Artigo
09/09/2024
Atualizado em 27/04/2026

Sustentabilidade e Gestão de Riscos Climáticos: Como o Bacen Monitora os Impactos do Clima no Sistema Financeiro?

O Banco Central monitora e mitiga os impactos climáticos no sistema financeiro, fiscaliza crédito rural sustentável, investe em ativos verdes e participa de redes internacionais para promover a transição verde.

Imagem de capa do artigo

Queria comentar sobre uma recente e interessante Live do Banco Central do Brasil com os especialistas Gustavo Igreja e Paulo Picchetti, que muito bem abordou a relevância do monitoramento dos impactos climáticos no sistema financeiro, que teve como base o Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (RIS), que contém mais de 80 páginas detalhando as ações do Banco Central (BC) nas áreas de sustentabilidade e gestão de riscos climáticos.

Para quem não assistiu e se interessa pelo tema deixo o link:

https://www.youtube.com/live/k55fvTk__FU?si=jEHHtsrUuOpFRY1C

Queria então falar mais a respeito do tema e comentar sobre alguns dos pontos discutidos na Live do Banco Central (BC) que mais me chamaram atenção e que acho que merecem destaque e seu conhecimento:

Impactos dos Eventos Climáticos no Sistema Financeiro

A discussão inicial abordou os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre a economia, exemplificados em especial infelizmente pelas enchentes no Rio Grande do Sul e pelo desastre de Mariana. Esses eventos são críticos porque causam tanto choques de oferta quanto choques na demanda de bens e serviços, afetando a política monetária e a estabilidade de preços. No caso do Rio Grande do Sul, o estado responde por 70% da produção de arroz e 40% da produção de trigo do Brasil, o que gera impactos diretos nos preços desses produtos e na inflação, além de prejudicar a cadeia produtiva.

Os choques de oferta não são tradicionalmente combatidos de forma direta pelo BC, uma vez que, segundo a teoria clássica da macroeconomia, são tratados como temporários. Entretanto, o que o BC tem observado é que esses choques, relacionados às mudanças climáticas, estão se tornando recorrentes e permanentes. Como resultado, o BC tem revisado suas políticas para incluir ações preventivas e mitigações desses impactos, não apenas reações a eles.

Os impactos não se limitam à inflação. Eventos climáticos também afetam o nível de atividade econômica e solidez financeira de instituições como seguradoras e bancos, que sofrem com o aumento de sinistros e inadimplências em regiões afetadas. Dessa forma, o BC está cada vez mais atento para alinhar sua política monetária e regulatória a esses novos riscos, envolvendo modelos de equilíbrio geral que integram aspectos climáticos às variáveis macroeconômicas tradicionais.

Fiscalização e Crédito Rural

Um dos pontos centrais da atuação do BC está na fiscalização do crédito rural para evitar operações em áreas que ferem legislações ambientais ou de proteção a terras indígenas e quilombolas. Essa iniciativa visa garantir que o crédito concedido pelo sistema financeiro seja destinado a atividades que respeitam critérios de sustentabilidade.

O BC utiliza um sistema de georreferenciamento que cruza informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com os pedidos de concessão de crédito. Desde a implementação desse sistema, mais de 1200 operações de crédito foram bloqueadas por inconformidade, representando mais de R$ 700 milhões em financiamentos rurais que não foram concedidos. Isso evita o desmatamento, a invasão de áreas protegidas e o uso inadequado de recursos naturais.

Além da questão ambiental, há também um forte viés social no controle dessas operações. Empresas envolvidas em denúncias de trabalho escravo, por exemplo, também enfrentam restrições no acesso a crédito. Essa abordagem coloca o BC na vanguarda de uma fiscalização rigorosa, que combina ferramentas tecnológicas avançadas com políticas sociais e ambientais.

A atuação do BC não se limita à identificação de inconformidades. Em caso de bloqueio de crédito, há mecanismos de recurso que permitem às empresas contestar a decisão, facilitando a readequação às normas ambientais e permitindo a liberação do crédito, caso a empresa consiga se regularizar.

Investimentos Verdes e Gestão de Ativos Sustentáveis

O Banco Central também exerce um papel ativo como investidor institucional, alinhando seus investimentos aos princípios ESG (ambiental, social e de governança). A instituição gerencia as reservas internacionais do Brasil, atualmente acima de US$ 350 bilhões, com foco em segurança, liquidez e rentabilidade. Embora segurança e liquidez sejam prioridades para proteger o país de choques externos, o BC também tem privilegiado investimentos em títulos sustentáveis emitidos por países comprometidos com a redução de emissões de gases de efeito estufa.

O BC aumentou significativamente a alocação em títulos verdes, passando de US$ 200 milhões em 2019 para cerca de US$ 3 bilhões em 2023. Isso representa um esforço contínuo para alinhar as reservas internacionais com práticas sustentáveis, mesmo que os critérios para classificar esses ativos como "verdes" ainda estejam em desenvolvimento no cenário internacional.

Além disso, o BC tem implementado mudanças em suas operações internas, visando reduzir sua pegada ambiental. Um exemplo disso é a renovação da frota de veículos que distribui numerário (notas e moedas) pelo país. Essa nova frota prioriza veículos com menores emissões de carbono, e o próprio tratamento das cédulas inutilizadas também segue critérios sustentáveis, com parte do numerário sendo direcionado para a produção de energia.

Em termos de gestão de instalações, o BC está investindo em fontes de energia renováveis, como os painéis solares instalados na unidade de Salvador, que ajudam a reduzir a dependência de energia de fontes não renováveis.

Participação Internacional do BC no G20 e na Rede de Bancos Centrais Verdes

A agenda internacional do BC também foi destaque, especialmente no contexto da presidência brasileira do G20 em 2024 e da participação do Brasil na COP 30, que ocorrerá em Belém do Pará. O BC está comprometido em avançar na integração de políticas que promovam tanto justiça social quanto a sustentabilidade do planeta.

Uma parte importante dessa agenda é a participação do BC na Network for Greening the Financial System (NGFS), que é uma rede global de bancos centrais e supervisores que buscam promover a transição verde do sistema financeiro. O Brasil já faz parte dessa rede há quatro anos, e o BC atualmente ocupa um lugar no Conselho Diretor da NGFS, contribuindo diretamente para as discussões sobre como a política monetária e regulatória pode mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

O BC tem trabalhado com modelos de equilíbrio geral que combinam variáveis macroeconômicas com previsões climáticas. Esses modelos buscam antecipar os impactos das mudanças climáticas na inflação, crescimento do PIB, emprego e preços da energia. Ao integrar o custo da transição para uma economia de baixo carbono com o custo de não agir, o BC está desenvolvendo ferramentas que auxiliam na tomada de decisões de longo prazo, equilibrando custos imediatos de investimentos em tecnologias limpas com os benefícios futuros de uma economia sustentável.

Essa atuação internacional é ainda mais relevante considerando que o Brasil assume a presidência dos BRICS em 2024, e o BC terá a oportunidade de liderar discussões sobre sustentabilidade e crescimento econômico no bloco, além de contribuir para as discussões na COP 30.

Prevenção e Planos de Contingência para Crises Climáticas

O BC também está preparado para enfrentar crises financeiras desencadeadas por desastres climáticos. O exemplo recente do Rio Grande do Sul ilustra a atuação rápida do BC em monitorar os fluxos de liquidez, renegociar créditos e garantir a continuidade das operações bancárias nas regiões afetadas.

Esses planos de contingência são fundamentais para garantir a estabilidade do sistema financeiro, especialmente em regiões vulneráveis. O BC utiliza dados em tempo real, como o número de transações via Pix e cartões de crédito, para monitorar o impacto das crises no sistema de pagamentos e adotar medidas emergenciais quando necessário.

Além disso, o BC tem adotado medidas para garantir a solvência e liquidez de instituições financeiras afetadas por eventos climáticos, como a prorrogação de créditos e o estabelecimento de linhas de crédito emergenciais, minimizando o risco de crises bancárias desencadeadas por eventos extremos.

Fomento à Responsabilidade Socioambiental no Sistema Financeiro

Outro ponto abordado foi a responsabilidade socioambiental das instituições financeiras e como o BC atua para incentivar práticas mais responsáveis. Desde 2014, o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu diretrizes para que o sistema financeiro incorpore critérios de responsabilidade social e ambiental em suas operações.

Uma das ferramentas mais inovadoras discutidas foi o Birô de Crédito Verde, que funciona como uma extensão dos birôs de crédito tradicionais. No entanto, além do histórico de pagamentos, o Birô de Crédito Verde avalia as práticas ambientais e sociais das empresas que solicitam financiamento, condicionando o acesso ao crédito ao cumprimento de padrões de sustentabilidade. Este tipo de controle já é aplicado em áreas sensíveis, como atividades agrícolas, para impedir operações que comprometam o meio ambiente ou violem direitos sociais.

Acho que tudo isto acima mostra bem o quão abrangente é a atuação do Banco Central em relação aos impactos climáticos, indo além da regulação financeira tradicional, incorporando aspectos de sustentabilidade, tecnologia e inovação em suas políticas e práticas.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Luiz Henrique Lobo

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante