Tem gente que ainda acredita que ESG vai salvar o mundo e que as empresas vão se tornar mais conscientes, humanas e sustentáveis só porque surgiu uma sigla que é citada a cada dois discursos, mas a pergunta que ninguém faz (e deveria fazer) é: será que as empresas querem mesmo isso, ou será que o discurso ESG funciona justamente porque permite manter tudo quase igual, só que com um enfeite mais bonito?
Fala-se muito que empresas que adotam ESG atraem clientes mais comprometidos e por isso, devem implementar a agenda, mas a pergunta que venho fazendo é justamente contrária. Será mesmo? Ou será que as empresas preferem o inverso: os não comprometidos, os que não perguntam, os que consomem sem pensar (e por vezes acreditam fazer bem para algo), os que aceitam qualquer coisa? O cliente exigente custa caro, reclama e quer saber demais. Esse dá trabalho, já o outro não (e ele ainda existe em quantidade o bastante, para valer a pena manter tudo como está) apenas colocando um rótulo melhor para não viralizar negativamente e o cliente (mesmo que despreocupado com o tema) evite de comprar só pra fazer parte da trend.
Dizem também que ESG ajuda a reduzir impactos, mas normalmente empresas e profissionais se alinham a “Frameworks preestabelecidos” que nivelam todo mundo por igual. E quando analisamos a fundo, vemos que existe impacto que já está dentro do modelo de negócio e, inclusive, que ajuda a gerar lucro para a organização, o que nessa roupagem padrão, fica fácil de reequilibrar fazendo algo menos complexo (no final tirar zero naquilo que dá trabalho e dez naquilo que não precisa de uma mudança profunda, me deixa com cinco de média e o certificado está garantido). Se for mexer nisso, tem que justificar para o financeiro e a verdade é que, muitas vezes, não vale a pena (até porque os profissionais de sustentabilidade e ESG normalmente não conseguem conversar com quem analisa tudo apenas numericamente, principalmente por estar preparado a falar de propósito e visão reputacional, sem conectar isso com o dinheiro de fato).
Esse contexto todo que fiz, foi para chamar a atenção em um ponto muito relevante (se o futuro for realmente trabalhar com o tema ESG além do oba-oba). Temos que ter clareza que insistimos em olhar para as empresas a partir das nossas crenças pessoais, acreditando que fazer ESG tem como objetivo mudar a empresa para que ela se torne mais sustentável (do nosso ponto e ângulo de visão). Tentamos encaixar nelas aquilo que gostaríamos de ver no mundo, e não o que realmente move o negócio, e assim medimos com nossa régua de valor aquilo que, lá dentro, é medido com régua de risco, e pior: cobramos mudanças nos outros com uma exigência que muitas vezes não aplicamos nem à nossa própria conduta diária (e essa parte, poucos assumem). Empresa que não tenho vínculo não pode errar, mas a que está comigo pode dar aquela deslizada básica e falar que “todo mundo faz assim”.
E tudo isso se complica mais ainda quando lembramos que tem empresa que sabe que seu produto faz mal às pessoas, ao meio ambiente e à biodiversidade, mas que se ela tiver uma boa gestão de carbono, fizer uma campanha sobre diversidade e usar copo reciclável no evento, pode ser premiada como referência em sustentabilidade. Ninguém questiona e, normalmente, ela ainda vira case dos Gurus do ESG online que vemos por aí. Justamente por isso, que gostaria que você fizesse essa reflexão: Isso que todos os "experts" estão chamando por aí de ESG é transformação, estratégia de negócio, greenwashing ou só controle de danos bem-feito?
Trago essa conversa mais profunda no artigo dessa semana para que tenhamos os pés no chão e possamos entender que ESG, na prática, não é filosofia. É uma ferramenta de autoconhecimento organizacional que serve para entender até onde a empresa está disposta a ir para proteger sua reputação e seu caixa, o resto é discurso para vender infoproduto e ganhar likes por comoção.
Talvez a gente precise parar de romantizar ESG e começar a encarar o óbvio: ESG funciona quando protege o negócio, quando não protege, vira custo. E custo, como todo mundo sabe, entra no corte na primeira necessidade. Além disso, talvez enxergar dessa forma fria nos ajude a separar o discurso que virou moda nas mídias sociais, do real contexto de quem implementa gestão na prática (que nem sempre é bonitinho como pregam). ESG precisa estar conectado à estratégia do negócio ajudando a organização a se manter perene, e o que vemos é um processo de auxiliar a empresa a mostrar que é mais sustentável (mesmo que não seja, e claro, sem mexer naquilo que realmente causa impacto severo aos demais, se der muito trabalho).
Está mais claro do que nunca que vivemos um momento de pura busca por espaço social e que isso tem levado pessoas a acreditar em coisas que jamais seriam reais (ou em pessoas que na verdade não são). E já que o discurso por aqui na rede que começa a crescer sobre “quem é você sem crachá?” tem sido frequente e virado uma das trends atuais, meu desafio é então analisar: Quem é você fora das mídias sociais? Alguém que acredita valer a pena ser seguido? Alguém que discursa de acordo com sua realidade e impactos que sugere gerar? Ou não passa de uma persona que pode estar ajudando a direcionar um tema importante para um caminho irresponsável de fingir fazer ESG porque é o que as empresas querem de fato?
Cabe a cada um analisar isso e entender que os responsáveis não são apenas aqueles memes que são analisados a cada nova trend ou escândalos, mas sim você mesmo, que minimiza ou inflama discursos sem saber qual o real contexto, apenas buscando seu benefício próprio e nomeando isso de "trabalho com propósito".
A maturidade pouco a pouco vai chegando e as perguntas difíceis começam a ser feitas, porque apenas discursar sustentabilidade sem realmente entregar solução para o negócio ou para a sociedade é mais grave do que não fazer nada.