Artigo
05/03/2024

Regulação que dorme, a crise leva

Analisa o equilíbrio entre inovação, sustentabilidade e controle nas prioridades de regulação do Banco Central para 2024.

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Quantas vezes você já ouviu alguém dizer sobre a importância de se adaptar às mudanças? Isso sempre foi crítico, já dizia Charles Darwin ou o próprio dito popular “camarão que dorme, a onda leva”. Mas você já parou para pensar sobre a importância dessa evolução e adaptação às mudanças na regulação bancária?

Se você não pensou, pode ter certeza que o Banco Central do Brasil (Bacen) tem isso constantemente martelando em sua cabeça e recentemente (04 de março de 2024), o Bacen divulgou a lista de Prioridades da Diretoria de Regulação tangibilizando esse mindset.

A Importância de Regulação Bancária

A regulação bancária desempenha um papel crucial no sistema financeiro de um país e sua importância pode ser explicitada em alguns aspectos (que apesar de serem descritos abaixo individualmente, possuem forte relação entre eles).

  • Estabilidade financeira.

  • Proteção dos depositantes e consumidores (superavitários e deficitários).

  • Confiança e credibilidade do sistema financeiro.

  • Concorrência saudável.

  • Prevenção de atividades ilegais e fraudulentas.

  • Entre outros.

O mais interessante sobre a regulação bancária é que ela deve procurar um equilíbrio (ponto ótimo), uma vez que tanto uma regulação bancária muito frouxa, quanto uma muito restrita, podem gerar crises financeiras (Tobin, J. (1985). "Financial Innovation and Deregulation in Perspective.")

Há inúmeros exemplos disso, como a Grande Depressão (1929), Banco Barings (1995) ou a “mais recente” Grande Recessão (2008), sendo que para essa última, as fragilidades regulatórias no mercado hipotecário e de CDOs (Collateralized Debt Obligation) são ditas como os principais motivos geradores da crise e a forte regulação implantada após a crise (com o Dodd-Frank Act) foi criticada por alguns como um dos principais motivos de menor retomada do crédito pós crise.

Ou seja, o equilíbrio é essencial quando falamos em regulação bancária.

E a Lista de Prioridades da Diretoria de Regulação do Bacen?

Como já comentei, essa lista é um grande exemplo da excelente atuação do Bacen em estar atualizado com as mudanças e evoluções do mercado.

Além dos “clássicos” temas de Câmbio, Regulação Prudencial e Crédito Rural, o Bacen apresenta uma importante lista de assuntos sobre Sustentabilidade e Inovação, deixando claro que a regulação irá sim tratar cada vez mais de temas como ESG, TCFD, Open Finance, Ativos Virtuais, BaaS, Tokenização e Inteligência Artificial, entre outros.

Além disso, fica claro que esses temas estão entrelaçados, uma vez que dentro dos clássicos temas de Câmbio e Regulação Prudencial, há sub temas de Ativos Virtuais e dentro do clássico tema de Crédito Rural, há o sub tema de Sustentabilidade.

Conclusão

Quem não gosta de regulação bancária, precisa ler um pouco de “história bancária”. Sem ela, as ocorrências de crises seriam muita mais frequentes. Porém, um excesso de controle e regulação pode matar o mercado e a economia de um país.

A lista de prioridades da Diretoria de Regulação mostra o quanto o Bacen está na vanguarda em regulação bancária. E se você se preocupa que essa regulação é algo que pode atrapalhar o desenvolvimento desses temas, eu não me preocupo dessa forma.

O histórico do Bacen sobre regulação de novos assuntos é muito positivo, uma vez que ele costuma envolver o mercado por meio de consultas públicas, discussões e conversas com bancos e entidades de classe e elaboração de estudos, antes de ditar normas top-down. Isso tangibiliza a sua preocupação de regular assuntos que, sem essa regulação, poderíamos ter inúmeras crises e impactos negativos à sociedade, ao mesmo tempo que, um exagero de regulação, poderia inviabilizar a evolução do mercado e também gerar crises.

Mas a reflexão final que eu deixo é a seguinte:

Se o Bacen está atuando para regular esses temas e você não está por dentro deles (seja com uma visão de gestão de riscos, seja com uma visão de negócios), o dito popular já descrito nesse artigo também é válido, afinal de contas, “camarão que dorme, a onda leva”.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual a importância da adaptação às mudanças na regulação bancária?
A adaptação às mudanças é fundamental na regulação bancária porque o setor financeiro está em constante evolução. Manter a regulação atualizada é essencial para garantir a estabilidade e a eficiência do sistema. O Banco Central do Brasil (Bacen), por exemplo, demonstra essa preocupação ao divulgar documentos como a lista de Prioridades da Diretoria de Regulação, publicada em 04 de março de 2024, buscando alinhar suas normativas com as novas realidades do mercado.
Quais são os principais papéis desempenhados pela regulação bancária?
A regulação bancária desempenha vários papéis cruciais para o sistema financeiro, incluindo:
  • Garantir a estabilidade financeira.
  • Promover a proteção dos depositantes e consumidores, tanto os superavitários (que têm recursos sobrando) quanto os deficitários (que necessitam de recursos).
  • Manter a confiança e credibilidade do sistema financeiro.
  • Estimular uma concorrência saudável entre as instituições.
  • Auxiliar na prevenção de atividades ilegais e fraudulentas.
Embora listados individualmente, esses aspectos possuem forte relação entre si.
Por que o equilíbrio é considerado essencial na regulação bancária?
O equilíbrio na regulação bancária é essencial porque tanto uma regulação excessivamente frouxa quanto uma excessivamente restrita podem levar a crises financeiras. Conforme destacado por Tobin, J. (1985) em "Financial Innovation and Deregulation in Perspective", um sistema com poucas regras pode permitir a tomada de riscos desmedidos, enquanto um sistema com regras demais pode sufocar a inovação, o crescimento do mercado e a economia como um todo. Portanto, busca-se um "ponto ótimo" regulatório.
Quais exemplos históricos ilustram as consequências de falhas ou desequilíbrios na regulação bancária?
Diversos eventos históricos demonstram o impacto de problemas na regulação bancária. Entre eles, destacam-se:
  • A Grande Depressão de 1929.
  • A quebra do Banco Barings em 1995.
  • A Grande Recessão de 2008. No caso desta última, fragilidades regulatórias no mercado hipotecário e no mercado de Collateralized Debt Obligation (CDOs) são citadas como principais causas da crise.
O que foi o <em>Dodd-Frank Act</em> e qual crítica ele recebeu em relação à recuperação econômica?
O Dodd-Frank Act foi um conjunto de regulações financeiras implementado nos Estados Unidos após a crise financeira de 2008. Apesar de ter sido criado para aumentar a estabilidade do sistema financeiro, ele foi criticado por alguns setores como um dos fatores que contribuíram para uma retomada mais lenta do crédito no período pós-crise, devido ao seu nível de restrição.
O que a "Lista de Prioridades da Diretoria de Regulação" do Banco Central do Brasil (Bacen), divulgada em 04 de março de 2024, indica sobre o foco da regulação?
A "Lista de Prioridades da Diretoria de Regulação" do Bacen, divulgada em 04 de março de 2024, sinaliza que a autarquia está atenta às evoluções do mercado. Além de temas tradicionais como Câmbio, Regulação Prudencial e Crédito Rural, a lista destaca uma crescente importância de assuntos ligados à Sustentabilidade e Inovação. Isso inclui a intenção de regular temas como ESG (Ambiental, Social e Governança), TCFD (Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), Open Finance, Ativos Virtuais, Banking as a Service (BaaS), Tokenização e Inteligência Artificial.
Como os diferentes temas abordados na lista de prioridades regulatórias do Bacen se interconectam?
Os temas presentes na lista de prioridades regulatórias do Bacen demonstram uma interconexão. Por exemplo, dentro de áreas consideradas clássicas, como Câmbio e Regulação Prudencial, são encontrados subtemas relacionados a Ativos Virtuais. Da mesma forma, o tema clássico de Crédito Rural agora incorpora o subtema de Sustentabilidade, mostrando como as novas pautas permeiam as áreas tradicionais da regulação.
Qual é a abordagem usual do Banco Central do Brasil (Bacen) ao regular novos assuntos no mercado financeiro?
O Banco Central do Brasil (Bacen) adota uma abordagem participativa ao regular novos assuntos. Historicamente, a instituição costuma envolver o mercado por meio de consultas públicas, discussões e conversas com bancos e entidades de classe, além de realizar estudos aprofundados antes de estabelecer normas de forma top-down (de cima para baixo). Essa prática visa equilibrar a necessidade de regulação para prevenir crises e proteger a sociedade, com o cuidado para não impor controles excessivos que possam inviabilizar a evolução do mercado e, paradoxalmente, também gerar instabilidade.
O que são <em>Collateralized Debt Obligation</em> (CDOs) no contexto da crise financeira de 2008?
Collateralized Debt Obligation (CDOs) são instrumentos financeiros. No contexto da crise financeira de 2008, fragilidades regulatórias no mercado de CDOs, assim como no mercado hipotecário, são apontadas como os principais motivos que geraram a crise.Não há uma explicação detalhada sobre a estrutura ou funcionamento dos CDOs nas informações fornecidas, apenas sua menção como um fator relevante na crise de 2008.

Autor

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Marcelo Sarkis Donelian

Executivo de Gestão de Riscos e Capital (Crédito, Mercado, Liquidez, Socioambiental, Climático, Integrado, Crédito da Contraparte, Operacional, Controles Internos, Compliance, PLD e Gestão de Capital)