Artigo
19/08/2025

IAS 39 - Instrumentos Financeiros: Reconhecimento e Mensuração

Explica os critérios de reconhecimento, mensuração e contabilidade de hedge para instrumentos financeiros segundo a IAS 39.

Imagem de capa do artigo

1. BREVE HISTÓRICO

A norma IAS 39 foi emitida pelo International Accounting Standards Board (IASB) para padronizar o reconhecimento e a mensuração de instrumentos financeiros. Antes da sua introdução, não havia uma estrutura consolidada para o tratamento contábil desses instrumentos, o que resultava em inconsistências entre diferentes jurisdições. IAS 39 foi posteriormente substituída pela IFRS 9, mas ainda é relevante para entidades que não adotaram integralmente a nova norma.

2. ALCANCE

A norma IAS 39 estabelece princípios para o reconhecimento e a mensuração de ativos e passivos financeiros, incluindo instrumentos derivativos. Aplica-se a todas as entidades que possuem ativos e passivos financeiros, com exceção de contratos de seguro, participações em subsidiárias, coligadas e empreendimentos conjuntos, que são tratados por normas específicas.

3. DEFINIÇÕES

Os principais conceitos definidos pela norma incluem:

  • Ativo financeiro: Qualquer ativo que seja caixa, um direito contratual de receber caixa ou outro ativo financeiro de outra entidade, um instrumento patrimonial de outra entidade ou um contrato derivativo.

  • Passivo financeiro: Uma obrigação contratual de entregar caixa ou outro ativo financeiro.

  • Instrumento derivativo: Um contrato cujo valor se altera em resposta a mudanças em uma variável subjacente, que requer investimento inicial pequeno e é liquidado em data futura.

  • Custo amortizado: Método de avaliação de ativos e passivos financeiros utilizando a taxa de juros efetiva.

4. REDUÇÃO AO VALOR RECUPERÁVEL E IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA DE ATIVOS FINANCEIROS MENSURADOS PELO CUSTO AMORTIZADO

IAS 39 exige que as entidades avaliem, em cada data de balanço, se há indícios objetivos de perda no valor recuperável de ativos financeiros registrados pelo custo amortizado. Caso haja evidência de perda, a entidade deve reconhecer a redução no valor contábil por meio de uma despesa no resultado.

A perda por impossibilidade de cobrança ocorre quando existe uma evidência objetiva de que a entidade não será capaz de recuperar totalmente o valor devido. Nestes casos, a entidade deve registrar a perda por meio da constituição de uma provisão para devedores duvidosos ou desreconhecimento (baixa) do ativo.

5. COBERTURA

5.1 Instrumentos de Hedge

Instrumentos financeiros utilizados para reduzir riscos financeiros, como contratos a termo, swaps, contratos futuros e opções.

5.2 Instrumentos que se Qualificam

Para um instrumento ser designado como de proteção (hedge), deve satisfazer requisitos como alta correlação entre o instrumento e o item protegido e documentação formal da relação de hedge.

5.3 Designação de Instrumentos de Hedge

Os instrumentos são designados com base no tipo de risco coberto e no tipo de item protegido.

5.4 Itens Protegidos

Itens financeiros e não financeiros podem ser protegidos, desde que haja documentação adequada e eficácia na cobertura.

5.5 Designação de Itens Financeiros como Itens Protegidos

Ativos financeiros, passivos financeiros e compromissos firmes podem ser designados como itens protegidos.

5.6 Designação de Itens Não-Financeiros como Itens Protegidos

Estoques, propriedades e outros ativos tangíveis podem ser protegidos contra variações de preço.

5.7 Designação de Grupos de Itens como Itens Protegidos

Grupos de ativos ou passivos também podem ser protegidos desde que compartilhem a mesma exposição ao risco.

6. HEDGE ACCOUNTING

6.1 Hedge de Valor Justo

Protege contra variações no valor justo de um ativo ou passivo. As mudanças no valor justo do instrumento de hedge e do item protegido são reconhecidas no resultado.

6.2 Hedge de Fluxo de Caixa

Visa proteger fluxos de caixa futuros contra variações de mercado. As mudanças no valor do instrumento de hedge são reconhecidas em outros resultados abrangentes.

6.3 Hedge de um Investimento Líquido

Protege contra variações cambiais em investimentos no exterior. Os efeitos são reconhecidos em outros resultados abrangentes.

7. COMPARATIVO COM AS NORMAS BRASILEIRAS

No Brasil, a norma IAS 39 foi substituída pela IFRS 9, que está harmonizada com os pronunciamentos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). O equivalente brasileiro é o CPC 48 - Instrumentos Financeiros. As principais diferenças incluem:

  • Classificação e mensuração: O CPC 48 adota um modelo mais simplificado com três categorias de classificação para ativos financeiros.

  • Perda de valor: IAS 39 utiliza um modelo de perdas incorridas, enquanto o CPC 48 segue o modelo de perdas esperadas.

  • Contabilização de hedge: O CPC 48 alinha-se à IFRS 9, tornando a contabilidade de hedge mais flexível e alinhada às práticas de gestão de risco.

IAS 39 foi um marco importante na contabilidade financeira, mas sua substituição pela IFRS 9 aprimorou a relevância e a confiabilidade das informações financeiras.


As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual foi o propósito da norma IAS 39 e quem a emitiu?
A norma IAS 39 foi emitida pelo International Accounting Standards Board (IASB) com o objetivo de padronizar o reconhecimento e a mensuração de instrumentos financeiros.Antes da sua introdução, não havia uma estrutura consolidada para o tratamento contábil desses instrumentos, o que resultava em inconsistências entre diferentes jurisdições.
A norma IAS 39 ainda está em pleno vigor?
A norma IAS 39 foi posteriormente substituída pela IFRS 9.No entanto, a IAS 39 ainda pode ser relevante para entidades que não adotaram integralmente a nova norma IFRS 9.
Qual é o alcance da norma IAS 39?
A norma IAS 39 estabelece princípios para o reconhecimento e a mensuração de ativos e passivos financeiros, incluindo instrumentos derivativos.Ela se aplica a todas as entidades que possuem ativos e passivos financeiros, com algumas exceções específicas.
Quais itens estão fora do alcance da norma IAS 39?
A norma IAS 39 não se aplica a contratos de seguro, participações em subsidiárias, coligadas e empreendimentos conjuntos.Esses itens são tratados por normas contábeis específicas.
Como a IAS 39 define um ativo financeiro?
De acordo com a IAS 39, um ativo financeiro é qualquer ativo que se enquadre em uma das seguintes categorias:- Caixa;- Um direito contratual de receber caixa ou outro ativo financeiro de outra entidade;- Um instrumento patrimonial de outra entidade;- Um contrato derivativo com potencial resultado favorável.
O que é um passivo financeiro segundo a IAS 39?
Segundo a IAS 39, um passivo financeiro é uma obrigação contratual de entregar caixa ou outro ativo financeiro a outra entidade, ou um contrato derivativo com potencial resultado desfavorável.
Como a IAS 39 define um instrumento derivativo?
A IAS 39 define um instrumento derivativo como um contrato financeiro que possui três características principais:1. Seu valor se altera em resposta a mudanças em uma variável subjacente especificada (como taxa de juros, preço de instrumento financeiro, preço de commodity, taxa de câmbio, índice de preços ou taxas, rating de crédito ou índice de crédito, ou outra variável, desde que, no caso de uma variável não financeira, a variável não seja específica a uma das partes do contrato).2. Requer um investimento inicial líquido pequeno ou nenhum investimento inicial líquido em relação a outros tipos de contratos que teriam uma resposta similar a mudanças nas condições de mercado.3. É liquidado em data futura.
O que significa custo amortizado de acordo com a IAS 39?
De acordo com a IAS 39, o custo amortizado é um método de avaliação de ativos e passivos financeiros. Ele representa o valor pelo qual o ativo ou passivo financeiro é mensurado no reconhecimento inicial, menos as amortizações de principal, mais ou menos a amortização cumulativa usando o método da taxa de juros efetiva de qualquer diferença entre o valor inicial e o valor de vencimento, e menos qualquer redução (direta ou por meio do uso de uma conta de provisão) por redução ao valor recuperável ou impossibilidade de cobrança.
O que a IAS 39 estabelece sobre a redução ao valor recuperável de ativos financeiros mensurados pelo custo amortizado?
A IAS 39 exige que as entidades avaliem, em cada data de balanço, se há indícios objetivos de perda no valor recuperável (impairment) de ativos financeiros registrados pelo custo amortizado.Caso haja evidência objetiva de perda, a entidade deve reconhecer a redução no valor contábil do ativo por meio de uma despesa no resultado do período.
Quando ocorre a perda por impossibilidade de cobrança de um ativo financeiro, segundo a IAS 39, e como deve ser registrada?
Segundo a IAS 39, a perda por impossibilidade de cobrança ocorre quando existe uma evidência objetiva de que a entidade não será capaz de recuperar totalmente o valor devido de um ativo financeiro.Nestes casos, a entidade deve registrar a perda por meio da constituição de uma provisão para devedores duvidosos ou pelo desreconhecimento (baixa) do ativo financeiro.
O que são instrumentos de <em>hedge</em> (cobertura) conforme a IAS 39?
Conforme a IAS 39, instrumentos de hedge (cobertura) são instrumentos financeiros designados que são utilizados para reduzir ou eliminar riscos financeiros específicos aos quais uma entidade está exposta.Exemplos comuns incluem contratos a termo, swaps, contratos futuros e opções.
Quais são os requisitos para um instrumento financeiro ser qualificado como de proteção (<em>hedge</em>) sob a IAS 39?
Para um instrumento financeiro ser designado como de proteção (hedge) sob a IAS 39, ele deve satisfazer certos requisitos. Entre eles, destacam-se a expectativa de alta correlação entre as variações de valor ou fluxos de caixa do instrumento de hedge e as do item protegido, e a existência de documentação formal da relação de hedge no início da operação, incluindo o objetivo da gestão de riscos e a estratégia para realizar o hedge.
Como são designados os instrumentos de <em>hedge</em> segundo a IAS 39?
Segundo a IAS 39, os instrumentos de hedge são designados com base no tipo de risco que se pretende cobrir (por exemplo, risco de taxa de juros, risco cambial, risco de preço) e no tipo de item que está sendo protegido.
Que tipos de itens podem ser designados como itens protegidos (<em>hedged items</em>) de acordo com a IAS 39?
De acordo com a IAS 39, tanto itens financeiros (como ativos e passivos financeiros) quanto itens não financeiros (como estoques ou compromissos firmes de compra ou venda de itens não financeiros) podem ser designados como itens protegidos.A condição é que haja documentação adequada da relação de hedge e que a eficácia da cobertura possa ser confiavelmente mensurada e seja efetiva ao longo do período de hedge.
Quais itens financeiros podem ser designados como itens protegidos sob a IAS 39?
Sob a IAS 39, ativos financeiros, passivos financeiros e compromissos firmes (contratos irrevogáveis para trocar uma quantidade especificada de recursos a um preço especificado em uma data ou datas futuras especificadas) podem ser designados como itens protegidos contra riscos específicos.
Quais itens não financeiros podem ser designados como itens protegidos conforme a IAS 39?
Conforme a IAS 39, itens não financeiros como estoques, propriedades, planta e equipamento (ativos imobilizados) e outros ativos tangíveis podem ser designados como itens protegidos contra variações de preço ou outros riscos específicos, desde que as condições para hedge accounting sejam atendidas.
É possível designar grupos de itens como itens protegidos segundo a IAS 39?
Sim, segundo a IAS 39, grupos de ativos, passivos, compromissos firmes, transações previstas altamente prováveis ou investimentos líquidos em operações no exterior também podem ser designados como itens protegidos, desde que compartilhem a mesma exposição ao risco que está sendo coberto e que a eficácia do hedge possa ser mensurada para o grupo.
O que é <em>hedge de valor justo</em> (fair value hedge) de acordo com a IAS 39?
De acordo com a IAS 39, o hedge de valor justo (fair value hedge) é uma modalidade de hedge accounting que visa proteger uma entidade contra a exposição a variações no valor justo de um ativo ou passivo reconhecido, ou de um compromisso firme não reconhecido, ou de uma porção identificada de tal ativo, passivo ou compromisso firme, que seja atribuível a um risco particular e possa afetar o resultado.Nesse tipo de hedge, as mudanças no valor justo tanto do instrumento de hedge quanto do item protegido (na parcela coberta pelo risco) são reconhecidas no resultado do período.
Como funciona o <em>hedge de fluxo de caixa</em> (cash flow hedge) na IAS 39?
Na IAS 39, o hedge de fluxo de caixa (cash flow hedge) é utilizado para proteger uma entidade contra a exposição à variabilidade nos fluxos de caixa futuros que seja atribuível a um risco particular associado a um ativo ou passivo reconhecido (como todos ou alguns pagamentos de juros futuros sobre dívida de taxa variável) ou a uma transação prevista altamente provável, e que possa afetar o resultado.A parcela efetiva das mudanças no valor justo do instrumento de hedge é reconhecida em outros resultados abrangentes (e acumulada no patrimônio líquido), enquanto a parcela ineficaz é reconhecida imediatamente no resultado.
O que é o <em>hedge de um investimento líquido</em> em operações no exterior, conforme a IAS 39?
Conforme a IAS 39, o hedge de um investimento líquido em uma operação no exterior visa proteger uma entidade contra a exposição ao risco cambial decorrente da conversão do seu investimento líquido em uma entidade estrangeira para a moeda de apresentação da investidora.Os ganhos ou perdas na porção efetiva do instrumento de hedge são reconhecidos em outros resultados abrangentes, de forma similar ao tratamento do hedge de fluxo de caixa, e são reclassificados para o resultado na alienação ou alienação parcial da operação no exterior.
Como a IAS 39 se compara com as normas contábeis brasileiras, especialmente em relação ao CPC 48?
A norma IAS 39 foi substituída pela IFRS 9. No Brasil, a IFRS 9 está harmonizada com os pronunciamentos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), sendo o equivalente brasileiro o CPC 48 - Instrumentos Financeiros.Existem diferenças principais entre a IAS 39 (a norma mais antiga) e o CPC 48 (alinhado à IFRS 9), como:Classificação e mensuração de ativos financeiros: O CPC 48 (IFRS 9) adota um modelo mais simplificado, geralmente com três categorias de classificação para ativos financeiros (custo amortizado, valor justo por meio de outros resultados abrangentes e valor justo por meio do resultado), baseado no modelo de negócios da entidade para gerenciar os ativos financeiros e nas características dos fluxos de caixa contratuais do ativo. A IAS 39 possuía mais categorias e critérios de classificação diferentes.Perda de valor (impairment): A IAS 39 utiliza um modelo de "perdas incorridas", onde a perda só é reconhecida quando há evidência objetiva de sua ocorrência. O CPC 48 (IFRS 9) segue um modelo de "perdas esperadas", que exige o reconhecimento de perdas de crédito esperadas de forma mais tempestiva, mesmo antes de um evento de perda efetivamente ocorrer.Contabilização de hedge (Hedge Accounting): O CPC 48 (IFRS 9) introduziu um modelo de contabilização de hedge mais alinhado com as práticas de gestão de risco das entidades, tornando-o, em alguns aspectos, mais flexível e menos complexo que as exigências da IAS 39. Por exemplo, permite que mais itens sejam designados como itens protegidos e introduz mais flexibilidade nos testes de eficácia.
Qual a significância da substituição da IAS 39 pela IFRS 9?
A IAS 39 foi considerada um marco importante na evolução da contabilidade de instrumentos financeiros, estabelecendo um padrão abrangente onde antes havia diversidade de práticas.Sua substituição pela IFRS 9 visou aprimorar a relevância e a confiabilidade das informações financeiras sobre instrumentos financeiros, simplificando alguns aspectos (como a classificação e mensuração de ativos financeiros), introduzindo um modelo de perdas esperadas mais prospectivo e alinhando melhor a contabilidade de hedge com as atividades de gerenciamento de risco das empresas.

Autor

Foto de perfil de Débora Martins De Luca

Débora Martins De Luca

Contadora | Controladoria Financeira | Auditoria, Controles Internos e Compliance