Artigo
30/06/2024
Atualizado em 26/04/2026

Impacto dos Riscos ESG no Crédito: ESG Credit Score

As agências de crédito incorporam fatores ESG para avaliar riscos, mas esses scores raramente alteram classificações tradicionais, evidenciando a necessidade de metodologias que integrem sustentabilidade e crédito de forma tangível.

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Com a crescente importância dos fatores ambientais, sociais e de governança (ESG) nos investimentos, as agências de classificação de crédito têm se esforçado para serem mais transparentes sobre como esses fatores são considerados em suas avaliações tradicionais, porém a necessária integração dos fatores ESG nas avaliações de crédito não visa medir o impacto sustentável de uma empresa, mas sim como os riscos ESG relevantes para o crédito podem afetar a capacidade de uma empresa ou entidade de pagar suas dívidas.

Um dos instrumentos desenvolvidos para tentar melhorar a transparência é o chamado: "ESG credit score", que busca articular ou quantificar os fatores ESG na análise de classificação de crédito.

As considerações ESG nas classificações de crédito não são novas, estando incorporadas no sistema convencional de classificação corporativa. No entanto, as ESG credit scores não estão diretamente vinculadas às classificações de crédito, o que significa que uma pontuação ESG fraca não necessariamente resulta em uma classificação fraca.

Mas o lado ruim, é que pela forma como normalmente as agências incorporaram o ESG na análise de crédito não teve efeito em suas avaliações convencionais, e acaba de que na prática esses ESG credit scores não causam um upgrade ou downgrade na classificação. Consequentemente não houve mudanças significativas nas classificações globais de todos os setores desde a introdução da metodologia de classificação de crédito aprimorada pelo ESG.

A fica a pergunta que não quer calar: se as considerações ESG são consideradas como tendo um risco ou benefício de crédito, mas não resultam em uma mudança tangível e oportuna na classificação de crédito, qual é o propósito das considerações ESG nas classificações de crédito (ou ESG credit score)?

Fatores ESG Não São Integrados Diretamente na Metodologia Tradicional de Avaliação de Crédito:

Em 2022 uma consulta direcionada sobre classificações ESG e fatores de sustentabilidade nos mercados de crédito da União Europeia (UE) revelou que a maioria dos participantes acredita que as diretrizes de divulgação atuais da UE e as tendências de mercado são insuficientes para fornecer uma compreensão clara de como os fatores ESG influenciam as classificações de crédito. A maioria dos usuários também acredita que a informação sobre a extensão em que as agências de classificação de crédito incorporam os fatores de sustentabilidade em suas metodologias ou processos de classificação não é adequadamente divulgada.

A característica distintiva de uma classificação de crédito convencional é que ela avalia apenas a capacidade de uma entidade de pagar sua dívida, sem medir o desempenho ESG ou a sustentabilidade de uma empresa. A metodologia convencional de classificação de crédito corporativo avalia o perfil de risco de crédito analisando três pilares principais: negócios, financeiro e riscos suplementares relacionados ao crédito. Sendo de que estes três fatores analíticos são uma combinação de avaliações quantitativas e qualitativas que analisam a capacidade de uma entidade de pagar sua dívida.

Evolução das Agências de Classificação de Crédito:

As agências de classificação de crédito percorreram um longo caminho ao abordar o risco de crédito para emissores e setores relacionados a combustíveis fósseis. Pesquisas descobriram de que no passado as agências Moody’s, Fitch Ratings e S&P viam a indústria do carvão como positiva para o crédito, incluindo a comissionamento de usinas de carvão, aumento da produção, reservas e capacidade para recursos de hidrocarbonetos.

Mas recentemente se observou uma mudança em sua perspectiva, quando as agências de classificação passaram a considerar de que a indústria do carvão está em declínio a longo prazo devido às pressões sociais e políticas decorrentes da luta para reduzir os gases de efeito estufa, assim como os investimentos em gás natural e a dependência contínua de hidrocarbonetos também são vistos como riscos de crédito a longo prazo.

Uma Pontuação ESG Fraca Nem Sempre se Traduz em uma Classificação de Crédito Fraca

As ESG credit scores foram desenvolvidas para fornecer divulgação adicional e transparência de riscos ESG materiais e relevantes que poderiam influenciar as classificações de crédito. A metodologia de classificação "aprimorada pelo ESG" atual é um conceito reembalado dos princípios convencionais de avaliação de crédito já estabelecidos, ou seja, em outras palavras os investidores em títulos não serão capazes de avaliar adequadamente o risco ESG de um emissor ou o risco de crédito a longo prazo com base apenas na classificação de crédito, eles precisarão dessas ESG credit scores para de alguma forma avaliar a exposição ESG nas classificações de crédito.

Um score ESG mais fraco deveria, conceitualmente, resultar em uma classificação de crédito mais fraca. No entanto, isso nem sempre ocorre. A ESG credit score e as classificações de crédito podem não estar diretamente relacionadas. Entidades com uma classificação de crédito baixa (grau não-investimento/alto rendimento) podem ter uma pontuação ESG favorável, e vice-versa.

A Convivência Entre Classificabilidade de Crédito e Sustentabilidade:

As agências de classificação de crédito usam fatores de crédito para avaliar se uma entidade será capaz de pagar suas dívidas em dia. Eles examinam as características de crédito e estimam a probabilidade de inadimplência. Fatores ESG comumente incorporam o impacto de uma entidade no meio ambiente ou na sociedade através de seu risco climático, consumo de energia, padrões de trabalho e proteção de dados, bem como a qualidade de sua governança por meio de políticas corporativas.

No entanto na prática os fatores ESG têm pouco impacto material no perfil de crédito de uma empresa porque geralmente são de natureza não financeira, e o momento desses fatores se materializarem é incerto.

Propostas para Integrar ESG e Avaliações de Crédito:

Investidores estão se afastando cada vez mais das perspectivas de risco e retorno de curto prazo e focando em uma perspectiva de sustentabilidade de longo prazo no desempenho dos investimentos. Assim como as empresas e os gestores de risco são esperados para pensar além do curto prazo, as agências de classificação de crédito também devem fazê-lo. Em particular, as práticas de avaliação de crédito devem evoluir para garantir que o sistema de classificações também seja sustentável.

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As Agências de Classificação de Crédito Não Fazem Juízo de Valor:

As agências de classificação de crédito avaliam como os fatores ESG impactam a capacidade de crédito das empresas, sem fazerem julgamentos de valor sobre as práticas dessas empresas. Até que os fatores ESG sejam totalmente integrados nas avaliações de crédito, empresas que impactam negativamente o meio ambiente continuarão a ser altamente classificadas. Em contrapartida, empresas sustentáveis não receberão uma melhoria em sua classificação de crédito, apesar de seus esforços de descarbonização.

Divulgação e Diagnóstico ESG Não são Sinônimos de Integração ESG nas Classificações de Crédito:

Divulgar ou fornecer um diagnóstico ESG detalhado não é o mesmo que integrar os fatores ESG nas classificações de crédito. A divulgação de informações ESG por si só não aciona uma ação de reclassificação de crédito. Atualmente, os sistemas de avaliação convencionais, combinados com diagnósticos de riscos ESG, podem fornecer transparência e calibrar os riscos ESG para investidores em dívida, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que esses fatores sejam totalmente integrados e reflitam de maneira tangível nas classificações de crédito.

Avaliação Convencional de Crédito Corporativo + Sistema de Risco ESG:

Um sistema que combine a avaliação convencional de crédito corporativo com um sistema de risco ESG proporcionaria mais transparência e ajudaria a calibrar os riscos ESG para investidores em dívida. Isso implicaria em uma avaliação mais holística da capacidade de crédito, considerando não apenas os fatores financeiros tradicionais, mas também os riscos ambientais, sociais e de governança que podem impactar a capacidade de uma empresa de honrar suas obrigações financeiras no longo prazo.

Modelo Atual de Classificação de Crédito é de Curto Prazo e Pouco Intuitivo:

O modelo atual de classificação de crédito é focado no curto prazo e não é intuitivo o suficiente para fornecer um sinal de alerta antecipado antes de uma crise relacionada ao clima. Emissores que enfrentam riscos ESG elevados no longo prazo, especialmente riscos climáticos, podem sofrer uma queda abrupta na classificação mais cedo do que o esperado, o que impacta severamente os detentores de títulos e pode desencadear vendas significativas de títulos.

Exemplos Práticos e Consequências:

Por exemplo em 2019 a S&P Global Ratings e a Moody’s Investors Service rebaixaram a classificação da Pacific Gas and Electric Company (PG&E) devido ao ambiente desafiador que enfrentava, com bilhões de dólares em passivos relacionados a incêndios florestais. Após uma série de incêndios entre 2015 e 2018, a PG&E entrou com pedido de falência em 29 de janeiro de 2019. A PG&E é amplamente considerada a primeira "falência climática" e, à medida que as mudanças climáticas exacerbam os desastres naturais, é provável que não seja a última.

Isso destaca que riscos atualmente considerados incertos podem resultar em um rebaixamento significativo e, eventualmente, em falência, impactando severamente os detentores de títulos. Consequentemente, pode haver mais mudanças abruptas na classificação no horizonte sob o mecanismo atual de classificação de crédito. Assim como as empresas e os gestores de risco são esperados a pensar além do curto prazo, as agências de classificação de crédito também devem fazê-lo.

Necessidade de Evolução nas Práticas de Avaliação de Crédito:

As práticas de avaliação de crédito precisam evoluir para garantir que o sistema de classificações também seja sustentável. O sistema de classificação de crédito deve ser mais resiliente a choques relacionados ao ESG, especialmente ao impacto das mudanças climáticas. Uma avaliação de crédito que incluísse riscos e/ou oportunidades de longo prazo forneceria sinais antecipados importantes. A integração do ESG agora é um componente crítico do processo de investimento. Portanto, a metodologia convencional de classificação requer uma reformulação para incluir riscos de longo prazo e produzir um resultado tangível na classificação de crédito devido aos fatores ESG.

Propostas de Novos Modelos para Melhor Integração do ESG:

Este relatório propõe possíveis novos modelos para uma melhor integração do ESG nas avaliações de classificação de crédito. Essas propostas incluem a implementação de uma avaliação de risco ESG independente, uma análise de classificação dupla ou uma análise de sensibilidade plausível. Embora não haja uma solução rápida para abordar esses desafios devido à complexidade em torno da avaliação de crédito, as questões ambientais e sociais estão ganhando tração e merecem mais atenção. Os modelos sugeridos buscam explorar a possibilidade de coexistência entre a classificabilidade de crédito e a sustentabilidade em uma avaliação de classificação de crédito.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante