O final de 2025 foi um tanto movimentado quanto à tão esperada necessidade trazida pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por meio da Resolução 193, que tinha como objetivo incorporar os CBPS 01 e 02, alinhados às IFRS S1 e S2, deixando claro que sustentabilidade e clima passariam a ser tratados como informação relevante para decisão de investimento, com impacto direto sobre risco, valor e perspectiva de continuidade dos negócios, algo para o qual boa parte das companhias abertas claramente não se preparou.
Durante anos, falar de sustentabilidade era suficiente, se atendesse os moldes do que se via na época da extinta CVM 59, quando bastava fazer alguma coisa relacionada ao tema (qualquer coisa), pouco importando o que era feito ou se aquilo dialogava minimamente com risco, estratégia ou geração de valor.
Existem diversos sinais de que as empresas não estavam prontas para essa mudança, e um dos mais claros foi o pedido formalizado no apagar das luzes de 2025, quando a Abrasca solicitou o cancelamento ou o adiamento da exigência, deixando evidente que as companhias que representa, responsáveis por mais de 80% do valor de mercado das empresas listadas na B3, não conseguiriam atender às novas regras no prazo estabelecido.
O ponto mais relevante não é, em si, o pedido de adiamento, mas os seus motivos, já que, depois de anos discutindo sustentabilidade, a maioria das empresas ainda não consegue transformar clima e temas correlatos em riscos precificáveis, comparáveis e, principalmente, auditáveis.
Em resposta a esse movimento, o Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon), o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), a Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), a Associação dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec) e a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) posicionaram-se oficialmente pela manutenção do cronograma, sustentando que o Brasil já assumiu o compromisso de convergência aos padrões internacionais de reporte e que um novo adiamento iria enfraquecer uma posição de protagonismo construída justamente por ter sido o primeiro país a assumir formalmente essa responsabilidade. Ao mesmo tempo, o posicionamento deixou claro que o problema não está na norma, mas no atraso estrutural na forma como esses temas foram tratados ao longo dos anos e na lacuna existente entre os riscos de sustentabilidade considerados materiais e a visibilidade que eles possuem dentro das organizações.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desconforto, já que das mais de 400 companhias listadas na B3, somente oito optaram pela adesão voluntária antecipada aos CBPS (mesmo com mais de uma janela aberta para essa possibilidade), o que torna pouco razoável atribuir esse número só à cautela regulatória ou à espera por orientações adicionais.
O que essa informação sugere, a meu ver, é o receio de expor fragilidades, assumir premissas climáticas, revelar dependências críticas e admitir que riscos antes tratados como reputacionais agora precisam ser tratados como riscos financeiros (até porque definir metas de sustentabilidade em aberto, escolhendo sobre o que falar, sempre foi confortável), mas quando essas metas passam a se relacionar diretamente com aquilo que pode afetar a geração de valor do negócio, o tema muda completamente de patamar (começa até a ficar sério).
O ponto central está justamente aí, já que a sustentabilidade foi conduzida majoritariamente sob a lógica do impacto, o que acabou minando a gestão estratégica dos negócios, pois se mediu aquilo que era fácil, relatável, confortável e socialmente aceito (o que não está necessariamente errado), mas se torna problemático quando não se conecta à estratégia, ao fluxo de caixa e à resiliência do modelo de negócio, transformando-se apenas em um exercício confortável e em uma tentativa de ganho reputacional.
A Resolução 193 rompe com esse modelo quando exige que as empresas expliquem como clima e sustentabilidade afetam decisões, projeções, riscos relevantes e desempenho futuro, e é justamente nesse ponto que o discurso começa a falhar, evidenciando a baixa maturidade em inserir esse tipo de risco na rotina de decisão das empresas.
Esse movimento também escancara a nossa lacuna no âmbito do conhecimento profissional. Formou-se uma base técnica gigante no país focada em relatórios, indicadores e narrativas de impacto, mas pouco treinada para dialogar com finanças, risco, valuation e mercado de capitais, já que reportar sustentabilidade e clima de acordo com as normas da IFRS não depende do tom de voz, do layout ou da ênfase no que a empresa faz de positivo (como se fosse um material comercial) e passa a cobrar uma mudança no eixo de decisão da organização, especialmente quando a sustentabilidade pode gerar impactos críticos sobre seu modelo de funcionamento.
Na prática, isso significa que teremos que aceitar (mesmo que na marra) que essa agenda não funciona bem quando tratada de forma paralela, porque passa a interferir diretamente no direcionamento estratégico.
No fim, enquanto muitos acreditam que a CVM criou um problema com a Resolução 193, o que ela fez foi tornar visível algo que já existia (mas que poucos estavam dispostos a encarar). Precisamos ter clareza de que esse desconforto é o preço de anos tratando sustentabilidade como comunicação e não como risco e gestão, e o mercado, diferentemente de muitos discursos por aí, não está tão interessado em ações pontuais que soam bem, mas em entender com clareza como as empresas medem riscos, reconhecem oportunidades e priorizam aquilo que realmente sustenta a geração de valor ao longo do tempo.
A nova era da sustentabilidade não será essa baseada em mais discursos sobre consciência ou impacto, mas pelo momento em que mais empresas passarem a precificar o risco de não colocar o tema na estratégia e, a partir disso, alocarem capital de forma mais inteligente, fazendo negócios mais concretos, justos e competitivos (e não, tentando salvar o mundo).
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