoas geralmente escolhem apostas menores e mais seguras em vez de apostas maiores e mais arriscadas.
No entanto, algumas pesquisas recentes mostram um padrão diferente de resultados quando as pessoas tomam decisões importantes na vida, pois as pessoas têm tido uma preferência por opções maiores e arriscadas, como deixar a segurança de um emprego estável para iniciar um negócio, e neste sentido um fator contribuinte potencial é que as pessoas querem se sentir mais corajosas.
Nesse sentido, a ousadia é um requisito fundamental para buscar resultados de alto risco e alta recompensa em muitas situações. Em pesquisas recentes foi observado que as pessoas eram mais propensas a optar por opções mais arriscadas, como apostar tudo para ganhar ou perder em uma jogada ousada em um jogo de futebol, em vez de jogar pela prorrogação, ou optar por tratamentos médicos mais arriscados com resultados mais positivos em vez de alternativas mais seguras com resultados menos positivos.
Muitas vezes as pessoas erroneamente assumem que coragem é buscar algo sem medo, mas na verdade coragem não é a ausência de medo, e sim reconhecer o medo e seguir em frente com os olhos abertos apesar disso. O mundo dos negócios está repleto de tais oportunidades: comprar uma ação arriscada, iniciar seu próprio negócio ou engajar-se em uma aquisição hostil.
Alguns dizem filosoficamente que a coragem é a busca de um propósito superior, e isso pode ser realizado por meio de decisões importantes que permitem o crescimento.
Mas bom sempre lembrar que a coragem não é apenas ações arriscadas, mas sim o resultado de ações medidas e apropriadas. Infelizmente às vezes é difícil diferenciar entre perseguir algo com heroísmo e fazer isso de forma imprudente.
Dada a atração natural que temos em nos ver como corajosos, como podemos nos ajudar a tomar boas decisões em vez de decisões imprudentes?
Seguem algumas dicas de estudiosos e especialistas no assunto:
Pare e Pergunte
Não faça nada apenas a serviço da coragem. Pergunte a si mesmo: O que estou fazendo e por que estou fazendo isso?
Esta abordagem simples pode ajudar a construir o músculo da autoconsciência.
Equilibre o desejo de ousadia com a perspicácia nos negócios. Avaliar o risco e a recompensa de suas ações pode aumentar suas chances.
Busque um Mentor Neutro
Uma pessoa útil para lhe dar feedback é um aliado poderoso. Ainda mais importante é solicitar esse feedback de alguém que seja neutro, que não esteja envolvido no resultado da sua decisão (por exemplo, não um parceiro ou colega de trabalho). Um mentor neutro aumenta suas chances de receber um feedback imparcial.
Não Apenas Vença, Faça as Jogadas Certas
É fácil se deixar levar pelo objetivo final. No entanto, mais importante do que vencer o jogo é a execução bem-sucedida de cada jogada. Concentre-se no sucesso de cada etapa no lançamento e escalonamento do seu negócio, em vez de apenas no objetivo final.
Mantenha-se Responsável
Decisões de negócios frequentemente incluem várias opções, cada uma associada a diferentes níveis de risco. Pese o risco e a recompensa de cada opção para identificar o que se equilibra entre viável e realizável.
Sempre Reavalie
Com cada sucesso ou fracasso, reavalie suas decisões. Se você for diligente, provavelmente verá um padrão. Você está muito focado em fazer grandes apostas para parecer ousado? Ou você aprecia a importância das apostas menores até que aquele grande movimento oportuno surja?
Avaliar seus resultados ajudará a ajustar sua tomada de decisão.
Não se esqueça de que como líder, você precisará estimular a coragem em todo seu time, até para manter a inovação viva e as ideias frescas, mas é importante avaliar se suas ações refletem uma obediência cega ao desejo de se sentir corajoso ou refletem decisões de negócios sólidas e sábias.
A tomada de decisões baseada em riscos não é apenas uma abordagem opcional, mas uma necessidade inerente a qualquer processo de tomada de decisão significativa. Assim, ao integrar a gestão de riscos no processo decisório, as empresas podem não apenas minimizar as incertezas, mas também maximizar as chances de sucesso e sustentabilidade a longo prazo. A compreensão e a aplicação dos princípios de gestão de riscos são fundamentais para a resiliência e a competitividade das empresas no ambiente dinâmico e incerto dos negócios atuais. Além disso, a coragem desempenha um papel crucial ao permitir que as empresas tomem decisões ousadas e inovadoras, essenciais para o crescimento e a adaptação em um mercado em constante evolução.
Espero que esta reflexão e compreensão influenciem a forma como pensamos, falamos e agimos em relação às decisões, promovendo uma abordagem mais consciente e informada da gestão de riscos, integrando de maneira mais profunda e inerente aos processos decisórios, reconhecendo que a incerteza é uma característica universal e inevitável de qualquer decisão significativa.
Essa perspectiva não apenas simplifica o entendimento da gestão de riscos, mas também promove uma abordagem mais integrada e eficaz para lidar com incertezas no ambiente corporativo. Espero que esta reflexão crítica nos leve a valorizar cada decisão como uma oportunidade de gerir riscos de forma proativa e consciente, fortalecendo a resiliência e a capacidade de adaptação das empresas diante de um futuro incerto.