Queria falar hoje sobre alguns dos princípios do teste de estresse na gestão de riscos, conforme estabelecidos pelo Comitê de Basileia (BIS), que são orientações relevantes para ajudar com a resiliência e a sustentabilidade diante de riscos de choques macroeconômicos e financeiros neste cenário instável que vivemos.
Estes princípios foram concebidos para fornecer uma estrutura sólida de análise de risco que se aplique a empresas de todos os portes, e que vou detalhar abaixo um pouco mais de cada um destes princípios para entender suas implicações práticas.
Princípio 1: Objetivos Claramente Articulados e Formalmente Adotados
O teste de estresse deve ser conduzido com objetivos bem definidos e formalmente estabelecidos, aprovados ao nível do conselho de administração ou um corpo de governança equivalente.
Os objetivos devem estar claramente alinhados com a estratégia de gerenciamento de riscos da instituição e articulados de forma que orientem todo o processo de teste de estresse, o que inclui a definição das expectativas de como os resultados serão usados para aprimorar a gestão de riscos e a tomada de decisões estratégicas.
É fundamental que todos os envolvidos, desde a alta gerência até as equipes operacionais, compreendam plenamente esses objetivos para garantir que os testes de estresse sejam implementados eficazmente.
Princípio 2: Estrutura de Governança Efetiva
A estrutura de governança para os testes de estresse deve ser robusta e claramente documentada, e deve especificar as responsabilidades de cada nível de gestão e dos órgãos de supervisão, assegurando que exista supervisão adequada em todo o processo.
Esta governança deve facilitar uma coordenação eficaz entre diferentes áreas da empresa, como risco, finanças e operações, garantindo que os testes de estresse sejam uma ferramenta integrada de avaliação de riscos.
Uma estrutura de governança efetiva também deve promover um desafio construtivo dos pressupostos usados, dos modelos e dos resultados dos testes.
Princípio 3: Ferramenta de Gestão de Riscos e de Informação para Decisões Empresariais
O teste de estresse deve ser integrado ao processo de gestão de riscos da instituição, sendo utilizado para identificar vulnerabilidades e orientar decisões corporativas, como planejamento de capital e gestão de liquidez.
Os testes devem ser realizados regularmente e incorporados ao ciclo de planejamento estratégico, garantindo que a instituição esteja preparada para cenários adversos.
Os resultados devem ser comunicados de forma clara e tempestiva à alta gerência e ao conselho e seus comitês de riscos e/ou auditoria, informando decisões críticas de negócios e estratégia.
- Princípio 4: Captura de Riscos Materiais e Aplicação de Estresses Suficientemente Severos
O processo de teste de estresse deve abranger todos os riscos materiais e relevantes que a instituição enfrenta.
Os cenários utilizados devem ser desafiadores e plausíveis, projetados para testar a resiliência da instituição sob condições extremas, mas possíveis, e considerar de eventos passados e potenciais eventos futuros que possam impactar significativamente a instituição.
Deve haver ainda uma justificativa clara para a seleção e design dos cenários, garantindo que eles sejam relevantes e adequados para os riscos identificados.
Princípio 5: Recursos e Estruturas Organizacionais Adequados
As estruturas organizacionais devem ser adequadas para atender aos objetivos do quadro de teste de estresse, e assim garantir que os recursos, tanto humanos quanto tecnológicos, sejam suficientes e estejam equipados com as competências necessárias para executar os testes de estresse eficazmente.
As decisões de recursos devem considerar a crescente sofisticação dos testes de estresse, exigindo pessoal especializado em riscos de liquidez, crédito, mercado, regras de capital, contabilidade financeira, modelagem e gerenciamento de projetos.
Princípio 6: Dados Precisos e Granulares e Sistemas de TI Robustos
Para que os testes de estresse sejam eficazes e os riscos possam ser identificados corretamente, os dados utilizados devem ser precisos, completos e disponibilizados de forma granular e tempestiva.
A infraestrutura de dados deve ser robusta o suficiente para recuperar, processar e relatar informações usadas nos testes, garantindo a qualidade adequada dos dados para atender aos objetivos do quadro de teste de estresse.
Processos devem estar em lugar para resolver quaisquer deficiências materiais identificadas nas informações.
Princípio 7: Modelos e Metodologias Adequados para Avaliar Impactos de Cenários e Sensibilidades
Os modelos e metodologias utilizados para derivar estimativas de estresse e impactos devem ser adequados para o propósito e uso pretendido dos testes, para isto definir adequadamente, já na fase de modelagem, a cobertura, segmentação e granularidade dos dados e tipos de risco de acordo com os objetivos do quadro de teste de estresse.
Os modelos devem ser justificados e bem documentados, e o desenvolvimento de modelos exige a colaboração de diferentes especialistas para garantir uma agregação sólida dos resultados.
Princípio 8: Desafio e Revisão Regular dos Modelos, Resultados e Frameworks de Teste de Estresse
Este princípio reforça a importância da revisão e do desafio constantes dos modelos de teste de estresse, resultados e frameworks.
Tanto bancos quanto autoridades devem adotar este processo como uma etapa crítica para melhorar a confiabilidade dos resultados dos testes de estresse, compreender suas limitações, identificar áreas que necessitam de aperfeiçoamento e garantir que os resultados estejam sendo usados de maneira consistente com os objetivos deste processo.
As revisões devem abranger todos os aspectos do framework de teste de estresse em uma base periódica e ser utilizadas para manter e atualizar regularmente os frameworks de teste de estresse.
Princípio 9: Comunicação das Práticas e Descobertas de Testes de Estresse Dentro e Entre Países
A comunicação das atividades e resultados dos testes de estresse é relevante tanto para bancos quanto para supervisores, pois compartilhar os resultados dos testes pode proporcionar perspectivas importantes sobre riscos que de outra forma não estariam disponíveis para um banco ou autoridade individual.
A divulgação dos resultados dos testes de estresse, seja por bancos ou autoridades, pode ajudar a melhorar a disciplina de mercado e proporcionar confiança na resiliência do setor bancário aos estresses identificados.
Bancos e autoridades que optam por divulgar os resultados dos testes de estresse devem considerar cuidadosamente como garantir que os participantes do mercado compreendam os dados divulgados, incluindo suas limitações e as suposições em que se baseiam.
Esses princípios destacam a importância do processo de teste de estresse como um componente integral e contínuo da gestão de riscos em bancos e outras instituições financeiras.
Para os que desejarem saber mais fica a dica de ler o documento completo do BIS (em inglês) em: