Artigo
08/07/2020

O que é o risco de crédito?

Explica o conceito, componentes e formas de mitigação do risco de crédito em operações financeiras.

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A palavra “crédito” está relacionada à credibilidade, à confiança. Em uma faculdade, por exemplo, os alunos assistem aulas, participam de atividades, trabalhos e provas e, provando sua capacidade e esforço, acumulam créditos até que o curso possa dar-se como concluído. O próprio diploma emitido é uma relação de crédito, que comprova que o aluno passou por um processo de aprendizagem.

No mercado financeiro, muitas vezes crédito se confunde com empréstimo. Quando uma entidade diz que vai pegar crédito para fazer um projeto, normalmente seria o mesmo se dissesse que buscaria um empréstimo ou um financiamento. Isso porque usa-se a palavra crédito para se referir às operações de crédito.

Na prática, mesmo os termos empréstimo e financiamento são distintos, sendo que financiamento se refere à captação de recursos para uma aplicação específica, como o financiamento de um imóvel, de um veículo ou de um projeto. Já o empréstimo não tem destinação específica, então, se uma entidade obtivesse um empréstimo para colocar um projeto em prática, ela poderia usar parte dos recursos para pagar despesas ou para outros investimentos.

O Regulamento do IOF (RIOF/2007), no seu Art. 3º, § 3º, afirma que a expressão “operações de crédito” compreende as seguintes transações:

  • empréstimo sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito e desconto de títulos;
  • alienação de direitos creditórios resultantes de vendas a prazo;
  • mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física.

Importante lembrar que o RIOF/2007 enumera em seus três incisos as transações que estão no escopo das operações de crédito que são tributadas pelo IOF. Neste texto, estamos considerando que a operação de crédito é uma transação entre um credor e um devedor, a partir da qual o credor fornece dinheiro, bens tangíveis ou intangíveis, serviços ou valores mobiliários em troca de uma promessa de pagamento futuro pelo devedor. Esta nossa definição inclui como operação de crédito as vendas a prazo, o que é fundamental para discutir o que é risco de crédito.

Um vendedor de bens ou serviços pode exigir pagamento a vista (na data da venda), antecipado (antes da entrega), ou a prazo, sendo que o pagamento a vista não configuraria uma operação de crédito, uma vez que o valor acordado em contrato já estaria quitado, e não haveria possibilidade de o devedor inadimplir.

O risco de crédito pode ser definido como o risco de perda financeira devido à falha do mutuário, do emissor de obrigações ou contraparte (os "devedores") em honrar suas obrigações financeiras (Koulafetis, 2017).

Alguns exemplos de ativos que possuem risco de crédito são:

  • Títulos do governo federal
  • Certificado de depósito bancário (CDB)
  • Letra de crédito imobiliário (LCI)
  • Debêntures
  • Vendas a prazo

A inadimplência muitas vezes está relacionada a situações de insolvência ou falência do devedor. A Insolvência refere-se à situação em que os passivos do devedor excedem seus ativos, e é um termo legal que significa que o devedor é incapaz de pagar suas dívidas. Falência é o dispositivo legal que impõe supervisão judicial sobre os assuntos financeiros daqueles que são insolventes ou estão inadimplentes (Koulafetis, 2017).

O risco de crédito pode ser avaliado a partir dos seus componentes, como a probabilidade de ocorrer um evento de default (falha no curso normal da operação) em determinado intervalo de tempo, o tamanho da exposição a risco, que decorre da incerteza em relação ao valor do crédito no momento do default, e a recuperação, que se refere à incerteza quanto ao valor que pode ser recuperado pelo credor no caso de um default do tomador (Brito & Neto, 2008).

As razões que levam uma entidade ao não-cumprimento de uma promessa de pagamento podem estar relacionadas com a capacidade de gerir seus negócios, fatores externos adversos, incapacidade de gerar caixa, entre outros, por isso, a literatura agrupa boa parte desses fatores no que chamamos de cinco C’s do crédito:

  • Caráter: O caráter do tomador de crédito pode ser avaliado a partir do histórico do cliente quanto ao cumprimento de suas obrigações financeiras, contratuais e morais. Dados históricos de pagamentos e quaisquer causas judiciais pendentes ou concluídas contra o cliente podem ser utilizados na avaliação do seu caráter, além do envolvimento com negócios, pessoas ou entidades corrompidas.
  • Capacidade: Se refere à capacidade de uma empresa honrar suas dívidas. No caso das empresas, normalmente avaliamos sua capacidade de geração de fluxos de caixa operacionais e comparamos com a ordem de grandeza da dívida líquida e das despesas financeiras. Para as pessoas físicas, é comum avaliarmos a renda e compararmos com os compromissos de pagamentos do tomador de crédito.
  • Capital: Se refere à solidez financeira do tomador, normalmente representada pelo seu patrimônio, o que pode envolver aplicações financeiras, imóveis, terrenos, máquinas, equipamentos, etc., levando em conta se esses ativos estão vinculados a financiamentos da entidade. Nas pessoas físicas, o capital pode ser avaliado a partir da declaração de imposto de renda, enquanto nas empresas, ele pode ser avaliado a partir das demonstrações financeiras.
  • Colateral: Refere-se a garantias que são oferecidas para mitigar o risco de crédito em operações de prazos mais longos ou em situações nas quais o capital e/ou a capacidade do cliente não são tão convincentes.
  • Condições: Esse fator diz respeito a fatores externos, como taxa de juros, inflação, câmbio, crises generalizadas ou setoriais e outros fatores que podem reduzir a capacidade de pagamento de um tomador de crédito.

Entre as atividades destinadas a mitigar o risco de crédito, podemos mencionar as seguintes:

  • Análise de crédito: Tal procedimento tem como objetivo discriminar os clientes e operações bons dos clientes e operações ruins. A instituição que concede crédito avalia os riscos relacionados ao tomador de crédito e à operação, e também o seu potencial de ganhos, e decide se concede o crédito, assim como as condições de prazos e taxas aceitáveis.
  • Obtenção de garantias: As garantias são um compromisso adicional que se estabelece em uma operação de crédito, como forma de assegurar a redução do risco de crédito, uma vez que, quando a obrigação não é liquidada, a garantia pode ser requerida.
  • Diversificação da carteira de clientes, uma vez que o risco de crédito é específico (não sistemático).
  • Derivativos de crédito: Os derivativos de crédito são contratos cujo resultado depende da qualidade de crédito de uma ou mais entidades. Os derivativos de crédito permitem que as entidades transfiram o risco de crédito da mesma forma que transferem os riscos de mercado com uso de derivativos financeiros mais comuns.

Referências
Brito, G. S., & Neto, A. A. (2008). Modelo de classificação de risco de crédito de empresas. Revista Contabilidade & Finanças.
Koulafetis, P. (2017). Modern Credit Risk Management: Theory and Pactice. Palgrave Macmillan.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que significa a palavra 'crédito' no contexto educacional?
A palavra 'crédito' no contexto educacional está relacionada à credibilidade e confiança. Refere-se aos créditos acumulados pelos alunos ao assistirem aulas, participarem de atividades, trabalhos e provas, comprovando sua capacidade e esforço até a conclusão do curso.
Como o termo 'crédito' é utilizado no mercado financeiro?
No mercado financeiro, o termo 'crédito' muitas vezes se confunde com empréstimo. Refere-se às operações de crédito, que podem incluir empréstimos ou financiamentos para projetos específicos.
Qual é a diferença entre empréstimo e financiamento?
O financiamento se refere à captação de recursos para uma aplicação específica, como a compra de um imóvel ou veículo. Já o empréstimo não tem destinação específica, podendo ser usado para diversas finalidades, como pagar despesas ou outros investimentos.
Quais transações são consideradas operações de crédito segundo o Regulamento do IOF (RIOF/2007)?
Segundo o Art. 3º, § 3º do RIOF/2007, as operações de crédito incluem:
  • Empréstimo sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito e desconto de títulos;
  • Alienação de direitos creditórios resultantes de vendas a prazo;
  • Mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física.
O que é risco de crédito?
O risco de crédito é o risco de perda financeira devido à falha do mutuário, emissor de obrigações ou contraparte em honrar suas obrigações financeiras.
Quais são alguns exemplos de ativos que possuem risco de crédito?
Alguns exemplos de ativos que possuem risco de crédito são:
  • Títulos do governo federal
  • Certificado de depósito bancário (CDB)
  • Letra de crédito imobiliário (LCI)
  • Debêntures
  • Vendas a prazo
O que é insolvência e falência?
Insolvência é a situação em que os passivos do devedor excedem seus ativos, significando que o devedor é incapaz de pagar suas dívidas. Falência é o dispositivo legal que impõe supervisão judicial sobre os assuntos financeiros daqueles que são insolventes ou estão inadimplentes.
Quais são os componentes do risco de crédito?
Os componentes do risco de crédito incluem:
  • Probabilidade de default: a chance de ocorrer um evento de falha no curso normal da operação em determinado intervalo de tempo;
  • Tamanho da exposição a risco: incerteza em relação ao valor do crédito no momento do default;
  • Recuperação: incerteza quanto ao valor que pode ser recuperado pelo credor no caso de um default do tomador.
Quais são os cinco C’s do crédito?
Os cinco C’s do crédito são:
  • Caráter: Avaliação do histórico do cliente quanto ao cumprimento de suas obrigações financeiras, contratuais e morais.
  • Capacidade: Capacidade de uma empresa ou pessoa física honrar suas dívidas.
  • Capital: Solidez financeira do tomador, representada pelo seu patrimônio.
  • Colateral: Garantias oferecidas para mitigar o risco de crédito.
  • Condições: Fatores externos que podem afetar a capacidade de pagamento do tomador de crédito.
Quais atividades podem mitigar o risco de crédito?
As atividades que podem mitigar o risco de crédito incluem:
  • Análise de crédito: Avaliação dos riscos relacionados ao tomador de crédito e à operação.
  • Obtenção de garantias: Compromissos adicionais para assegurar a redução do risco de crédito.
  • Diversificação da carteira de clientes: Redução do risco específico (não sistemático).
  • Derivativos de crédito: Contratos que permitem a transferência do risco de crédito.

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Eric Barreto

Partner e Prof. do Insper