Estava lendo outro dia um interessante artigo escrito pela Pilita Clark, que é colunista do Financial Times, sobre o que poderíamos chamar de hipocrisia, onde ela contava um caso de um grande e tradicional banco americano, que demitiu um funcionário por motivos éticos no pedido de reembolso de pequenas despesas de viagem, enquanto estava sendo processado e pagando multa de bilhões por falta de ética e compliance dele mesmo.
O caso que levantou esta polêmica toda foi a demissão de um funcionário por reembolsar despesas de almoço consideradas inadequadas, está dando o que falar na mídia americana. A ação do banco, supostamente para manter a integridade e a ética, foi vista por muitos como hipócrita, dado o histórico do próprio banco em termos de má conduta financeira, que tem enfrentado várias multas e penalidades por comportamentos inadequados que vão desde a manipulação de taxas de câmbio até abuso de mercado e lavagem de dinheiro.
O caso pode ser examinado à luz do compliance, que lida com os problemas que surgem quando as condutas de uma empresa e as de seus agentes (funcionários neste caso) não estão alinhadas. Para assegurar a conformidade, os bancos implementam medidas rigorosas de controle e vigilância, através das suas áreas de compliance. No entanto, esses mecanismos podem falhar em capturar ou prevenir má conduta em escala macro, enquanto penalizam comportamentos de menor gravidade em escala micro.
Isso leva a questões mais amplas sobre a eficácia e a justiça dos sistemas de controle de compliance. Pesquisas, como as da Bayes Business School, têm questionado a eficácia desses sistemas, especialmente quando grandes quantias são gastas em penalidades por má conduta financeira, mas pequenos delitos, como reembolsos de despesas inadequadas, são tratados com rigor excessivo.
Há também uma questão sobre a cultura organizacional e a ética em geral. Este banco em específico, apenas entre 2014 e 2018, incorreu em custos de mais de 13 bilhões de libras por má conduta, de acordo com dados coletados por acadêmicos da Bayes Business School. Esse histórico torna o ato de demitir um empregado por um valor comparativamente menor, tanto em termos financeiros quanto éticos, bastante discutível.
Especificamente no que tange à gestão de riscos, este caso revela os perigos inerentes na aplicação seletiva de medidas disciplinares. Isso pode levar a um risco reputacional significativo, como observado na repercussão pública deste caso. A longo prazo, tal comportamento poderia corroer a moral dos funcionários e afetar negativamente a cultura de conformidade e ética que um banco procura fomentar.
O paradigma de gestão de riscos também entra em jogo. Um dos principais princípios de uma eficaz gestão de riscos é a proporcionalidade. O tratamento rigoroso de delitos menores pode ser visto como um uso desproporcional de recursos e um foco inadequado, especialmente quando há questões mais prementes que exigem atenção, como os grandes riscos sistêmicos e éticos enfrentados pelo setor bancário.
Portanto, enquanto é indiscutível que qualquer forma de má conduta deve ser tratada com seriedade, o setor financeiro também precisa considerar a proporcionalidade em suas ações disciplinares e medidas de gestão de riscos.
A autora do artigo escreve:
"Se uma empresa quer demitir alguém, a maneira mais fácil de fazê-lo é verificar suas despesas."
Complemento dizendo que, muitas vezes, se usa dessas situações para demitir aquela pessoa que não tem mais interesse de tê-la no seu time, independente do motivo verdadeiro, usando como desculpa algum pequeno erro ou comida de bola. Estão apenas esperando a oportunidade para usá-la. Não se pode dar mole algum que alguém quer lhe dar uma bola nas costas.
Infelizmente, não é o único caso deste tipo de dois pesos e duas medidas, onde se cobra uma conduta ilibada de seus funcionários, mas do seu lado não faz a mesma coisa e a sua parte no mesmo padrão de conduta ética. Não se pode falar nada, mesmo que verdades, que lhe é cobrado com rigor, mas pode-se sim do outro lado aceitar contratar os amigos, sem usar os mesmos critérios de compliance e éticos de segregação e conflito de interesse, ou então também ainda não dar a devida transparência nos atos e decisões, desrespeitando a governança corporativa, que está tudo bem. Errado são os outros.
Podem ler o artigo completo em:
https://valor.globo.com/coluna/voce-acha-justo-demitir-por-fraude-no-reembolso.ghtml