Artigo
29/09/2024
Atualizado em 05/05/2026

Estudo sobre os Relatórios de Sustentabilidade e ESG

Empresas americanas ajustam a linguagem e ampliam a governança dos relatórios de sustentabilidade em meio à pressão regulatória global e à reação anti ESG.

Resumo

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Sempre importante estar bem informado do que acontece, e das tendências do setor, por isto estou sempre lendo relatórios e estudos sobre temas que acho relevante, por isto queria comentar sobre um deles recente, que foi o estudo chamado: Stand by ESG? Our Annual State of U.S. Sustainability Reports que fez um estudo de uma análise detalhada sobre a evolução dos relatórios de sustentabilidade das empresas americanas, usando com base a avaliação de 250 relatórios de empresas do S&P 500.

Vou então tentar resumir abaixo alguns dos principais desafios, mudanças regulatórias e as respostas das empresas às pressões externas relacionadas às práticas ESG (ambiental, social e governança).

Tenho acompanhado de perto que nos últimos anos, o cenário da sustentabilidade passou por transformações significativas, especialmente em 2024, aonde alguns dos grandes motivadores desta mudança, podemos dizer que foram o aumento das exigências regulatórias e a pressão crescente de grupos políticos e ativistas contrários às práticas ESG, caracterizada como a campanha "anti-ESG".

Um bom exemplo disto é a legislação da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), que impunha novas regras de divulgação climática, foi suspensa pouco após sua finalização, enquanto o estado da Califórnia implementou suas próprias regras de divulgação climática, superando as exigências da SEC.

Paralelamente, outros países têm adotado o quadro de sustentabilidade do International Sustainability Standards Board (ISSB), com por exemplo a União Europeia exigindo que as empresas publiquem seus primeiros relatórios sob a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) já a partir de 2025.

Diante dessa dualidade, deste cabo de guerra entre uma maior pressão regulatória e oposição às práticas ESG, as empresas americanas precisam redefinir suas estratégias., e melhor gerenciar esses riscos conflitantes e ajustando suas comunicações ESG, fornecendo uma análise abrangente dos relatórios de sustentabilidade publicados em 2024.

Este estudo em específico analisou 250 relatórios de sustentabilidade publicados entre 1º de janeiro e 30 de julho de 2024 de empresas, que basicamente pertencem principalmente ao S&P 500, sendo representativas de uma ampla gama de setores, como serviços financeiros, energia, tecnologia da informação, saúde e bens de consumo.

A maioria dos relatórios pertence a empresas de grande porte, com valores de mercado que variam de US$ 10 bilhões a mais de US$ 100 bilhões.

Indi direto ao ponto, este estudo identificou dez principais pontos de destaque bem interessantes nos relatórios analisados, que trago abaixo para seu conhecimento, pois pode (e deve) servir de referência para os nossos aqui no Brasil:

O termo “ESG” está diminuindo, mas não desapareceu

Começo com o interessante ponto, de que embora o uso do termo “ESG” nos títulos dos relatórios tenha caído de 35% em 2023 para 24% em 2024, mas ele ainda aparece em boa parte dos documentos.

A troca para “sustentabilidade” (39%) como o termo mais utilizado reflete a tentativa das empresas de suavizar o discurso em meio à crescente pressão política e social contra o conceito de ESG, especialmente nos Estados Unidos, onde campanhas anti-ESG têm ganhado força.

Entretanto o uso do termo “ESG” dentro dos relatórios permanece robusto, com uma média de 62 menções por relatório, sugerindo que, enquanto a terminologia possa estar sendo ajustada para atender ao ambiente político, a essência dos relatórios continua focada nos princípios ESG.

Essa mudança de terminologia pode ser uma resposta estratégica para atenuar críticas, mantendo o compromisso com as práticas de sustentabilidade.

Aumento da responsabilidade dos CEOs por estratégias ESG

O envolvimento direto dos CEOs nas estratégias ESG das empresas quase dobrou de 2023 para 2024, passando de 18% para 32%, o que é particularmente relevante, pois demonstra uma crescente responsabilização da alta liderança no que tange à implementação e comunicação de iniciativas ESG.

Ao atribuir a responsabilidade aos CEOs, as empresas demonstram que as questões ESG são parte integrante da estratégia corporativa e que sua importância vai além de departamentos isolados como compliance ou sustentabilidade, mostrando bem o esforço para alinhar a agenda ESG com os objetivos corporativos de longo prazo, integrando essas práticas na governança central da empresa.

Além disso CEOs assinaram a maioria das cartas de apresentação dos relatórios, uma prática que fortalece a transparência e a accountability, fatores essenciais para a credibilidade das divulgações ESG.

O termo DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) permanece forte, apesar dos desafios

Apesar das críticas crescentes ao movimento DEI, o termo continua a aparecer em 94% dos relatórios de 2024, o que bem indica de que as empresas americanas reconhecem a importância de manter compromissos com a inclusão e a diversidade, mesmo em um ambiente de maior resistência política.

O estudo revelou que algumas empresas estão optando por reformular suas seções de DEI, colocando mais ênfase em temas como “pertencimento” e “inclusão” em vez de manter as abordagens tradicionais.

Essa mudança sutil pode ser vista como uma resposta estratégica a pressões externas, buscando preservar o espírito das práticas DEI enquanto minimiza o uso de termos que podem atrair críticas.

A adaptação das comunicações em torno de DEI sugere uma resiliência em relação a essas iniciativas, apesar das adversidades.

Menos empresas emitiram comunicados de imprensa para anunciar seus relatórios de sustentabilidade

A diminuição significativa na emissão de comunicados de imprensa para o lançamento dos relatórios, de 75% em 2021 para 49% em 2024, pode refletir uma mudança na estratégia de comunicação das empresas, que em vez de apostar em divulgações amplas e públicas, as empresas estão preferindo métodos mais direcionados e menos expostos, como a criação de áreas no site para ESG.

Essa tendência indica que as empresas estão mudando suas abordagens de comunicação, optando por estratégias mais segmentadas e direcionadas, sendo que as razões para essa mudança podem ser:

- Maior atenção às críticas: Em um ambiente de crescente oposição às práticas ESG, algumas empresas podem estar adotando uma abordagem mais cautelosa para divulgar seus relatórios, evitando atração desnecessária de atenção negativa da mídia e de grupos ativistas contrários.

- Foco em stakeholders específicos: A comunicação de relatórios por meio de microsites ou outros canais internos permite que as empresas atinjam diretamente os públicos que mais importam, como investidores institucionais, reguladores e grandes clientes, em vez de fazer uma divulgação ampla para o público em geral.

Essa mudança também pode ser interpretada como uma tentativa de reduzir os riscos reputacionais associados a possíveis críticas aos relatórios ESG, uma vez que o público em geral pode não ser o público-alvo ideal para essas informações complexas.

Esses sites permitem uma interação mais personalizada com stakeholders interessados e fornecem uma plataforma contínua para divulgar atualizações e responder a novas exigências regulatórias, como as mudanças nas regras de divulgação da SEC e da União Europeia.

Esse movimento de redução de “publicidade” nos relatórios pode estar vinculado ao ambiente polarizado em torno do tema ESG nos Estados Unidos, onde uma abordagem mais discreta e focada nos stakeholders diretos pode ser considerada mais eficaz e menos propensa a atrair críticas públicas.

Relatórios de sustentabilidade estão ficando mais longos:

O aumento do tamanho médio dos relatórios para 83 páginas (um crescimento de 20% em relação a 2021) reflete a crescente complexidade e profundidade das questões ESG abordadas pelas empresas, o que pode ser atribuído a uma combinação de fatores, como o aumento das exigências regulatórias (incluindo a CSRD na União Europeia e a crescente expectativa de divulgações detalhadas sobre riscos climáticos) e a maior demanda dos stakeholders por transparência.

Essa estatística demonstra que as empresas estão cada vez mais detalhando suas iniciativas ESG, uma indicação clara de que as questões de sustentabilidade estão se tornando mais complexas e abrangentes.

O aumento no comprimento dos relatórios reflete vários fatores:

- Crescente regulamentação: Com o aumento das exigências regulatórias, especialmente da União Europeia (como a CSRD), as empresas estão sendo obrigadas a fornecer mais detalhes sobre suas práticas ESG.

- Demandas de stakeholders: Investidores, consumidores e órgãos reguladores estão pressionando por mais transparência. Relatórios mais longos indicam que as empresas estão respondendo a essas pressões, oferecendo maior quantidade de informações sobre suas atividades ESG.

- Diversidade de tópicos: Questões relacionadas à diversidade, inclusão, ética empresarial, mudanças climáticas, impacto social e governança corporativa têm se expandido, exigindo uma cobertura mais ampla nos relatórios.

A variação no tamanho dos relatórios, entre 15 páginas a 211 páginas, também reflete o grau de maturidade das empresas nas práticas de sustentabilidade. Empresas com maior exposição a riscos ambientais e sociais, ou aquelas com mais experiência em relatórios ESG, tendem a produzir documentos mais extensos, que incluem dados detalhados e análises profundas.

Uma tendência decrescente observada é que menos empresas estão fornecendo versões resumidas de seus relatórios de sustentabilidade. Em 2024, apenas 27% das empresas disponibilizaram uma versão compacta, em comparação com 36% em 2021, o que sugere uma possível percepção das empresas de que as versões resumidas não atendem às crescentes demandas por detalhes e dados específicos. Algumas razões para essa diminuição podem ser:

- Demanda por detalhes: Os stakeholders estão se tornando mais exigentes, buscando informações detalhadas que lhes permitam tomar decisões mais bem informadas, especialmente em questões como emissões de carbono e impactos sociais. Relatórios resumidos podem não fornecer a profundidade necessária para atender a essas demandas.

- Complexidade dos dados ESG: À medida que as práticas de sustentabilidade se tornam mais sofisticadas, há mais nuances a serem incluídas nos relatórios, o que dificulta a criação de resumos que capturem de forma eficaz o conteúdo crítico.

Empresas de setores com grande exposição a questões ambientais e sociais, como energia e tecnologia, estão particularmente pressionadas a fornecer relatórios mais detalhados e a demonstrar como estão integrando práticas ESG em suas operações diárias.

A variação entre os relatórios, com alguns alcançando até 211 páginas, também sugere que há uma diferenciação significativa na maturidade das práticas de sustentabilidade entre setores e empresas de diferentes portes.

Aumento da adoção de avaliações de dupla materialidade:

O conceito de dupla materialidade, que considera tanto os impactos financeiros da empresa sobre o meio ambiente quanto os impactos ambientais e sociais nas operações da empresa, triplicou sua adoção, de 9% em 2023 para 27% em 2024.

Esse crescimento reflete a demanda crescente por uma abordagem mais holística na identificação de riscos e oportunidades ESG, aonde a dupla materialidade é particularmente importante no contexto europeu, onde as empresas são obrigadas a avaliar tanto as implicações financeiras quanto as não financeiras de suas atividades sob o CSRD.

Nos Estados Unidos a adoção crescente desse conceito sugere que as empresas estão se preparando para um ambiente regulatório globalizado, onde as expectativas de divulgação vão além do simples cumprimento das normas financeiras tradicionais.

Marcos regulatórios da União Europeia e normas IFRS começam a aparecer nos relatórios:

As menções ao Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) da União Europeia subiram de 0% em 2023 para 13% em 2024, enquanto as normas do IFRS apareceram em 5% dos relatórios.

Embora esses marcos regulatórios sejam mais relevantes para empresas que operam ou têm exposição significativa na Europa, sua inclusão em relatórios de empresas americanas sugere uma crescente harmonização das práticas globais de ESG, aonde a medida que a economia se torna cada vez mais interconectada, as empresas americanas podem estar se antecipando à implementação de regras semelhantes nos EUA ou adotando uma postura proativa para atender a investidores globais que exigem maior conformidade com os padrões internacionais de sustentabilidade.

Maior garantia externa de dados sociais nos relatórios:

O estudo revela um aumento no número de empresas que obtiveram garantias externas para dados relacionados ao pilar social (32% em 2024, em comparação com 22% em 2023), o que sinaliza uma preocupação crescente com a confiabilidade e a transparência dos dados sociais, que historicamente têm sido mais difíceis de quantificar do que os dados ambientais.

Esta busca por garantias externas também reflete a necessidade de mitigar riscos reputacionais, uma vez que investidores e reguladores estão exigindo maior precisão nos relatórios de impacto social.

Empresas que obtêm garantias externas para suas informações ESG demonstram uma maturidade maior na gestão desses dados e estão mais preparadas para atender a futuras exigências regulatórias.

Mais da metade das empresas incluíram tabelas de dados ESG em seus relatórios de 2024. Essas tabelas oferecem uma forma mais concisa e acessível de apresentar informações quantitativas, tornando-as mais compreensíveis para analistas e investidores que procuram dados claros e mensuráveis, o que podemos dizer que é importante porque:

- Facilitam a comparação: Elas permitem que investidores e outros stakeholders comparem facilmente os desempenhos ESG entre diferentes empresas, setores e anos.

- Transparência quantitativa: Fornecer dados em formatos padronizados, como as tabelas, aumenta a confiança dos stakeholders na precisão e integridade das informações divulgadas, especialmente em áreas críticas como emissões de carbono, consumo de energia e diversidade de funcionários.

- Apoiam a conformidade regulatória: Tabelas padronizadas de dados ESG são fundamentais para atender às exigências regulatórias, como as normas ISSB e CSRD, que pedem maior detalhamento e objetividade nos dados relatados.

Metas ESG em transição: menos relatórios de progresso e redução de metas “fora do cronograma”:

Em 2024, apenas 36% das empresas forneceram uma seção de progresso de metas ESG, uma queda em relação aos 46% de 2023, mas no entanto o número de metas consideradas “fora do cronograma” caiu significativamente, de 22% para 8%, o que pode indicar uma maior cautela por parte das empresas ao divulgar metas ESG, ou que algumas delas estão reformulando suas metas para garantir que sejam mais atingíveis, especialmente em um ambiente econômico e regulatório desafiador.

Ao mesmo tempo o foco em metas que estão “no cronograma” sugere uma tendência de ajuste e alinhamento das empresas com suas capacidades reais de implementação de estratégias ESG.

Inteligência Artificial (IA) emerge como tema ESG:

O uso responsável da Inteligência Artificial (IA) apareceu em 21% dos relatórios de sustentabilidade analisados, marcando a primeira vez que esse tema é registrado no estudo. Isso reflete a crescente preocupação com o impacto ético da IA, particularmente em setores que lidam com grandes volumes de dados pessoais e tomam decisões automatizadas.

A inclusão da IA nos relatórios ESG indica que as empresas estão começando a abordar as preocupações com a transparência e a equidade na aplicação de novas tecnologias, bem como os impactos potenciais no mercado de trabalho e nas comunidades.

A IA responsável é uma área emergente de risco e oportunidade, e sua menção nos relatórios ESG sugere que as empresas líderes estão atentas a essa questão e buscando abordá-la proativamente.

Esses pontos acima destacados mostram bem um panorama em transição nas práticas de sustentabilidade das empresas americanas, o que sugere que, apesar das pressões políticas e regulatórias, as empresas continuam avançando nas suas práticas ESG, adaptando-se a novos desafios e tendências emergentes, como a dupla materialidade e o uso responsável da IA.

Acredito de que esta evolução contínua nas práticas de relatório de sustentabilidade, tanto em termos de conteúdo quanto de estratégia de divulgação, reflete um mercado que busca equilíbrio entre o cumprimento regulatório e a criação de valor de longo prazo para os stakeholders.

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Atualizado

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Perguntas e respostas

O que aconteceu com as referências a diversidade e inclusão?
Elas permanecem frequentes, mas algumas empresas enfatizam pertencimento e inclusão para adaptar sua comunicação.
Por que o termo ESG aparece menos nos títulos dos relatórios?
Empresas ajustam a linguagem diante da pressão política, embora mantenham temas ambientais, sociais e de governança no conteúdo.
Por que menos empresas anunciam os relatórios por comunicado?
Há preferência por canais direcionados e menos expostos, como áreas próprias de sustentabilidade nos sites.
Qual é o efeito das novas exigências de divulgação?
Elas pressionam empresas a elevar governança, comparabilidade e qualidade das informações climáticas e de sustentabilidade.
Como mudou a responsabilidade dos CEOs?
A participação direta dos CEOs nas estratégias e mensagens de sustentabilidade aumentou, aproximando o tema da governança central.

Conteúdo gerado com apoio de IA. Não substitui análise profissional.

Autor

LL

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante