Estava ontem mesmo conversando com a Raquel Saleh da área de gestão de riscos da VLI Logística sobre um tema legal para falar sobre quais eram as novas fronteiras da gestão de riscos, do que vem por aí em termos de tendências, para estarmos ligados, e entre alguns temas, inclusive alguns que eu já abordo aqui recentemente, como risco cibernético e de terceiros, fiquei pensando no assunto, e hoje resolvi escrever sobre outro que considero emergente e que vamos cada vez mais ouvir a respeito: os chamados riscos naturais, que sempre estiveram aí, mas nem sempre foi dada a atenção devida....
Começo falando de que os tipos de riscos naturais podem ser classificados em: os riscos físicos relacionados à natureza e os riscos de transição, ambos definidos pelos trabalhos do time da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), que deveriam ser considerados importantes por todas as empresas devido ao seu potencial impacto financeiro decorrente da degradação da natureza e da consequente perda dos serviços ecossistêmicos.
Riscos Físicos Relacionados à Natureza
Riscos Agudos: São eventos de curto prazo que alteram o estado da natureza, como derramamentos de óleo, incêndios florestais ou pragas que afetam uma colheita.
Riscos Crônicos: São mudanças graduais no estado da natureza, como poluição resultante do uso de pesticidas ou mudanças climáticas.
Esses riscos surgem devido a alterações nas condições bióticas (vivas) e abióticas (não-vivas) que suportam ecossistemas saudáveis e funcionais e geralmente são específicos de localização.
Riscos de Transição
Risco Político e Regulatório: Mudanças no contexto político devido a novas políticas (ou aplicação de políticas existentes) para criar impactos positivos na natureza ou mitigar impactos negativos.
Risco de Mercado: Mudanças nas dinâmicas de mercado, incluindo mudanças nas preferências dos consumidores, que surgem de mudanças físicas, regulatórias, tecnológicas e condições de reputação e dinâmica dos stakeholders. Por exemplo, o valor de mercado de uma empresa é afetado quando há escassez de água doce para o processo de produção.
Risco de Tecnologia: Substituição de produtos ou serviços que têm um impacto reduzido na natureza e/ou uma dependência reduzida dela. Por exemplo, a substituição de plásticos por recipientes biodegradáveis.
Risco Reputacional: Mudanças na percepção em relação aos impactos da natureza de uma organização no nível local, econômico e social. Isso pode resultar de impactos diretos da empresa, impactos da indústria e/ou impactos de atividades a montante ou a jusante em uma cadeia de valor.
Risco de Responsabilização: Riscos de responsabilidade que surgem direta ou indiretamente de reivindicações legais. Conforme as leis, regulamentos e jurisprudência relacionados à preparação de uma organização para ações pró-natureza evoluem, o incidente ou probabilidade de responsabilidades contingentes de uma empresa pode aumentar.
Riscos Sistêmicos Relacionados à Natureza
Os riscos sistêmicos são aqueles que surgem do colapso do sistema inteiro, ao invés da falha de partes individuais. Eles são caracterizados por pontos de inflexão modestos que se combinam indiretamente para produzir grandes falhas, onde uma perda desencadeia uma cadeia de outras, impedindo o sistema de retornar ao seu equilíbrio anterior.
Além dos riscos, devemos também ter o olhar para as oportunidades relacionadas à natureza, que podem ocorrer quando as empresas evitam, reduzem ou mitigam impactos negativos sobre a natureza, alinhando-se a ações voltadas para a proteção, restauração e/ou redução dos impactos negativos na natureza.
Essa classificação de riscos e oportunidades reflete a crescente complexidade e a necessidade de considerar a natureza como um fator chave nas decisões estratégicas e de gestão de riscos das organizações financeiras.
Feita esta introdução conceitual, queria agora comentar o ponto principal deste post que é uma pesquisa e estudo feito pelo pessoal da Global Association of Risk Professionals (GARP) organizado pela Jo Paisley e Maxine Nelson, PhD chamado: "Global Survey of Nature Risk Management at Financial Firms 2024", com uma interessante e ampla análise da gestão de riscos naturais nas instituições financeiras, cujo foco está em como essas instituições estão começando a incorporar o gerenciamento de riscos relacionados à natureza em suas operações e práticas de gestão de riscos, um campo ainda em seus estágios iniciais, mas de crescente importância devido às interações entre riscos climáticos e naturais.
O estudo mostrou a perda da natureza como um impacto profundo sobre a economia e um risco significativo para as instituições financeiras, e também sobre o papel da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos como essencial para a resiliência econômica e o combate às mudanças climáticas, tanto que alguns reguladores já publicaram diretrizes formais para a gestão de riscos naturais, e os conselhos de muitas empresas estão começando a monitorar esses riscos e oportunidades relacionados à natureza de perto.
Para os ansiosos, até porque este texto será longo, vou adiantar algumas das conclusões que tiraram os números da pesquisa, que sim revelam uma crescente conscientização e adaptação das instituições financeiras aos riscos associados à natureza, embora o campo ainda esteja em um estágio inicial de desenvolvimento.
- Foco Regulatório em Ascensão: Uma proporção significativa de instituições financeiras (31%) disse que seus reguladores locais já estabeleceram expectativas formais para a gestão de riscos naturais, e outros 13% antecipam ações regulatórias semelhantes em breve. Esse crescente foco regulatório indica uma pressão para que as práticas de gestão de riscos naturais se tornem mais robustas e sistemáticas.
- Supervisão por Parte dos Conselhos e Comitês de Auditoria e/ou Riscos: Quase metade dos conselhos das empresas, diretamente ou pelo meio de seus comitês de assessoramento técnico, já supervisiona riscos e oportunidades relacionados à natureza, com a maioria das demais empresas planejando ou pretendendo desenvolver supervisão semelhante. Apenas uma pequena fração (6%) não planeja incorporar a supervisão de riscos relacionados à natureza em suas estruturas de governança.
- Responsabilidade Executiva: Em cerca de dois terços das empresas, os executivos de nível C, principalmente os Chief Risk Officers (CROs), são responsáveis pela avaliação e gestão de riscos naturais. Esta responsabilidade compartilhada entre riscos climáticos e naturais em aproximadamente metade das firmas sublinha a integração crescente dessas áreas de risco.
- Maturidade e Reconhecimento de Riscos Naturais: A gestão de riscos naturais é relativamente nova para muitas empresas, com níveis de maturidade e expertise significativamente inferiores aos observados para riscos climáticos. Apesar da maioria das empresas já reconhecer formalmente os riscos financeiros relacionados à natureza, mais de 40% ainda estão avaliando se esses devem ser tratados como riscos relevantes. Apenas 25% identificaram riscos ou oportunidades relacionados à natureza, um contraste marcante com os mais de 80% das empresas em nossa primeira pesquisa sobre riscos climáticos em 2019.
- Produtos Relacionados à Natureza: Somente 8% das empresas desenvolveram produtos específicos relacionados à natureza, como títulos de desempenho vinculados à natureza (Green Bonds) ou fundos voltados para a natureza, indicando um mercado ainda em formação para soluções financeiras inovadoras nessa área.
- Avaliação de Materialidade e Métricas: Embora a mudança climática seja o principal foco entre os impulsionadores da perda de natureza, seguida por desmatamento e escassez de água, menos de um terço das empresas realizaram avaliações de materialidade para esses riscos. Além disso, apenas 17% utilizam métricas, metas ou limites para avaliar esses riscos, com muitas ainda planejando adotar tais medidas.
- Desafios de Dados e Modelos: A falta de dados confiáveis e modelos robustos são as principais preocupações no curto prazo, similar ao observado em pesquisas sobre riscos climáticos. Esses desafios são críticos para o desenvolvimento de uma gestão eficaz dos riscos naturais.
- Análise de Cenários: A utilização de análise de cenários para riscos naturais é limitada, com menos de 20% das empresas aplicando essa ferramenta. No entanto, um adicional de 50% planeja adotá-la futuramente, indicando um reconhecimento da sua importância para uma avaliação de risco mais abrangente.
- Capacitação e Contratação: O treinamento em riscos naturais está se expandindo, com cerca de metade das empresas oferecendo algum nível de treinamento específico e esperando contratar mais especialistas nos próximos anos. Isso reflete um investimento crescente em capital humano para fortalecer as competências internas na gestão de riscos relacionados à natureza.
Estes pontos acima mostram claramente um novo campo ou fronteira emergente dentro da gestão de riscos financeiros que requer desenvolvimento acelerado de capacidades, melhorias na coleta de dados e criação de métricas efetivas, além de uma integração mais profunda desses riscos nas práticas corporativas.
As instituições financeiras estão apenas começando a reconhecer e responder aos complexos desafios apresentados pelos riscos naturais, um processo que será essencial não apenas para a sua própria sustentabilidade operacional, mas também para o bem-estar econômico e ambiental mais amplo.
Feito este resumo acima dos principais pontos, queria agora detalhar abaixo mais outros pontos específicos.
Governança
Aproximadamente metade das empresas pesquisadas possui supervisão de riscos relacionados à natureza em suas diretorias, e a maioria dos executivos C-level é responsável pela gestão desses riscos. A discussão sobre riscos naturais ainda é menos frequente comparativamente aos riscos climáticos, refletindo o estágio inicial da incorporação destes riscos nas práticas corporativas.
Envolvimento do Conselho e seus Comitês:
A eficácia da gestão de riscos começa no mais alto nível de uma empresa, o que inclui o conselho e seus comitês, e também a alta gestão da diretoria. A pesquisa indica que cerca de 46% dos conselhos já têm supervisão sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza. Isso mostra uma integração significativa, considerando que a gestão de riscos naturais é um campo relativamente novo. Adicionalmente, 48% das empresas estão em processo de integrar essa supervisão, e apenas 6% não planejam implementar tal supervisão.
Frequência e Temáticas das Discussões:
A frequência das discussões sobre riscos naturais nos conselhos, comitês e diretorias ainda é limitada, com 45% das empresas discutindo o assunto apenas uma vez no ano anterior. Isto contrasta com questões climáticas, geralmente discutidas quatro vezes por ano. Este dado ressalta uma necessidade de maior engajamento e regularidade nas discussões sobre riscos naturais. Além disso, as discussões abrangem uma ampla gama de tópicos, incluindo riscos físicos e de transição dos parceiros e investimentos das empresas, definição de biodiversidade, serviços ecossistêmicos, e a relação entre mudanças climáticas e riscos naturais.
Responsabilidade Executiva:
A responsabilidade pela avaliação e gestão de riscos naturais geralmente recai sobre os executivos de nível C, com o Chief Risk Officer (CRO) frequentemente indicado como o principal responsável. Interessante notar que em cerca de 50% das empresas, a mesma pessoa é responsável tanto por riscos climáticos quanto naturais, sugerindo uma abordagem integrada à gestão de riscos ambientais.
Uso de Painéis de Controle (Dashboards):
A utilização de dashboards para apresentar informações relacionadas aos riscos naturais ao conselho e às diretorias está em estágio inicial. Apenas 6% das empresas já implementam dashboards dedicados a riscos naturais, e uma proporção similar integra essas informações em dashboards existentes de outros riscos, como crédito ou operacionais. A pesquisa indica que muitas empresas planejam desenvolver tais ferramentas, refletindo um reconhecimento da importância de visibilizar e gerenciar proativamente esses riscos.
Isto tudo acima mostra uma tendência crescente na adoção de práticas de governança relacionadas à natureza nas empresas financeiras, embora ainda exista uma margem significativa para aprofundamento e regularidade nas práticas e discussões. A implementação de supervisão e estratégias eficazes em níveis de conselho, comitês e diretoria são essenciais para que as empresas possam responder adequadamente aos crescentes riscos naturais, uma necessidade que só deve se intensificar à medida que a interdependência entre os sistemas financeiros e naturais se torna mais evidente.
Estratégia:
A estratégia de incorporar riscos naturais envolve entender como as atividades das empresas financiadas impactam e dependem da natureza. Até o momento, apenas 25% das empresas identificaram riscos ou oportunidades relacionados à natureza, um número significativamente menor quando comparado ao primeiro levantamento sobre riscos climáticos.
Compreensão das Dependências e Impactos:
A estratégia para lidar com riscos relacionados à natureza envolve compreender como as empresas dependentes de recursos naturais em suas cadeias de suprimentos, ou aquelas operando em regiões com alta biodiversidade ou vulnerabilidade a perdas naturais, afetam e são afetadas pela natureza. Essa análise considera tanto o impacto financeiro direto nos negócios quanto o impacto ambiental das operações das empresas financiadas.
Priorização e Engajamento Estratégico:
A pesquisa revela que mais de 60% das empresas priorizam os riscos relacionados à natureza com base em suas atividades de negócios, enquanto cerca de um terço também considera áreas ecologicamente sensíveis ou de alto risco hídrico. Apenas 10% focam exclusivamente nos riscos de operar em áreas de alta importância para a biodiversidade ou de alto risco de perda de biodiversidade.
Maturidade Estratégica:
Atualmente, apenas 25% das empresas identificaram riscos ou oportunidades relacionadas à natureza, um contraste com os mais de 80% que identificaram riscos relacionados ao clima em 2019. Isso reflete uma maturidade estratégica relativamente baixa no engajamento com riscos naturais, com muitas empresas ainda no processo de avaliação desses riscos.
Desenvolvimento de Produtos Relacionados à Natureza:
Produtos financeiros específicos ligados à natureza, como títulos de desempenho vinculados à natureza ou fundos de natureza, são pouco comuns, refletindo a novidade da agenda de natureza. A maioria das ofertas existentes ainda está fortemente ligada a estratégias de financiamento de transição e fundos verdes, mostrando uma área de potencial inovação e desenvolvimento de mercado.
Desafios Estratégicos e Operacionais:
As empresas enfrentam vários desafios ao estabelecer práticas estratégicas e de gestão de riscos naturais. Dentre estes, o alinhamento das estratégias de risco climático e natural é destacado, com 40% das empresas já tendo alinhado essas estratégias e um adicional de 23% trabalhando ou pretendendo alinhar. A falta de dados confiáveis e modelos robustos, incertezas regulatórias e a compreensão dos riscos são preocupações significativas no curto prazo. As empresas esperam que essas questões diminuam à medida que os regimes regulatórios amadurecem e os métodos de modelagem se estabeleçam.
Expectativas Regulatórias:
As exigências regulatórias estão se tornando mais estritas, com 31% das empresas reportando que os reguladores já publicaram expectativas formais para a gestão de riscos naturais e 13% esperando que isso aconteça em breve. A necessidade de relatar riscos relacionados à natureza está crescendo, impulsionada por iniciativas regulatórias na União Europeia, Cingapura e Brasil, entre outros.
Aqui vemos a importância de uma abordagem estratégica robusta para a gestão de riscos naturais, que não só compreenda as complexidades dos impactos ambientais das atividades corporativas, mas também esteja alinhada com as expectativas regulatórias crescentes e com as práticas de gestão de riscos já estabelecidas para riscos climáticos. As instituições financeiras estão sendo chamadas a aprofundar seu envolvimento com essas questões, o que provavelmente moldará a evolução das práticas de gestão de riscos e de responsabilidade corporativa nos próximos anos.
Gestão de Riscos:
A maioria das empresas está na fase inicial de reconhecer e gerenciar riscos naturais, com uma variação nos enfoques e profundidade de integração desses riscos em suas estruturas de gerenciamento de riscos existentes. Ainda há uma grande lacuna no desenvolvimento de modelos e na coleta de dados adequados para uma análise eficaz.
Estado Atual:
A maioria das empresas começou formalmente a explorar riscos financeiros relacionados à natureza, mas mais de 40% ainda estão investigando se esses deveriam ser considerados riscos reais. Um percentual menor de empresas começou a abordar esses riscos nos últimos dois anos, mostrando que o campo é relativamente novo para muitos.
Identificação de Fatores de Riscos de Mudança da Natureza:
As empresas estão focadas em entender os fatores que podem afetar ou ser afetados por suas carteiras, com a mudança climática sendo o tópico mais popular, seguido por desmatamento, escassez de água, perda de biodiversidade, poluição do ar e da água e exploração de recursos. Esses fatores são analisados em todos os setores relevantes.
Avaliações de Materialidade:
Apenas 35% das empresas realizaram avaliações de materialidade para entender a importância relativa desses fatores, com um adicional de 23% tendo avaliações em andamento. As avaliações de materialidade ajudam a determinar quais riscos são significativos o suficiente para necessitar gestão ativa.
Riscos Físicos e de Transição:
As empresas estão preocupadas tanto com os riscos físicos (como erosão do solo devido ao desmatamento) quanto com os riscos de transição (como novas regulamentações para prevenir o desmatamento). A análise de risco também considera o impacto das atividades empresariais sobre esses fatores, o que pode incluir riscos legais e de reputação.
Integração no Framework de Gestão de Riscos:
Há duas abordagens principais para integrar o risco relacionado à natureza: tratá-lo como um tipo de risco principal ou como um risco transversal integrado a outros tipos de riscos existentes. A maioria das empresas ainda está decidindo como incorporar adequadamente o risco de natureza em seus sistemas.
Riscos Específicos e Gestão:
O risco de crédito é o tipo mais comum em que o risco natural é integrado, seguido por riscos de reputação, operacionais, estratégicos, de liquidez, legais e de mercado. A análise de contrapartes para avaliar os impactos dos riscos físicos e de transição relacionados à natureza é uma abordagem comum.
Declarações de Apetite por Risco:
Atualmente, apenas 8% das empresas têm uma declaração de apetite por risco relacionada à natureza, embora 42% planejem criar uma. Esse documento define o nível de risco que a empresa está disposta a aceitar para atingir seus objetivos de negócios.
Recursos Humanos e Capacitação:
A maioria das empresas não tem funcionários em tempo integral trabalhando exclusivamente com riscos da natureza, mas muitas têm funcionários em tempo parcial. A capacitação em riscos da natureza está sendo expandida, com mais de 50% das empresas oferecendo algum treinamento nessa área.
A gestão de riscos relacionados à natureza está ainda em estágios iniciais nas empresas financeiras, com muitas delas explorando como esses riscos se encaixam em suas práticas de gestão de riscos existentes. As empresas enfrentam desafios significativos em termos de dados, modelos e alinhamento estratégico, mas a conscientização e as iniciativas estão crescendo, conforme mostrado pela implementação de treinamento e pelo planejamento de melhorias nas avaliações de materialidade e integração de riscos.
Métricas, Metas e Limites:
Menos de 20% das empresas utilizam métricas e objetivos definidos para gerenciar riscos naturais, destacando uma área significativa de desenvolvimento necessário para alinhar as práticas de gerenciamento de riscos com as exigências emergentes.
Antes de começar bom colocar 3 definições fundamentais:
Métricas: São medidas usadas para avaliar riscos relacionados à natureza, como a porcentagem de parceiros comerciais que têm políticas para abordar a questão do desmatamento.
Metas: São os resultados que uma empresa pretende alcançar, como por exemplo, implementar políticas de desmatamento em mais de 90% dos parceiros comerciais.
Limites: Representam o pior cenário que a empresa está disposta a aceitar sem tomar medidas corretivas, como, por exemplo, se menos de 80% dos parceiros comerciais tiverem políticas de desmatamento, a empresa se envolverá ativamente para incentivar a implementação de tais políticas.
Uso Atual de Métricas, Metas e Limites:
Apenas 17% das empresas já estão utilizando métricas, metas ou limites para gerenciar riscos relacionados à natureza, enquanto 12% estão atualmente implementando essas medidas. Surpreendentemente, 46% das empresas pretendem usar essas ferramentas, mas um quarto ainda não planeja medir esses riscos de forma sistemática.
Foco em Diferentes Riscos da Natureza:
As métricas, metas e limites mais comuns estão associadas à mudança climática, devido à experiência prévia das empresas com riscos climáticos. A poluição é o segundo motor de risco mais comum para o qual as métricas são desenvolvidas, seguido pela alteração no uso de terra/água/oceano e exploração de recursos.
Frameworks Utilizados:
Os frameworks mais populares para medir riscos financeiros relacionados à natureza incluem:
ENCORE (Exploring Natural Capital Opportunities, Risks and Exposure)
https://www.encorenature.org/en
Heatmaps
LEAP approach do TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures)
Esses frameworks estão ajudando as empresas a padronizar a avaliação de riscos naturais e são esperados para continuar sendo os mais utilizados.
Propósitos das Métricas, Metas e Limites:
As métricas são utilizadas principalmente para cumprir requisitos regulatórios, mas também para gerenciar riscos de ativos e passivos no balanço patrimonial, além de medir o impacto da carteira sobre a natureza e verificar se o risco relacionado à natureza está dentro do apetite de risco da empresa.
Embora o uso de métricas, metas e limites para a gestão de riscos relacionados à natureza esteja ainda em estágios iniciais, é claro que há um movimento crescente entre as empresas financeiras para desenvolver e implementar essas ferramentas. Com a evolução dos frameworks e a crescente pressão regulatória, espera-se que essas práticas se tornem mais robustas e integradas nas estratégias de gestão de riscos das empresas, facilitando uma abordagem mais sistemática e quantificável para lidar com os riscos da natureza.
Análise de Cenário:
A análise de cenários é utilizada por uma minoria das firmas para avaliar o impacto dos riscos naturais em suas carteiras, mas espera-se que seu uso aumente conforme as práticas amadurecem.
Uso Atual de Análise de Cenário:
A análise de cenário é uma ferramenta chave para entender o impacto dos riscos relacionados à natureza no portfólio ou balanço patrimonial das organizações. No entanto, atualmente, menos de 20% das empresas utilizam esta ferramenta. Isso destaca uma adoção ainda limitada, embora 50% das empresas planejem implementá-la nos próximos dois anos. Surpreendentemente, cerca de um terço das empresas ainda não têm planos de usar análise de cenário para riscos naturais.
Propósitos da Análise de Cenário:
As empresas que estão utilizando análise de cenário o fazem principalmente para:
- Avaliar o impacto financeiro dos riscos relacionados à natureza.
- Identificar riscos aos quais estão expostas.
- Apoiar o desenvolvimento estratégico.
- Informar suas divulgações externas.
- Avaliar a eficácia da mitigação de riscos.
Estas análises ajudam as empresas a fundamentar suas decisões de gerenciamento de risco e estratégias de negócio de forma mais informada e baseada em dados.
Tipos de Cenários Utilizados:
As empresas estão empregando tanto cenários externos quanto internos para suas análises. Os cenários externos frequentemente vêm de narrativas criadas por organizações como o Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD). Os cenários internos podem incluir avaliações do impacto da escassez de água, os efeitos do desmatamento e a poluição do solo em partes relevantes do mundo para o portfólio das empresas. Esses cenários ajudam a simular diferentes condições ambientais e seus potenciais impactos financeiros.
Seleção de Portfólios para Análise:
A escolha de portfólios, títulos ou transações para inclusão na análise de cenário geralmente se baseia no potencial de impacto financeiro alto de riscos naturais ou na presença substancial de riscos naturais nesses investimentos. Isso indica um enfoque estratégico na alocação de recursos e na mitigação de riscos.
Avanços e Integração com Cenários Climáticos:
Embora a maioria das empresas ainda não tenha realizado análises de cenário relacionadas à natureza, algumas estão significativamente mais avançadas nesse processo. Essas empresas líderes já avaliaram riscos relacionados à natureza, integraram cenários de natureza aos seus cenários climáticos e tomaram medidas baseadas em suas descobertas, como alterar a gestão de riscos, precificação ou composição de portfólio.
A análise de cenário para riscos naturais é uma área ainda bem nova e emergente dentro da gestão de riscos financeiros, mas que está começando a ganhar tração. Embora ainda não seja amplamente adotada, a crescente conscientização sobre a importância de avaliar e mitigar os riscos associados à perda de natureza está levando mais empresas a considerar esta ferramenta crítica. À medida que mais empresas começam a implementar análises de cenário, espera-se que a compreensão e a capacidade de gerenciar esses riscos se tornem mais sofisticadas e integradas às práticas gerais de gerenciamento de riscos das empresas.
Divulgações:
A divulgação de informações relacionadas à gestão de riscos naturais ainda está em uma fase muito inicial, com uma pequena proporção de empresas reportando suas estratégias e riscos de natureza para públicos externos.
Avaliação Geral:
Esta primeira pesquisa sobre riscos naturais mostra que as empresas estão apenas começando a avaliar os riscos e oportunidades associados à perda da natureza. Este esforço inicial reflete a importância crescente da natureza como uma fonte tanto de riscos financeiros quanto de riscos sistêmicos para a sociedade. Além disso, a resiliência da natureza é crucial para combater as mudanças climáticas.
Comparação com a Gestão de Riscos Climáticos:
A gestão de riscos naturais está em seus estágios iniciais, similar ao que foi observado com os riscos climáticos na primeira pesquisa sobre o tema em 2019, mas com desenvolvimento ainda mais lento. Por exemplo, a governança sobre questões naturais nas diretorias está menos estabelecida do que estava a governança sobre questões climáticas em 2019. Além disso, uma proporção menor de empresas identificou riscos ou oportunidades relacionados à natureza, e o desenvolvimento de métricas, metas, limites e a utilização de análise de cenários estão apenas começando a ser explorados.
Desafios e Barreiras:
Os riscos naturais enfrentam muitos dos mesmos desafios e barreiras que os riscos climáticos, incluindo a disponibilidade limitada de dados e modelos, incertezas regulatórias e a falta de pessoal qualificado. No entanto, espera-se que essas questões se atenuem a longo prazo, à medida que os sistemas de gestão de riscos naturais se desenvolvem e amadurecem.
Confusão entre Mudança Climática e Natureza:
Sabe-se de que muitas empresas estão confundindo as interconexões entre mudança climática e natureza, com muitas respondendo às questões com uma perspectiva centrada no clima, em vez de uma perspectiva focada na natureza. O estudo tentou corrigir isso na pontuação, destacando a necessidade de uma abordagem mais clara e diferenciada na gestão desses dois tipos de riscos.
Importância Crescente dos Riscos Naturais:
Dado que uma grande proporção da economia e, consequentemente, dos portfólios financeiros dependem da natureza, espera-se que os riscos naturais se tornem um foco cada vez mais importante para reguladores, investidores e a sociedade civil. O sistema financeiro pode desempenhar um papel influente na transição para um mundo positivo para a natureza, e práticas de gestão de riscos sólidas podem formar uma base poderosa para essa transformação.
Modelo de Maturidade para Gestão de Riscos da Natureza:
O modelo de maturidade utilizado para avaliar as empresas indica uma variedade na capacidade de gestão de riscos relacionados à natureza, com muitas ainda no início de suas jornadas para integrar esses riscos de maneira eficaz em suas operações.
O estudo conclui que o gerenciamento de riscos relacionados à natureza está em sua infância, com muito espaço para desenvolvimento e integração nas práticas de gestão de riscos corporativos. Existe uma clara necessidade de desenvolvimento de competências, coleta de dados melhorada e criação de modelos mais robustos para avaliar e gerenciar esses riscos de forma eficaz.
Para quem ficou até aqui é por que está mais interessado, então fica o link para a fonte original com os resultados mais detalhados em:
https://www.garp.org/sustainability-climate/global-survey-nature-risk-2024