Artigo
07/03/2025

Governança ESG Fragilizada?

Analisa a fragilidade do compromisso das empresas com a agenda ESG e a prevalência do greenwashing.

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Acho no mínimo curioso o que tenho visto no mercado. Aqueles que antes surfavam na onda do ESG agora estão pulando fora (falando que o assunto acabou, que está fora da moda). Enquanto os contratos, fundos e divulgações na mídia vinham fácil o ESG era incrível, mas agora que depende do compromisso e da resiliência, virou um assunto que não é mais tão interessante.

Se essas pessoas fazem isso com um discurso que adotaram para ganhar dinheiro, imagina o que fazem com as pessoas ao seu redor, funcionários e “parceiros”.

Mas esse roteiro não é novo, nós já vimos isso acontecer com diversas pautas: As empresas anunciam grandes compromissos, fazem promessas ambiciosas, captam investimentos com a bandeira ESG e quando precisa de gestão para cumprir o prometido, começam a rever prioridades. Isso não acontece porque ESG deixou de ser relevante, mas porque nunca foi um compromisso verdadeiro da organização, mas sim um jeito de estar nos holofotes (sem nem fazer parte da estratégia ou dos valores do negócio).

E é exatamente por isso que o conceito de governança dentro da agenda ESG ainda é tão frágil. Na prática, o que deveria garantir estrutura, continuidade e coerência é manipulado quando os ventos mudam. As empresas que usaram ESG como estratégia de mercado agora, migram com grande facilidade para um discurso simplista e evasivo. Algumas empresas estão aliviando compromissos, ignorando e há até quem transforme a narrativa para justificar sua saída da agenda e o que antes era urgência virou exagero e o que antes era diferencial competitivo virou peso regulatório (que atrapalha a competitividade).

O mesmo roteiro se repetiu com a diversidade, durante anos, empresas fizeram barulho com campanhas sobre mulheres no poder, criaram metas de contratação para grupos específicos, criaram comitês de inclusão e celebraram certificações e prêmios, mas, na hora que não tinha ninguém mais olhando, quando os holofotes se voltaram para outras questões, voltaram a fazer o que sempre fizeram: Salve-se quem puder. Porque para muitos, diversidade só era boa enquanto rendia mídia (quantos casos de assédio não aconteceram com "empresas premiadas?".

E aí entra o ponto central: a falta de governança de quem deveria garantir governança. O ESG virou um mercado de selos e certificações que não garantem nada. As empresas pagam para parecer sustentáveis, e não para serem (até porque nem se vende ou busca isso). Os relatórios são construídos mais para agradar e gerar clickbait para os leitores do que para refletir estratégias de verdade e enquanto isso, o greenwashing segue firme e forte. O problema é que o mercado já percebeu isso e o número de críticas e de movimentos contrários ao ESG só cresce, e sejamos honestos, tem muita coisa para criticar mesmo.

Me interessei em falar sobre isso, justamente hoje, no dia internacional da mulher, um ótimo momento para lembrar que equidade não é post bonito no LinkedIn, não é palestra sobre “liderança feminina” para cumprir tabela e não é uma campanha publicitária com meia dúzia de rostos diversos para mostrar que a empresa "se preocupa". Equidade é decisão estratégica, política interna e principalmente, mudança estrutural (que depende de cultura e reflexão). Se não há compromisso verdadeiro em entender a importância da equidade, sugiro antes de fazer um barulho danado com o assunto, estudar um pouco mais e tentar ter empatia com quem não tem as mesmas oportunidades que você.

Mas o tema principal é simples: governança sem compromisso não é governança, é teatro e a fragilidade do conceito (como vejo disseminarem todos os dias por aqui) mostra o quanto ainda estamos distantes do que deveria ser a essência dessa agenda. Muitas empresas estavam esperando um pequeno empurrão para abandonar as metas e diretrizes que nem sabiam para o que serviam, mas o que elas não percebem é que essa falta de consistência cobra seu preço, pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas a conta sempre chega.

Por isso sigo e tento direcionar quem eu posso pelo caminho mais difícil: o que não é o mais barato, nem o mais chamativo, mas é o que perdura, porque, no final das contas, não importa se o tema da moda é ESG, diversidade ou qualquer outro, o que separa discurso de compromisso é simples: “Quem sobrevive quando o trabalho fácil acaba e é necessário fazer o difícil? Assim é com liderança, competência técnica e com as agendas globais. Porque bom não é quem navega nos bons ventos e divulga sua jornada, mas quem segue o seu rumo independente da tempestade (sem culpar o barco, o vento, o mar ou os companheiros)”.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que tem sido observado no mercado em relação à sigla ESG por parte de algumas empresas?
Tem sido observado que algumas empresas que antes promoviam ativamente a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) estão agora se distanciando dela. Essa mudança de postura é caracterizada por afirmações de que o assunto perdeu relevância ou está "fora de moda", ocorrendo especialmente quando o foco se desloca da facilidade inicial de obter contratos, fundos e visibilidade na mídia para a necessidade de um compromisso e resiliência contínuos na implementação das práticas ESG.
Por que algumas empresas tendem a abandonar seus compromissos relacionados ao ESG?
Algumas empresas abandonam seus compromissos ESG porque, para elas, a adesão inicial não representou um alinhamento genuíno com a estratégia ou os valores fundamentais do negócio. Em muitos casos, o ESG foi utilizado primordialmente como uma ferramenta para ganhar destaque no mercado e atrair investimentos. Quando a implementação exige uma gestão dedicada para cumprir as promessas feitas e o "ganho fácil" inicial desaparece, essas organizações tendem a reconsiderar suas prioridades e se afastar da agenda ESG.
Como a dimensão de governança da sigla ESG é frequentemente tratada por empresas com compromissos superficiais?
Em algumas empresas com compromissos superficiais com o ESG, a dimensão de governança é tratada de forma frágil e suscetível a manipulações. O componente que deveria assegurar estrutura, continuidade e coerência às práticas ESG acaba sendo ajustado ou mesmo descartado conforme as circunstâncias externas mudam. Isso ocorre principalmente quando o discurso ESG foi adotado apenas como uma tática de mercado, e não como um pilar fundamental da organização.
Qual a distinção entre empresas que adotam o ESG como "estratégia de mercado" e aquelas com um "compromisso verdadeiro"?
Empresas que utilizam o ESG meramente como uma estratégia de mercado geralmente adotam um discurso simplista e evasivo quando a manutenção dessa agenda exige esforço contínuo e gestão dedicada. Elas podem flexibilizar ou abandonar compromissos, ignorar metas estabelecidas ou até mesmo reformular a narrativa para justificar seu distanciamento das práticas ESG. Nesse cenário, o que antes era comunicado como uma urgência pode ser reclassificado como "exagero", e o que era um diferencial competitivo pode passar a ser visto como um "peso regulatório" que prejudica a competitividade.Por outro lado, empresas com um compromisso verdadeiro com o ESG o integram de forma profunda à sua estratégia e aos seus valores fundamentais, demonstrando coerência e resiliência mesmo diante de desafios. O conteúdo original não fornece um detalhamento extensivo das características de empresas com "compromisso verdadeiro", além de enfatizar a manutenção da coerência e resiliência.
Existem semelhanças entre o comportamento de empresas em relação ao ESG e a outras pautas sociais, como a diversidade?
Sim, observa-se um padrão de comportamento semelhante. Assim como na agenda ESG, muitas empresas demonstraram um engajamento inicial intenso com a pauta da diversidade, promovendo campanhas de conscientização, estabelecendo metas de contratação para grupos minorizados, criando comitês de inclusão e celebrando certificações e prêmios. Contudo, quando a atenção da mídia diminuiu ou se voltou para outras questões, verificou-se que, em muitos casos, essas iniciativas perderam força ou foram descontinuadas. Isso sugere que, para uma parcela dessas empresas, a diversidade era valorizada principalmente enquanto gerava visibilidade e reconhecimento público, e não como um compromisso estrutural e permanente.
Qual é a principal crítica feita ao mercado de selos e certificações relacionados ao ESG?
A principal crítica é que o mercado de selos e certificações ESG, em muitos casos, não garante a sustentabilidade ou responsabilidade genuína das empresas. Em vez de serem um reflexo de práticas ambientais, sociais e de governança efetivas e profundamente integradas, esses selos podem ser adquiridos por organizações que buscam primordialmente "parecer" sustentáveis, sem um compromisso real com a transformação de suas operações e cultura. Essa dinâmica contribui para a disseminação do greenwashing, onde a imagem pública projetada pela empresa não corresponde à realidade de suas ações e impactos.
O que significa o termo <em>greenwashing</em>?
Greenwashing é uma prática de comunicação e marketing na qual uma organização se apresenta como ambientalmente correta, socialmente responsável ou sustentável, sem que suas operações, políticas internas ou produtos realmente sustentem essas alegações de forma significativa. Muitas vezes, os relatórios de sustentabilidade e as campanhas publicitárias podem ser elaborados mais com o intuito de agradar ao público e gerar engajamento superficial (clickbait) do que para refletir estratégias e impactos verdadeiros e mensuráveis.
Como a equidade deve ser compreendida e implementada pelas organizações, para além de ações simbólicas?
A equidade, frequentemente destacada em contextos como o Dia Internacional da Mulher, não deve ser reduzida a ações superficiais como postagens em redes sociais, palestras isoladas sobre liderança feminina para cumprir protocolos, ou campanhas publicitárias que exibem diversidade de forma pontual. Para que seja efetiva e transformadora, a equidade precisa ser tratada como uma decisão estratégica da organização. Isso implica que ela deve estar refletida em políticas internas consistentes e, de maneira fundamental, deve resultar de uma mudança estrutural profunda. Alcançar essa mudança requer um compromisso genuíno da liderança e de toda a organização em entender a importância da equidade, promover uma cultura organizacional inclusiva que estimule a reflexão, e cultivar a empatia, especialmente em relação àqueles que não tiveram as mesmas oportunidades.
O que distingue um discurso superficial de um compromisso genuíno em relação a agendas como ESG ou diversidade?
A diferença fundamental entre um discurso superficial e um compromisso genuíno reside na capacidade de uma organização ou indivíduo de persistir e manter as ações e valores declarados mesmo quando o "trabalho fácil" e a visibilidade inicial terminam, e surgem dificuldades ou a atenção pública diminui. Aqueles que demonstram um compromisso verdadeiro continuam a seguir o rumo traçado e a cumprir suas promessas, independentemente das circunstâncias externas ou da ausência de reconhecimento imediato. Em contraste, quem apenas adota o discurso por conveniência tende a abandonar a pauta quando ela deixa de ser vantajosa ou de gerar ganhos fáceis.
Quais são as possíveis consequências da falta de consistência das empresas em relação aos seus compromissos ESG?
A falta de consistência por parte das empresas em relação aos seus compromissos ESG, como o abandono de metas e diretrizes que muitas vezes nem compreendiam profundamente, acarreta um custo. Embora as repercussões negativas possam não ser imediatas, essa inconsistência e a falta de compromisso genuíno tendem a ser percebidas pelo mercado, investidores, consumidores e outros stakeholders ao longo do tempo, podendo afetar a reputação e a credibilidade da organização.
O que é essencial para que a governança em temas como ESG seja realmente efetiva nas organizações?
Para que a governança em temas como ESG (Ambiental, Social e Governança) seja verdadeiramente efetiva, é crucial que exista um compromisso genuíno por parte da organização. Uma estrutura de governança estabelecida sem esse compromisso subjacente é descrita como superficial, comparável a um "teatro", pois não consegue garantir a solidez, a continuidade e a coerência necessárias para que a agenda ESG prospere e gere valor real. A essência de uma boa governança nesses temas transcende o simples seguimento de tendências passageiras ou a busca por reconhecimento superficial.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado