Artigo
22/10/2023
Atualizado em 17/04/2026

Risco Climático para Bancos X Padrão Net Zero do IIGCC

O IIGCC desenvolveu um padrão com 10 áreas essenciais para bancos alinharem suas operações à neutralidade de carbono, abordando compromissos, metas, divulgação, estratégias e governança climática.

Imagem de capa do artigo

O IIGCC (Institutional Investors Group on Climate Change), em colaboração com o TPI (Transition Pathway Initiative), desenvolveu um conjunto de padrões e um framework de avaliação para o setor bancário com foco em alinhamento com metas de neutralidade de carbono.

Essa modelagem cobre dez áreas essenciais, abrangendo desde compromissos bancários até relatórios anuais e divulgações contábeis, e queria exatamente aqui detalhar um pouco mais dessas dez áreas destacando os desafios, riscos e exemplos práticos ilustrativos associados a cada uma delas.

1. Compromissos Bancários (Bank Commitments):

Nesta área, o foco é a explicitação de compromissos que os bancos devem adotar para transição a um futuro de emissões líquidas zero. O principal risco aqui é o "greenwashing", onde compromissos podem ser anunciados, mas não rigorosamente seguidos. Portanto, métricas e KPIs rigorosos devem ser estabelecidos.

Desafios e Riscos Os bancos devem estabelecer um compromisso abrangente com o "net zero" até 2050 ou antes, alinhado com os objetivos do Acordo de Paris, incluindo a limitação do aquecimento a 1,5°C.

Práticas e Estratégias: Bancos desempenham um papel central no financiamento da economia real. Um compromisso estratégico em todo o grupo bancário é essencial para garantir ação alinhada entre todas as divisões de negócios.

2. Metas (Targets):

As metas deverão ser SMART (Específicas, Mensuráveis, Alcançáveis, Relevantes e Temporais) e estar alinhadas com as recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). Aqui, os bancos enfrentam o desafio de balançar ambição e realismo.

Desafios e Riscos: Os bancos devem estabelecer metas de curto, médio e longo prazo para a redução de emissões associadas às suas atividades financeiras on e off-balance.

Práticas e Estratégias: Estas metas estabelecem níveis de ambição climática e uma trajetória de descarbonização que pode ser avaliada em relação aos objetivos climáticos de 1,5°C. Os investidores querem mensurar as ambições de descarbonização de seus ativos bancários para entender o risco de transição em seus portfólios.

3. Divulgação de Exposição e Emissões (Exposure and Emissions Disclosure):

A transparência em relação às exposições a ativos de alto risco climático e emissões é fundamental. Existe o risco de não conformidade regulatória se as divulgações não forem feitas de acordo com padrões aceites, como o GRI (Global Reporting Initiative).

Desafios e Riscos: Os bancos devem estabelecer metas de curto, médio e longo prazo para a redução de emissões associadas às suas atividades financeiras on e off-balance.

Práticas e Estratégias: Estas metas estabelecem níveis de ambição climática e uma trajetória de descarbonização que pode ser avaliada em relação aos objetivos climáticos de 1,5°C. Os investidores querem mensurar as ambições de descarbonização de seus ativos bancários para entender o risco de transição em seus portfólios.

4. Desempenho Histórico de Emissões (Historical Emissions Performance):

Esta área lida com o histórico de desempenho de emissões do banco. Aqui, a precisão na coleta e na análise de dados é crítica para evitar riscos legais e reputacionais.

Desafios e Riscos: Bancos devem reportar anualmente o progresso em relação a todas as suas metas de emissões declaradas. O desempenho deve ser expresso utilizando a mesma métrica do objetivo, permitindo que os investidores monitorem tanto o desempenho anual quanto o cumulativo em relação a essas metas. Sempre que possível, os principais contribuintes para o progresso devem ser quantitativamente divulgados, e a contribuição de compensações e/ou M&A (tanto no nível do banco quanto do ativo) deve ser claramente especificada.

Práticas e Estratégias: Investidores desejam verificar se os bancos estão em processo de descarbonização e se o progresso está alinhado com a trajetória implícita em suas metas. Isso fornece informações valiosas sobre a credibilidade da estratégia de descarbonização e das estruturas de governança, sendo, portanto, uma base importante para o engajamento.

5. Estratégia de Descarbonização (Decarbonisation Strategy):

Aqui, o banco deve explicar claramente a sua estratégia para reduzir emissões ao longo do tempo. Existe um risco de "stranded assets", onde ativos podem se tornar obsoletos antes de gerar retorno.

Desafios e Riscos: Para cumprir suas metas e compromissos, os bancos devem estabelecer e divulgar de forma independente seus próprios protocolos e estratégias específicas para cada atividade empresarial. A abordagem precisa variará de banco para banco, mas a expectativa subjacente é que os bancos devem apoiar seus clientes a alinhar suas estratégias com uma trajetória de 1,5°C. Isso envolve o planejamento tanto para o desinvestimento em atividades inconsistentes que apresentam riscos específicos, quanto para o financiamento voltado para soluções climáticas.

Práticas e Estratégias: Para que as metas ou compromissos de um banco sejam considerados críveis, eles devem ser respaldados por uma estratégia de descarbonização detalhada. Bancos frequentemente desempenham um papel significativo no financiamento de novas infraestruturas de longa duração que, se intensivas em carbono, podem ser inconsistentes com as trajetórias de 1,5°C. Esses ativos estão em risco elevado de se tornarem inutilizados, ou "encalhados", antes do final de sua vida útil prevista, resultando em riscos financeiros para os bancos e seus investidores. Também corre-se o risco de perpetuar operações intensivas em carbono, tornando a descarbonização mais difícil e provavelmente mais desordenada quando ocorrer.

6. Soluções Climáticas (Climate Solutions):

Esta área abrange os produtos e serviços que os bancos oferecem para facilitar a transição para um futuro de baixo carbono. Há desafios quanto à inovação e eficácia dessas soluções.

Desafios e Riscos: Bancos precisam acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, o que inclui uma variedade de desafios como avaliação de crédito para tecnologias emergentes e falta de taxonomias padronizadas para classificar iniciativas "verdes".

Práticas e Estratégias: O primeiro passo é a implementação de um marco de avaliação para a credibilidade ambiental das iniciativas, projetos e empresas financiadas. Isso envolve métricas padronizadas e KPIs (Key Performance Indicators) que possam ser monitoradas e reportadas. A escala dessas soluções climáticas deve ser ajustada, e a transparência deve ser aprimorada através de relatórios e auditorias frequentes.

7. Engajamento de Políticas (Policy Engagement):

Nesta seção, o foco está no lobby e no engajamento político do banco. O risco aqui está na incompatibilidade entre as políticas apoiadas e os compromissos climáticos do banco.

Desafios e Riscos: O principal desafio é alinhar as atividades de lobby com os objetivos climáticos. Isso implica em monitorar de perto as associações, alianças e coalizões das quais os bancos fazem parte, e avaliar se suas posições estão alinhadas com as metas de 1,5°C.

Práticas e Estratégias: A responsabilidade pelo acompanhamento das atividades de lobby deve ser atribuída a um nível elevado de governança, como o conselho de administração. Os bancos devem também realizar revisões anuais de suas associações comerciais e revelar qualquer desalinhamento material que seja identificado.

8. Governança Climática (Climate Governance):

A governança eficaz é crucial para qualquer estratégia de "net zero". Desafios incluem a integração de práticas sustentáveis em todos os níveis da organização.

Desafios e Riscos: Integrar considerações climáticas na estratégia e nas operações cotidianas dos bancos é um desafio substancial. O risco aqui é a falta de um sistema de incentivos alinhado com as metas de transição, o que pode resultar em decisões empresariais contraproducentes.

Práticas e Estratégias: Os bancos devem estabelecer comitês de nível de conselho dedicados a supervisionar a estratégia de transição. Incentivos devem ser estruturados para encorajar a realização dos objetivos do plano de transição. Além disso, deve haver um investimento significativo em formação e educação para todos os funcionários, a fim de incutir uma mudança cultural em direção a uma maior consciência e ação climática.

9. Transição Justa (Just Transition):

Este conceito implica em considerar aspectos sociais na transição para um futuro mais sustentável. Desafios éticos e de governança se apresentam aqui.

Desafios e Riscos: Os bancos devem identificar impactos sociais potenciais associados com sua estratégia para o net zero e desenvolver políticas que maximizem os benefícios sociais dessa transição,

Práticas e Estratégias: A agenda de descarbonização criará novos empregos e oportunidades de inclusão social. Portanto, bancos são incentivados a apoiar estes objetivos por meio de políticas de Transição Justa.

10. Relatórios Anuais e Divulgações Contábeis (Annual Reporting and Accounting Disclosures):

Esta última área diz respeito à necessidade de relatórios anuais que divulguem todas as informações pertinentes relativas ao clima. Riscos aqui incluem a possibilidade de litígio por divulgações imprecisas.

Desafios e Riscos: Os bancos devem aderir às recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures) e incluir relatórios do TCFD em seus relatórios anuais. As instituições também devem realizar testes de estresse climático em seus balanços, de acordo com recomendações do etwork for Greening the Financial System (NGFS).

Racional: Investidores e reguladores estão interessados em compreender como os riscos climáticos estão refletidos nos balanços dos bancos. Portanto, torna-se imprescindível a divulgação adequada dessas informações, para que o mercado possa precificar corretamente os ativos.

A metologia, padrões e a Estrutura de Avaliação do IIGCC formam um guia prático e robusto para bancos e investidores alinharem suas estratégias e operações em direção às metas climáticas globais. Cada uma das dez áreas apresenta seus próprios conjuntos de desafios e riscos que exigem estratégias de mitigação bem pensadas, como foi colocado acima.

Podem ter acesso ao documento completo em inglês em:

https://139838633.fs1.hubspotusercontent-eu1.net/hubfs/139838633/Past%20resource%20uploads/IIGCC-Net-Zero-Standard-for-Banks-June-2023.pdf

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Luiz Henrique Lobo

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante