Artigo
08/06/2020

Hedge accounting de componente de risco

Explica como designar componentes de risco específicos em hedge accounting segundo IFRS 9 / CPC 48.

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Na contabilidade de hedge, um derivativo é geralmente designado na totalidade da variação do seu valor justo. No entanto, o IFRS 9 / CPC 48 autoriza a designação de um componente de risco como instrumento de hedge ou como item protegido.

Para ser elegível como item protegido, o componente de risco deve ser identificável de forma separada do item financeiro ou não financeiro, e as alterações nos fluxos de caixa ou no valor justo do item atribuível a alterações nesse componente de risco devem ser mensuráveis de forma confiável.

Por exemplo, é possível segregar o “componente juros” do “componente câmbio” de um contrato a termo, excluindo o efeito do componente juros da relação de hedge.

Assim apresentamos um exemplo:

Uma empresa exportadora de trigo, cuja moeda funcional é o real, possui uma previsão de vendas futuras de trigo para um volume de 1.000.000 de dólares, e possui o mesmo valor em dívidas dolarizadas, com o objetivo de alinhar os fluxos de caixa de entradas e de saídas em dólares, protegendo-se contra uma variação cambial desfavorável.

Para tanto, a empresa deseja designar essa relação de proteção para hedge accounting. Embora a empresa continue estando sujeita ao risco de variação do preço do trigo, ela pode designar na relação de hedge somente a variação atribuível à variação cambial do item protegido.

Premissas:

  • Volume projetado de vendas: USD 1.000.000
  • Volume contratado de dívidas: USD 1.000.000
  • Preço do câmbio à vista na data da designação (t0): 3,2 BRL/USD
  • Preço do câmbio à vista na data do teste de efetividade (t1): 5,00 BRL/USD
  • Taxa de juros da dívida: Libor
  • A relação é designada como um hedge de fluxo de caixa
  • A relação de hedge é 100% efetiva

Na data da designação (t0) não há nenhum registro contábil, pois, a variação cambial designada na relação de hedge inicia a partir do segundo dia de designação.

No 1º mês (t1) após a designação do hedge accounting, os efeitos contábeis são os seguintes:
Variação cambial do instrumento de hedge = 1.000.000 x (5,00-3,20)=R$ 1.800.000, sendo que o valor contábil da dívida passa a ser R$ 5.000.000, ainda sem considerar o efeito dos juros e da variação cambial sobre esses juros incorridos.
Débito – Reserva de hedge (PL)
Crédito – Passivo financeiro 1.800.000

No 1º mês (t1) após a designação do hedge accounting, a taxa libor foi de 1,5% a.a, então, os efeitos contábeis são os seguintes:
Dívida corrigida em dólar = 1.000.000 x (1+0,015x30/360)=US$ 1.001.233
Dívida corrigida em reais = 1.001.233 x 5,00=R$ 5.006.164
Débito – Despesa financeira
Crédito – Passivo financeiro 6.164

O valor total do respectivo registro contábil representa os componentes de juros e variação cambial sobre os juros incorridos. Como o hedge accounting designou somente o montante de 1.000.000 dólares, o efeito dos juros e da variação cambial sobre juros deve ser reconhecido diretamente no resultado.

É importante ressaltar que, enquanto as vendas protegidas não forem realizadas, o efeito cambial sobre as receitas de vendas não impacta o resultado contábil. Dessa forma, supondo que as vendas somente sejam realizadas nos próximos meses, o valor da variação cambial da dívida contabilizado no PL fica aguardando a realização dessas vendas, e deve ser amortizado no resultado à medida que essas vendas também impactem o resultado.

Caso essa relação de hedge não fosse designada como um hedge de fluxo de caixa, a variação cambial da dívida teria impactado o resultado financeiro em R$ 1.806.164 negativos, e não estaria claro que a maior parte, referente à variação cambial sobre o principal, seria compensada futuramente pelas receitas em dólares. Consideramos que é mais fácil montar uma estrutura de hedge accounting e evidenciação claras do que gastar recursos futuramente para tentar explicar um resultado contábil adverso e que não condiz com o fluxo financeiro da transação.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é contabilidade de hedge?
A contabilidade de hedge é uma prática contábil que visa reduzir a volatilidade nos resultados financeiros de uma empresa, associando instrumentos financeiros de hedge a itens protegidos para mitigar riscos específicos, como variações cambiais ou de taxas de juros.
O que é o IFRS 9 / CPC 48?
O IFRS 9 / CPC 48 é um conjunto de normas contábeis que regulamenta a contabilização de instrumentos financeiros, incluindo a designação de componentes de risco como instrumentos de hedge ou itens protegidos.
O que é um componente de risco em contabilidade de hedge?
Um componente de risco é uma parte específica de um item financeiro ou não financeiro cujas alterações nos fluxos de caixa ou no valor justo podem ser mensuradas de forma confiável e separada do item principal.
Como um componente de risco pode ser utilizado em uma relação de hedge?
Um componente de risco pode ser designado como instrumento de hedge ou item protegido, desde que seja identificável de forma separada e suas alterações sejam mensuráveis de forma confiável. Por exemplo, é possível segregar o “componente juros” do “componente câmbio” de um contrato a termo.
O que é um hedge de fluxo de caixa?
Um hedge de fluxo de caixa é uma estratégia de hedge que visa proteger a empresa contra variações nos fluxos de caixa futuros atribuíveis a um risco específico, como variações cambiais ou de taxas de juros.
Como funciona a designação de uma relação de hedge?
Para designar uma relação de hedge, a empresa deve identificar o item protegido e o instrumento de hedge, mensurar a efetividade da relação e registrar os efeitos contábeis das variações no valor justo ou nos fluxos de caixa atribuíveis ao componente de risco designado.
Quais são os efeitos contábeis de uma variação cambial em uma relação de hedge?
Os efeitos contábeis de uma variação cambial em uma relação de hedge incluem o registro da variação cambial do instrumento de hedge e do item protegido, que pode ser reconhecida no patrimônio líquido (PL) ou no resultado, dependendo da designação do hedge.
O que acontece se uma relação de hedge não for designada como hedge de fluxo de caixa?
Se uma relação de hedge não for designada como hedge de fluxo de caixa, a variação cambial da dívida impactará diretamente o resultado financeiro, sem a compensação futura pelas receitas em dólares, o que pode resultar em um resultado contábil adverso.
Como a variação cambial afeta o resultado contábil em uma relação de hedge de fluxo de caixa?
Em uma relação de hedge de fluxo de caixa, a variação cambial da dívida é contabilizada no patrimônio líquido (PL) e só impacta o resultado contábil quando as vendas protegidas são realizadas, amortizando o valor da variação cambial no resultado à medida que as vendas também impactem o resultado.
O que é a taxa Libor e como ela é utilizada na contabilidade de hedge?
A taxa Libor (London Interbank Offered Rate) é uma taxa de juros de referência utilizada em transações financeiras internacionais. Na contabilidade de hedge, a taxa Libor pode ser usada para corrigir o valor da dívida em dólar, afetando os registros contábeis de despesas financeiras e passivos financeiros.

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Eric Barreto

Partner e Prof. do Insper