Artigo
16/10/2023
Atualizado em 30/04/2026

ESG: Risco Climático em Bancos X Transição para Baixo Carbono

Bancos avançam na incorporação do risco climático e metas de redução de emissões, mas enfrentam lacunas em divulgação e metodologias para apoiar a transição para uma economia de baixo carbono.

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Dentro da crescente agenda ESG, queria discutir aqui o tema da transição para o "Baixo Carbono Zero" ("Net Zero") especificamente no setor bancário, assunto que tem me interessado bastante, e que tenho estudado um pouco mais, até para atender os comitês de riscos e auditoria que eu atuo.

Queria comentar um pouco também sobre como anda o progresso desta iniciativa, através do "TPI Net Zero Banking Assessment Framework", que é um dos mais discutidos em relação à gestão de riscos climáticos nos mercados financeiros globais.

Os estudos têm mostrado que felizmente os bancos de modo geral estão sim fazendo progressos significativos na incorporação das mudanças climáticas em suas estratégias de negócio.

Um destes recentes estudos coordenado pelo: "Transition Pathway Initiative Global Climate Transition Centre" (ou apenas TPI Centre), que é uma fonte independente e autorizada de pesquisas e dados sobre o progresso do mundo financeiro e corporativo em transição para uma economia de baixo carbono. O TPI Center faz parte do Grantham Instituto de Pesquisa sobre Mudanças climáticas e Meio Ambiente, que tem sede na Escola de Economia e Política de Londres Ciência (LSE). E vou detalhar depois o resultado do mais recente estudo sobre o tema que eles fizeram.

Comparado com os resultados do estudo piloto de 2022, deste ano observou que um número maior de bancos está estabelecendo metas mais robustas para a redução das emissões de suas carteiras de investimento e estão, cada vez mais, reconhecendo o risco climático como uma categoria de risco financeiro importante.

Entretanto, o estudo também mostra que infelizmente ainda há lacunas significativas, em especial porque alguns bancos ainda não incluem todas as atividades dentro e fora do balanço nem todos os setores de alta emissão em suas metas. Isso indica que os bancos podem continuar a financiar atividades de alta emissão a longo prazo.

Assim como outro ponto de atenção é que a divulgação de informações por parte dos bancos ainda é parcial e seletiva, principalmente em tópicos críticos como análise de cenários climáticos, emissões financiadas e facilitadas, e riscos relacionados ao clima.

Por outro lado, ainda a falta de metodologias padronizadas externamente e dados insuficientes fornecidos pelos clientes estão prejudicando o progresso da ação climática dos bancos. No entanto, esses desafios não devem impedir os bancos de gerar estimativas ou dados proxy para emissões financiadas e facilitadas, como meio de apoiar suas estratégias de "net zero".

Iniciativas como a Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) e a Net Zero Banking Alliance (NZBA) estão surgindo para apoiar o papel do setor financeiro na transição para o "net zero", e estão trabalhando em 10 pontos mais importantes como:

  1. os compromissos líquidos zero,
  2. a análise de metas,
  3. a divulgação de emissões,
  4. o desempenho de emissões,
  5. a estratégia de descarbonização,
  6. as soluções climáticas,
  7. o envolvimento com políticas climáticas,
  8. a governança climática,
  9. a transição justa e
  10. a divulgação nas demonstrações financeiras.

Lembrando que normalmente o maior impacto climático da maioria dos bancos é indireto e decorre do financiamento e dos serviços fornecidos a clientes que geram emissões em suas operações e produção. Os bancos contabilizam esse impacto dentro de sua pegada de carbono global como emissões "financiadas" e "facilitadas", categorizadas sob as emissões de "investimentos" conforme definido pelo: "Greenhouse Gas Protocol". Este é um órgão que estabelece padrões para a medição e gestão de emissões e é uma referência no mercado.

A magnitude do impacto climático de um banco está intrinsecamente ligada à escala e alocação de seus fundos e serviços, distribuídos entre setores de alta e baixa emissão. Cada banco possui um modelo de negócios distinto, e cada uma das atividades pelas quais eles fornecem serviços financeiros, seja captação de depósitos, concessão de empréstimos, vendas e negociação, facilitação de mercados de capitais ou consultoria, tem seu próprio impacto climático.

Muitos bancos têm adotado as diretrizes da "Partnership for Carbon Accounting Financials" (PCAF) para estabelecer estimativas de suas emissões financiadas e facilitadas. Essa etapa é importante para definir metas de redução de emissões de curto, médio e longo prazo que reflitam as ambições dos bancos para diminuir as emissões reais em um determinado setor. Da mesma forma, a contabilidade de emissões informa a análise de risco climático de um banco e sua estratégia de descarbonização. No entanto, também ressalto que as metodologias contábeis do PCAF cobrem apenas classes de ativos bancários selecionados e atividades fora do balanço.

Por outro lado, já o "Net Zero Banking Assessment Framework" considera emissões provenientes de todas as atividades dentro e fora do balanço de um banco, abrangendo, portanto, um conjunto mais amplo de classes de ativos do que o PCAF. Isso torna o Net Zero Banking Assessment Framework uma ferramenta mais abrangente e alinhada com a necessidade de uma avaliação mais ampla do impacto climático das instituições financeiras.

Importante conhecer estas iniciativas globais acima, e coloquei o link para os respectivos sites, onde encontram mais informações.

Já aqui no Brasil não será muito diferente, e um sinal disto foi que o Banco Central do Brasil publicou a Resolução 4943 em 2021 complementando a 4557 agora que trata de forma mais clara também dos riscos relacionados ao clima. A adoção dessas medidas afeta avaliações de crédito e investimentos, e traz desafios como falta de padronização nas informações e metodologias para medição de indicadores financeiros relacionados ao clima. Sem falar que todas essas iniciativas são passos iniciais importantes na transição para uma economia descarbonizada, alinhada com os objetivos do Acordo de Paris.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante