Estava lendo um material bem legal sobre governança da gestão de riscos que a Deloitte fez sobre os desafios complexos e interconectados que exigem das empresas repensar suas práticas tradicionais de governança e gerenciamento de riscos, que segundo eles, e que concordo, o aumento dos ataques cibernéticos, de eventos climáticos severos e mudanças político-sociais são indicativos de que o mundo está se tornando cada vez mais incerto e volátil, somado a isto para complicar uma rápida digitalização dos modelos de negócios, processos, relações, transações e moedas, uso generalizado de alianças e parcerias, regimes regulatórios evolutivos e descoordenados, forças sociais em mudança e pressões econômicas persistentes.
No material eles elegem alguns temas de atenção:
Digitalização Ongoing:
A digitalização contínua transforma radicalmente como as empresas operam e interagem com clientes, parceiros e até mesmo concorrentes. A transformação digital acelera a troca de informações, mas também aumenta a superfície de ataque para riscos cibernéticos e exige novas abordagens para proteger dados e infraestrutura crítica. As organizações devem adaptar suas estratégias de gestão de riscos para abordar riscos associados à segurança cibernética, privacidade de dados e dependência de sistemas digitais.
Alianças e Parcerias:
O uso generalizado de alianças e parcerias expande as capacidades das empresas e permite o acesso a novos mercados, mas também complica a gestão de riscos ao estender a cadeia de valor para além das fronteiras tradicionais da empresa. Riscos associados a terceiros e à integridade da cadeia de suprimentos tornam-se críticos e exigem monitoramento e gerenciamento contínuos.
Regimes Regulatórios Evolutivos:
Em um ambiente de negócios globalizado, as organizações enfrentam uma paisagem regulatória que é muitas vezes fragmentada e em constante evolução. Isso impõe a necessidade de uma vigilância regulatória constante e de uma adaptabilidade para cumprir com diferentes regulamentos em vários países, ao mesmo tempo que se antecipa a futuras mudanças regulatórias que possam impactar a operação.
Forças Sociais em Mudança:
Clientes mais conscientes ambientalmente e investidores ativistas estão moldando o mercado de maneiras que podem rapidamente alterar o panorama de riscos para as empresas. Questões como sustentabilidade e responsabilidade social corporativa tornaram-se centrais, exigindo das empresas não apenas conformidade, mas também liderança e inovação em práticas de negócios sustentáveis.
Incerteza Econômica e Pressões Competitivas
A incerteza econômica exacerbada pela pandemia e suas repercussões continuadas coloca pressão adicional sobre os orçamentos e o quadro de funcionários, aumentando as pressões competitivas, assim as empresas precisam de uma gestão de riscos que não apenas proteja ativos, mas também facilite a tomada de decisão baseada em riscos para a criação de valor.
Por isto que os executivos e conselhos precisam melhorar seu controle sobre a governança de risco, pois esta governança ótima de risco aumenta o desempenho ao permitir uma tomada de decisão baseada em risco, que equilibra a criação de valor com a proteção de ativos, ajudando os executivos e o conselho a cumprir suas responsabilidades relacionadas ao risco, clarificando os riscos para a empresa e obtendo a garantia de que esses riscos foram abordados. Além disso, constrói confiança ao proporcionar visibilidade sobre os riscos e garantia aos stakeholders de que eles estão sendo gerenciados eficazmente.
Portanto, é fundamental que as empresa não apenas respondam aos riscos conhecidos, mas também se preparem para identificar e mitigar riscos emergentes, garantindo uma resiliência a longo prazo e a capacidade de aproveitar as oportunidades em um mundo em rápida mudança.
Um ponto bem interessante de comentar é sobre a confusão entre Gestão de Risco e Conformidade Regulatória, pois muitas empresas cometem o erro de igualar gestão de risco unicamente à conformidade regulatória. Mas o problema aí é que normalmente os reguladores se concentram principalmente em riscos conhecidos e nas necessidades específicas de conformidade, não nos riscos desconhecidos que podem ser críticos para a empresa, por isto que muito bem colocado, importante automatizar a conformidade regulatória de riscos tanto quanto possível, liberando assim o time de especialistas para se concentrarem em riscos emergentes e estratégicos que impactam diretamente a operação e os objetivos da empresa.
Outro ponto é sobre o foco na mitigação de Riscos, que seria com razão uma visão excessivamente conservadora sobre a gestão de riscos, focada em evitar riscos a todo custo, pode ser prejudicial, quando não podemos esquecer que a tomada de riscos de forma controlada e entendida ajuda na criação de valor. Assim os gestores que se concentram primariamente em evitar riscos podem ser superados por competidores que adotam abordagens mais agressivas e inovadoras no mercado. Risco tem que ser visto também como oportunidade.
Outro problema comum é com a gestão de riscos em silos, através de soluções fragmentadas, pois os riscos são dinâmicos e por isto mesmo exigem soluções inovadoras e coordenadas, e esta falta de coordenação pode levar a soluções ineficazes e custosas. Uma abordagem coordenada e integrada não só reduz custos como também aumenta a transparência e diminui o risco geral.
Outro ponto bem levantado é em relação ao subinvestimento em gestão de risco, ao equacionar inadequadamente a gestão de riscos com tarefas de conformidade ou considerá-la um aspecto secundário da operação leva os executivos a investir insuficientemente nas pessoas, processos e tecnologias necessárias para uma gestão de riscos eficaz. Esses recursos são essenciais para prosperar no ambiente de negócios atual.
Mais um ponto que fale o destaque é sobre a complexidade na governança de risco, com a ausência de uma abordagem coordenada e abrangente em toda a empresa complica desnecessariamente a governança de risco. Uma estratégia integrada de gestão de riscos facilita decisões melhores e mais eficazes, resultando em uma governança de risco mais eficiente e eficaz.
Esses erros não só colocam a empresa em uma posição defensiva, reagindo aos eventos em vez de agir proativamente, mas também impedem que aproveite as oportunidades emergentes. Assim reconhecer e corrigir essas falhas é um passo inicial para que o conselho, seus comitês, e a equipe de gestão possam realmente melhorar sua abordagem à governança de risco, passando de uma postura performática para uma prática robusta e proativa que alavanca o crescimento sustentável e a inovação.
Queria comentar sobre o modelo da "Governance Wheel" da Deloitte, que me pareceu bem interessante, ao desmembrar a governança corporativa em componentes essenciais, permitindo que a alta administração e o conselho avaliem a força relativa de cada componente e implementem a governança de forma eficaz.

Vou tentar então descrever abaixo os componentes desta Roda da Governança da Deloitte:
Estratégia e Modelo Operacional
A gestão define a estratégia de negócios e desenvolve o modelo operacional com a entrada, aprovação e supervisão do conselho. Este componente assegura que a estratégia de negócios esteja alinhada com os objetivos de longo prazo e com a governança corporativa, estabelecendo a fundação sobre a qual todos os outros elementos da governança são construídos.
Alinhamento de Pessoas
O alinhamento efetivo das pessoas com a missão, os objetivos e os valores da empresa é fundamental para a implementação eficaz de políticas, procedimentos e controles. Isso envolve assegurar que todos entendam seu papel e como suas ações contribuem para os objetivos maiores da empresa.
Responsabilidade e Prestação de Contas
A gestão deve prestar contas ao conselho, que por sua vez é responsável pela governança da empresa e pela supervisão do desempenho da gestão, o que reforça a importância da transparência e da responsabilidade em todas as atividades da empresa.
Informação de Gestão
A informação sobre processos e controles é vital tanto para as operações diárias quanto para a supervisão estratégica, por isto os gestores precisam de dados precisos sobre o desempenho operacional e financeiro para tomar decisões informadas e gerenciar eficazmente a empresa.
Gestão de Riscos
A incerteza e o risco acompanham praticamente todas as decisões de negócios e iniciativas, tornando a supervisão de riscos um componente essencial da governança corporativa, assim uma gestão de riscos eficaz assegura que riscos potenciais sejam identificados, avaliados e mitigados de maneira adequada.
Garantia Integrada
Tanto a gestão quanto o conselho necessitam de garantia de que os sistemas estão fornecendo informações precisas e que os controles são eficazes. A garantia integrada oferece uma visão da empresa sobre a precisão e eficácia dos sistemas de informação e controles da organização.
Políticas, Procedimentos e Controles
Esses elementos traduzem a estratégia e o modelo operacional, e as responsabilidades associadas, em atividades que as pessoas podem realizar como parte de seus trabalhos. Eles formam a espinha dorsal das operações diárias e garantem que a estratégia seja executada de forma consistente e eficaz em toda a organização.
Para implementar melhorias na governança de risco, as empresas deveriam, segundo o paper, começar avaliando sua estrutura de governança atual usando estes pontos acima como guia, e então a partir daí, identificar áreas que necessitam de reforço ou realinhamento e trabalhar para integrar estes componentes de forma mais coesa. Isso pode envolver a revisão das políticas e procedimentos, melhorando a formação e o alinhamento das equipes, aprimorando os sistemas de informação para suporte à decisão, e reforçando os processos de garantia e auditoria interna.
Por fim, abaixo algumas questões relevantes levantadas que tomo a liberdade de tentar responder:
- A alta administração e o conselho desenvolveram uma visão integrada e abrangente de risco em toda a empresa?
Uma visão integrada e abrangente de risco significa que todos os níveis da empresa têm uma compreensão clara dos riscos enfrentados e como eles interagem ou impactam diferentes partes da empresa, o que requer comunicação regular e efetiva entre departamentos e que a gestão de riscos esteja alinhada com os objetivos estratégicos, e por isto que as empresas devem realizar avaliações regulares de risco e revisões de estratégia para garantir que a visão de risco permaneça relevante e abrangente.
- Você considera essa visão ao tomar decisões e alocar recursos?
Integrar a visão de risco nas decisões de negócios e alocação de recursos assegura que as atividades da empresa estejam alinhadas com seu apetite por risco e objetivos estratégicos, o que significa que as decisões de investimento, expansão, desenvolvimento de produtos e outras iniciativas estratégicas devem ser avaliadas não apenas pelo potencial de retorno, mas também pelo risco que representam para a empresa.
- Você automatizou a conformidade regulatória (e interna) na maior extensão possível?
A automação da conformidade ajuda a reduzir o risco de erros humanos e aumenta a eficiência ao lidar com requisitos regulatórios e internos complexos e em constante mudança. Implementar sistemas de tecnologia que monitoram automaticamente os indicadores de conformidade e alertam para discrepâncias ou violações pode liberar recursos valiosos para se concentrarem em aspectos mais estratégicos da governança de risco.
- Você tirou total proveito das tecnologias de varredura, detecção e relatório de riscos?
Utilizar tecnologias avançadas para a varredura, detecção e emissão de relatório de riscos permite que a empresa antecipe e responda mais rapidamente a ameaças potenciais, com a implementação de software de inteligência artificial e aprendizado de máquina que pode identificar padrões de risco emergentes antes que eles se tornem problemas significativos, melhorando assim a capacidade de resposta e a resiliência organizacional.
- Você vincula as capacidades de monitoramento de risco com procedimentos claros de escalonamento de questões e remediação de riscos?
Estabelecer processos claros para o escalonamento e remediação de riscos assegura que as questões identificadas sejam tratadas de maneira eficaz e eficiente, ao definir limiares específicos que, uma vez alcançados, iniciam procedimentos pré-definidos para a mitigação de riscos, garantindo que as medidas adequadas sejam tomadas rapidamente para proteger a organização.
- Você acha que identificou adequadamente os riscos além dos bem conhecidos em seu segmento e empresa, incluindo riscos econômicos, ambientais, sociais, políticos e de reputação?
Realizar uma avaliação de riscos abrangente que inclua fatores econômicos, ambientais, sociais, políticos e de reputação é vital para entender todos os riscos potenciais que podem impactar a organização, que deve ser parte de um processo contínuo de análise de risco que inclua a consulta de especialistas externos e a revisão de estudos de caso relevantes para garantir uma compreensão completa dos riscos emergentes e menos óbvios.
- Você identifica e monitora os chamados riscos emergentes?
A identificação e monitoramento contínuo de riscos emergentes são críticos para manter a empresa à frente de novas ameaças, que pode ser alcançado através da subscrição de serviços de inteligência de risco, participação em fóruns, e o uso de análises preditivas para modelar possíveis cenários de risco futuros.
- Você alinhou sua estratégia de risco e sua estratégia de negócios?
Alinhar a estratégia de risco com a estratégia de negócios assegura que o gerenciamento de riscos suporte os objetivos gerais da empresa e não funcione em um vácuo, ao integrar considerações de risco nas fases de planejamento e execução da estratégia de negócios, garantindo que todas as decisões estratégicas sejam informadas por uma compreensão clara dos riscos associados.
- Você vinculou práticas de contratação, incentivos, recompensas e outras alavancas comportamentais com suas estratégias de risco e negócios?
Integrar as práticas de contratação, incentivos e recompensas com as estratégias de risco e negócios incentiva comportamentos que suportam a gestão de risco e os objetivos de negócios da empresa, ao criar estruturas de incentivo que recompensem comportamentos de gestão de risco positivos e garantam que os novos contratados sejam avaliados também com base em sua competência e experiência em gerenciamento de riscos.
Fonte de consulta: Okai.