Quando falamos sobre o futuro da área fiscal, a Reforma Tributária costuma ser o primeiro assunto que aparece, afinal, entre 2027 e 2033, empresas e profissionais terão pela frente uma transição relevante no modelo de tributação sobre o consumo.
Mas a transformação da IA acontece ao mesmo tempo e merece a mesma atenção. Aqui, não estou falando apenas de usar IA para escrever textos, consultar uma legislação ou resumir documentos.
A transformação de verdade acontece na operação fiscal. Apuração, conciliação, classificação, monitoramento de obrigações, identificação de inconsistências e análise de grandes volumes de dados são atividades que têm características muito favoráveis à automação inteligente.
A Deloitte já trata essa mudança como uma transformação operacional da função tributária.
Em uma pesquisa publicada em 2026, 85% dos respondentes afirmaram esperar impactos positivos de softwares de compliance tributário baseados em IA, principalmente em precisão e custos de conformidade.
Por que isso importa?
O olhar sobre como a IA é utilizada entrou para o centro da mesa, mudando a estrutura operacional do setor fiscal como conhecemos hoje.
Pense em uma rotina de conciliação. Hoje, dependendo da estrutura da empresa, profissionais podem gastar horas comparando informações, procurando divergências, identificando exceções e tentando entender por que dois sistemas apresentam resultados diferentes.
Uma IA bem estruturada pode assumir uma parte significativa desse trabalho, cruzando grandes volumes de dados, identificando padrões fora do comportamento esperado, apontando inconsistências e direcionando a equipe para aquilo que realmente precisa de análise.
O mesmo vale para a área de compliance. Em vez de descobrir uma inconsistência quando a obrigação está prestes a ser transmitida, imagine receber um alerta enquanto o problema ainda pode ser corrigido.
Esse é um dos movimentos mais interessantes da IA aplicada ao fiscal: sair de uma lógica de detecção posterior para uma lógica de monitoramento contínuo.
Quando uma operação começa a questionar o que está saindo do padrão e precisa de máxima atenção, o processo se torna inteligente.
Porém, há um limite que não podemos ignorar e que já é esperado na conversa sobre automação sofisticada, como no caso da IA, e se trata da transferência completa da responsabilidade fiscal, incluindo decisões, para a máquina.
Em pesquisa da Deloitte, 77% dos líderes tributários disseram exigir pelo menos 90% de precisão antes de confiar à IA processos fiscais. O dado mostra o tamanho da barreira: em Tax, uma resposta plausível não é suficiente. A confiança sobre essa resposta, sim.
E confiança não vem apenas do algoritmo; vem da qualidade dos dados, da governança, da rastreabilidade e, principalmente, da capacidade de um profissional avaliar se aquele resultado faz sentido diante da legislação e da realidade da empresa.
Uma IA pode apontar uma inconsistência, mas quem precisa entender se aquela inconsistência representa um erro de cadastro, uma particularidade da operação, uma mudança regulatória ou uma exceção legítima é o profissional.
A máquina encontra o padrão e o especialista interpreta o contexto. Essa combinação será cada vez mais valiosa, exigindo das pessoas um repertório qualificado e em constante movimento de expansão.
Por isso, a principal mudança entre 2027 e 2033 será profissional, com o conhecimento tributário continuando indispensável e novas competências surgindo.
A primeira delas é a leitura e a qualidade de dados. Não adianta implementar uma solução sofisticada se os dados de origem são inconsistentes, incompletos ou fragmentados.
A segunda é capacidade de validar e questionar outputs de IA. O profissional não poderá apenas perguntar à ferramenta e aceitar a resposta. Precisará saber formular boas perguntas, reconhecer limitações, confrontar informações e aplicar julgamento técnico.
E a terceira é visão de negócio e aqui existe uma oportunidade enorme para a área fiscal, pois poucas áreas dentro de uma empresa têm contato tão amplo com a operação.
O fiscal conversa com financeiro, contabilidade, compras, vendas, logística, tecnologia e planejamento. Tem acesso a informações que ajudam a entender custos, preços, margens, fluxos e impactos tributários. Com a IA cuidando cada vez mais de parte do trabalho operacional, essa visão 360 pode deixar de ser um conhecimento disperso e passar a ser uma fonte efetiva de inteligência para o negócio.
A próxima grande onda não é a substituição, e sim a reorganização do trabalho
A própria Deloitte já aponta a evolução da IA generativa e, mais recentemente, da chamada IA agêntica na função tributária. O foco começa a avançar da simples automação de tarefas para sistemas capazes de apoiar fluxos de trabalho, identificar problemas, melhorar a qualidade dos dados e liberar profissionais para atividades de maior valor.
Isso significa que a área fiscal pode passar por uma mudança de distribuição de tempo.
Serão menos horas conferindo, conciliando e procurando informações, abrindo espaço para análises, simulações de cenário e discussões sobre impactos em outras áreas, aumentando a participação nas decisões do negócio.
É uma mudança importante porque transforma a tecnologia em algo maior do que uma ferramenta de produtividade. Ela pode ajudar a reposicionar a própria área fiscal dentro da empresa.
Isso, claro, só acontece com o básico bem feito: dados confiáveis, processos estruturados, integração entre sistemas, governança e profissionais capazes de interpretar aquilo que a IA produz.
Quem começar a desenvolver conhecimento em dados, automação, IA e análise de negócio hoje, em 2026, chegará à transição final em 2033 com uma vantagem importante: sem disputa por espaço com a tecnologia.
Documento acessado em okai.com.br.