Segundo notícia de hoje publicada no jornal Valor Econômico as empresas brasileiras vêm intensificando suas captações no mercado internacional em 2025, aproveitando um cenário de elevada liquidez global e forte demanda dos investidores por papéis de emissores de mercados emergentes. Entre janeiro e junho, o volume captado por companhias nacionais já ultrapassa US$ 20 bilhões, e projeções de bancos de investimento apontam que esse número pode chegar a até US$ 35 bilhões até o final do ano. Essa retomada expressiva do apetite por dívida externa reflete tanto o interesse das empresas em alongar passivos quanto à disposição dos investidores em buscar maior rentabilidade diante de um cenário internacional com juros mais calmos. Operações representativas, como a emissão de títulos da JBS em três tranches incluindo um inédito prazo de 40 anos, ilustram a robustez do mercado de capitais global. Outros nomes como Raízen, FS Bio, Sabesp, Prio e Caixa Econômica Federal também marcaram presença ou estão se preparando para acessar o mercado externo.
Contudo, esse avanço na captação em dólar levanta uma questão crítica para a gestão financeira das empresas brasileiras: como lidar com o risco cambial quando a moeda funcional é o real?
A Disparidade entre Dívida em Dólar e Moeda Funcional em Real
A maioria das companhias brasileiras, inclusive todas as empresas mencionadas na matéria citada anteriormente, possuem o real como moeda funcional, ou seja, a moeda principal de e entradas e saídas de fluxos de caixa. Quando essas empresas emitem dívida em moeda estrangeira, como o dólar, criam-se exposições cambiais. A variação da taxa de câmbio entre o real e o dólar impacta diretamente o custo efetivo da dívida e, consequentemente, o resultado financeiro e custo de capital.
Assim, à medida que a captação externa se intensifica, é razoável esperar também um aumento (que pode ser proporcional ou não) na demanda por operações de hedge cambial, a depender do apetita ao risco das empresas. Essas operações, como swaps cambiais e contratos a termo (NDFs), permitem que as empresas substituam a dívida em dólar para uma dívida em reais, protegendo-se contra variações adversas no câmbio. Isso se torna essencial não apenas para garantir previsibilidade no fluxo de caixa e do custo de capital com terceiros, mas também para manter a gestão financeira diante de oscilações que, por vezes, fogem ao controle das companhias.
Podemos observar que muitas empresas têm adotado o mercado externo com foco em estruturação de dívida de longo prazo. Nesse processo, o hedge cambial se torna peça central na estratégia de risco.
Hedge Accounting: Proteção Econômica com Reflexo Contábil
Embora o hedge cambial proteja economicamente as empresas contra a volatilidade do câmbio, seus efeitos financeiros podem não ser corretamente refletidos nos relatórios financeiros (demonstrações financeiras). Isso acontece porque, de acordo com as normas contábeis vigentes, como o CPC 48 no Brasil, alinhado ao IFRS 9, instrumentos derivativos, como swaps ou NDFs, são registrados por sua “marcação a mercado”, ou seja, pelo seu valor justo com alterações no resultado ao fim de cada período.
Se a empresa não adota hedge accounting, essa variação de valor dos instrumentos de hedge aparece isoladamente no resultado contábil, enquanto a dívida em moeda estrangeira pode ser registrada em outra base, geralmente a custo amortizado (também conhecido por accrual ou curva do papel). Isso pode gerar uma percepção distorcida do resultado financeiro e custo de capital com terceiros, com lucros ou prejuízos contábeis que não correspondem à realidade econômica da operação protegida.
Por outro lado, ao adotar o hedge accounting de forma adequada, a empresa pode alinhar o reconhecimento contábil do hedge financeiro com o item protegido (como a dívida em dólar). Isso permite que os efeitos da variação cambial da dívida e os ajustes do derivativo sejam registrados simultaneamente, refletindo de forma coerente o impacto líquido da operação. O resultado é um balanço mais transparente, com menor volatilidade contábil e mais fidedigno ao desempenho econômico real da empresa.
Conclusão
O atual ciclo de captação no exterior representa uma oportunidade valiosa para empresas brasileiras acessarem recursos em condições atrativas. No entanto, essa oportunidade vem acompanhada de desafios, especialmente para empresas cuja moeda funcional é o real, enquanto a dívida é contratada em dólar ou outra moeda estrangeira.
Nesse contexto, o hedge cambial surge como ferramenta essencial para neutralizar os efeitos da oscilação cambial sobre o fluxo de caixa. Mas é o hedge accounting que assegura que essa proteção seja devidamente refletida nos demonstrativos financeiros. Sem ele, o custo real da captação pode ser distorcido no balanço, gerando interpretações equivocadas por parte de analistas, investidores e credores.
Em um ambiente com diversas operações complexas e exigência do mercado, adotar ambas as práticas, hedge econômico e hedge contábil não é apenas prudente: é uma demonstração de governança, competitividade, transparência e gestão financeira estruturada.
Fonte:
Valor Econômico. (3 de julho de 2025). Empresas aceleram captação no exterior apesar de volatilidade. Recuperado de https://valor.globo.com/financas/noticia/2025/07/03/empresas-aceleram-captacao-no-exterior-apesar-de-volatilidade.ghtml