Acho que recentes tragédias como o Rio Grande do Sul, ou furacões no Caribe, têm mostrado que as perdas decorrentes de eventos da natureza têm um impacto profundo na economia, e são uma fonte significativa de risco para as instituições financeiras.
Por isso, a resiliência da natureza é importante na luta contra as mudanças climáticas, onde inclusive, diante de tantos casos e perdas, alguns reguladores já começaram a publicar diretrizes formais para a gestão de riscos relacionados à natureza, onde esses riscos e oportunidades deveriam estar sendo monitorados de perto pelos conselhos de administração e seus comitês de muitas empresas, daí meu objetivo aqui com este post e reflexão. Mas, infelizmente, a gestão de riscos naturais ainda está em seus estágios iniciais, e há muito trabalho a ser feito, especialmente em termos de quantificação.
Neste sentido, no ano passado a Global Association of Risk Professionals (GARP) realizou sua primeira pesquisa global sobre a gestão de riscos naturais em empresas financeiras, que nos traz uma interessante avaliação e benchmarking das capacidades de gestão de riscos climáticos das empresas. Embora os riscos e oportunidades relacionados à natureza estejam interligados com aqueles associados às mudanças climáticas, eles são distintos e preocupantes por si mesmos.
Queria trazer abaixo para seu conhecimento alguns dos pontos principais da pesquisa que mostram bem o estado atual e as tendências emergentes na gestão de riscos naturais em empresas financeiras, como:
Foco Regulatório Crescente em Riscos Naturais
Um dos principais destaques da pesquisa é o aumento do foco regulatório em relação aos riscos naturais, onde atualmente 31% das empresas relataram que seus reguladores publicaram expectativas formais para a gestão de riscos naturais. Esse número reflete bem uma crescente conscientização e ação regulatória em resposta aos impactos potenciais que a perda da natureza pode ter nas finanças e operações das empresas.
Além disso, 13% das empresas esperam que seus reguladores publiquem tais expectativas em breve, indicando uma tendência de regulamentação mais abrangente no futuro próximo. Não acho que será muito diferente por aqui, ainda mais depois do que aconteceu em Porto Alegre.
Supervisão do Conselho de Administração e seus Comitês
Quase metade dos conselhos de administração das empresas e seus comitês pesquisados (46%) têm supervisão sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza, onde essa supervisão é bem importante para garantir que os riscos naturais sejam integrados nas estratégias e operações das empresas.
Sendo que a maioria das empresas restantes (48%) está trabalhando ou pretende trabalhar para estabelecer essa supervisão, e infelizmente 6% das empresas não planejam ter supervisão do conselho sobre esses riscos, o que pode indicar uma falta de priorização ou uma abordagem ainda em desenvolvimento em relação à gestão de riscos naturais.
Responsabilidade dos Executivos de "C-Level"
Nas empresas pesquisadas, executivos de nível C são responsáveis pela avaliação e gestão dos riscos relacionados à natureza em cerca de dois terços das empresas. O Chief Risk Officer (CRO) é o executivo mais comumente nomeado como responsável pela gestão de riscos naturais, refletindo a importância de integrar esses riscos no escopo mais amplo de gestão de riscos corporativos. Em aproximadamente metade das empresas, a mesma pessoa é responsável pelos riscos climáticos e naturais, sugerindo uma abordagem integrada para a gestão de riscos ambientais.
Novidade e Nível de Expertise em Riscos Naturais
Embora a maioria das empresas tenha começado formalmente a considerar os riscos financeiros relacionados à natureza, a expertise nessa área ainda é significativamente menor em comparação com os riscos climáticos.
Apenas pouco mais de 40% das empresas estão atualmente investigando se os riscos naturais devem ser tratados como um risco formal. Isso reflete a novidade do tema e a necessidade de desenvolvimento de capacidades e conhecimentos específicos para a gestão eficaz desses riscos.
Níveis de Maturidade em Engajamento Estratégico
Como esperado de algo novo, os níveis de maturidade das empresas em relação ao engajamento estratégico com a natureza são relativamente baixos, onde apenas 25% das empresas identificaram riscos ou oportunidades relacionados à natureza, comparado com mais de 80% das empresas na primeira pesquisa relacionada ao clima em 2019.
Além disso, apenas 8% das empresas criaram produtos específicos relacionados à natureza, como títulos de desempenho vinculados à natureza ou fundos de natureza, demonstrando que a inovação de produtos nesse campo ainda está em seus estágios iniciais.
Principais Fatores de Perda da Natureza
Das várias causas de perda da natureza, a mudança climática é a área mais focada pelas empresas, seguida pelo desmatamento, escassez de água, perda de biodiversidade, poluição do ar e da água, e exploração de recursos. Esses fatores são críticos para a avaliação dos riscos naturais, pois afetam diretamente a resiliência dos ecossistemas e a disponibilidade de serviços ecossistêmicos essenciais para as operações e finanças das empresas.
Embora apenas 35% das empresas tenham realizado uma avaliação de materialidade, outras 23% estão com uma em andamento, indicando um movimento crescente para entender e quantificar esses riscos.
Uso de Métricas, Metas e Limites
Apenas 17% das empresas estão usando métricas, metas ou limites para avaliar os fatores de risco relacionados à natureza, com outras 13% implementando-os atualmente. Isso significa que quase metade das empresas (46%) pretende usar essas ferramentas no futuro, embora um quarto das empresas ainda não tenha planos de medir esses riscos.
O uso de métricas, metas e limites é essencial para a gestão eficaz de riscos, permitindo uma melhor monitoração e gestão dos impactos ambientais.
Disponibilidade de Dados e Modelos
A disponibilidade de dados e modelos são as duas maiores preocupações de curto prazo para as empresas nos próximos cinco anos. Esses desafios são muito semelhantes às preocupações levantadas pelas empresas em nossas pesquisas de risco climático. A falta de dados confiáveis e modelos robustos dificulta a capacidade das empresas de avaliar com precisão os riscos naturais e tomar decisões informadas.
Análise de Cenários de Risco Natural
A análise de cenários de risco natural ainda não é amplamente utilizada, com menos de 20% das empresas utilizando essa ferramenta para entender o impacto dos riscos naturais em seus portfólios ou balanços patrimoniais.
No entanto, a pesquisa mostrou que 50% das empresas planejam implementar essa análise no futuro, metade delas nos próximos dois anos. Isso mostra uma tendência crescente de adoção dessa prática, embora um t
Capacitação e Treinamento em Riscos Naturais
O treinamento e a capacitação em riscos naturais estão em ascensão. Cerca de metade das empresas oferecem treinamento sobre riscos naturais para algumas funções, e 13% oferecem para toda a equipe.
Além disso, foi interessante ver que as empresas esperam contratar mais funcionários com expertise em riscos naturais nos próximos dois anos, refletindo a crescente demanda por conhecimento especializado nessa área.

Dito isto, queria lembrar que a gestão eficaz de riscos começa com o envolvimento no nível mais alto da empresa, que são o seu conselho de administração e comitês, e a alta administração, ou seja, estamos como sempre falando da governança da gestão dos riscos. A pesquisa revelou que 46% dos conselhos têm supervisão sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza, e a maioria das empresas restantes está trabalhando ou pretende trabalhar nisso.
Os executivos de nível C são responsáveis pela avaliação e gestão de riscos relacionados à natureza em cerca de dois terços das empresas. O CRO é o executivo mais comumente responsável pela gestão de riscos naturais, seguido pelo chefe de sustentabilidade. Em cerca de metade das empresas, a mesma pessoa é responsável pelos riscos climáticos e naturais.
Para gerenciar riscos e oportunidades relacionados à natureza, uma empresa precisa entender as dependências de natureza das empresas para as quais empresta, investe ou segura. A compreensão de como as atividades dessas empresas impactam a natureza é essencial. As empresas podem estar interessadas no impacto que a natureza tem em seu perfil de risco financeiro ou podem estar mais preocupadas com o impacto que suas atividades têm na natureza - uma perspectiva conhecida como materialidade dupla.
Apenas 25% das empresas identificaram riscos ou oportunidades relacionados à natureza, um número baixo em comparação com mais de 80% das empresas na primeira pesquisa relacionada ao clima em 2019. Muitos desafios permanecem na prática de alinhamento estratégico, incluindo a disponibilidade de dados e modelos confiáveis e a incerteza regulatória.
Como em qualquer gestão de riscos, aqui também precisamos: identificar, avaliar e gerenciar riscos naturais, integrando esses processos na estrutura geral de gestão de riscos da empresa. Embora a maioria das empresas tenha começado a considerar formalmente os riscos financeiros relacionados à natureza, mais de 40% ainda estão investigando se esses riscos devem ser tratados como riscos. A mudança climática é o tópico mais popular entre as empresas, seguido pelo desmatamento, escassez de água, perda de biodiversidade e poluição.
A avaliação de materialidade é fundamental para estabelecer a significância relativa desses fatores, mas atualmente apenas 35% das empresas realizaram uma avaliação de materialidade, com outras 23% tendo uma em andamento. A maioria das avaliações é qualitativa devido à dificuldade de quantificação desses novos riscos.
Métricas, metas e limites são componentes integrais da gestão eficaz de riscos. Uma métrica é uma medida usada para avaliar riscos relacionados à natureza, enquanto uma meta é o resultado que a organização pretende alcançar. Limites representam o pior resultado aceitável sem ação corretiva. Apenas 17% das empresas estão usando métricas, metas ou limites para gerenciar riscos relacionados à natureza, e 12% estão implementando-os agora. Quase metade das empresas pretendem usá-los no futuro.
Outro ponto relevante como sempre é a análise de cenários, que é uma ferramenta chave para identificar e quantificar os riscos financeiros potenciais da perda da natureza, mas atualmente não é amplamente utilizada. Apenas 20% das empresas estão usando a análise de cenários, enquanto 50% planejam fazê-lo. A maioria das análises de cenários atualmente realizadas é para avaliar tanto riscos de transição quanto riscos físicos.
A divulgação de informações relacionadas à natureza tem se tornado uma prática cada vez mais vista entre as empresas mais maduras. A pesquisa mostrou que cerca de 30% das empresas estão divulgando informações sobre governança, estratégia ou gestão de riscos relacionados à natureza. Este é um número consideravelmente menor do que o observado na primeira pesquisa sobre clima em 2019, indicando que a agenda de natureza ainda é nova para muitas empresas.
A gestão de riscos naturais está em seus estágios iniciais, com muitas empresas ainda estabelecendo suas práticas e frameworks. Embora existam desafios significativos, como a disponibilidade de dados e modelos confiáveis, bem como a incerteza regulatória, há uma tendência crescente de integrar a gestão de riscos naturais nas estratégias e operações das empresas financeiras. A maturidade do modelo de risco natural varia entre as empresas, mas a pesquisa fornece uma base importante para o desenvolvimento contínuo e a melhoria das práticas de gestão de riscos naturais no setor financeiro.