Para quem vive o mundo da sustentabilidade e acompanha de perto os mais de 2.054.420 grupos “inéditos” de sustentabilidade, falar sobre as atualizações do GRI (102 e 103, que tratam de clima e energia e serão necessários para os reportes de acordo com o GRI a partir de 2027) pode parecer assunto já batido. Mas muito do que tenho escutado pode ser mais perigoso do que benéfico.
O novo GRI 102 (Mudanças climáticas 2025) e o IFRS S2 (divulgações financeiras relacionadas ao clima) parecem ter surgido para ocupar o mesmo espaço nos reportes empresariais. Ambos pedem planos de transição climática, inventários de emissões, metas de redução e relatórios de progresso climático (com semelhanças em temáticas a reportar muito profundas, como por exemplo rastreabilidade e uso de créditos de carbono). Essa similaridade técnica, tem sido a referência para dizerem que “serão reportados em conjunto”, mas os dois frameworks, atendem a interesses e visões completamente diferentes.
O GRI, mesmo na versão mais atual, mantém uma lógica de “dentro para fora”, onde o foco é mostrar o quanto a organização impacta o clima, os ecossistemas e as pessoas (independentemente dos impactos financeiros que podem ou não ser gerados nesse processo). É uma abordagem que analisa unicamente a materialidade de impacto e que na prática, trata da capacidade de a empresa gerir os impactos ambientais e sociais ao meio externo.
O IFRS S2 faz o caminho totalmente inverso. O interesse é medir o efeito de “fora para dentro”, com o objetivo de entender como os riscos climáticos ameaçam o negócio, a receita, os ativos e a capacidade de criar valor financeiro, através de uma análise estritamente financeira (independentemente daquilo que a organização pode ou não causar ao meio externo com suas decisões, desde que elas não gerem impacto crítico ao resultado financeiro).
Com isso, já conseguimos ver que acreditar que GRI e IFRS S2 se completam naturalmente é um equívoco (e dos graves). Eles podem coexistir e até ajudar no reporte (talvez usando os mesmos dados caso se assemelhem na gestão de riscos), mas cada um observa um lado diferente do problema, já que um quer mostrar que a organização entende o tamanho do impacto que gera e o outro quer evidenciar se o investidor sabe quanto o clima pode custar ao caixa e tomar as melhores decisões de onde investir ou não.
Na prática, essa diferença força as empresas a definirem onde irão colocar seus esforços. Proteger a reputação e demonstrar responsabilidade (GRI) ou proteger o valuation e antecipar riscos de mercado (IFRS). São visões estratégicas que não se sobrepõem, são na verdade, duas formas de entender por que a pauta climática passou a ocupar espaço na sala do board.
Quem ainda acredita que relatórios climáticos são apenas questão de cumprir requisitos, deveria olhar com mais atenção. Uma norma quer provar que a organização conhece o tamanho do impacto que causa e a outra quer provar que conhece o tamanho da vulnerabilidade que corre. Isso define prioridades muito diferentes e revela se a empresa quer transformar através do exemplo e reputação ou apenas se defender dos riscos com a maior eficiência financeira.
Conhecer essas diferenças é o mais importante nesta nova diretriz do GRI. Olhar para sustentabilidade apenas como impacto é acreditar que se pode mudar o mundo independentemente de quanto isso irá custar e olhar apenas como risco financeiro é assumir que o mundo já está quebrado e que o único papel possível é se proteger dele, esquecendo que cada empresa também participa dos impactos que estão lá fora.
Sustentabilidade só funciona quando entra na organização como visão estratégica e com clareza de que tipo de decisão será tomada quando os riscos e oportunidades forem colocados na mesa. Caso contrário, as empresas seguem para destinos diferentes dos reais objetivos e, no final, nem sabem mais por que continuam executando suas ações e reportam tudo isso, apenas com o objetivo de atender as diretrizes e regras que os padrões estabelecem (sem nem mesmo saber, se geram realmente o valor esperado), e nesse caso, é dinheiro, esforço e mão de obra indo direto para o ralo.