Outro dia estávamos revendo alguns relatórios e gráficos apresentados nas reuniões do ALCO de um banco em que atuo no Comitê de Auditoria e Riscos, para seguirmos as melhores práticas, e achei que seria legal tratar deste tema aqui também com vocês.
Começo lembrando da importância da gestão adequada do balanço patrimonial dos bancos não pode ser subestimada, pelo contrário, precisa de um cuidado especial, dado que uma instituição financeira depende, em grande parte, da robustez de seu balanço, que deve ser capaz de resistir aos impactos de eventos de mercado.
Neste sentido a responsabilidade última pela gestão do balanço no final das contas é sempre do conselho de administração e seus comitês (Risco ou Auditoria), mas, na prática, essa tarefa é frequentemente delegada a comitês executivos, como o Comitê de Ativos e Passivos, também conhecido no meio como: "ALCO".
Pois é sobre este tema que queria falar mais a respeito.
O que é um Comitê de Ativos e Passivos (ALCO)?
Um Comitê de Ativos e Passivos (ALCO) é uma instância da governança da gestão dos riscos, que coordena a gestão de ativos e passivos com o objetivo de obter retornos adequados ao risco definido no apetite (RAS).
Principais Funções do ALCO:
Supervisão da Gestão de Ativos e Passivos: O ALCO é responsável por supervisionar a gestão dos ativos e passivos de uma empresa ou banco.
Sistemas de Informação de Gestão (MIS): Fornece importantes sistemas de informação de gestão para avaliar efetivamente os riscos dentro e fora do balanço.
Objetivos e Tolerâncias de Risco: Suas estratégias, políticas e procedimentos devem estar alinhados com as metas, objetivos e tolerâncias de risco do conselho de administração e seus comitês.
Gestão de Liquidez: Não por último, um dos principais objetivos do ALCO é sem dúvida garantir a liquidez adequada enquanto gerencia a diferença entre a receita de juros e a despesa de juros do banco.
Além disto alguns pontos que acho importantes:
Reuniões Regulares
As reuniões do ALCO devem ser realizadas pelo menos trimestralmente, ainda que eu prefira sem dúvida mensal (ou sob demanda em casos de mudanças relevantes no cenário ou carteira). As responsabilidades dos membros incluem gerenciar tolerâncias de risco de mercado, estabelecer MIS apropriados e revisar e aprovar a política de gestão de liquidez e fundos do banco pelo menos anualmente.
Plano de Contingência de Liquidez
Desenvolver, aprovar e manter um plano de financiamento de contingência de liquidez, revisar necessidades e fontes de financiamento imediato e determinar exposições ao risco de liquidez em cenários adversos com diferentes probabilidades e gravidades.
Alinhamento com Planejamento Estratégico:
As estratégias, políticas e procedimentos do ALCO devem estar alinhados com as metas, objetivos e tolerâncias de risco do conselho de administração. As estratégias devem prever e acompanhar as tolerâncias de risco de liquidez, e acompanhar os fluxos de caixa operacionais para atender às necessidades diárias e de financiamento.
O ALCO é normalmente composto por membros selecionados com base em sua expertise e funções dentro da instituição, como normalmente:
- Presidente do ALCO (geralmente o CFO ou um executivo sênior com conhecimento profundo de ALM).
- Diretores de Tesouraria.
- Diretores de Gestão de Riscos.
- Diretores de Finanças.
- Representantes das áreas de Negócios e Operações.
- Outros executivos relevantes conforme necessário.
Outro ponto importante é em relação à linha de reporte, que precisa ser clara e ter a autoridade delegada diretamente pelo conselho de administração. Isso garante que o comitê tenha a autoridade necessária para implementar suas decisões e políticas, por que isto que o ALCO deve de preferência:
- Reportar diretamente ao Conselho de Administração: Para garantir que as questões críticas de ALM recebam a devida atenção.
- Receber Autoridade Delegada: Para tomar decisões estratégicas relacionadas à gestão de ativos e passivos em nome do conselho.
Os assuntos são variados, por isto pode dividi-los em alguns subcomitês, para lidar com questões específicas de maneira mais detalhada, o ALCO pode estabelecer subcomitês com foco em áreas críticas. Esses subcomitês reportam diretamente ao ALCO e incluem:
Comitê de Gestão do Balanço Patrimonial:
Este subcomitê foca na gestão detalhada do balanço, incluindo:
Análise de Composição do Balanço: Monitorar e ajustar a composição dos ativos e passivos para otimizar o desempenho financeiro.
Gerenciamento de Liquidez: Garantir que a instituição mantenha níveis adequados de liquidez para atender às suas obrigações.
Comitê de Precificação de Produtos:
Este subcomitê é responsável por:
Desenvolvimento de Estratégias de Precificação: Estabelecer políticas de precificação para produtos financeiros que considerem o custo de financiamento e os riscos associados.
Revisão de Taxas de Juros e Tarifas: Avaliar e ajustar as taxas de juros e tarifas cobradas dos clientes para garantir competitividade e rentabilidade.
Tem mais alguns pontos que acho importante comentar:
Processo de Aprovação de Políticas:
O processo de aprovação de políticas deve ser rigoroso e envolver a revisão e a aprovação pelo ALCO e pelo conselho de administração, como:
Desenvolvimento de Políticas: Elaborar políticas que sejam adequadas para a instituição, baseadas em análises detalhadas e consultas com partes interessadas relevantes.
Revisão e Aprovação: Submeter as políticas ao ALCO para revisão detalhada e, posteriormente, ao conselho de administração e seus comitês para aprovação final.
Procedimento Adequado de Definição de Políticas:
As políticas devem estar alinhadas com o modelo operacional do banco, garantindo que sejam práticas e aplicáveis, como:
Avaliação de Riscos: Analisar os riscos inerentes ao modelo operacional e desenvolver políticas que mitiguem esses riscos de forma eficaz.
Integração com Estratégias de Negócios: Garantir que as políticas de ALM estejam integradas às estratégias de negócios do banco, promovendo uma abordagem holística para a gestão de ativos e passivos.
Política de Hedge:
Outro ponto relevante e muitas vezes difícil de decidir, é sobre a política de hedge, que deve ser clara e definir as diretrizes para o uso de instrumentos de hedge para mitigar riscos financeiros, como:
Objetivos do Hedge: Definir os objetivos específicos do uso de hedge, como proteção contra flutuações de taxas de juros ou câmbio.
Instrumentos Permitidos: Especificar os instrumentos financeiros que podem ser utilizados para hedge.
Procedimentos de Monitoramento: Estabelecer procedimentos para monitorar a eficácia das estratégias de hedge e ajustar conforme necessário.
Apetite ao Risco:
A declaração do apetite ao risco deve deixar claro as tolerâncias de risco da instituição e servir como base para todas as decisões de ALM, como:
Definição de Limites de Risco: Estabelecer limites claros para diferentes tipos de risco, como risco de liquidez e risco de taxa de juros.
Monitoramento Contínuo: Implementar um sistema de monitoramento contínuo para garantir que os níveis de risco permaneçam dentro dos limites definidos.
Por fim, queria trazer abaixo algumas dicas práticas para uma reunião de ALCO mais efetiva, que fazem a diferença no final:
Listar Itens que Requerem Decisões:
O primeiro item da agenda e documento no pacote do ALCO deve ser uma lista de itens que requerem ação decisiva até o final da reunião. Certifique-se de revisar essa "lista de ações" no início da reunião para garantir um resultado produtivo.
Garantir que o Pacote de Reunião Seja Relevante e Conciso:
Muitas vezes (para não dizer na maioria) os relatórios do ALCO terminam de que ninguém utiliza ou lê. Muitas vezes, uma grande porcentagem do conteúdo é inútil, para encher linguiça, e não fornece "insights" sobre a instituição ou um catalisador para colaboração ou debate sobre sua estratégia. O pacote do ALCO deve conter apenas as informações relevantes necessárias para a tomada de decisões estratégicas, monitoramento de liquidez, progresso de metas e adesão aos limites de políticas para ativos e passivos.
Os conselhos devem monitorar e revisar os materiais do pacote do ALCO para concisão e relevância, por isto a dica é que remova informações que não são mais necessárias e garanta que os dados incluídos sejam precisos e atendam à necessidade do comitê.
Ter as Pessoas Certas na Reunião:
Uma reunião do ALCO deve ser um processo dinâmico e colaborativo que constrói estratégias para os ativos e passivos da instituição. De fato, deve ser um espaço para discutir e definir as estratégias do banco.
Decisões e metas no lado dos ativos impactam os requisitos de financiamento da instituição; as necessidades de financiamento afetam os custos, o que impacta os preços de potenciais ativos, e assim por diante. É por isso que os bancos devem ter os responsáveis pelos ativos (aplicação) e pelos passivos (captação) participando juntos de uma discussão ativa para formular a melhor estratégia competitiva.
Os bancos devem garantir que suas reuniões do ALCO tenham o conhecimento necessário para avaliar questões mais complexas e incentivar o comitê a pensar fora da caixa. Eles também devem ter alguém que possa atuar como um "advogado do diabo" para provocar discussão e ideias, um papel muitas vezes melhor desempenhado por um consultor independente.
Utilizar o Modelo de Gestão de Ativos e Passivos:
Um modelo de gestão de ativos e passivos (ALM) é essencial para tomar decisões informadas. Os comitês devem confiar no modelo para executar "e se", testando as hipóteses desenvolvidas no ALCO sobre os impactos do crescimento, derivativos, piores cenários, gestão de riscos e mudanças na composição do financiamento.
Os bancos devem garantir, no entanto, que seu modelo seja adequado à instituição e que as entradas de informações e suposições utilizadas sejam precisas. Caso contrário, é lixo que entra, lixo que sai.
Os bancos também devem ter especialistas no assunto, seja na equipe ou como consultores independentes, que possam desenvolver cenários "e se" para garantir que o comitê tenha dados precisos e acionáveis.
E, finalmente, eles precisam testar o modelo para resultados reais. Isso não apenas ajuda a refinar e melhorar os resultados, mas também torna o ALCO mais confortável com a utilização do modelo para a tomada de decisões.
Recomendações de Política Ativos e Passivos:
Para melhorar a governança da gestão do balanço patrimonial, são recomendadas as seguintes medidas:
Autoridade Delegada Direta do ALCO: O ALCO deve ter autoridade direta para gerir o balanço em nome do conselho, com foco na robustez e viabilidade a longo prazo.
Relatório Direto ao Conselho e seus Comitês: O ALCO deve reportar diretamente ao conselho de administração e seus comitês, evitando intermediários.
Especialização Técnica no ALCO e no Conselho: Tanto o ALCO quanto o conselho devem possuir expertise técnica suficiente para discernir a exposição genuína ao risco de capital e liquidez do banco.
Estrutura Formal Próxima: Uma estrutura formal próxima entre o ALCO e o conselho facilitaria a comunicação bidirecional eficaz e a coordenação.
Por fim, queria lembrar que casos reais recentes de falências de bancos americanos, tanto na crise de 2007/09 como nas de 2023, mostram que a governança tradicional do ALCO não é adequada para os desafios atuais do mercado. Por isto, para terminar, deixo a dica de trabalharem na maior proximidade do ALCO ao conselho de administração e seus comitês, que deve ser aumentada para garantir uma gestão de risco de balanço mais eficaz. Implementar essas mudanças pode ajudar a prevenir futuras falências.