Se hoje o risco cibernético é o que mais me preocupa, tem outro novo risco, que o pessoal gosta de chamar de "emergente" que passou a ficar cada vez mais no meu radar, e que tenho tentado entender melhor, ler mais a respeito, e trazer aqui para sua atenção, ainda que seja um dos temas que menos as pessoas mostram interesse, que é o chamado "risco climático". E sobre ele que queria falar hoje. Interessante ver que ainda não se dá a devida atenção para o ESG, ainda que muito se fale sobre isto.
Sobre este tema, começo lembrando de um importante marco, que foi a criação do Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), estabelecida em 2017 (então não dá mais para dizer que é uma novidade recente) pelo Financial Stability Board (FSB), que desenvolveu uma estrutura global comum e consistente para a avaliação dos riscos econômicos decorrentes do aquecimento global, em que fornecem uma definição e categorização dos riscos climáticos que se tornaram o padrão de referência global.
Os riscos das mudanças climáticas, conforme delineados pela TCFD, se dividem em duas categorias principais: riscos físicos e riscos de transição.
Riscos Físicos:
Os riscos físicos referem-se aos impactos diretos ou indiretos dos eventos climáticos sobre as empresas. Esses riscos estão divididos em:
- Riscos agudos: São aqueles que emergem de eventos climáticos extremos, como ciclones, furacões, inundações ou incêndios, cuja frequência e intensidade são amplificadas pelo aquecimento global.
- Riscos crônicos: Decorrem de mudanças climáticas de médio e longo prazo, como o aumento do nível do mar, a acidificação dos oceanos ou alterações no padrão das chuvas.
Riscos de Transição:
Estes riscos estão associados à mudança para uma economia de baixo carbono e incluem:
- Riscos regulatórios e legais: Relacionam-se ao desenvolvimento acelerado de regulamentos que buscam limitar atividades prejudiciais ao clima e promover medidas de adaptação. Exemplos incluem precificação de CO2, subsídios a energias renováveis e metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.
- Riscos tecnológicos: Inovações destinadas a facilitar a transição energética podem desvalorizar infraestruturas existentes e exigir investimentos significativos em P&D. Isso inclui avanços em energias renováveis, captura de CO2 e eficiência energética.
- Risco de mercado: As mudanças climáticas podem alterar a oferta e demanda de produtos e serviços, bem como os custos de produção. As variações nos comportamentos dos consumidores e a potencial desvalorização de ativos relacionados a combustíveis fósseis (ativos ociosos) exemplificam esse risco.
- Risco de reputação: A percepção pública de uma instituição em relação à sua contribuição ou resistência à transição climática pode trazer riscos significativos, além de oportunidades.
É importante notar que há uma relação inversa entre riscos físicos e de transição, ou seja, uma transição ágil e efetiva para uma economia verde pode intensificar os riscos de transição, mas concomitantemente reduz os riscos físicos, e vice-versa.
Para as instituições financeiras, a compreensão e gestão desses riscos climáticos são fundamentais, com o reconhecimento e a incorporação desses riscos nos modelos de gerenciamento permitindo uma melhor preparação e resiliência frente às incertezas futuras. A análise precisa desses riscos é vital para o desenvolvimento de estratégias que alinhem as operações empresariais com um modelo econômico sustentável e de baixo carbono, mitigando riscos e capitalizando em oportunidades emergentes.
Em um ambiente da agenda de ESG crescente, as instituições financeiras devem, portanto, não apenas integrar os riscos climáticos em suas avaliações e decisões de investimento, mas também contribuir ativamente para a transição para uma economia mais sustentável. Isso envolve a criação de produtos financeiros inovadores, como fundos de investimento verdes e créditos sustentáveis, além do envolvimento ativo em iniciativas que promovam a redução de emissões e a adaptação às mudanças climáticas.
O enfrentamento dos riscos decorrentes das mudanças climáticas exige não só o reconhecimento das suas peculiaridades, mas também a sua plena integração nas estruturas de gerenciamento de riscos das empresas. E neste sentido a matriz de riscos é uma ferramenta fundamental nesta tarefa, permitindo identificar, avaliar e gerir os riscos existentes e que estão por vir.
O risco climático é percebido como um chamado "risco emergente" que somente nos últimos cinco anos começou a ser compreendido de maneira mais profunda. Ainda assim, muitos dos riscos que podem se materializar devido às mudanças climáticas já são conhecidos e fazem parte dos mapas de riscos corporativos, como fenômenos naturais adversos e mudanças regulatórias. A diferença reside na ampliação e na alta correlação destes múltiplos riscos impulsionados pela mudança climática.
Matriz de Riscos:
A inclusão do risco climático na matriz de riscos deve considerar sua relevância transversal, principalmente nos setores mais impactados. O risco climático deve ser configurado como um gatilho comum para um conjunto de outros riscos existentes, merecendo um foco especial em função da sua amplificação devido ao clima. Além disso, a especificidade dos riscos climáticos, como o longo horizonte de tempo em que se materializam e as exigências particulares de divulgação, justificam uma avaliação e tratamento dedicados.
Ao reconhecer o risco climático como relevante para o futuro das operações, as empresas devem definir como tal risco será governado. Então falando em governança de riscos, a alta administração deve estabelecer o apetite de risco e as responsabilidades pela liderança do plano de ação, definição e implementação das metodologias de mensuração e o modelo de relacionamento com as áreas impactadas.
A estrutura de governança pode variar entre tratar as mudanças climáticas dentro dos comitês, políticas e áreas existentes ou criar instâncias específicas para esse fim. Importante é que a governança corporativa se adapte para incorporar diretrizes de gestão do risco climático.
Setores Específicos:
- Setor Financeiro: O risco climático tem um impacto generalizado sobre outros riscos financeiros e não financeiros, afetando principalmente o risco de crédito e o risco de mercado.
- Setor de Energia: Empresas do setor já incluem o risco climático entre os principais riscos, considerando as mudanças regulatórias e a crescente consciência social.
- Setor de Construção: Algumas empresas consideram o risco climático um risco operacional específico, enquanto outras o incluem numa categoria genérica de riscos ambientais.
- Setor de Transporte Aéreo: Há empresas que identificam as mudanças climáticas como um dos seus principais riscos e reconhecem subcategorias desse risco, como o risco de créditos de carbono.
A condição de risco transversal das mudanças climáticas é particularmente relevante no setor financeiro, dado o seu impacto generalizado sobre outros riscos financeiros, como o de crédito e o operacional, por exemplo, derivados de eventos físicos extremos sobre seus ativos.
Além dos riscos físicos e de transição, as seguradoras enfrentam riscos derivados de sua responsabilidade civil subsidiária frente a possíveis demandas por políticas inadequadas das empresas seguradas.
A identificação e mensuração dos riscos climáticos e a sua gestão subsequente requerem abordagens metodológicas distintas. No setor financeiro, os impactos financeiros indiretos via contrapartes ou portfólios são tipicamente superiores aos impactos diretos.
As empresas podem optar por criar comitês específicos para tratar de sustentabilidade e riscos climáticos ou incorporar essas questões nos comitês já existentes.
A governança dos riscos climáticos deve ser estruturada de forma que permita uma avaliação rigorosa e contínua, uma resposta ágil e uma gestão eficaz, refletindo a complexidade e a transversalidade desses riscos em todas as operações e decisões empresariais.