Artigo
13/03/2023
Atualizado em 10/04/2026

Erros na Gestão de Riscos (Mercado, Crédito, Liquidez) e o ALM no Caso da Quebra do SVB (Silicon Valley Bank)

A quebra do Silicon Valley Bank resultou da má gestão combinada dos riscos de mercado, crédito, liquidez e ALM, agravada pela alta das taxas de juros e falta de diversificação, levando a perdas e retirada massiva de depósitos.

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Queria comentar hoje sobre a quebra do Silicon Valley Bank (SVB), mas sob a visão de gestão de riscos, pois acho que é um exemplo clássico de como uma combinação de fatores de riscos (Mercado, Crédito, Liquidez e ALM) pode levar a um colapso financeiro. O que aconteceu foi a chamada tempestade perfeita, onde todos os riscos se tornaram realidade ao mesmo tempo.

Acho que como muitos já sabem, o SVB era um banco especializado em atender empresas de tecnologia e startups, e sua queda foi atribuída a uma série de eventos que culminaram em uma crise de liquidez na última sexta, que vou abordar mais abaixo, pois normalmente este risco é derivado dos demais, e normalmente também a causa final que decreta o fim.

Mas queria começar com outro aspecto tão importante quanto o risco de liquidez, que foi também um dos principais fatores que contribuíram para a queda do SVB, que foi a sua gestão inadequada do risco de ativos e passivos (ALM), e o descasamento deles. Com a rápida ascensão das taxas de juros, o banco também teve um impacto negativo sobre a posição financeira do banco. Como os empréstimos e investimentos de longo prazo do SVB estavam associados a taxas de juros fixas, o aumento das taxas de juros reduziu o valor desses ativos, aumentou o custo de carrego, o que levou a perdas significativas para o banco. Exposição a risco de mercado e descasamento cobraram seu preço.

Para tentar resolver a situação, a administração do banco optou por vender US$ 21 bilhões em títulos com prejuízo de US$ 1,8 bilhão (olha aí o tamanho do preço de uma má gestão de riscos), em grande parte porque muitos desses títulos tinham um rendimento médio de apenas 1,79%, enquanto as taxas de juros haviam aumentado drasticamente, e o banco estava começando a parecer um desempenho abaixo da média em comparação com seus pares.

Não está claro se a venda de títulos ou a captação de recursos, pelo menos inicialmente, foram feitas sob pressão. Destinava-se a tranquilizar os investidores, mas teve o efeito oposto: surpreendeu tanto o mercado que levou outros bancos a orientar seus clientes de portfólio a retirar seus depósitos em massa.

Para piorar, o banco ainda havia aumentado significativamente seus empréstimos e investimentos em títulos de dívida de longo prazo para empresas de tecnologia e startups, sem ter em consideração o risco de crédito associado a esses empréstimos. Como resultado, o banco ficou exposto a um risco significativo de inadimplência desses empréstimos, que se tornou realidade com as dificuldades de muitas empresas novas do segmento de gerarem caixa, lucros, rolar suas dívidas, desvalorizando estes papéis e crescimento de default, o que comprometeu ainda mais sua posição financeira.

Aliás, outro pecado mortal da boa gestão de riscos de crédito foi cometido com a falta de diversificação dos empréstimos e investimentos do SVB, que também contribuiu para a crise, com o banco estando fortemente exposto apenas ao setor de tecnologia e startups, onde a crise nesse setor teve um impacto significativo sobre a posição financeira do banco. As instituições financeiras não devem colocar todos os seus ovos em uma única cesta. Elas devem diversificar seus portfólios de investimento e empréstimos para minimizar o risco de perda em caso de falha em uma área específica.

Ele havia investido seus depósitos em títulos de baixa taxa de juros que mantinha em suas carteiras em longo prazo. Isso significa que ela não precisava avaliar esses títulos até que fossem vendidos, deixando os investidores com uma visão um tanto distorcida de seu balanço patrimonial. Desde que um banco não precise vender ativos "mantidos até o vencimento" para atender solicitações de saque, não há problema. Mas se um banco tiver que vender com prejuízo, é quando as coisas se complicam.

Aí, quando os sinais fortes da atual crise financeira global começaram a se desenrolar, em especial a incerteza em torno do futuro do setor de tecnologia e startups, o que aconteceu foi, no mundo rápido das redes sociais, uma boataria da desconfiança, que impactou nas expectativas, e deu em uma (natural) corrida de clientes do SVB para retirar seus depósitos, exacerbando aí a fase final da crise na liquidez do banco. Como resultado, o banco ficou incapaz de cumprir suas obrigações financeiras e acabou sendo colocado sob a supervisão do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), que seria nos EUA equivalente ao nosso FGC, que lá garante os depósitos apenas até USD 250K, ainda que tenha lido que 96% dos depósitos deles eram acima deste valor.

Não dá para não falar também do papel da regulação (Basiléia) e supervisão adequadas para garantir que operem dentro dos limites legais, e para minimizar os riscos para seus depositantes e investidores. E quando acontece o problema, sempre vem também a pergunta se os reguladores foram eficientes e vigilantes para detectar e corrigir qualquer desvio no comportamento da instituição financeira antes que seja tarde demais?

Parece que não....

Em resumo, a quebra do SVB foi o resultado de uma combinação perversa de ALM mal feito, risco de crédito, rápida ascensão das taxas de juros e risco de liquidez, onde esses fatores combinados tornaram impossível para o banco manter sua posição financeira, resultando em sua quebra. Importante sempre aprender com os erros, ainda mais quando dos outros.

Uma das muitas lições que pode ser aprendida a partir desse caso é a importância da diversificação de ativos e passivos, bem como a gestão adequada de risco de crédito e liquidez, para evitar o colapso financeiro.

Outra lição é que a confiança dos investidores é tão importante quanto o dinheiro, e quando ela acaba, o jogo acaba.

Depois vou falar em outros posts sobre outros aspectos que considero importantes neste caso, que pouco se falou ainda, como o papel e avaliação de riscos das empresas de rating do SVB, assim como do papel do regulador na gestão da crise sistêmica, e o que vai ser feito ao longo do dia de hoje para acalmar o mercado, e evitar o chamado efeito dominó. Falamos mais depois.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante