Artigo
02/04/2024
Atualizado em 17/04/2026

Análise dos Riscos Climáticos + Mudanças no GRSAC para incorporar Dados Quantitativos sobre a exposição a esses Riscos Social, Ambiental e Climático

Banco Central do Brasil lança consulta pública para incluir dados quantitativos no relatório GRSAC, ampliando a gestão e transparência dos riscos sociais, ambientais e climáticos nas instituições financeiras.

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A preocupação dos bancos com os efeitos dos riscos climáticos no sistema financeiro ganhou destaque recentemente, conforme apontado em relatórios e pesquisas de instituições financeiras globais e nacionais.

Uma pesquisa realizada pelo Banco Central com 83 organizações revelou um aumento significativo na preocupação das instituições financeiras com os potenciais efeitos dos riscos climáticos no Sistema Financeiro Nacional (SFN) em comparação com o ano anterior. Este estudo destacou que, apesar de os impactos dos eventos climáticos em 2023 terem sido considerados "muito baixos", existe uma expectativa de que os riscos físicos relacionados ao clima ganhem relevância em horizontes temporais mais longos. A seca foi apontada por exemplo como o evento climático de maior impacto esperado a longo prazo.

A análise dos riscos climáticos envolve considerar eventos de grande severidade, como secas, inundações e tempestades, que podem ameaçar a estabilidade financeira através do aumento da inadimplência e inflação.

Danos físicos a propriedades, desvalorização de ativos, interrupção de processos produtivos e de cadeias de suprimentos são alguns dos canais por meio dos quais esses eventos podem afetar a economia. A produção pode ser reduzida, os custos aumentarem e os preços se elevarem, pressionando a inflação e a renda e, por consequência, impactando a inadimplência.

Apesar da percepção de riscos, algumas instituições ainda consideram o SFN resiliente o suficiente para suportar as perdas decorrentes de eventos climáticos. A baixa concentração da carteira de crédito em setores de alta ou média exposição ao risco climático é um dos argumentos para esta resiliência.

Entretanto, os riscos de transição, associados aos custos de adaptação às novas regulamentações e modelos de negócios focados na sustentabilidade, também são vistos como potenciais ameaças à estabilidade financeira.

Importante notar que uma parcela significativa das instituições financeiras já inclui os riscos climáticos de transição em seu gerenciamento de riscos, embora a análise tenda a se limitar a um horizonte de curto prazo.

A transição para uma economia de baixo carbono pode alterar drasticamente as preferências de consumo e as barreiras de mercado devido a regulamentações ambientais mais estritas, impondo custos adicionais às empresas que, em casos extremos, podem levar à inadimplência.

O relatório também destaca uma evolução na maturidade das instituições financeiras no que diz respeito ao gerenciamento de riscos climáticos, indicando um movimento de adaptação às regulamentações recentes sobre o tema. Há, contudo, uma grande heterogeneidade no nível de adoção de práticas relacionadas ao gerenciamento desses riscos entre as instituições.

Em âmbito global o Banco Central Europeu (BCE) reitera a importância de considerar os riscos climáticos nas estratégias dos bancos centrais e instituições de supervisão financeira. A volatilidade macroeconômica e os impactos nos riscos financeiros, impulsionados por eventos climáticos e naturais mais frequentes e severos, são destacados como desafios cruciais para a estabilidade financeira e econômica.

O papel dos bancos na gestão e redução dos riscos relacionados ao clima, especialmente em setores de alta emissão de carbono, é enfatizado como fundamental para a transição para uma economia sustentável.

Diante da crescente consciência sobre os impactos dos riscos climáticos no sistema financeiro, há um movimento global e nacional das instituições financeiras e autoridades monetárias para integrar considerações climáticas nas práticas de gerenciamento de riscos e governança. Este cenário exige uma resposta coordenada, envolvendo não apenas a adaptação das estruturas regulatórias e de supervisão, mas também um comprometimento das instituições financeiras em incorporar práticas sustentáveis em suas operações e estratégias de negócios.

Aproveitando o tema queria comentar sobre a iniciativa do Banco Central do Brasil (BC) de lançar uma consulta pública sobre a regulação da divulgação do nível de exposição das instituições financeiras a riscos social, ambiental e climático, que representa mais um passo significativo em direção à integração dos riscos não financeiros na análise de riscos tradicional das instituições financeiras.

A abertura desta consulta, que permite contribuições até o dia 28 de junho, sinaliza um movimento de alinhamento do SFN com as práticas globais de transparência e gestão de riscos relacionados à sustentabilidade.

A consulta em formato de tomada de subsídios busca obter insights sobre como definir e formatar as informações quantitativas a serem incluídas no Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (GRSAC), um documento anual que as instituições financeiras devem divulgar, relatório que até então focado em informações qualitativas como estratégias, governança e estruturas de gestão dos riscos, passará a incorporar também dados quantitativos sobre a exposição a esses riscos.

A inclusão de indicadores quantitativos é uma demanda crescente para complementar as métricas de riscos climáticos já abarcadas pelos padrões internacionais, como as recomendações da FSB Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) e os padrões da International Sustainability Standards Board (ISSB). Parece que o Bacen busca, com essa consulta, entender quais indicadores seriam mais relevantes e como melhor formatar as informações sobre exposições por setor e metas, visando uma abordagem mais abrangente e detalhada do gerenciamento desses riscos.

A fase atual da consulta pública se concentra nas informações quantitativas e é um passo importante para o alinhamento integral das normas do relatório GRSAC aos padrões internacionais. Este alinhamento está previsto para ser concluído na terceira fase, em 2025, com uma revisão abrangente das informações qualitativas e a inclusão das quantitativas que estão sendo discutidas na consulta atual. Este processo evidencia o compromisso do BC com a promoção da transparência e do aprimoramento da gestão de riscos sociais, ambientais e climáticos no setor financeiro brasileiro.

A integração desses riscos na análise e gestão das instituições financeiras reflete uma compreensão mais ampla dos fatores que podem afetar a estabilidade financeira e a resiliência das instituições em um cenário de mudanças globais.

Além disso, destaca a importância de uma governança corporativa forte e de uma estratégia de sustentabilidade bem definida, não apenas como um imperativo ético ou ambiental, mas também como um componente crítico da gestão de riscos financeiros.

Vejam a consulta pública em:

https://www3.bcb.gov.br/audpub/DetalharAudienciaPage?4&audienciaId=621

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante