Artigo
25/05/2025

ESG vai salvar o mundo?

Analisa criticamente se o ESG representa mudança real nas empresas ou apenas serve para proteger reputação e resultados.

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Tem gente que ainda acredita que ESG vai salvar o mundo e que as empresas vão se tornar mais conscientes, humanas e sustentáveis só porque surgiu uma sigla que é citada a cada dois discursos, mas a pergunta que ninguém faz (e deveria fazer) é: será que as empresas querem mesmo isso, ou será que o discurso ESG funciona justamente porque permite manter tudo quase igual, só que com um enfeite mais bonito?

Fala-se muito que empresas que adotam ESG atraem clientes mais comprometidos e por isso, devem implementar a agenda, mas a pergunta que venho fazendo é justamente contrária. Será mesmo? Ou será que as empresas preferem o inverso: os não comprometidos, os que não perguntam, os que consomem sem pensar (e por vezes acreditam fazer bem para algo), os que aceitam qualquer coisa? O cliente exigente custa caro, reclama e quer saber demais. Esse dá trabalho, já o outro não (e ele ainda existe em quantidade o bastante, para valer a pena manter tudo como está) apenas colocando um rótulo melhor para não viralizar negativamente e o cliente (mesmo que despreocupado com o tema) evite de comprar só pra fazer parte da trend.

Dizem também que ESG ajuda a reduzir impactos, mas normalmente empresas e profissionais se alinham a “Frameworks preestabelecidos” que nivelam todo mundo por igual. E quando analisamos a fundo, vemos que existe impacto que já está dentro do modelo de negócio e, inclusive, que ajuda a gerar lucro para a organização, o que nessa roupagem padrão, fica fácil de reequilibrar fazendo algo menos complexo (no final tirar zero naquilo que dá trabalho e dez naquilo que não precisa de uma mudança profunda, me deixa com cinco de média e o certificado está garantido). Se for mexer nisso, tem que justificar para o financeiro e a verdade é que, muitas vezes, não vale a pena (até porque os profissionais de sustentabilidade e ESG normalmente não conseguem conversar com quem analisa tudo apenas numericamente, principalmente por estar preparado a falar de propósito e visão reputacional, sem conectar isso com o dinheiro de fato).

Esse contexto todo que fiz, foi para chamar a atenção em um ponto muito relevante (se o futuro for realmente trabalhar com o tema ESG além do oba-oba). Temos que ter clareza que insistimos em olhar para as empresas a partir das nossas crenças pessoais, acreditando que fazer ESG tem como objetivo mudar a empresa para que ela se torne mais sustentável (do nosso ponto e ângulo de visão). Tentamos encaixar nelas aquilo que gostaríamos de ver no mundo, e não o que realmente move o negócio, e assim medimos com nossa régua de valor aquilo que, lá dentro, é medido com régua de risco, e pior: cobramos mudanças nos outros com uma exigência que muitas vezes não aplicamos nem à nossa própria conduta diária (e essa parte, poucos assumem). Empresa que não tenho vínculo não pode errar, mas a que está comigo pode dar aquela deslizada básica e falar que “todo mundo faz assim”.

E tudo isso se complica mais ainda quando lembramos que tem empresa que sabe que seu produto faz mal às pessoas, ao meio ambiente e à biodiversidade, mas que se ela tiver uma boa gestão de carbono, fizer uma campanha sobre diversidade e usar copo reciclável no evento, pode ser premiada como referência em sustentabilidade. Ninguém questiona e, normalmente, ela ainda vira case dos Gurus do ESG online que vemos por aí. Justamente por isso, que gostaria que você fizesse essa reflexão: Isso que todos os "experts" estão chamando por aí de ESG é transformação, estratégia de negócio, greenwashing ou só controle de danos bem-feito?

Trago essa conversa mais profunda no artigo dessa semana para que tenhamos os pés no chão e possamos entender que ESG, na prática, não é filosofia. É uma ferramenta de autoconhecimento organizacional que serve para entender até onde a empresa está disposta a ir para proteger sua reputação e seu caixa, o resto é discurso para vender infoproduto e ganhar likes por comoção.

Talvez a gente precise parar de romantizar ESG e começar a encarar o óbvio: ESG funciona quando protege o negócio, quando não protege, vira custo. E custo, como todo mundo sabe, entra no corte na primeira necessidade. Além disso, talvez enxergar dessa forma fria nos ajude a separar o discurso que virou moda nas mídias sociais, do real contexto de quem implementa gestão na prática (que nem sempre é bonitinho como pregam). ESG precisa estar conectado à estratégia do negócio ajudando a organização a se manter perene, e o que vemos é um processo de auxiliar a empresa a mostrar que é mais sustentável (mesmo que não seja, e claro, sem mexer naquilo que realmente causa impacto severo aos demais, se der muito trabalho).

Está mais claro do que nunca que vivemos um momento de pura busca por espaço social e que isso tem levado pessoas a acreditar em coisas que jamais seriam reais (ou em pessoas que na verdade não são). E já que o discurso por aqui na rede que começa a crescer sobre “quem é você sem crachá?” tem sido frequente e virado uma das trends atuais, meu desafio é então analisar: Quem é você fora das mídias sociais? Alguém que acredita valer a pena ser seguido? Alguém que discursa de acordo com sua realidade e impactos que sugere gerar? Ou não passa de uma persona que pode estar ajudando a direcionar um tema importante para um caminho irresponsável de fingir fazer ESG porque é o que as empresas querem de fato?

Cabe a cada um analisar isso e entender que os responsáveis não são apenas aqueles memes que são analisados a cada nova trend ou escândalos, mas sim você mesmo, que minimiza ou inflama discursos sem saber qual o real contexto, apenas buscando seu benefício próprio e nomeando isso de "trabalho com propósito".

A maturidade pouco a pouco vai chegando e as perguntas difíceis começam a ser feitas, porque apenas discursar sustentabilidade sem realmente entregar solução para o negócio ou para a sociedade é mais grave do que não fazer nada.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual a crítica levantada sobre a real intenção das empresas ao adotar práticas ESG?
Questiona-se se as empresas realmente buscam se tornar mais conscientes, humanas e sustentáveis através do ESG, ou se o discurso em torno da sigla funciona como uma forma de manter as operações essencialmente inalteradas, apenas com uma apresentação mais atraente.
Como a preferência por certos tipos de clientes pode influenciar a adoção de ESG pelas empresas?
Sugere-se que algumas empresas podem preferir clientes menos comprometidos e questionadores, que consomem sem muita reflexão. Para essas empresas, adotar um rótulo ESG pode ser uma estratégia para evitar publicidade negativa e atrair consumidores que seguem tendências, sem a necessidade de implementar mudanças profundas e custosas que clientes mais exigentes demandariam.
De que forma os "Frameworks preestabelecidos" de ESG podem limitar a real redução de impactos negativos pelas empresas?
Os chamados "Frameworks preestabelecidos" de ESG podem nivelar as empresas de forma generalizada. Isso permite que algumas organizações compensem impactos significativos e lucrativos, inerentes ao seu modelo de negócio, com ações mais simples e menos custosas em outras áreas. Dessa forma, uma empresa pode obter uma avaliação média satisfatória e um certificado ESG sem, no entanto, abordar os seus problemas de impacto mais profundos e complexos.
Qual o desafio de comunicação frequentemente observado entre profissionais de sustentabilidade/ESG e a área financeira das empresas?
Profissionais que atuam com sustentabilidade e ESG muitas vezes enfatizam o propósito e a reputação da marca. No entanto, podem encontrar dificuldades em traduzir esses conceitos em termos financeiros concretos, o que dificulta a aprovação, pela área financeira, de iniciativas de sustentabilidade que exijam investimentos significativos ou que possam impactar o lucro.
Qual o desalinhamento entre a percepção externa sobre o ESG e a forma como ele é tratado internamente pelas empresas?
Frequentemente, existe uma tendência de se olhar para as empresas e para o ESG a partir de crenças e expectativas pessoais, desejando que as empresas se tornem mais sustentáveis de acordo com uma visão particular. No entanto, internamente, as decisões relacionadas ao ESG são muitas vezes medidas pela régua do risco e do impacto financeiro, e não pela régua de valor ou propósito idealizado externamente. Além disso, cobra-se das empresas um nível de mudança que, por vezes, não é aplicado à própria conduta individual.
Como empresas com produtos ou operações que causam impactos negativos podem, ainda assim, ser reconhecidas por suas práticas de sustentabilidade?
Empresas cujos produtos ou operações centrais geram impactos negativos significativos (seja para pessoas, meio ambiente ou biodiversidade) podem, paradoxalmente, ser premiadas ou reconhecidas como referências em sustentabilidade. Isso pode ocorrer se elas implementarem ações pontuais, como uma boa gestão de emissões de carbono, campanhas sobre diversidade, ou o uso de materiais recicláveis em eventos, mesmo que os principais problemas de impacto de seu negócio principal não sejam abordados.
Qual é a visão pragmática do ESG, diferenciando-o de uma abordagem puramente filosófica?
De uma perspectiva pragmática, o ESG é encarado menos como uma filosofia transformadora e mais como uma ferramenta de autoconhecimento organizacional. Sua função primordial seria ajudar a empresa a identificar e compreender até que ponto está disposta a modificar suas práticas para proteger sua reputação e seus resultados financeiros. O restante, muitas vezes, pode ser apenas discurso.
Em que circunstâncias as iniciativas de ESG podem ser consideradas um custo para as empresas?
As iniciativas de ESG se transformam em um custo para as empresas quando não demonstram proteger ou beneficiar o negócio de forma clara, seja em termos de reputação, risco ou finanças. Como qualquer outro custo que não apresenta retorno perceptível, as despesas com ESG podem ser cortadas quando a empresa enfrenta necessidades de redução de despesas.
Por que é importante conectar o ESG à estratégia central do negócio?
O ESG precisa estar intrinsecamente conectado à estratégia central do negócio para contribuir com a perenidade e o sucesso de longo prazo da organização. O que se observa, por vezes, é um esforço para que a empresa apenas pareça mais sustentável, sem que haja um compromisso real com a transformação de aspectos que causam impactos severos, especialmente se essas mudanças forem consideradas muito trabalhosas ou custosas.
Que questionamento é proposto sobre a autenticidade dos discursos de ESG nas mídias sociais?
Levanta-se um questionamento sobre a autenticidade de indivíduos e empresas em relação ao ESG, especialmente nas mídias sociais. A reflexão proposta é se os discursos sobre sustentabilidade e propósito correspondem às práticas e aos impactos reais gerados, ou se são apenas uma persona construída que pode, inclusive, estar contribuindo para uma abordagem superficial e irresponsável do tema, alinhada mais às aparências do que a transformações efetivas.
Por que discursar sobre sustentabilidade sem ações concretas pode ser problemático?
Apenas discursar sobre sustentabilidade, sem que haja a entrega efetiva de soluções para os desafios do negócio ou da sociedade, é considerado mais prejudicial do que não fazer nada. Isso ocorre porque pode fomentar uma cultura de "fingir fazer ESG", onde a aparência de compromisso substitui a ação real, levando a um tratamento irresponsável de um tema importante e possivelmente atrasando mudanças genuínas.
Além de uma transformação genuína, quais outras interpretações ou funções o ESG pode assumir nas empresas?
O ESG, na prática empresarial, pode assumir diferentes papéis além de ser um motor para uma transformação genuína em direção à sustentabilidade. Ele pode ser encarado como uma estratégia de negócio focada em resultados, uma forma de greenwashing (ou seja, uma comunicação que aparenta responsabilidade socioambiental, mas não reflete a realidade das práticas da empresa) ou, ainda, como um mecanismo de controle de danos bem executado, cujo objetivo principal é proteger a reputação e os interesses financeiros da organização.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado