O risco de mercado da taxa de juros na carteira bancária (IRRBB) tem se tornado um desafio crítico para as instituições financeiras, especialmente após o colapso de alguns bancos por uma gestão ruim do equilíbrio de seus ativos e passivos (ALM), como por exemplo o caso recente do Silicon Valley Bank (SVB), assim como da chegada de novos requisitos regulatórios.
Esse tema se torna ainda mais crítico, para não dizer também mais complexo, devido à volatilidade das taxas de juros e às novas diretrizes impostas por entidades como o Comitê de Basileia, a Autoridade Bancária Europeia (EBA) e outras regulamentações locais como do Brasil.
Queria então falar hoje um pouco mais sobre as implicações dessas mudanças e os desafios que os bancos devem enfrentar para gerenciar adequadamente o IRRBB, garantindo não apenas a conformidade regulatória, mas também uma vantagem competitiva no mercado.
Queria então antes de mais nada passar por alguns conceitos relacionados ao tema que é importante que conheça:
O risco de mercado da taxa de juros na carteira bancária, conhecido pela sigla IRRBB (que em inglês significa: Interest Rate Risk in the Banking Book), é nada mais do que o risco de perdas potenciais que um banco pode sofrer devido a variações nas taxas de juros que afetam o valor econômico de seu patrimônio (Economic Value of Equity ou a sigla: EVE) e sua renda líquida de juros (Net Interest Income ou a sigla NII). Esse risco é uma parte essencial da gestão de ativos e passivos (ALM) de um banco, uma vez que impacta diretamente os fluxos de caixa e o valor de mercado dos ativos e passivos não negociados em mercado aberto.
- Economic Value of Equity (EVE): Flutuações nas taxas de juros podem afetar o valor presente dos fluxos de caixa futuros dos ativos e passivos do banco, impactando assim o valor econômico do patrimônio.
- Renda Líquida de Juros (NII): Variações nas taxas de juros podem alterar o spread entre os juros recebidos pelos ativos e os juros pagos sobre os passivos, afetando a principal fonte de renda de muitos bancos.
- Gestão de Ativos e Passivos (ALM): Desafios no alinhamento de maturidades e na correspondência das taxas de juros dos ativos e passivos podem levar a desequilíbrios que exigem ajustes frequentes e possivelmente custosos na carteira do banco.
A gestão do IRRBB tornou-se prioritária para os bancos, especialmente em um cenário de volatilidade das taxas de juros, onde o risco de choques súbitos é uma preocupação constante. Vejam o colapso do SVB, que quebrou em parte devido à falta de cobertura de juros e à concentração em ativos mantidos até o vencimento, o que só reforça ainda mais em bancos comerciais a necessidade de uma gestão de riscos mais rigorosa e de uma supervisão regulatória aprimorada.
Lembrando que desde abril de 2016, o Comitê de Basileia revisou os seus princípios para o gerenciamento e supervisão do IRRBB, exigindo que os bancos identifiquem, meçam, monitorem e controlem esse risco de forma eficaz.
No Brasil, o gerenciamento do IRRBB é regulamentado pelo Banco Central do Brasil (Bacen), seguindo diretrizes internacionais como as do Comitê de Basileia, descrita na Resolução CMN nº 4557 de 2017, que definiu diretrizes prudenciais para a implementação de uma estrutura de gerenciamento de riscos de mercado, crédito, operacional, de subscrição e de liquidez nas instituições financeiras. Embora aborde mais amplamente os riscos de mercado, também inclui diretrizes que se aplicam ao IRRBB, como a necessidade de testes de estresse e a avaliação do impacto de cenários adversos.
Queria então listar alguns pontos a este respeito que acho que merecem sua atenção:
Aumento da Fiscalização Regulatória
Com a implementação dos padrões da EBA e outras regulamentações, os bancos estão agora sujeitos a uma fiscalização mais rigorosa, o que significa a exigência de relatórios detalhados sobre suas posições de IRRBB e as práticas de gerenciamento de riscos, além de testes de estresse mais rigorosos devido ao novo teste de supervisão para o resultado de renda líquida de juros (NII) e um novo piso nos padrões para maturidades mais curtas.
Requisitos de Gestão de Riscos e Governança mais rigorosos
Os bancos são obrigados a aprimorar suas práticas de gestão de riscos para o IRRBB, o que inclui por Basileia a implementação de um limite de cinco anos para a repricing comportamental de depósitos não vencidos e a avaliação do risco de spread de crédito no livro bancário (CSRBB), impactando tanto o NII quanto o valor econômico do patrimônio (EVE).
É exigido que os bancos melhorem a medição do IRRBB utilizando modelos mais sofisticados, o que envolve uma análise mais granular das posições do livro bancário e o impacto das mudanças nas taxas de juros.
Queria falar abaixo ainda sobre alguns desafios e caminhos futuros para os bancos que vejo pela frente:
Elevação das Práticas de Governança de Dados
A governança de dados tornou-se um aspecto crítico, especialmente após a formulação do BCBS 239, que foca na qualidade dos dados que alimentam os modelos de IRRBB.
Melhoria das Práticas de Governança de Modelos e Compreensão dos Riscos pelo Alto Escalão
O escrutínio regulatório dos modelos aumentou globalmente, e os bancos devem definir claramente os papéis e responsabilidades no processo de gestão de modelos para o IRRBB, garantindo processos de validação de modelos eficazes.
Aperfeiçoamento do Apetite de Risco, Monitoramento de Limites e Supervisão de Gestão de Riscos
Os reguladores esperam que os bancos melhorem a formulação de apetite de risco, o monitoramento de limites e os processos de gestão de riscos para o IRRBB, definindo políticas e procedimentos robustos que articulem claramente os processos de identificação, avaliação, mitigação e governança de riscos.
Revolução na Modelagem Comportamental para IRRBB
Os bancos devem investir no desenvolvimento de modelos de simulação robustos para taxas de juros que capturem a dinâmica de ambientes de taxas de juros baixas/altas e em ascensão/queda, complementando isso com abordagens de simulação dinâmica.
Refinamento da Medição e Monitoramento do CSRBB
Há um foco regulatório aumentado na inclusão do risco de spread de crédito no livro bancário, exigindo que os bancos desenvolvam e utilizem suas próprias metodologias para a identificação, avaliação e monitoramento do CSRBB, que deve ser proporcional à complexidade do banco.