Acho no mínimo curioso o que tenho visto no mercado. Aqueles que antes surfavam na onda do ESG agora estão pulando fora (falando que o assunto acabou, que está fora da moda). Enquanto os contratos, fundos e divulgações na mídia vinham fácil o ESG era incrível, mas agora que depende do compromisso e da resiliência, virou um assunto que não é mais tão interessante.
Se essas pessoas fazem isso com um discurso que adotaram para ganhar dinheiro, imagina o que fazem com as pessoas ao seu redor, funcionários e “parceiros”.
Mas esse roteiro não é novo, nós já vimos isso acontecer com diversas pautas: As empresas anunciam grandes compromissos, fazem promessas ambiciosas, captam investimentos com a bandeira ESG e quando precisa de gestão para cumprir o prometido, começam a rever prioridades. Isso não acontece porque ESG deixou de ser relevante, mas porque nunca foi um compromisso verdadeiro da organização, mas sim um jeito de estar nos holofotes (sem nem fazer parte da estratégia ou dos valores do negócio).
E é exatamente por isso que o conceito de governança dentro da agenda ESG ainda é tão frágil. Na prática, o que deveria garantir estrutura, continuidade e coerência é manipulado quando os ventos mudam. As empresas que usaram ESG como estratégia de mercado agora, migram com grande facilidade para um discurso simplista e evasivo. Algumas empresas estão aliviando compromissos, ignorando e há até quem transforme a narrativa para justificar sua saída da agenda e o que antes era urgência virou exagero e o que antes era diferencial competitivo virou peso regulatório (que atrapalha a competitividade).
O mesmo roteiro se repetiu com a diversidade, durante anos, empresas fizeram barulho com campanhas sobre mulheres no poder, criaram metas de contratação para grupos específicos, criaram comitês de inclusão e celebraram certificações e prêmios, mas, na hora que não tinha ninguém mais olhando, quando os holofotes se voltaram para outras questões, voltaram a fazer o que sempre fizeram: Salve-se quem puder. Porque para muitos, diversidade só era boa enquanto rendia mídia (quantos casos de assédio não aconteceram com "empresas premiadas?".
E aí entra o ponto central: a falta de governança de quem deveria garantir governança. O ESG virou um mercado de selos e certificações que não garantem nada. As empresas pagam para parecer sustentáveis, e não para serem (até porque nem se vende ou busca isso). Os relatórios são construídos mais para agradar e gerar clickbait para os leitores do que para refletir estratégias de verdade e enquanto isso, o greenwashing segue firme e forte. O problema é que o mercado já percebeu isso e o número de críticas e de movimentos contrários ao ESG só cresce, e sejamos honestos, tem muita coisa para criticar mesmo.
Me interessei em falar sobre isso, justamente hoje, no dia internacional da mulher, um ótimo momento para lembrar que equidade não é post bonito no LinkedIn, não é palestra sobre “liderança feminina” para cumprir tabela e não é uma campanha publicitária com meia dúzia de rostos diversos para mostrar que a empresa "se preocupa". Equidade é decisão estratégica, política interna e principalmente, mudança estrutural (que depende de cultura e reflexão). Se não há compromisso verdadeiro em entender a importância da equidade, sugiro antes de fazer um barulho danado com o assunto, estudar um pouco mais e tentar ter empatia com quem não tem as mesmas oportunidades que você.
Mas o tema principal é simples: governança sem compromisso não é governança, é teatro e a fragilidade do conceito (como vejo disseminarem todos os dias por aqui) mostra o quanto ainda estamos distantes do que deveria ser a essência dessa agenda. Muitas empresas estavam esperando um pequeno empurrão para abandonar as metas e diretrizes que nem sabiam para o que serviam, mas o que elas não percebem é que essa falta de consistência cobra seu preço, pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas a conta sempre chega.
Por isso sigo e tento direcionar quem eu posso pelo caminho mais difícil: o que não é o mais barato, nem o mais chamativo, mas é o que perdura, porque, no final das contas, não importa se o tema da moda é ESG, diversidade ou qualquer outro, o que separa discurso de compromisso é simples: “Quem sobrevive quando o trabalho fácil acaba e é necessário fazer o difícil? Assim é com liderança, competência técnica e com as agendas globais. Porque bom não é quem navega nos bons ventos e divulga sua jornada, mas quem segue o seu rumo independente da tempestade (sem culpar o barco, o vento, o mar ou os companheiros)”.