Artigo
26/11/2025

A Virada do Jogo Global: Regulação de Criptoativos no Brasil, Maturidade e Prazos Finais

Explica as novas resoluções do Banco Central para criptoativos, com foco em governança, PLD/CFT e prazos de autorização até novembro de 2026.

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O Banco Central do Brasil (BCB) formalizou um novo e rigoroso arcabouço para o mercado de ativos virtuais (Lei nº 14.478/22) através das Resoluções BCB nº 519, 520 e 521. Com entrada em vigor em 2 de fevereiro de 2026, o Brasil se alinha aos padrões internacionais, criando um ecossistema que exige adaptação, mas que gera grandes oportunidades para o mercado que se dispuser a operar com segurança e transparência diante da velocidade da inovação.

O panorama regulatório atual é fruto de diversas Consultas Públicas, cujo grande desafio foi encontrar o equilíbrio ideal entre tecnologia e segurança no Sistema Financeiro Nacional (SFN).

Em suma, a regulação concentra-se em três pilares principais: regulamentar a prestação de serviços de ativos virtuais, definir o processo de autorização para tais serviços, e enquadrar os ativos no mercado de câmbio e em capitais internacionais.

GAFI, MICA e a Adesão Completa aos Padrões Globais

A estrutura das normas brasileiras reflete uma clara convergência com as diretrizes globais, baseada nas Recomendações do GAFI (FATF) e em iniciativas como a MICA (Norma de Mercado de Criptoativos da União Europeia).

O BCB garante a Maturidade de PLD e Governança ao exigir:

  • Adesão Completa às Recomendações 15 e 16 do GAFI: A Recomendação 15 impõe uma abordagem baseada em risco para novas tecnologias. Já a Recomendação 16 (Travel Rule) — que exige a transferência de informações do originador e do beneficiário nas transações de ativos virtuais — está diretamente relacionada à exigência de identificação obrigatória do proprietário nas remessas para autocustódia (self-custody).

  • Controles de Integridade de Mercado: As novas regras preveem dispositivos contra práticas abusivas e manipulação de preços, visando proteger o investidor e a integridade geral do SFN, evitando os problemas de uso indevido de recursos observados recentemente em outros setores regulados (como certas fintechs).

Na Visão do Banco Central: Segurança e Proteção ao Cliente

Para o BCB, esta regulamentação gera mais segurança para quem investe e transaciona com criptoativos. O foco está na proteção ao cliente, exigindo que as PSAVs:

  • Informem os riscos das operações e as taxas de forma transparente.

  • Implementem políticas robustas de segurança e PLD/CFT compatíveis com o padrão de uma casa de câmbio.

  • Realizem a devida avaliação de risco de cada cliente (suitability) para operações mais complexas.

O Caminho para a Autorização: Prazos Finais e Capital

Para operar no Brasil, as exchanges devem obter a autorização formal do Banco Central, constituir uma entidade no Brasil e transferir sua clientela local. Empresas com serviços integrados (como cartão de crédito ou conta global com stablecoins) também devem se regulamentar no país.

A exigência de capital mínimo diminui a quantidade de atores, mas garante que os participantes tenham recursos para investir em PLD e segurança, equilibrando tecnologia com governança.

As empresas atualmente em operação terão um prazo de nove meses, a partir da entrada em vigor da norma (fevereiro de 2026), para obter a devida regulação:

  • Prazo Final (Novembro de 2026): Caso as empresas não obtenham a autorização, terão 30 dias subsequentes para apresentar os requisitos de encerramento ordenado previstos na norma ou cessar suas atividades.

Classificação Cambial e Cronograma de Sensibilização de Dados

As transações com ativos virtuais serão consideradas operações cambiais com governança esperada em sua totalidade. O cronograma de sensibilização (coleta e envio de dados) está faseado:

  • Fevereiro de 2026: Início da sensibilização dos dados para Capital Brasileiro no Exterior.

  • Maio de 2026: Início da sensibilização para os demais tipos de capital.

Resumo das Resoluções do BCB

1. Resolução BCB nº 519: Governança, PLD e Proteção ao Cliente

Esta é a espinha dorsal do compliance, disciplinando a prestação de serviços de ativos virtuais. Seu foco é garantir a maturidade da governança e a adesão total aos padrões de segurança do SFN e do GAFI. A resolução impõe requisitos rigorosos de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD/CFT), exigindo que as entidades implementem sistemas robustos de KYC e monitoramento. Além disso, introduz controles contra práticas abusivas e manipulação de preços, e exige que as PSAVs protejam o cliente, informando os riscos de forma clara e realizando a devida avaliação de risco (suitability) antes de operações complexas.

2. Resolução BCB nº 520: Autorização e Funcionamento

Esta resolução estabelece os critérios e procedimentos para que as empresas obtenham a autorização para prestar serviços de ativos virtuais. Ela cria a figura da SPSAV e define os requisitos operacionais para o funcionamento dessas entidades. É esta norma que exige que as empresas internacionais se constituam no Brasil e obtenham a licença do BCB para atuar, definindo o prazo final de nove meses (até novembro de 2026) para que as empresas já atuantes se adaptem ou encerrem suas operações.

3. Resolução BCB nº 521: Câmbio, Rastreabilidade e Capitais Internacionais

Esta resolução enquadra formalmente certas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio e capitais internacionais, estabelecendo a governança esperada para tais transações. O ponto mais técnico é a exigência de rastreabilidade, que se manifesta na obrigatoriedade de identificar o proprietário nas transferências para carteiras de autocustódia (self-custody), garantindo a adesão à Travel Rule (Recomendação 16 do GAFI). A norma também dita o cronograma para a sensibilização dos dados cambiais.

Em suma, o panorama consiste em regular a prestação de serviços de ativos virtuais, a autorização para prestá-los, e a forma como esses ativos se inserem no mercado de câmbio e em capitais internacionais.

Uma Nota sobre a Tributação

É importante ressaltar que, enquanto o BCB regula as operações e a entidade, a definição de como será feita a tributação sobre os ativos virtuais (Imposto de Renda, etc.) é de competência exclusiva da Receita Federal do Brasil (RFB), que deverá normatizar a matéria separadamente.

Conclusão: O Desafio da Maturidade e o Novo Cenário de Oportunidades no Brasil

Ao analisar o conjunto das Resoluções (BCB nº 519, 520 e 521), fica evidente que o regulador brasileiro foi extremamente feliz em trazer a governança, o compliance e a PLD como pontos-chave das novas regras. Esta abordagem não é um mero capricho regulatório; é um reflexo do rigor já consolidado em outros setores cruciais do SFN.

Os mecanismos de controle e supervisão exigidos para as SPSAVs são espelhos aprimorados dos modelos de segurança já aplicados em mercados de alta complexidade, como meios de pagamento, câmbio, investimentos e, naturalmente, o sistema bancário clássico. Ao exigir capital mínimo, rastreabilidade (via Travel Rule) e suitability, o BCB equaliza o mercado, garantindo a proteção e a integridade do ecossistema como um todo.

O Brasil se posiciona, portanto, como um dos países com o marco regulatório mais maduro e seguro para ativos virtuais. Contudo, essa evolução exige uma introspecção imediata:

As empresas atuantes e as que pretendem ingressar no mercado brasileiro possuem a maturidade desejada em compliance e PLD, que são essenciais para operar sob as novas regras?

A obtenção da licença do BCB e o cumprimento do rigoroso prazo de adaptação demandam mais do que apenas a constituição de uma entidade local; exigem a construção de uma cultura de governança e controles compatível com o SFN.

Se sua empresa busca garantir a construção segura e estratégica desta frente de negócios, seguindo os parâmetros e boas práticas exigidas pelo BCB e adquiridas no conhecimento aprofundado dos reguladores nacionais e dos produtos financeiros, eu posso auxiliar na estruturação e na validação deste caminho para a conformidade.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é a Lei nº 14.478/22 e qual é seu objetivo no Brasil?
A Lei nº 14.478/22 institui o marco regulatório para o mercado de ativos virtuais no Brasil. Seu objetivo é alinhar o país aos padrões internacionais de segurança e transparência, estabelecendo regras claras para a prestação de serviços, para o processo de autorização de empresas do setor e para o enquadramento dos criptoativos nos mercados de câmbio e capitais internacionais.
Quais são os três pilares da nova regulação brasileira de ativos virtuais?
A estrutura regulatória foi construída sobre três pilares centrais:1) Prestação de serviços de ativos virtuais (PSAVs).
2) Processo de autorização e requisitos de funcionamento das empresas.
3) Enquadramento cambial e de capitais internacionais das operações com criptoativos.
Quais resoluções do Banco Central do Brasil compõem o novo arcabouço de ativos virtuais?
O arcabouço é formado pelas Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, publicadas com base na Lei nº 14.478/22.
Quando as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521 entram em vigor e qual o prazo de adaptação para empresas já operantes?
As resoluções tornam-se efetivas em 2 de fevereiro de 2026. As empresas que já atuam no mercado terão nove meses, até novembro de 2026, para obter a autorização do Banco Central; após esse prazo, contam com 30 dias para apresentar plano de encerramento ou cessar atividades se não estiverem regulares.
O que são PSAVs e quais obrigações principais elas possuem?
PSAVs (Provedores de Serviços de Ativos Virtuais) são entidades que intermediam, custodiam ou realizam operações com criptoativos. Devem:• Informar de forma transparente riscos e taxas aos clientes.
• Implementar políticas robustas de segurança e PLD/CFT (Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo).
• Realizar avaliação de risco de cada cliente (suitability) para operações complexas.
Qual é o foco da Resolução BCB nº 519, publicada em 2025?
A Resolução BCB nº 519 estabelece a governança, os requisitos de PLD/CFT, a proteção ao cliente e os controles de integridade de mercado para a prestação de serviços de ativos virtuais. Ela exige sistemas de KYC, monitoramento de transações, prevenção a práticas abusivas e comunicação transparente dos riscos aos investidores.
Qual é a finalidade da Resolução BCB nº 520 no contexto dos ativos virtuais?
A Resolução BCB nº 520 disciplina o processo de autorização e o funcionamento das empresas que desejam atuar como SPSAVs (Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais). Ela determina que exchanges internacionais constituam entidade no Brasil, cumpram requisitos operacionais e obtenham licença do Banco Central, com prazo de adequação até novembro de 2026.
O que trata a Resolução BCB nº 521 sobre câmbio e criptoativos?
A Resolução BCB nº 521 enquadra determinadas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio e de capitais internacionais, impondo rastreabilidade (inclusive identificação do proprietário em transferências para self-custody) e definindo o cronograma de sensibilização dos dados cambiais a partir de fevereiro de 2026.
Qual é o papel das Recomendações 15 e 16 do GAFI na nova regulação brasileira?
Recomendação 15 exige abordagem baseada em risco para novas tecnologias, enquanto a Recomendação 16 (Travel Rule) determina a transmissão de dados do originador e do beneficiário em transações com ativos virtuais. As Resoluções do BCB incorporam integralmente essas recomendações, inclusive obrigando a identificação do proprietário em remessas para carteiras de autocustódia.
O que é a "Travel Rule" aplicada aos ativos virtuais?
A Travel Rule, correspondente à Recomendação 16 do GAFI, obriga que as informações sobre o originador e o beneficiário acompanhem as transações de ativos virtuais. No Brasil, isso se traduz na obrigatoriedade de identificar o proprietário nas transferências para carteiras de autocustódia, garantindo rastreabilidade e prevenção à lavagem de dinheiro.
Por que o Banco Central impõe exigência de capital mínimo às empresas de ativos virtuais?
A exigência de capital mínimo visa reduzir o número de participantes sem estrutura adequada e assegurar que as empresas disponham de recursos para investir em segurança, PLD/CFT e governança, criando um ambiente de mercado mais robusto e confiável.
Como as operações com ativos virtuais são tratadas no mercado de câmbio brasileiro?
As transações com criptoativos passam a ser classificadas como operações cambiais, sujeitas à governança completa prevista para o mercado de câmbio e capitais internacionais, incluindo coleta e envio de dados em cronograma que se inicia em fevereiro de 2026.
Quem é responsável por definir a tributação de ativos virtuais no Brasil?
A competência para regulamentar a tributação de criptoativos, como Imposto de Renda, é exclusiva da Receita Federal do Brasil (RFB). O Banco Central cuida apenas da regulação das operações e das entidades.
O que significa "suitability" no contexto dos serviços de ativos virtuais?
Suitability é a prática de realizar uma avaliação de risco do cliente antes de permitir operações mais complexas com criptoativos, garantindo que o perfil, os objetivos e a tolerância a risco do investidor sejam compatíveis com o produto ou serviço oferecido.
O que é o cronograma de "sensibilização dos dados" previsto pela Resolução BCB nº 521?
A sensibilização refere-se ao processo de coleta e envio de informações de operações cambiais relacionadas a ativos virtuais. Está dividido em fases: em fevereiro de 2026 começa para o Capital Brasileiro no Exterior e, em maio de 2026, para os demais tipos de capital.

Autor

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Alison Dorigão Palermo

Diretor de Compliance | AML | KYC | Fintech | Apostas & Crypto | +18 anos em Risco Reg., ESG e GRC | Ex-Nuvei | Consultor | Professor | Autor | Palestrante | Top Voice em Compliance