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A percepção humana distorce a avaliação de riscos, influenciando decisões e práticas contábeis, como evidenciado em acidentes, doenças e fraudes financeiras.
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O dicionário Michaelis descreve risco como “possibilidade de perigo, que ameaça as pessoas ou o meio ambiente”. Alternativamente, descreve ainda que se refere à “probabilidade de prejuízo ou de insucesso em determinado empreendimento, projeto, coisa etc. em razão de acontecimento incerto, que independe da vontade dos envolvidos”.
Nós somos incapazes de compreender e avaliar riscos de uma forma adequada ou educada a partir de dados disponíveis, isso é um fato. Mas como mesmo a descrição do dicionário indica, o conceito de risco traz consideração a perigo, ameaça, o que naturalmente é refletido por nossas vivências e pensamentos individuais, e pouco influenciado pelo pensamento racional ou coletivo. É de nossa natureza exacerbar determinados riscos em detrimento de outros a partir de nossas percepções e vivências individuais. Vejo isso como uma equação de três fatores: controle, casualidade e indignação.
Vejamos o exemplo do avião e do carro. Segundo a OMS, 1,4 milhões de pessoas morrem todo ano vítimas de acidentes de trânsito, número superior às mortes em acidentes aéreos. Claro, o número de veículos nas estradas é infinitamente maior que o número de voos, porém, também é verdade que o tempo que passamos em um carro se comparado ao tempo em um avião é significativamente maior. Embora os dados sejam menos consolidados, vamos considerar que a média de indivíduos envolvidos em acidentes aéreos anualmente seja de 300 pessoas (segundo a BBC, foram 299 em 2020, resultado de 40 acidentes - não necessariamente quedas), com poucos casos fatais. Se considerarmos que em 2020, mesmo com a pandemia, tivemos aproximadamente 57 milhões de voos comerciais no mundo (dados do statista.com), para cada morte seriam necessários 189 mil voos. Ou mais, considerando os 40 acidentes em 2020 reportados pela BBC, a chance do seu avião estar em um acidente é de 1 em 1,4 milhões, todo ano. Ainda segundo a BBC, como apenas 5 desses acidentes foram fatais, podemos inferir que o risco de você morrer em um voo deve estar mais próximo de 1 em 11 milhões, todo ano.
Eu, particularmente, não me sinto à vontade em um avião. Talvez minha percepção de risco menor em relação ao carro se explique pela minha reduzida frequência de voos ou pelo fato de o carro estar sob meu controle, ao contrário do avião. No entanto, cada vez que dirijo meu carro para o trabalho, viagem, ou algum outro fim, certamente estou sujeito a um risco de acidentes (fatais ou não) maior que os indicados acima. Mas não sinto o mesmo “frio na barriga”.
A percepção de controle certamente afeta nossa avaliação de risco. A casualidade de determinados eventos também. Há pouca publicidade sobre acidentes de trânsito individualmente, dada sua frequência. Uma morte no trânsito quando noticiada dificilmente afeta o indivíduo ou o leva a questionar a segurança de se viajar de carro. Notícias como essa são tidas como corriqueiras e por isso, avaliadas em nossa mente como naturais e aceitáveis. Por outro lado, a queda de um Boeing em qualquer parte do mundo atrai muita mídia e nosso cérebro, pouco treinado para avaliar riscos, associa diretamente as imagens de destruição e catástrofe a um risco inerente ao se viajar de avião. A falta de casualidade nesse tipo de evento leva a sua maior divulgação e publicidade, o que por sua vez leva nosso cérebro a conclusões equivocadas.
Um outro aspecto que engana nosso cérebro é a indignação. É comum respondermos a eventos específicos com raiva e indignação e nesse processo tendemos a avaliar que o próprio evento nos causa a indignação, quando na verdade o que nos causa indignação é a forma na qual interpretamos o evento. A indignação nos impede de raciocinar de forma apropriada e realista. Memória, criatividade e concentração se enfraquecem, os pensamentos se tornam acusatórios, exagerados e, consequentemente, tratamos suposições como fatos, nos levando ao pensamento irracional. Quem nunca tomou uma atitude intempestiva ou fez um comentário equivocado quando tomado pela indignação? Se nosso cérebro não consegue sempre distinguir o certo e o errado (ou talvez em termos mais sutis, o inapropriado do socialmente aceitável), certamente também não consegue pensar racionalmente sobre riscos.
Vejamos esses três exemplos:
(i) Nada mata tanto no mundo quanto doenças cardiovasculares. De acordo com dados da Universidade de Oxford, em 2017 aproximadamente 18 milhões de pessoas morreram desse mal, número duas vezes superior ao número de mortes por câncer (de todos os tipos, não somente os associados ao tabagismo). O que isso nos diz sobre os riscos associados à má alimentação e os riscos relacionados ao consumo de tabaco? Um fumante em 2020 é quase relegado pela sociedade, há campanhas massivas contra o cigarro, limitação quanto ao seu uso em determinados ambientes, obrigatoriedade de publicidade explícita dos males na embalagem sob o pretexto de imputar ao usuário uma culpa ou revolta com os efeitos do produto que o levem a desistir do consumo. No entanto, nunca comprei uma batata frita ou um balde de frango frito que incluísse aviso sobre os perigos dessa forma de alimentação ou a foto de um doente terminal na embalagem.
(ii) O terrorismo é sempre apontado, principalmente em países de primeiro mundo, como um medo latente e causa de grande preocupação por parte da população, muito embora haja poucos dados que suportem tal percepção. Voltando ao mesmo estudo da Universidade de Oxford, em 2017 a Hepatite matou 5 vezes mais que o terrorismo. Incêndios mataram 5 vezes mais que o terrorismo.
(iii) Se seu filho pede para visitar um colega da escola, você se sentiria mais ou menos propenso a permitir a visita se souber que o pai do colega tem uma arma de fogo em casa ou se souber que ele possui uma piscina para as crianças brincarem? Bem, antes de responder, talvez valha a pena revisitar os dados. Segundo a Universidade de Oxford, em 2017, 110 mil crianças com menos de 14 anos morreram afogadas no mundo, sendo 1.117 no Brasil (uma das formas mais comuns de mortes nesta faixa etária). Se considerarmos que no Brasil, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes Construtores de Piscina, há aproximadamente 2,5 milhões de piscinas, anualmente uma criança até 14 anos vai falecer para cada 2,1 mil piscinas. Por outro lado, temos em 2020 aproximadamente 1,2 milhões de armas registradas, de acordo com a Polícia Federal. A quantidade de mortes de crianças por acidentes domésticos com armas de fogo é, embora trágico, baixa. Na média menos de 20 casos por ano. Se consideramos 20 casos anuais, é uma morte a cada 61,7 mil armas, risco estatisticamente 29 vezes menor se comparado ao risco de morte por afogamento nessa idade.
O que as mortes por terrorismo, câncer ou acidentes com armas de fogo têm em comum? A indignação que os eventos nos causam. Além da indignação, nossas visões, experiências e medos afetam diretamente nossa percepção de riscos. Um falecimento por câncer é brutal e pode levar meses. O corpo definha, o peso psicológico na família é significativo. Um ato de terrorismo é um ato de covardia, de ódio puro e causa indignação global. A arma de fogo é associada à violência e a morte de uma criança por negligência relacionada a uma arma de fogo causa uma indignação incomensurável, além de uma percepção de perigo muito maior que uma piscina, independente do que dizem os dados.
Em um grau diferente, contadores, reguladores e investidores são também afetados por estas visões próprias e por isso também não avaliam riscos de forma objetiva. Note como regulações são reativas a grandes escândalos e fraudes, por exemplo. A Lei Sarbanes-Oxley que elevou significativamente os requerimentos de governança e responsabilidade dos executivos sobre o reporte financeiro foi uma resposta direta aos escândalos ocorridos no início dos anos 2000, notadamente a Enron. O normatizador contábil americano (FASB) determinou também ao início dos anos 2000 uma revisão nos méritos contábeis do US GAAP para refletir mais “princípios” e menos “regras”, porém, também de forma reativa a escândalos contábeis recentes onde se notou a falta de princípios norteando a norma (especialmente como no caso da fraude na capitalização de software na WorldCom). A indignação pelos prejuízos causados a todo um sistema financeiro e investidores leva à percepção e reação a um risco que na prática sempre esteve presente.
Obviamente, parece fácil pressupor que o processo de avaliação de risco é falho ao observar os fatos efetivamente ocorridos. É ser “engenheiro de obra pronta”. Nem sempre é possível antecipar todos esses efeitos, mas é também flagrante que o foco dos participantes do mercado muitas vezes é influenciado por percepções de risco enviesadas. O auditor contábil, por exemplo, busca em sua auditoria endereçar o “risco de distorção relevante”, sendo estes aqueles riscos que estão associados a registros contábeis de maior magnitude ou sujeitos a maior grau de julgamento e uso de estimativas por parte da Companhia. E, buscando transparência ao investidor, jurisdições passaram a requerer do auditor comunicação expressa e detalhada sobre sua avaliação de risco e o endereçamento da auditoria destes assuntos críticos, marcados como os “principais assuntos de auditoria”. Os dados observados internacionalmente pelos emissores nos Estados Unidos e no Brasil indicam grande concentração em um grupo reduzido de assuntos, principalmente reconhecimento de receita, o mais frequente dentre os principais assuntos de auditoria comunicados nos últimos anos.
Esse endereçamento é natural e de certa forma esperado. A receita, como definida de forma incompreensivelmente complexa no IFRS 15, é o “aumento nos benefícios econômicos durante o período contábil, originado no curso das atividades usuais da entidade, na forma de fluxos de entrada ou aumentos nos ativos ou redução nos passivos que resultam em aumento no patrimônio líquido, e que não sejam provenientes de aportes dos participantes do patrimônio”. Embora ultrapassada, gosto da definição um pouco mais reduzida do IAS 18, que pode simplificar esse conceito como o “ingresso bruto de benefícios econômicos oriundos das atividades ordinárias da entidade”. Bem, se as receitas indicam o resultado das atividades ordinárias da entidade, reflete-se então nesta métrica o risco percebido de que a Companhia se utilize de expedientes fraudulentos para alterar esses registros e demonstrar uma receita maior que a real. Auditores investem grande parte de seus esforços auditando receitas sob essa premissa. Na realidade, o reconhecimento de receita é, em quase toda Companhia de grande porte, altamente automatizado, com pouquíssimos inputs manuais. Em muitas dessas entidades, o ambiente de TI é tão complexo que auditores e contadores se apoiam no uso de especialistas pela sua pouca capacidade de identificar aspectos específicos que possam indicar uma fraude. Mesmo as “temidas” receitas não faturadas geralmente seguem padrões automatizados em grande extensão. Geralmente, riscos reais associados à receita (onde pesem possíveis julgamentos inapropriados ou altamente otimistas) estão associados a transações não usuais e significativas.
Áreas vistas como de menor complexidade são tipicamente relegadas a auditores com menor grau de experiência, com pouca supervisão dos executivos. Na agora fúnebre auditoria da alemã Wirecard, o auditor indicou em seu relatório ter focado principalmente em reconhecimento de receita, combinações de negócio, ágio e intangíveis. Dentre estes, incluíam-se assuntos complexos, envolvendo especialistas internos e externos da entidade, do auditor, sujeitos a julgamentos críticos e, certamente, refletindo áreas onde há maior preocupação. A fraude contábil, no entanto, residia em saldos bancários fictícios, que seriam cobertos por procedimentos simples de auditoria, relegados a auditores com pouca experiência. É fácil não notar algo que você não estava procurando.
Quando temos um processo, como a avaliação de riscos, que mistura o emocional e o racional, é sempre difícil avaliar de forma objetiva. Termos consciência desse fato já é uma forma de melhor se preparar para tomar decisões. Eu, como ser humano incapaz de avaliar riscos objetivamente, respondo sem pensar duas vezes. Continuo preferindo a piscina.
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Especialista em IFRS, relatórios CVM e SEC, auditoria e normas contábeis, com atuação no CPC e no IASB Global Preparers Forum.