Artigo
21/05/2023
Atualizado em 10/04/2026

Sustentabilidade e Integração ESG com a Concessão e o Risco de Crédito: Como os riscos ESG relevantes ao crédito afetar a capacidade de uma divida?

A avaliação de crédito atual considera apenas riscos ESG de curto prazo, desfavorecendo empresas sustentáveis e exigindo novos modelos que integrem impactos de longo prazo para incentivar a transição energética.

Imagem de capa do artigo

Como já comentei aqui, e devem estar observando, a crescente preocupação com a sustentabilidade e os critérios Ambientais, Sociais e de Governança (ESG) tem impulsionado mudanças no mundo dos negócios e das instituições financeiras.

É um tema que cada vez mais tem se discutido nos conselhos e comitês de riscos, e alta administração é sobre a integração desses critérios de ESG nas análises de crédito.

Queria discutir aqui com vocês não o impacto da sustentabilidade da empresa, mas sim como os riscos ESG relevantes ao crédito podem afetar a capacidade de uma entidade de pagar sua dívida.

Hoje a forma como as agências incorporam ESG na análise de crédito não afeta a avaliação convencional de crédito, pois este score de crédito de ESG não causa melhoria ou piora na classificação. A atual estrutura de classificação "ESG-enhanced" é apenas um conceito repaginado de um princípio já estabelecido de avaliação de crédito. A metodologia atual de classificação de crédito desfavorece empresas que buscam uma transição sustentável. A avaliação de crédito precisa ser aprimorada e as entidades que buscam iniciativas de sustentabilidade devem ser incentivadas através do financiamento de baixo custo para acelerar a transição energética limpa.

Apenas fatores ESG relevantes ao crédito, visíveis, prováveis de se materializar e com impacto significativo no curto prazo (3 a 5 anos) são considerados na avaliação de crédito. Riscos ESG, especialmente ambientais, que são considerados incertos e difíceis de quantificar a longo prazo, não são incorporados.

Os riscos ambientais, como os riscos de transição e físicos, são mais difíceis de avaliar devido ao longo prazo e à maior incerteza. Esses riscos continuarão a crescer, afetando a capacidade de pagamento da dívida à medida que a transição para uma economia de baixo carbono se acelera. Portanto, os portfólios de títulos enfrentam um risco maior ao longo do tempo.

Assim como empresas e gestores de risco devem pensar além do curto prazo, as agências de classificação de crédito também devem fazer o mesmo. A metodologia convencional de classificação precisa ser reformulada para incluir riscos de longo prazo e produzir um impacto tangível na classificação de crédito devido aos fatores ESG, e vão surgir certamente novos modelos para uma melhor integração do ESG na avaliação de crédito, como uma avaliação de risco ESG independente, uma análise de classificação dupla ou uma análise de sensibilidade plausível.

Por isto mesmo, queria comentar sobre um recente relatório em inglês publicado sobre um estudo feito pelo Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA) intitulado: "Can Credit Rating Assessments and Sustainability Coexist? - ESG integration in the credit world: moving beyond short-term horizons".

O que é o "score de ESG"?

O "score" de ESG de crédito é uma ferramenta usada para melhorar a transparência sobre os impactos ESG, com o objetivo de articular ou quantificar os fatores ESG na análise de classificação de crédito e medir como o risco ESG relevante para o crédito pode impactar a capacidade de uma empresa ou entidade em pagar suas dívidas.

Principais descobertas preocupantes do relatório:

1) As agências de classificação de crédito não fazem julgamentos de valor, mas sim avaliam como os fatores ESG impactam a qualidade de crédito. Empresas que impactam negativamente o meio ambiente continuarão a ter classificações elevadas, enquanto empresas sustentáveis não receberão uma melhora na classificação, mesmo com a descarbonização.

2) Divulgar ou fornecer um diagnóstico ESG detalhado não é o mesmo que integrar os fatores ESG nas classificações de crédito, uma vez que o primeiro não desencadeia uma ação de classificação de crédito.

3) Um sistema de Avaliação de Crédito Corporativo Convencional + Risco ESG forneceria transparência e calibraria os riscos ESG para investidores em dívida.

4) O atual modelo de classificação de crédito é míope e não é intuitivo o suficiente para fornecer um sinal de alerta antecipado antes de uma crise relacionada ao clima.

Atualmente apenas os fatores ESG relevantes para o crédito que são visíveis, prováveis de se materializar e que têm um impacto significativo de curto prazo (3-5 anos) na qualidade de crédito são considerados na avaliação de crédito.

Isto significa que:

1) Os riscos ESG provavelmente continuarão a se acumular, afetando a capacidade de pagamento da dívida à medida que, por exemplo, a transição para uma economia de baixo carbono acelera e os efeitos das mudanças climáticas se tornam mais evidentes. Portanto, os portfólios de títulos enfrentam um aumento do risco de desvalorização ao longo do tempo.

2) A atual metodologia de classificação de crédito desfavorece empresas que buscam uma transição sustentável, em vez de incentivá-las, melhorando o financiamento de baixo custo para acelerar a transição energética limpa.

Mas qual deve ser as tendências no futuro?

Os modelos sugeridos no relatório visam explorar a possibilidade de qualidade de crédito e sustentabilidade coexistirem na avaliação de classificação de crédito. Assim como as empresas e os gestores de risco devem pensar além do curto prazo, as agências de classificação de crédito também deveriam fazê-lo.

Propostas para um novo modelo de classificação de crédito:

A fim de abordar as limitações do atual modelo de classificação de crédito e integrar de forma mais eficaz os fatores ESG, o relatório sugere algumas medidas a serem consideradas:

1) Ampliação do horizonte temporal das análises de crédito: As agências de classificação de crédito deveriam expandir seu foco para além do curto prazo (3-5 anos) e considerar os impactos de longo prazo dos riscos ESG na qualidade de crédito.

2) Adoção de metodologias que ponderem os fatores ESG: As agências de classificação de crédito poderiam desenvolver metodologias específicas que atribuam pesos aos fatores ESG, proporcionando um maior equilíbrio entre os aspectos financeiros e não financeiros das análises de crédito.

3) Transparência e padronização na divulgação de informações ESG: A criação de padrões de divulgação de informações ESG permitiria uma melhor comparação entre empresas e facilitaria a integração desses fatores nas análises de crédito.

4) Incentivos para empresas que adotam práticas sustentáveis: As agências de classificação de crédito poderiam estabelecer mecanismos que incentivem as empresas a adotar práticas mais sustentáveis, por exemplo, por meio de melhorias na classificação de crédito.

A integração dos fatores ESG no mundo do crédito é um desafio complexo, mas necessário para garantir a sustentabilidade das empresas e a estabilidade dos mercados financeiros.

As agências de classificação de crédito desempenham um papel fundamental nesse processo, e uma abordagem mais abrangente e a longo prazo pode ajudar a mitigar os riscos associados às mudanças climáticas e outras questões ESG. Ao implementar as mudanças sugeridas no relatório do IEEFA, as agências de classificação de crédito podem contribuir para um futuro mais sustentável e resiliente para todos.

Para quem deseja saber mais a respeito do tema recomendo ler o relatório que pode ter acesso no seguinte link abaixo:

https://media.licdn.com/dms/document/D4E1FAQHhltwI7WDRdQ/feedshare-document-pdf-analyzed/0/1683697128767?e=1684368000&v=beta&t=wldLM7P45SFSuqxhOZBw51gche6DOZZtheFWGDt_6NQ

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Luiz Henrique Lobo

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante