Artigo
12/03/2019

O que é HEDGE econômico

Explica como empresas utilizam hedge econômico para proteger-se da volatilidade de moedas e commodities.

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Em uma tradução literal do inglês para o português, um dos significados da palavra hedge é barreira. Podemos usar esse significado para explicar o que é hedge econômico.

Muitas empresas tomam empréstimos em moeda estrangeira, seja com suas matrizes, com bancos ou mesmo com investidores no exterior. Na maioria das vezes, essa moeda estrangeira é o dólar. E o que acontece se o dólar sobe e as receitas e recebíveis da empresa são denominados na sua moeda local, diferente do dólar? Sim, ela perde dinheiro, compromete suas margens, sua rentabilidade e, em alguns casos, até sua continuidade. O hedge é a barreira que vai tentar conter essa avalanche causada por uma alta do dólar.

Outras empresas, por outro lado, exportam parte da sua produção ou dos seus serviços. Nesse caso, uma queda no valor da moeda estrangeira recebida pela entidade pode comprometer sua capacidade de pagar salários e insumos na moeda local. Mais uma vez, a empresa precisa de proteção.

E as empresas que operam com commodities, como café, milho, soja, cobre, minério de ferro ou petróleo, por exemplo? Sejam compradoras ou vendedoras, elas sofrem com a volatilidade (variação) no preço das commodities, que podem afetar sua riqueza e até representar um risco de insolvência, se elas não contratarem algum tipo de proteção.

No geral, as empresas negociam contratos derivativos, como futuros, swaps, termos e opções, para mitigar esse risco de volatilidade nos preços de moedas, índices e commodities, e engana- se quem acha que os derivativos são instrumentos que aumentam o risco de uma empresa. Se bem utilizados, o efeito é justamente o contrário: o derivativo fará o papel da barreira que conterá um possível desastre.

Quando uma empresa contrata derivativos com finalidade de proteção, dizemos que ela está fazendo hedge econômico, ou simplesmente hedge.

Mas uma empresa pode perder dinheiro operando com derivativos? Partindo do princípio que a entidade foi bem assessorada e que negocia derivativos somente para hedge, quando ela perde dinheiro derivativo, ela ganha no item protegido. Explico por meio de dois exemplos: aquela empresa que tomou empréstimo em dólar, no caso de uma queda na cotação da moeda americana, deve perder dinheiro nos derivativos contratados para hedge, no entanto, essa perda será compensada por uma queda no valor que pagaria pela dívida. Na empresa exportadora, uma alta no dólar deve causar uma perda no derivativo contratado para hedge, porém, o prejuízo será compensado por ganhos nas receitas de exportação, que serão maiores quando convertidas para a moeda local.

E hedge sem derivativo, é possível? Como uma empresa poderia proteger-se do risco de mercado sem os instrumentos financeiros derivativos? Em alguns casos, uma empresa exportadora pode se proteger tomando empréstimos em dólar, em vez de contrata-los na sua moeda local, ou ainda, uma importadora poderia manter aplicações financeiras em dólar. Tendo ativos e passivos em moeda estrangeira, os fluxos de caixa positivos compensarão os fluxos de caixa negativos, produzindo o que chamamos de hedge natural. A Petrobras, que tem uma parcela significativa de receitas provenientes de exportação ou atreladas à cotação da moeda americana, construiu um hedge natural ao contratar dívidas em dólar.

E derivativo sem finalidade de hedge? Isso também pode acontecer, ou seja, um derivativo pode ser usado como estratégia para potencializar os ganhos de uma aplicação financeira.

Nesses casos, recomenda-se que o aplicador trabalhe somente com bons especialistas e que entenda os riscos da operação contratada. Normalmente, chamamos esses derivativos de especulativos. Como eles não são o objeto principal desse texto, não vamos discorrer sobre eles, mas vocês devem encontrar material na internet sobre a combinação de derivativos com outros instrumentos financeiros se pesquisarem pelos chamados Certificados de Operações Estruturadas (COE). Ah, também tem um livro do Fábio Zenaro sobre COE...

Por que as empresas não deveriam operar com derivativos especulativos? Ora, o derivativo é como um seguro, então, se eu contratar um derivativo para um risco que eu não possuo é quase como contratar um seguro para um carro que não é meu. Em outras palavras: eu posso até ganhar dinheiro com esse contrato, mas não estou usando como proteção, e sim especulando com a probabilidade de ocorrer um sinistro com o tal carro. Ao investir recursos em uma empresa, o credor ou acionista aposta no sucesso da entidade atuando em determinado setor, e não no seu sucesso investindo no mercado financeiro. Se eu, como investidor, quiser ganhar dinheiro com derivativos, posso fazer isso sozinho, por meio de um assessor ou aplicar em um fundo de investimentos mais agressivo, ao passo que, se colocar meu dinheiro em uma empresa de construção, espero que ela invista no setor de construção, e se eu investir em uma empresa que exporta celulose, espero que ela invista no setor de celulose.

Até aqui, não falamos na contabilidade de hedge. As normas contábeis fazem com que os derivativos sejam sempre mensurados a valor justo (um conceito próximo de “valor de mercado”), e como os itens protegidos (empréstimos tomados, aplicações, contas a pagar, contas a receber, estoques, fluxos de caixa previstos, etc.) geralmente não são mensurados a valor justo, cria-se uma volatilidade terrível no resultado da empresa, preocupando, às vezes desnecessariamente, os usuários das suas demonstrações contábeis. Para aplicar corretamente o regime de competência nas estratégias de hedge, existe um dispositivo, um critério contábil opcional: o chamado hedge accounting. Para entender mais sobre ele, procure os cursos presenciais ou EAD da M2M SABER e outros textos do nosso blog.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é hedge econômico?
Hedge econômico é uma estratégia utilizada por empresas para se protegerem contra a volatilidade nos preços de moedas, índices e commodities, utilizando contratos derivativos como futuros, swaps, termos e opções.
Como o hedge econômico pode proteger uma empresa que tomou empréstimos em moeda estrangeira?
Se uma empresa tomou empréstimos em moeda estrangeira, como o dólar, e essa moeda valoriza, o hedge econômico pode proteger a empresa contra perdas financeiras, mitigando o impacto da alta do dólar nas suas margens e rentabilidade.
Por que empresas exportadoras precisam de hedge econômico?
Empresas exportadoras precisam de hedge econômico para se protegerem contra a queda no valor da moeda estrangeira recebida, o que pode comprometer sua capacidade de pagar salários e insumos na moeda local.
Como a volatilidade no preço das commodities afeta empresas que operam com esses produtos?
A volatilidade no preço das commodities pode afetar a riqueza das empresas que operam com esses produtos e até representar um risco de insolvência, caso não contratem algum tipo de proteção como o hedge econômico.
Quais são os tipos de contratos derivativos mencionados no texto?
Os tipos de contratos derivativos mencionados são futuros, swaps, termos e opções.
O que é hedge natural?
Hedge natural é uma forma de proteção onde a empresa alinha seus ativos e passivos em moeda estrangeira, de modo que os fluxos de caixa positivos compensam os fluxos de caixa negativos. Um exemplo é uma empresa exportadora que toma empréstimos em dólar.
É possível uma empresa perder dinheiro operando com derivativos?
Sim, uma empresa pode perder dinheiro operando com derivativos, mas se esses derivativos forem usados para hedge, a perda nos derivativos será compensada pelo ganho no item protegido, como uma dívida em dólar ou receitas de exportação.
O que são derivativos especulativos?
Derivativos especulativos são contratos usados como estratégia para potencializar os ganhos de uma aplicação financeira, sem a finalidade de proteção. Eles são recomendados apenas para quem entende os riscos e trabalha com bons especialistas.
Por que as empresas não deveriam operar com derivativos especulativos?
Empresas não deveriam operar com derivativos especulativos porque esses contratos não são usados como proteção, mas sim para especulação, o que pode desviar o foco da empresa de seu setor principal de atuação e aumentar os riscos financeiros.
O que é hedge accounting?
Hedge accounting é um critério contábil opcional que permite aplicar corretamente o regime de competência nas estratégias de hedge, reduzindo a volatilidade nos resultados da empresa causada pela mensuração dos derivativos a valor justo.

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Eric Barreto

Partner e Prof. do Insper