Artigo
06/07/2025

Captação em moeda estrangeira: O papel do hedge e da contabilidade de hedge no novo ciclo de emissões Externas

Analisa o uso de hedge cambial e hedge accounting na captação internacional de empresas brasileiras.

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Segundo notícia de hoje publicada no jornal Valor Econômico as empresas brasileiras vêm intensificando suas captações no mercado internacional em 2025, aproveitando um cenário de elevada liquidez global e forte demanda dos investidores por papéis de emissores de mercados emergentes. Entre janeiro e junho, o volume captado por companhias nacionais já ultrapassa US$ 20 bilhões, e projeções de bancos de investimento apontam que esse número pode chegar a até US$ 35 bilhões até o final do ano. Essa retomada expressiva do apetite por dívida externa reflete tanto o interesse das empresas em alongar passivos quanto à disposição dos investidores em buscar maior rentabilidade diante de um cenário internacional com juros mais calmos. Operações representativas, como a emissão de títulos da JBS em três tranches incluindo um inédito prazo de 40 anos, ilustram a robustez do mercado de capitais global. Outros nomes como Raízen, FS Bio, Sabesp, Prio e Caixa Econômica Federal também marcaram presença ou estão se preparando para acessar o mercado externo.

Contudo, esse avanço na captação em dólar levanta uma questão crítica para a gestão financeira das empresas brasileiras: como lidar com o risco cambial quando a moeda funcional é o real?

A Disparidade entre Dívida em Dólar e Moeda Funcional em Real

A maioria das companhias brasileiras, inclusive todas as empresas mencionadas na matéria citada anteriormente, possuem o real como moeda funcional, ou seja, a moeda principal de e entradas e saídas de fluxos de caixa. Quando essas empresas emitem dívida em moeda estrangeira, como o dólar, criam-se exposições cambiais. A variação da taxa de câmbio entre o real e o dólar impacta diretamente o custo efetivo da dívida e, consequentemente, o resultado financeiro e custo de capital.

Assim, à medida que a captação externa se intensifica, é razoável esperar também um aumento (que pode ser proporcional ou não) na demanda por operações de hedge cambial, a depender do apetita ao risco das empresas. Essas operações, como swaps cambiais e contratos a termo (NDFs), permitem que as empresas substituam a dívida em dólar para uma dívida em reais, protegendo-se contra variações adversas no câmbio. Isso se torna essencial não apenas para garantir previsibilidade no fluxo de caixa e do custo de capital com terceiros, mas também para manter a gestão financeira diante de oscilações que, por vezes, fogem ao controle das companhias.

Podemos observar que muitas empresas têm adotado o mercado externo com foco em estruturação de dívida de longo prazo. Nesse processo, o hedge cambial se torna peça central na estratégia de risco.

Hedge Accounting: Proteção Econômica com Reflexo Contábil

Embora o hedge cambial proteja economicamente as empresas contra a volatilidade do câmbio, seus efeitos financeiros podem não ser corretamente refletidos nos relatórios financeiros (demonstrações financeiras). Isso acontece porque, de acordo com as normas contábeis vigentes, como o CPC 48 no Brasil, alinhado ao IFRS 9, instrumentos derivativos, como swaps ou NDFs, são registrados por sua “marcação a mercado”, ou seja, pelo seu valor justo com alterações no resultado ao fim de cada período.

Se a empresa não adota hedge accounting, essa variação de valor dos instrumentos de hedge aparece isoladamente no resultado contábil, enquanto a dívida em moeda estrangeira pode ser registrada em outra base, geralmente a custo amortizado (também conhecido por accrual ou curva do papel). Isso pode gerar uma percepção distorcida do resultado financeiro e custo de capital com terceiros, com lucros ou prejuízos contábeis que não correspondem à realidade econômica da operação protegida.

Por outro lado, ao adotar o hedge accounting de forma adequada, a empresa pode alinhar o reconhecimento contábil do hedge financeiro com o item protegido (como a dívida em dólar). Isso permite que os efeitos da variação cambial da dívida e os ajustes do derivativo sejam registrados simultaneamente, refletindo de forma coerente o impacto líquido da operação. O resultado é um balanço mais transparente, com menor volatilidade contábil e mais fidedigno ao desempenho econômico real da empresa.

Conclusão

O atual ciclo de captação no exterior representa uma oportunidade valiosa para empresas brasileiras acessarem recursos em condições atrativas. No entanto, essa oportunidade vem acompanhada de desafios, especialmente para empresas cuja moeda funcional é o real, enquanto a dívida é contratada em dólar ou outra moeda estrangeira.

Nesse contexto, o hedge cambial surge como ferramenta essencial para neutralizar os efeitos da oscilação cambial sobre o fluxo de caixa. Mas é o hedge accounting que assegura que essa proteção seja devidamente refletida nos demonstrativos financeiros. Sem ele, o custo real da captação pode ser distorcido no balanço, gerando interpretações equivocadas por parte de analistas, investidores e credores.

Em um ambiente com diversas operações complexas e exigência do mercado, adotar ambas as práticas, hedge econômico e hedge contábil não é apenas prudente: é uma demonstração de governança, competitividade, transparência e gestão financeira estruturada.

Fonte:

Valor Econômico. (3 de julho de 2025). Empresas aceleram captação no exterior apesar de volatilidade. Recuperado de https://valor.globo.com/financas/noticia/2025/07/03/empresas-aceleram-captacao-no-exterior-apesar-de-volatilidade.ghtml

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Perguntas e respostas

O que é moeda funcional?
A moeda funcional é a principal moeda utilizada nas entradas e saídas do fluxo de caixa de uma empresa. Para a maioria das companhias brasileiras, a moeda funcional é o real.
O que é o risco cambial para uma empresa que capta recursos em dólar?
O risco cambial surge quando uma empresa, cuja moeda funcional é o real, emite dívida em uma moeda estrangeira, como o dólar. A variação da taxa de câmbio entre o real e o dólar impacta diretamente o custo efetivo dessa dívida.Essa flutuação afeta o resultado financeiro da companhia e seu custo de capital com terceiros, introduzindo uma incerteza que, por vezes, foge ao controle da gestão.
O que é hedge cambial e qual sua finalidade?
O hedge cambial é uma estratégia de proteção contra o risco de variações na taxa de câmbio. Ele é realizado por meio de operações financeiras, como swaps cambiais e contratos a termo (NDFs - Non-Deliverable Forwards).A principal finalidade do hedge cambial é permitir que as empresas substituam uma dívida em moeda estrangeira, como o dólar, por uma dívida em moeda local, como o real. Isso protege a empresa contra oscilações desfavoráveis no câmbio, garantindo maior previsibilidade para o fluxo de caixa e o custo de capital.
O que é hedge accounting e por que é importante?
Hedge accounting é uma prática contábil específica que permite alinhar o registro de um instrumento de hedge (como um swap) com o item que ele protege (como uma dívida em dólar). Sua importância reside em garantir que a proteção econômica obtida com o hedge seja refletida de forma fidedigna nas demonstrações financeiras.Ao adotar o hedge accounting, os efeitos da variação cambial sobre a dívida e os ajustes do instrumento derivativo são reconhecidos simultaneamente no resultado. Isso evita distorções, resultando em um balanço mais transparente, com menor volatilidade contábil e que representa melhor o desempenho econômico real da empresa.
Como um instrumento de hedge é registrado na contabilidade sem a aplicação do hedge accounting?
Sem a aplicação do hedge accounting, os instrumentos derivativos utilizados para proteção, como swaps ou NDFs, são registrados pelo seu valor justo, um processo conhecido como “marcação a mercado”, conforme normas como o CPC 48 e o IFRS 9. As variações desse valor são lançadas diretamente no resultado da empresa ao final de cada período contábil.Enquanto isso, a dívida em moeda estrangeira que está sendo protegida pode ser registrada por outra base, como o custo amortizado (também conhecido por accrual ou curva do papel). Esse descasamento no tratamento contábil pode gerar uma percepção distorcida do resultado financeiro e do custo de capital, com lucros ou prejuízos que não correspondem à realidade econômica da operação protegida.
Qual a diferença entre hedge econômico e hedge contábil?
O hedge econômico, ou hedge cambial, refere-se à operação financeira em si, realizada para proteger a empresa economicamente contra a volatilidade do câmbio e neutralizar os efeitos das oscilações sobre seu fluxo de caixa.Já o hedge contábil (hedge accounting) é a prática contábil que assegura que essa proteção econômica seja adequadamente refletida nos demonstrativos financeiros, alinhando o reconhecimento do instrumento de hedge com o do item protegido para evitar distorções no balanço. A adoção de ambas as práticas demonstra governança, transparência e gestão financeira estruturada.
Por que empresas brasileiras intensificaram a captação de recursos no exterior em 2025?
Em 2025, empresas brasileiras intensificaram a captação de recursos no mercado internacional para aproveitar um cenário de elevada liquidez global e uma forte demanda de investidores por papéis de emissores de mercados emergentes.De acordo com uma notícia publicada no jornal Valor Econômico em 3 de julho de 2025, os principais motivos para essa movimentação são o interesse das companhias em alongar o perfil de suas dívidas e a disposição dos investidores em buscar maior rentabilidade em um contexto de juros internacionais mais calmos.

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