Artigo
28/07/2025

Os instrumentos de compensação ambiental

Explica os principais instrumentos brasileiros de compensação ambiental e seus impactos econômicos e regulatórios.

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A agenda climática normalmente está relacionada a tomar decisões difíceis. Descarbonizar setores inteiros da economia leva tempo, requer investimento e depende de inovação e priorização (o que pode mudar de acordo com agendas políticas e outras questões relacionadas à economia). Por isso, enquanto o corte de emissões não acontece na velocidade ideal (e sabemos que estamos bem longe disso), os mecanismos de compensação acabam por protagonizar movimentos importantes, por terem incentivos no processo que geram interesse por parte das organizações. O Brasil tem adotado diversos instrumentos que possibilitam essa compensação. Embora distintos entre si, todos compartilham uma premissa básica: se não é possível evitar a emissão ou degradação neste momento, então que ao menos se crie em paralelo, um impacto ambiental positivo equivalente. Nesse contexto atual, os mecanismos atuais mais presentes e utilizados são:

Mecanismos de Compensação

I-REC (International REC Standard)

O I-REC é um certificado internacional de energia renovável. Cada I-REC representa 1 MWh de eletricidade gerado a partir de fontes renováveis como solar, eólica ou biomassa. No Brasil, a gestão é feita por uma entidade autorizada e as empresas compram esses certificados para provar que sua energia, mesmo que contratada da rede convencional, é “compensada” com geração limpa, através de um certificado internacionalmente aceito (inclusive pela ferramenta GHG protocol). O sistema não reduz diretamente as emissões da empresa, mas incentiva a demanda por energia limpa, criando um sinal de mercado que ajuda a viabilizar economicamente novos projetos de geração renovável. Após o uso do certificado, ele é “aposentado” e deixa de estar disponível para venda no mercado evitando duplicidade de utilização.

Gás-REC (Renewable Gás Certificate)

Menos conhecido que o I-REC, o Gás-REC segue a mesma lógica, mas no setor de gás natural. Ele certifica o uso ou a compensação com biogás e biometano, que têm pegada de carbono significativamente inferior à do gás fóssil. No Brasil, ainda é um mercado incipiente, mas tem enorme potencial frente ao avanço de políticas de descarbonização para setores industriais e logísticos. O diferencial aqui está no estímulo à cadeia de biogás, em especial o gerado a partir de resíduos sólidos urbanos e agropecuários, um claro exemplo de economia circular aplicada à matriz energética. Existem tendências futuras do aumento da produção de biometano no Brasil o que pode imediatamente auxiliar na monetização adicional ao setor.

CBIO (Crédito de Descarbonização por biocombustíveis)

Talvez o meio de compensação mais relevante do ponto de vista regulatório, o CBIO foi criado no contexto da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Cada CBIO equivale à redução de uma tonelada de CO₂e obtida na produção e comercialização de biocombustíveis (etanol, biodiesel e etc.). É importante entender que distribuidoras de combustíveis fósseis são obrigadas por lei a adquirir uma quantidade mínima de CBIOs (baseado nas metas anuais estabelecidas pela ANP), o que cria um mercado dinâmico e com impacto direto na descarbonização da matriz de transportes (sempre que as metas anuais não são atendidas, sua necessidade de compra por parte das distribuidoras é imediatamente alterada para a próxima necessidade de compra, tornando a compra uma necessidade inegociável). O ponto forte do CBIO é que ele gera retorno aos produtores mais eficientes em termos de emissões, criando um incentivo à melhoria contínua. O CBIO é negociado através da bolsa de valores e qualquer um pode comprar ou vender. Por ser um ativo ambiental, sua única diferença em relação aos papéis tradicionais é que não gera dividendos, por não ter intuito de distribuir valores aos seus investidores. A quantidade de CBIO a ser gerada por uma distribuidora ou produtora de biocombustível é baseada em sua NEEA (Nota de eficiência energética ambiental) onde através de auditoria de terceira parte, conforme sua produção e/ou distribuição, são emitidos os CBIOs, ou seja, quanto menor a emissão no contexto da produção do biocombustível em relação ao combustível comercial, maior a emissão de CBIOs e em consequência a rentabilidade.

Créditos de Carbono Voluntários

Além dos instrumentos regulados, o Brasil tem participação relevante no mercado voluntário de créditos de carbono. Projetos de reflorestamento (ARR), proteção de florestas (REDD), energia renovável e manejo de resíduos podem gerar créditos verificados internacionalmente como os emitidos pela Verra ou Gold Standard. As empresas que buscam neutralizar emissões fora de contextos regulatórios (que no Brasil deve começar a operar em 2030), utilizam esses créditos. A eficácia depende da credibilidade do projeto, da rastreabilidade dos impactos e da adicionalidade (ou seja, a certeza de que o impacto só ocorreu por causa do projeto).

Compensações Locais e Ambientais

Muitas vezes esquecidas, também temos as compensações obrigatórias ligadas a licenciamentos ambientais, como as exigidas pelos órgãos estaduais. São contrapartidas por impactos ambientais não evitáveis de grandes empreendimentos a serem instalados, como obras de infraestrutura ou mineração. Embora não estejam diretamente vinculadas à agenda climática, muitas delas envolvem preservação de vegetação nativa, recuperação de áreas degradadas ou financiamento de unidades de conservação, medidas que também sequestram ou evitam emissões de carbono.

Com todas essas possibilidades e meios de conseguir compensar emissões nos mais variados setores de negócio, precisamos lembrar que compensar não pode ser confundido com terceirizar a responsabilidade. Nenhum desses mecanismos substitui a necessidade de reduzir emissões diretas, visto que eles são complementares, ajudando a financiar soluções, criar escala para tecnologias verdes e podem, inclusive, gerar impactos sociais positivos, como geração de renda em comunidades rurais. Mas se usados de forma leviana, podem virar atalhos para discursos bonitos e resultados fragilizados (ou falsos), minando a credibilidade da compensação. Devemos lembrar que o termo Net-Zero, muito citado hoje em dia, está baseado em uma premissa que é compensar emissões, desde que sejam aquelas que não podem ser reduzidas ou evitadas. Esse deve ser o padrão da agenda climática a ser executada pelas organizações, ou seja, compensar é parte do caminho e não o destino final.

Num país como o Brasil, com enorme potencial de geração de energia limpa, biomassa, florestas e biodiversidade, a agenda de compensação pode ser também uma agenda de oportunidade. Ela gera negócios, atrai investimentos, reduz riscos regulatórios e posiciona as empresas em mercados internacionais. Mas para funcionar, precisa de governança, rastreabilidade e responsabilidade. Não basta dizer que compensa, é preciso mostrar como, onde, com quem e por quê. A mudança climática é o problema do século e por isso depende de ação em todas as frentes, inclusive nas que ajudam a mitigar os efeitos enquanto ainda não conseguimos resolver a causa raiz.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual é o papel dos mecanismos de compensação na agenda climática?
Os mecanismos de compensação protagonizam movimentos importantes na agenda climática, pois oferecem incentivos que geram interesse por parte das organizações. Eles atuam enquanto o corte de emissões diretas, que é um processo que leva tempo e depende de investimentos e inovação, não acontece na velocidade ideal. A compensação é, portanto, uma ação complementar para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Qual é o princípio fundamental dos mecanismos de compensação ambiental?
A premissa básica por trás dos mecanismos de compensação é que, se não é possível evitar a emissão de gases ou a degradação ambiental em um determinado momento, deve-se criar, em paralelo, um impacto ambiental positivo que seja equivalente ao dano causado.
O que é o I-REC (International REC Standard)?
O I-REC (International REC Standard) é um certificado internacional que comprova a geração de energia a partir de fontes renováveis. Cada certificado I-REC equivale a 1 MWh (megawatt-hora) de eletricidade gerada por fontes como solar, eólica ou biomassa. As empresas adquirem esses certificados para compensar o consumo de energia da rede convencional, comprovando que sua demanda é atendida por geração limpa através de um padrão reconhecido internacionalmente, inclusive pelo GHG Protocol.
Como funciona o sistema de compensação com I-REC?
O sistema I-REC não reduz diretamente as emissões de uma empresa, mas incentiva a demanda por energia limpa. Ao comprar os certificados, as empresas criam um sinal de mercado que ajuda a viabilizar economicamente novos projetos de geração renovável. No Brasil, a gestão do sistema é realizada por uma entidade autorizada. Uma vez que o certificado é utilizado para a compensação, ele é "aposentado", ou seja, retirado do mercado para evitar o uso duplicado.
O que é o Gás-REC (Renewable Gas Certificate)?
O Gás-REC (Renewable Gas Certificate) é um certificado que segue a mesma lógica do I-REC, mas aplicado ao setor de gás natural. Ele certifica o uso ou a compensação de gás com biogás e biometano, que possuem uma pegada de carbono muito menor que a do gás fóssil. No Brasil, é um mercado ainda incipiente, mas com grande potencial de crescimento.
Qual o potencial do Gás-REC no Brasil?
O Gás-REC tem um enorme potencial no Brasil, impulsionado pelo avanço das políticas de descarbonização nos setores industrial e logístico. O seu principal diferencial é o estímulo à cadeia de produção de biogás, especialmente aquele gerado a partir de resíduos sólidos urbanos e agropecuários, o que representa um exemplo prático de economia circular na matriz energética. O esperado aumento da produção de biometano no país pode, futuramente, gerar uma monetização adicional para este setor.
O que é o CBIO (Crédito de Descarbonização por Biocombustíveis)?
O CBIO é um Crédito de Descarbonização criado no contexto da Política Nacional de Biocombustíveis do Brasil, conhecida como RenovaBio. Considerado um instrumento de compensação de grande relevância regulatória, cada CBIO equivale à redução de uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) alcançada na produção e comercialização de biocombustíveis, como etanol e biodiesel.
Como funciona o mercado de CBIOs?
O mercado de CBIOs é regulado e dinâmico. As distribuidoras de combustíveis fósseis são legalmente obrigadas a comprar uma quantidade mínima de CBIOs anualmente, com metas definidas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Caso uma distribuidora não atinja sua meta em um ano, a obrigação de compra é transferida para o período seguinte, tornando a aquisição uma necessidade inegociável.O CBIO é negociado na bolsa de valores, e qualquer pessoa pode comprar ou vender. Por ser um ativo ambiental, sua única diferença em relação a papéis tradicionais é que ele não distribui dividendos aos investidores.
Como é determinada a quantidade de CBIOs que um produtor de biocombustível pode emitir?
A quantidade de CBIOs que um produtor ou distribuidor de biocombustível pode gerar é calculada com base em sua Nota de Eficiência Energética-Ambiental (NEEA), que é definida após uma auditoria realizada por terceira parte. A lógica é que, quanto menor for a emissão de gases de efeito estufa no processo de produção do biocombustível em comparação com seu equivalente fóssil, maior será a quantidade de CBIOs que poderão ser emitidos e, consequentemente, maior a rentabilidade para o produtor.
O que são os créditos de carbono voluntários?
Créditos de carbono voluntários são gerados por projetos que reduzem ou removem emissões de gases de efeito estufa, mas que operam fora de um sistema regulatório obrigatório. Empresas que buscam neutralizar suas emissões, especialmente em contextos onde não há uma regulação, utilizam esses créditos. No Brasil, a expectativa é que um mercado regulado comece a operar em 2030.Esses projetos podem ser de diversas naturezas, como reflorestamento (ARR), proteção de florestas (REDD), energia renovável e manejo de resíduos, e seus créditos podem ser verificados por padrões internacionais como os emitidos pela Verra ou Gold Standard.
Quais fatores determinam a eficácia de um projeto de crédito de carbono voluntário?
A eficácia de um projeto de crédito de carbono voluntário depende fundamentalmente de três fatores:1. Credibilidade do projeto: A confiança de que as atividades propostas são genuínas e bem executadas.2. Rastreabilidade dos impactos: A capacidade de monitorar e comprovar os resultados ambientais prometidos de forma transparente.3. Adicionalidade: A certeza de que o impacto positivo, como a redução de emissões, só ocorreu devido à implementação do projeto e não teria acontecido de outra forma.
O que são as compensações locais e ambientais ligadas a licenciamentos?
São compensações obrigatórias exigidas por órgãos ambientais, geralmente em nível estadual, como contrapartidas por impactos ambientais que não podem ser evitados durante a instalação de grandes empreendimentos, como obras de infraestrutura ou projetos de mineração. Embora não estejam sempre vinculadas diretamente à agenda climática, muitas dessas ações — como a preservação de vegetação nativa, a recuperação de áreas degradadas ou o financiamento de unidades de conservação — contribuem para o sequestro de carbono ou evitam novas emissões de gases de efeito estufa.
A compensação de emissões substitui a necessidade de reduzi-las diretamente?
Não. A compensação não deve ser confundida com a terceirização da responsabilidade e não substitui a necessidade fundamental de reduzir as emissões diretas na fonte. Os mecanismos de compensação são ferramentas complementares, projetadas para ajudar a financiar soluções, dar escala a tecnologias verdes e gerar impactos sociais positivos. Se usados de forma leviana, correm o risco de se tornarem atalhos para discursos sem resultados concretos, minando a credibilidade do próprio conceito de compensação.
Qual é a relação entre o conceito de Net-Zero e a compensação de emissões?
O conceito de Net-Zero (Emissões Líquidas Zero) está fundamentado na premissa de que a compensação deve ser aplicada apenas às emissões que não podem ser reduzidas ou evitadas. O padrão de atuação para as organizações na agenda climática deve ser, primeiramente, reduzir ao máximo suas emissões diretas. A compensação entra como um passo seguinte, para neutralizar as emissões residuais. Dessa forma, compensar é considerado parte do caminho para a descarbonização, e não o destino final.
Por que a agenda de compensação representa uma oportunidade para o Brasil?
A agenda de compensação é uma grande oportunidade para o Brasil devido ao seu vasto potencial em recursos naturais, como a geração de energia limpa, biomassa, florestas e biodiversidade. O desenvolvimento dessa agenda pode gerar novos negócios, atrair investimentos, mitigar riscos regulatórios e fortalecer o posicionamento de empresas brasileiras em mercados internacionais. Para que essa oportunidade seja bem-sucedida, é fundamental que haja governança, rastreabilidade e responsabilidade, garantindo que as ações de compensação sejam transparentes e eficazes.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado