Artigo
06/07/2025

GRI e IFRS: A cada dia mais parecidos na superfície e mais diferentes na essência

Compara as diferenças fundamentais entre GRI e IFRS S2 na divulgação de informações climáticas e seus objetivos estratégicos.

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Para quem vive o mundo da sustentabilidade e acompanha de perto os mais de 2.054.420 grupos “inéditos” de sustentabilidade, falar sobre as atualizações do GRI (102 e 103, que tratam de clima e energia e serão necessários para os reportes de acordo com o GRI a partir de 2027) pode parecer assunto já batido. Mas muito do que tenho escutado pode ser mais perigoso do que benéfico.

O novo GRI 102 (Mudanças climáticas 2025) e o IFRS S2 (divulgações financeiras relacionadas ao clima) parecem ter surgido para ocupar o mesmo espaço nos reportes empresariais. Ambos pedem planos de transição climática, inventários de emissões, metas de redução e relatórios de progresso climático (com semelhanças em temáticas a reportar muito profundas, como por exemplo rastreabilidade e uso de créditos de carbono). Essa similaridade técnica, tem sido a referência para dizerem que “serão reportados em conjunto”, mas os dois frameworks, atendem a interesses e visões completamente diferentes.

O GRI, mesmo na versão mais atual, mantém uma lógica de “dentro para fora”, onde o foco é mostrar o quanto a organização impacta o clima, os ecossistemas e as pessoas (independentemente dos impactos financeiros que podem ou não ser gerados nesse processo). É uma abordagem que analisa unicamente a materialidade de impacto e que na prática, trata da capacidade de a empresa gerir os impactos ambientais e sociais ao meio externo.

O IFRS S2 faz o caminho totalmente inverso. O interesse é medir o efeito de “fora para dentro”, com o objetivo de entender como os riscos climáticos ameaçam o negócio, a receita, os ativos e a capacidade de criar valor financeiro, através de uma análise estritamente financeira (independentemente daquilo que a organização pode ou não causar ao meio externo com suas decisões, desde que elas não gerem impacto crítico ao resultado financeiro).

Com isso, já conseguimos ver que acreditar que GRI e IFRS S2 se completam naturalmente é um equívoco (e dos graves). Eles podem coexistir e até ajudar no reporte (talvez usando os mesmos dados caso se assemelhem na gestão de riscos), mas cada um observa um lado diferente do problema, já que um quer mostrar que a organização entende o tamanho do impacto que gera e o outro quer evidenciar se o investidor sabe quanto o clima pode custar ao caixa e tomar as melhores decisões de onde investir ou não.

Na prática, essa diferença força as empresas a definirem onde irão colocar seus esforços. Proteger a reputação e demonstrar responsabilidade (GRI) ou proteger o valuation e antecipar riscos de mercado (IFRS). São visões estratégicas que não se sobrepõem, são na verdade, duas formas de entender por que a pauta climática passou a ocupar espaço na sala do board.

Quem ainda acredita que relatórios climáticos são apenas questão de cumprir requisitos, deveria olhar com mais atenção. Uma norma quer provar que a organização conhece o tamanho do impacto que causa e a outra quer provar que conhece o tamanho da vulnerabilidade que corre. Isso define prioridades muito diferentes e revela se a empresa quer transformar através do exemplo e reputação ou apenas se defender dos riscos com a maior eficiência financeira.

Conhecer essas diferenças é o mais importante nesta nova diretriz do GRI. Olhar para sustentabilidade apenas como impacto é acreditar que se pode mudar o mundo independentemente de quanto isso irá custar e olhar apenas como risco financeiro é assumir que o mundo já está quebrado e que o único papel possível é se proteger dele, esquecendo que cada empresa também participa dos impactos que estão lá fora.

Sustentabilidade só funciona quando entra na organização como visão estratégica e com clareza de que tipo de decisão será tomada quando os riscos e oportunidades forem colocados na mesa. Caso contrário, as empresas seguem para destinos diferentes dos reais objetivos e, no final, nem sabem mais por que continuam executando suas ações e reportam tudo isso, apenas com o objetivo de atender as diretrizes e regras que os padrões estabelecem (sem nem mesmo saber, se geram realmente o valor esperado), e nesse caso, é dinheiro, esforço e mão de obra indo direto para o ralo.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que são as normas GRI 102 e 103 mencionadas no contexto da sustentabilidade?
As normas mencionadas são atualizações da Global Reporting Initiative (GRI). A GRI 102 (Mudanças climáticas 2025) e a GRI 103 são padrões que tratam de temas como clima e energia nos relatórios de sustentabilidade corporativos.
Quando as atualizações das normas GRI sobre clima e energia se tornarão obrigatórias para os relatórios?
A utilização das novas normas GRI que abordam clima e energia (GRI 102 e 103) será necessária para os relatórios de sustentabilidade emitidos a partir de 2027.
Qual é a abordagem da norma GRI para relatórios de sustentabilidade?
A norma GRI (Global Reporting Initiative) adota uma abordagem de “dentro para fora”. O seu foco principal é demonstrar como a organização impacta o clima, os ecossistemas e as pessoas.Essa perspectiva analisa a materialidade de impacto, ou seja, a capacidade da empresa de gerir seus impactos ambientais e sociais externos, independentemente de eles gerarem ou não consequências financeiras diretas para o negócio.
Qual é a abordagem da norma IFRS S2 para relatórios financeiros relacionados ao clima?
A norma IFRS S2, que trata de divulgações financeiras relacionadas ao clima, segue uma abordagem de “fora para dentro”. Seu objetivo é entender e medir como os riscos climáticos externos ameaçam o negócio, sua receita, seus ativos e sua capacidade de gerar valor financeiro.A análise é estritamente financeira e se concentra em como o clima pode afetar o caixa da empresa, sem necessariamente considerar o impacto que as decisões da organização causam no meio ambiente, desde que não afetem criticamente o resultado financeiro.
Qual é a principal diferença entre as normas GRI e IFRS S2 para relatórios climáticos?
A principal diferença entre as normas GRI e IFRS S2 está em suas perspectivas e objetivos. Elas observam lados diferentes do mesmo problema.O GRI foca em uma visão “de dentro para fora”, buscando provar que a organização conhece o tamanho do impacto que ela causa no mundo (clima, pessoas, ecossistemas). Já o IFRS S2 adota uma visão “de fora para dentro”, com o intuito de provar que a organização conhece o tamanho da sua própria vulnerabilidade financeira diante dos riscos climáticos.
As normas GRI e IFRS S2 podem ser consideradas complementares?
Acreditar que as normas GRI e IFRS S2 se completam naturalmente é um equívoco. Embora possam coexistir em um relatório e até utilizar dados semelhantes em alguns casos, como na gestão de riscos, elas atendem a interesses e visões opostas.Enquanto uma (GRI) se concentra no impacto da empresa no meio externo, a outra (IFRS S2) se concentra no impacto do clima sobre o valor financeiro da empresa. Portanto, elas não se sobrepõem de forma natural e representam abordagens estratégicas distintas.
Que escolha estratégica as empresas precisam fazer ao lidar com os relatórios climáticos das normas GRI e IFRS S2?
As diferentes abordagens das normas GRI e IFRS S2 forçam as empresas a definir onde concentrarão seus esforços em relação à pauta climática. A escolha estratégica é entre:1. Proteger a reputação e demonstrar responsabilidade, alinhando-se à perspectiva de impacto do GRI.2. Proteger o valuation (valor de mercado) e antecipar riscos financeiros, alinhando-se à perspectiva de risco do IFRS S2.Essa decisão revela se a prioridade da empresa é transformar pelo exemplo e reputação ou apenas se defender dos riscos com a maior eficiência financeira possível.
Por que é importante que a sustentabilidade seja tratada como uma visão estratégica nas empresas?
A sustentabilidade funciona efetivamente quando é integrada à organização como uma visão estratégica. Isso exige clareza sobre o tipo de decisão que será tomada quando riscos e oportunidades forem identificados. Sem essa clareza, as empresas correm o risco de executar ações e elaborar relatórios apenas para cumprir regras e padrões, sem saber se estão gerando o valor esperado. Nesse cenário, o esforço, os recursos financeiros e a mão de obra podem ser desperdiçados.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado