O real brasileiro encerrou 2024 como a moeda mais desvalorizada frente ao dólar entre as principais economias emergentes, passando de R$ 4,85 em janeiro para mais de R$ 6 em dezembro. Essa forte depreciação está vinculada a uma combinação de fatores externos e internos que fragilizaram a percepção de estabilidade econômica do Brasil e fortaleceram a demanda pela moeda americana.
Fatores Externos: O Impacto do Cenário Internacional
No âmbito internacional, dois movimentos principais impulsionaram a valorização do dólar:
1. Aumento nos juros dos EUA: Com uma política monetária contracionista mais severa promovida pelo Federal Reserve, as taxas de juros dos títulos americanos atingiram níveis atrativos para investidores globais, redirecionando fluxos de capital de mercados emergentes para ativos considerados mais seguros.
2. Aversão ao risco: A volatilidade global, gerada por tensões geopolíticas e crises em mercados chave, reforçou o papel do dólar como ativo de proteção. Isso impactou negativamente as moedas emergentes, especialmente aquelas que enfrentam desafios internos significativos, como o real.
Fatores Internos: A Fragilidade da Política Doméstica
Os movimentos externos foram amplificados por questões domésticas, que enfraqueceram ainda mais a confiança no real:
1. Instabilidade política e econômica:
• Anúncios de medidas econômicas inconsistentes pelo governo federal geraram incerteza nos mercados.
• Conflitos políticos e falta de coesão entre os poderes dificultaram a implementação de reformas estruturais cruciais para o equilíbrio fiscal.
2. Política fiscal expansionista:
• A continuidade de altos gastos públicos ao longo de 2024, sem uma compensação equivalente em receitas ou cortes, aumentou as preocupações com a sustentabilidade da dívida pública.
• O crescimento da relação dívida/PIB acentuou a percepção de risco soberano.
3. Atraso na resposta monetária:
• O Banco Central hesitou em aumentar os juros, buscando estimular o crescimento. Entretanto, essa demora foi vista como leniente diante da escalada inflacionária, prejudicando ainda mais a atratividade do real.
4. Deterioração da balança comercial:
• Um recuo marginal nas exportações brasileiras combinado ao aumento expressivo nas importações agravou o déficit da conta corrente, pressionando ainda mais a moeda nacional.

Impactos Econômicos da Desvalorização
A desvalorização acentuada do real trouxe consequências importantes para a economia:
• Inflação de custos: O aumento no preço dos bens importados encareceu insumos e produtos finais, elevando os índices de inflação.
• Erosão do poder de compra: A alta nos preços impactou negativamente o consumo das famílias, diminuindo a demanda agregada interna.
• Dificuldade de captação externa: Empresas brasileiras enfrentaram maior dificuldade e custos elevados para acessar financiamento no exterior.
Embora tenha beneficiado setores exportadores ao tornar seus produtos mais competitivos internacionalmente, o saldo líquido para a economia foi negativo, sobretudo para indústrias que dependem de insumos importados.
Perspectivas para 2025: O Que Esperar?
A continuidade da desvalorização dependerá de três fatores cruciais:
1. Política fiscal: Um ajuste rigoroso é imperativo para restaurar a confiança do mercado, controlar a dívida e reverter o risco fiscal.
2. Condução monetária: O Banco Central deve assumir uma postura mais proativa para ancorar expectativas inflacionárias e conter a volatilidade cambial.
3. Cenário externo: Se os juros americanos começarem a ceder, com o Fed sinalizando uma inflexão monetária, o real poderá encontrar espaço para recuperação, desde que acompanhado de estabilidade interna.
A desvalorização do real em 2024 expôs fragilidades estruturais da economia brasileira que exigem atenção urgente. A combinação de políticas econômicas inconsistentes, instabilidade política e desafios globais reforçou a aversão ao risco no país. Para reverter a trajetória de fragilização da moeda e restabelecer a confiança dos investidores, será essencial que o Brasil adote medidas fiscais e monetárias coordenadas que priorizem o equilíbrio macroeconômico e a previsibilidade regulatória. Caso contrário, o país corre o risco de prolongar os impactos negativos dessa dinâmica em 2025.
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