Para quem ainda não sabe o que é o tal do tão falado: "greenwashing" são nada mais do que as práticas onde declarações, ações ou comunicações relacionadas à sustentabilidade não refletem clara e justamente o perfil de sustentabilidade real de uma empresa, de um produto ou serviço financeiro, o que faz enganar consumidores, investidores ou outros participantes do mercado.
Feita esta definição simplória, queria destacar alguns pontos relacionados ao tema como:
- Comunicações Enganosas: Informações podem ser enganosas tanto por omissão quanto por provisão de dados falsos ou enganosos.
- Má Conduta: Greenwashing é uma forma de má conduta que pode resultar em alegações diretas ou ações enganosas.
- Intencionalidade e Negligência: Greenwashing pode ocorrer intencionalmente ou não, sendo a negligência um fator agravante em ações de supervisão.
- Nível da Entidade ou Produto: Pode ocorrer no nível da entidade, produto ou serviço financeiro.
- Ciclo de Negócios: Pode ocorrer em diferentes estágios do ciclo de negócios ou da cadeia de valor do financiamento sustentável.
- Aplicação de Divulgações Específicas: Pode ocorrer em relação a divulgações específicas ou princípios gerais da legislação.
- Participação de Terceiros: Pode ser desencadeado por entidades relacionadas ou terceiros.
- Impacto no Consumidor: Pode ou não resultar em danos imediatos aos consumidores ou investidores, mas pode minar a confiança nos mercados financeiros sustentáveis.
Em uma análise quantitativa de uma recente pesquisa com dados da RepRisk, sobre incidentes de comunicação enganosa em questões ESG, mostrou um aumento nos casos alegados de greenwashing de 2012 a 2023, com um crescimento de 21,2% só em 2023, em especial nos tópicos relacionados a questões ambientais (37%) e sociais (33%), onde os setores mais envolvidos incluem os de: óleo, gás, utilidades, mineração, construção industrial, alimentos e bebidas, bens de consumo e o setor financeiro, que representou cerca de 16% dos casos em 2023.
Os reguladores também identificaram casos de greenwashing em vários níveis, incluindo o uso de informações enganosas em documentos obrigatórios e materiais de marketing, como os exemplos de fundos de investimento rotulados como sustentáveis sem as características de sustentabilidade adequadas e produtos financeiros destinados a promover a economia circular sem um padrão regulatório adequado.
Outro segmento que preocupa são os dos empréstimos e títulos vinculados à sustentabilidade que surgiram por volta de 2017 oferecendo condições de empréstimo ligeiramente mais favoráveis se as empresas atingissem certas metas de desempenho sustentável e bons indicadores-chave de desempenho (KPIs), mas têm surgido muitas preocupações sobre a integridade e a confiabilidade desses KPIs, levando a uma percepção de greenwashing.
Como sempre tento fazer, trazendo o olhar da gestão de riscos, queria resumir abaixo então alguns dos riscos do Greenwashing:
Materialidade do Greenwashing e seu Impacto nos Riscos Financeiros
A prática do greenwashing pode criar riscos reputacionais e jurídicos significativos, impactando negativamente a confiança dos consumidores e investidores em produtos financeiros sustentáveis. Embora não seja atualmente um risco que tenha muita atenção ou prioridade nas políticas de gestão de risco e matrizes de riscos, exsiste sim um potencial de litígios e perdas financeiras associadas a alegações de greenwashing, e que está crescendo.
Risco Jurídico
Os litígios e processos relacionados ao greenwashing têm aumentado, com casos recentes focando em alegações de práticas comerciais enganosas e discrepâncias entre políticas ambientais internas e práticas empresariais, que obviamente podem resultar em perdas financeiras significativas para as instituições envolvidas.
Impacto do Greenwashing na Estabilidade Financeira
O greenwashing em grande escala pode causar riscos à estabilidade financeira, potencialmente desencadeando um "momento Minsky" (um termo utilizado no contexto econômico e financeiro para descrever um ponto de virada em um ciclo de crédito e endividamento que leva a uma crise financeira), onde instrumentos financeiros verdes perdem credibilidade, resultando em um repricing generalizado e queda de liquidez, o que pode distorcer a avaliação precisa dos riscos e subestimar o risco de transição climática.
O aumento dos casos de greenwashing destaca a necessidade de uma maior responsabilidade e conscientização, onde a integração da gestão de riscos de greenwashing nas políticas e práticas das instituições, bem como nas atividades de supervisão, vai ser importante para manter a confiança nos mercados financeiros sustentáveis, além de um monitoramento contínuo das tendências e riscos relacionados ao greenwashing é essencial para mitigar seus impactos negativos.